Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 30-35
JESUS CRISTO NO ROSTO DO POBRE: uma breve leitura da exortação Dilexi Te (“Eu te amei”)
Por Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp*
A exortação “Dilexi Te” reafirma o amor de Cristo como o núcleo da missão eclesial, transfigurando o rosto do pobre em lugar teológico de revelação. O artigo analisa a denúncia das estruturas de exclusão e a falácia da meritocracia, propondo uma “Igreja hospital de campanha” que acolhe as chagas do mundo.
A história da Igreja é marcada por documentos que funcionam como bússolas para tempos de crise. A Exortação Apostólica Dilexi Te, do papa Leão XIV, surge como um desses marcos providenciais. Ao assumir e expandir o projeto iniciado pelo papa Francisco em seus últimos meses de vida, Leão XIV não apenas honra o legado de seu antecessor, mas também consolida uma teologia em que a espiritualidade e a justiça social são indissociáveis. O pobre é um lugar teológico onde Deus revela sua maior predileção. Em um mundo fragmentado pelo individualismo digital e pela tecnocracia, a Dilexi Te convoca a Igreja para não perder de vista sua identidade no serviço aos mais frágeis, reafirmando que o amor de Cristo é a medida de toda ação humana.
1. O altar das periferias
A grande contribuição teológica da Dilexi Te reside na afirmação de que o contato com o pobre não pertence meramente ao horizonte da “assistência” ou da “filantropia”, mas sobretudo ao da “revelação”. O papa Leão XIV argumenta, com base em uma leitura profunda das Escrituras, que Jesus de Nazaré não apenas defendeu os pobres, mas também assumiu sua condição ontológica. No mistério da encarnação, Deus não escolhe a neutralidade. Ele escolhe a margem, fazendo da carência seu santuário. Ao analisar o episódio da mulher que unge Jesus com um perfume precioso (Mt 26), a exortação reverte a lógica funcionalista. Enquanto os discípulos viam um “desperdício” de recursos que poderiam ser monetizados, Jesus vê um gesto de amor profético que antecipa o bálsamo da ressurreição sobre o corpo macerado da humanidade.
O texto revela que o afeto pelo Senhor e o afeto pelos pobres são correntes que se alimentam mutuamente. A pobreza de Jesus, desde a manjedoura até a cruz – na qual ele morre “fora dos muros”, na exclusão total –, é apresentada como o privilegium pauperum (privilégio dos pobres). Teologicamente, o documento resgata o conceito de “Cristo no pobre”. Quando Jesus afirma “a mim o fizestes” (Mt 25,40), estabelece uma identidade mística que transforma o necessitado em um “sacramento vivo”.
Portanto, a opção preferencial pelos pobres, tão viva nos documentos das Conferências Episcopais Latino-americanas e Caribenhas, não é um apêndice ético da fé ou uma escolha ideológica de uma ala da Igreja: é uma exigência cristológica. É Evangelho. Ignorar o sofrimento do outro é não apenas uma falha moral, mas também um ato de “surdez espiritual” à própria voz de Deus, que clama na história. A santidade, conforme descrita no capítulo II da exortação, é impossível se se faz uma separação entre o incenso do altar e a poeira da rua. O altar do sacrifício e a mesa do indigente são, em última análise, o mesmo lugar onde o Ressuscitado parte o pão da esperança.
2. Entre o luxo e o lixo
No segundo eixo, a exortação mergulha na análise sociopolítica. Ali, Leão XIV confronta as “ideologias mundanas” que se infiltram na mentalidade cristã contemporânea. O texto é contundente ao desmascarar a falsa narrativa da meritocracia, essa “névoa dourada” que cega os privilegiados para não verem as correntes que prendem os pés dos humildes. Em um sistema que ignora o ponto de partida desigual dos indivíduos, a meritocracia torna-se uma ferramenta de crueldade, utilizada para justificar a opulência de poucos e a miséria de muitos. A exortação denuncia que a pobreza não é um “destino cego” ou uma “falta de esforço”, mas o resultado de estruturas de pecado que se tornaram arquitetura social.
O papa destaca a “poética da dor” daqueles que trabalham exaustivamente, do amanhecer ao anoitecer, em funções degradantes, apenas para garantir a subsistência mínima, sem que o sistema lhes permita sequer sonhar com o amanhã. Ao fazer isso, o documento quer atingir o coração do sistema econômico atual, que prefere a frieza dos números ao calor do sangue humano.
