Publicado em março-abril de 2026 - ano 67 - número 368 - pp. 20-25
Imãos e irmãs em situação de rua: “Não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7)
Por Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães*
Este artigo atende à necessidade de refletir sobre a questão e a realidade da moradia – tema da Campanha da Fraternidade da Igreja no Brasil, coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – em relação às pessoas em trajetória (tempo mais provisório) e situação (tempo de maior extensão) de rua, com o intuito de abrir significados para a moradia e o que ela representa para cada pessoa, e de mostrar que a própria rua ensina a sair dela quando se trabalha com o método indutivo, que toma a pessoa como sujeito de sua libertação, sempre à luz do humanismo cristão.
1. Para entrar no assunto
A moradia é um tema crucial. A Campanha da Fraternidade sobre moradia é necessária. A inclusão do povo em trajetória ou situação de rua nesta reflexão é o vértice da problemática a ser enfrentada. Por isso, busco entender a moradia como algo que tem sentido próprio para as pessoas, e esse sentido protege a dignidade delas. Alguns textos bíblicos são emblemáticos, como veremos.
Em seguida, debruçamo-nos sobre a realidade do povo da rua – que, na fila dos últimos, são os últimos –, para reforçar a feliz ideia de que a libertação da prisão das pessoas na rua (ainda que essa expressão pareça paradoxal) está no aprendizado da própria rua, o qual a faz ser compreendida como uma espécie de método.
Finalmente, em vez de tirarmos conclusões sobre esse delicado assunto, sugiro continuar o aprendizado, sempre começando de novo e inovando.
2. Para aprofundar o assunto
2.1. A moradia como sentido e dignidade
O profeta Isaías profere sete oráculos contra Judá (Is 5,5-22; 10,1), porque o povo não deu os frutos de justiça que Deus esperava. Todos começam pela partícula “ai”, como faz também o profeta Amós contra as injustiças praticadas pelos nobres. O primeiro “ai” é sobre a moradia: “Ai dos que juntam casa a casa e que acrescentam campo a campo, até não sobrar mais lugar, […] muitas casas ficarão por certo abandonadas” (Is 5,8.9). O acúmulo de casas de uns denuncia a falta de casa de outros. A casa não é um bem qualquer, pois desse bem derivam vários outros aspectos da vida, além de constituir um valor relacionado à condição da existência humana. Por isso, a casa não é dispensável; ao contrário, é absolutamente necessária para o viver.
O assunto “casa” é levado a sério na Escritura Sagrada. Também nós devemos levá-lo a sério. Casa – bayit, em hebraico, e oikos, em grego – refere-se a um lugar físico de moradia, mas também a um espaço de comunhão, descanso e refúgio, abarcando ainda o conceito de família, lar, e até o próprio templo ou a igreja como a casa de Deus. Todavia, Jesus, tendo tido uma casa em Nazaré, onde cresceu e viveu com seus pais até a idade adulta e o início de sua vida pública, nasceu fora de uma casa.
Também José – que era da casa e da linhagem de Davi – subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Quando estavam ali, completaram-se os dias de ela dar à luz. Ela deu à luz o seu filho, o primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria (Lc 2,4-7).
A expressão “não havia lugar para eles na hospedaria” situa José, Maria e Jesus fora de casa, na rua ou em algum lugar improvisado, numa manjedoura – o cocho onde os animais comiam e bebiam e que podia ou não estar dentro do estábulo, onde ficavam os animais e o estrume, resíduos animais e vegetais em decomposição. Jesus nasceu fora de casa, em um canto qualquer, fora de uma moradia, em situação precária, certamente amenizada por José e Maria, mediante seus cuidados.
Por mais que nos esforcemos para amenizar a narrativa do nascimento de Jesus, vamos sempre esbarrar com esta realidade: aí se deu o mistério da encarnação do Verbo, quando a Palavra se fez carne e veio morar entre nós (Jo 1,14). Depois Jesus cresceu e se preparou para a missão em Nazaré, numa casinha em uma vila, onde viveu a “vida-Nazaré”, como ensina São Charles de Foucauld, que experimentou em profundidade a vida ao estilo de Nazaré, aquela escola chamada Nazaré.
A Bíblia, ao tratar da moradia, abre uma perspectiva de futuro, do escaton em Deus, onde há muitas moradas. Em Jo 14,1-4, no início das palavras de despedida, com o objetivo de dar consolação aos seus discípulos, Jesus lhes diz: “Não se perturbe o vosso coração! […] na casa de meu Pai há muitas moradas […],vou preparar-vos um lugar. E depois que eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo”. A morada na casa do Pai, com espaços diversos para todos, é o suficiente para a calmaria do coração. Há uma evidência da importância da morada aqui, já, e no ainda não, depois; uma afirmação do Reino, que aqui começa por dom de Deus e aceitação do ser humano e adquire sua plenitude na eternidade feliz, na morada do Pai. Há uma relação entre morar aqui e morar lá, como se disséssemos que moramos aqui para morarmos lá; morar onde quer que estejamos, mas sempre “morar”. As “muitas moradas” fazem referência à vastidão e à abundância da casa do Senhor, que oferece lugar a cada pessoa, sem que o critério seja o merecimento, e sim sua graça e seu amor, oferecidos por Jesus, aqui e na convivência eterna.
2.2. A rua como método para encontrar o sentido e a dignidade
O papa Francisco falou, discorreu e insistiu sobre uma nova configuração teológico-pastoral da Igreja, de modo a ressituá-la interiormente, para que seja desalojada, desacomodada, “desaburguesada”, e externamente, para que seja uma presença profética e misericordiosa nas periferias existenciais, sociais, geográficas e ambientais. Ele a definiu como “Igreja em saída”. É um movimento eclesial fundamental de sair de si e ir ao encontro do outro e lá permanecer, exercendo sua precípua missão evangelizadora, de modo que a proximidade de Jesus Cristo não seja privilégio de alguns, mas real possibilidade para todos, especialmente para os sofredores, pobres e marginalizados.
Dando um passo adiante, fez realizar-se um sínodo dos bispos, organizado e vivenciado de forma participativa, para tratar da sinodalidade da Igreja, o que quer dizer que na Igreja todos caminham juntos, afetiva e efetivamente. Não é difícil concluir que o caminhar junto da Igreja é o caminhar rumo à saída, pavimentando o caminho com a cultura do encontro, fazendo o bem, acolhendo e incluindo os periféricos do mundo. Com a eleição do papa Leão XIV, houve quem pensasse que ele não trilharia esse caminho; ao contrário, porém, ele tem insistido na sinodalidade da Igreja, como expressou aos bispos italianos em 17/6/2025, dizendo que “a sinodalidade deve tornar-se uma mentalidade, no coração, nos processos de decisão e nos modos de agir”, e também como se dirigiu aos representantes de outras Igrejas e religiões em 19/5/2025: “Desejo assegurar-vos minha intenção de continuar o compromisso do papa Francisco na promoção do caráter sinodal da Igreja Católica” (Fernández, 2025).
Essa dinâmica teológico-pastoral faz a Igreja encontrar-se, frutuosamente, com os que não têm moradia, com os que vivem pelas rodovias, ruas, rincões e cortiços das metrópoles, sem teto, sem terra, sem casa. Hoje, o déficit habitacional no Brasil chega aos 32 milhões de unidades: faltam mais de 6 milhões de moradias, enquanto 26 milhões são inadequadas (Mansur, 2024) e precisam ser substituídas. O Dique da Vila Gilda, em Santos-SP, a maior palafita do Brasil, reúne mais de 26 mil pessoas que moram em assoalhos apoiados em estacas nas águas do mar, construção que reiteradas vezes sofre incêndios com vítimas traumatizadas e fatais, de crianças a pessoas idosas desamparadas.
Reafirmamos que a moradia é um direito constitucional de toda pessoa humana no Brasil, e que esse direito é violado sistematicamente há séculos. A moradia é o lugar de cada um, mas é também a existência, porque morar é existir em algum lugar. Ela é um território onde as pessoas permanecem, com endereço, acesso e registro, mas é também o lugar de sonhar e trabalhar pela dignidade da vida e por expectativas melhores. A moradia de cada um deve ser “construída sobre a rocha”, no sentido literal – de um bom alicerce que a sustente – e no sentido bíblico, espiritual, segundo o qual viver a Palavra de Deus é como construir a moradia em lugar firme, que as tempestades da vida não abalam.