O conceito de “cultura do descarte”, amplamente trabalhado por Francisco e agora aprofundado por Leão XIV, descreve uma sociedade que trata seres humanos como excedentes sem serventia. O documento cita as “novas pobrezas” como feridas abertas: a exclusão digital, que cria novos analfabetos de cidadania; a pobreza energética, que apaga a luz da dignidade; e, de modo dilacerante, a vulnerabilidade das mulheres, “flores pisoteadas” por sistemas de violência e desigualdade. A crítica se estende à indiferença globalizada, essa “anestesia da alma” que nos permite ver a tragédia de uma criança naufragada como se fosse apenas mais uma imagem em uma tela de vidro. A economia, para ser cristã, deve deixar de ser um cálculo de lucros para ser um hino à vida plena.
3. A Igreja como hospital de campanha
No terceiro subtítulo, a reflexão volta-se para a práxis eclesial. Inspirado pelo desejo de Francisco de uma “Igreja pobre e para os pobres”, Leão XIV propõe uma reforma que vá além da estética: uma conversão do olhar que transforme a instituição em um abraço. A Igreja das bem-aventuranças não é uma empresa de serviços religiosos, mas uma “mãe de rosto samaritano” que se inclina sobre as feridas da história. A exortação recupera a figura dos primeiros diáconos (At 6) para mostrar que a caridade nunca foi o “setor social” da Igreja, mas sua própria respiração.
A união entre o testemunho de Santo Estêvão e o serviço às mesas simboliza que a liturgia mais bela é aquela que se traduz em pão repartido. O documento convoca as paróquias e as instituições católicas para abandonarem a segurança de seus muros a fim de se tornarem “faróis de luz” em meio às trevas da exclusão.
O profetismo da Dilexi Te reside na proposta de que os pobres não devem ser apenas “objetos” de piedade, mas mestres de fé. Eles possuem a “ciência da resistência” e a “teologia da confiança” que faltam às elites saciadas. O texto desafia as comunidades a trocar o paternalismo pela fraternidade real. Não basta dar o pão; é preciso partilhar a vida, ouvir os silêncios e lutar contra as mãos invisíveis que geram a escassez.
Leão XIV insiste que a credibilidade da Igreja, no século XXI, será medida pela sua capacidade de tocar, com ternura e coragem, as chagas de Cristo presentes nos marginalizados. Em um mundo de ruídos e ódios virtuais, a caridade sintonizada com o clamor das pessoas é a única melodia capaz de converter corações. A missão eclesial encontra autenticidade quando se torna abrigo para os desterrados e voz para os emudecidos pela dor. Uma Igreja que não caminha com os pés sujos de estrada não conhece o caminho do Calvário nem a luz da Galileia.
Conclusão
A Exortação Apostólica Dilexi Te não é apenas mais um documento na vasta produção do magistério da Igreja; tampouco é uma coleção de conselhos piedosos. Na verdade, é um manifesto profético, poético e teológico para chamar a atenção da humanidade em tempos de barbárie. Ao centrar sua mensagem no “Eu te amei” de Cristo dirigido aos mais frágeis, o papa Leão XIV oferece uma bússola que aponta o caminho para o coração de Deus através das periferias existenciais.
A exortação do papa Leão enfatiza que a santidade cristã é uma teia tecida com os fios da justiça e da compaixão. Se a Igreja for fiel à melodia da Dilexi Te, deixará de ser vista como uma guardiã de leis frias para ser sentida como a casa onde todos os filhos e filhas, especialmente os que nada têm, são amados sem reservas. O desafio é converter o “clamor do pobre” no “cântico da Igreja”. Afinal, no entardecer da existência, as palavras silenciarão, os títulos sumirão e restará apenas a marca do amor que fomos capazes de semear nas fendas do mundo.
Referências bibliográficas
BÍBLIA Sagrada. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997.
LEÃO XIV, Papa. Dilexi Te: Exortação Apostólica sobre o amor para com os pobres. São Paulo: Paulus, 2025.
Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp*
*Antonio Iraildo Alves de Brito é padre paulino, doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É jornalista e poeta. É professor na Faculdade Paulus de Comunicação (Fapcom) e editor de Vida Pastoral.