Nesse universo estão as pessoas em situação de rua, ou seja, pessoas vitimadas por situações que as colocaram, literalmente, na rua, pela força prepotente e avassaladora da dependência de drogas ilícitas e lícitas, pela força da extrema pobreza e da miséria e pela força de profundos e dolorosos conflitos nas relações interpessoais, familiares e grupais. Na perspectiva da Igreja em saída, as pessoas encontradas em situação de rua, além de serem consideradas verdadeiramente “pessoas humanas”, precisam ser reconhecidas como “irmãos e irmãs”, na perspectiva da fraternidade cristã, como reza o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja. Essa é a Igreja que expressa a centralidade de Jesus Cristo e não negocia o Evangelho do Reino de Deus sob hipótese alguma, já que o Evangelho do Reino é a síntese de toda a mensagem e da própria pessoa de Jesus Cristo.
A rua deve ensinar métodos de restauração humana, com base na ideia de que cada pessoa em situação de rua se torna, inexoravelmente, o sujeito aprendiz de sua verdadeira liberdade e dignidade. É assim que trabalha a Pastoral do Povo da Rua, hoje presente em muitas cidades do Brasil e amplamente reconhecida. Na rua é preciso fazer a passagem do não ir nem vir (porque as pessoas nessa situação ou trajetória são encurraladas em determinados espaços) para o ir e vir com liberdade; da rua sem sentido e totalmente irrelevante (porque ela é uma prisão a céu aberto) para a rua que faz sentido e torna-se relevante para cada um, com sua história de vida; da rua como lugar de andar (andam o tempo todo) para a rua onde se aprendem métodos que libertam, métodos que fazem as pessoas solidárias, esperançosas, e métodos para vencerem a situação de rua, recuperarem as moradias e viverem apaziguadas em relação às ruas.
3. Para começar de novo o assunto
Como são irmãos e irmãs em situação de rua, a fraternidade não cessa; não cessa a necessidade de sempre começar de novo e cada vez de forma nova, reinventando os passos, o caminho, a chegada. A fraternidade é uma característica humano-cristã extremamente potente. Ela é a mais alta forma de qualificar os discípulos e discípulas de Jesus e todos os membros da espécie humana. A vivência da fraternidade desencadeia processos que se traduzem em assistência, solidariedade,
esmola, caridade.
Os programas, projetos e políticas públicas orientados pelo imperativo ético que deve presidir a escolha de prioridades por parte dos agentes públicos, com a finalidade de superar o déficit habitacional e os problemas referentes à moradia, serão sempre necessários. Será necessário sempre começar de novo.
A mesma atitude é requerida quando tratamos o assunto em âmbito eclesial, na perspectiva pastoral, particularmente quando entendemos que fazer pastoral com o povo da rua é, em vários sentidos, ir para a rua, estar com as pessoas e com elas caminhar.
Referências bibliográficas
FERNÁNDEZ, Card. V. M. Sinodalità: perché no e perché sì. 6 set. 2025. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/fernandez/documents/rc_ddf_doc_20250906_fernandez-relazione-corso-vescovi_it.html. Acesso em: 2 out. 2025.
MANSUR, R. Brasil tem déficit habitacional de mais de seis milhões de domicílios […]. G1, 21 jun. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2024/06/21/brasil-tem-deficit-habitacional-de-mais-de-seis-milhoes-de-domicilios-veja-ranking-de-estados.ghtml. Acesso em: 2 out. 2025.
PASTORAL NACIONAL DO POVO DA RUA. Coordenação de Ivone Maria Perassa e padre Marcos Augusto Mendes, sj. Disponível em: https://pastoraldopovodarua.org.br/. Acesso em: 2 out. 2025.
Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães*
*é bispo diocesano de Santos-SP, teólogo pastoralista, professor na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte, membro do Observatório da Comunicação Religiosa do Brasil e do Observatório Eclesial Brasil, catequista, educador, servidor da Pastoral Nacional do Povo da Rua pela CNBB.

