Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 32-37
John H. Newman, o 38º Doutor da Igreja
Por *Prof. Dr. Venício A. de Lima
O breve ensaio narra a experiência pessoal do autor com o nome de John Henry Newman. Partindo da época em que era estudante na Universidade de Illinois (segunda metade da década de 1970) e frequentava o “Newman Hall”, descreve seu “reencontro” com Newman por meio da mensagem do papa Francisco de 2023 e depois, indiretamente, por meio de um de seus escritores favoritos, Robert Southey. Citando Bento XVI, um biógrafo de Newman, e Leão XIV, esboça o perfil desse ex-anglicano, convertido ao catolicismo e proclamado o 38º Doutor da Igreja pelo papa Leão XIV, em 1º de novembro de 2025.
Na segunda metade da década de 1970, ao longo de quase quatro anos, frequentei a “cafeteria” no subsolo do Newman Hall, na esquina da Av. Armory Leste com a R. 6ª Sul, no miolo do campus da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. A “cafeteria” é parte do complexo do St. John’s Catholic Newman Center, que inclui uma igreja e um conjunto residencial completo, capaz de abrigar quase seiscentos estudantes.[1] A localização não poderia ser melhor: do outro lado da rua do Gregory Hall – sede do College of Communications (hoje, College of Media), onde eu estudava – e defronte à entrada lateral da Biblioteca Central, onde fui bolsista na Latin American Collection. Era na “cafeteria” do Newman Hall, ambiente agradável e acolhedor, que me reunia com meu thesis adviser pelo menos uma vez a cada quinze dias.
Enquanto estava em Urbana, pressionado pelo compromisso de produzir a tese dentro dos prazos (tanto da bolsa da Capes quanto da minha licença da Universidade de Brasília), não procurei saber quem era o Newman que dava nome ao local. Mais de quarenta anos depois (!), ao ler a mensagem do papa Francisco para o 57º Dia Mundial das Comunicações Sociais (Francisco, 2023), deparei-me com uma referência a “São João Henry Newman” (1801-1890) e, finalmente, busquei saber de quem se tratava.
Em 2023, João Henry Newman já havia sido beatificado por Bento XVI (2010) e canonizado por Francisco (2019). A referência a ele, na mensagem apresentada por ocasião do Dia das Comunicações – a qual tem como título “Falar com o coração: ‘Testemunhando a verdade do amor’ (Ef 4,15)” –, aparece no contexto de um dos exemplos que o texto oferece deste “falar com o coração”, lembrando outro Doutor da Igreja, São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas católicos. Uma de suas célebres afirmações – “O coração fala ao coração” (cor ad cor loquitur) – foi escolhida por Newman para lema cardinalício.
Ao ler sobre Newman, fiquei sabendo que nasceu em Londres (1801), em uma família anglicana,[2] e que, desde jovem, foi um grande leitor. Surpreso, vi que, entre seus escritores favoritos, estava o poeta, ensaísta e historiador inglês Robert Southey (1774-1843). De minha parte, “encontrei-me” com Southey quando comecei a estudar o pensamento de Paulo Freire.
Southey foi levado para Lisboa por um tio materno, pastor anglicano, e é o autor da primeira história publicada do Brasil, que abrange o período colonial do “descobrimento” até a transferência da corte portuguesa em 1808. Na sua História do Brasil está a referência ao sermão da Visitação de Nossa Senhora (1640), do padre Antônio Vieira (1608-1697), que, mais de três séculos depois, se tornaria a inspiração inicial de Freire, mediante E. L. Berlink (1948), para introduzir o conceito de “cultura do silêncio”.[3]
Newman estudou teologia e foi ordenado sacerdote anglicano em 1824. Em 1833, tornou-se líder do Movimento de Oxford, que visava reconduzir a Igreja da Inglaterra às suas raízes católicas originárias. Em 1845, converteu-se e ingressou na Igreja Católica. Mais tarde, em Roma, voltou a estudar teologia e, em 1847, foi ordenado sacerdote católico. Teólogo, reitor e poeta, em 1879 foi nomeado cardeal por Leão XIII. Faleceu em 1890.
O cardeal Joseph Ratzinger, depois papa Bento XVI, sempre foi grande admirador de Newman. Em 1990, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, falando no centenário de sua morte, afirmou:
Parece-me que o contributo de Newman ainda não foi completamente utilizado nas teologias modernas. Ele contém em si ainda possibilidades frutuosas, que aguardam ser desenvolvidas. […] Todos sabem como a concepção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao catolicismo. Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman. […] Newman foi, ao longo de toda a sua vida, uma pessoa que se converteu, que se transformou, e desta forma permaneceu sempre ele mesmo, e tornou-se sempre mais ele mesmo. Newman expôs na ideia do desenvolvimento a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída, e assim ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã (Ratzinger, 1990).
Um livro de Stephen Kelly, diretor da School of Humanities e professor na Liverpool Hope University, discute o pensamento e a posição de Newman em relação a questões políticas e sociais de seu tempo, a Era Vitoriana. Ao contrário do que pode indicar a apropriação que tem sido feita de seu nome por personagens públicas, religiosas ou não, do campo politicamente conservador, a apresentação do livro afirma:
Este livro ataca veementemente o mito de que ele permaneceu um discípulo do conservadorismo político e social ao longo de sua vida. Newman era, de fato, um conservador em sua essência, mas a base de seu conservadorismo repousava em suas crenças religiosas e não em suas visões políticas ou sociais. […] Portanto, ele não pode ser rotulado como um “Tory”: um expoente político e social dos princípios conservadores. […] Este livro demonstra que Newman não pertencia nem ao campo conservador nem ao liberal. Em vez disso, ele representava uma combinação de ambas as ideologias. Na busca pela verdade religiosa, ele era “liberal” quando buscava corrigir o que acreditava estar errado e conservador quando buscava manter o que acreditava estar certo (Kelly, 2012).
No último dia 1º de novembro, o cardeal John Henry Newman foi proclamado por Leão XIV
Doutor da Igreja e copadroeiro, com Santo Tomás de Aquino, dos agentes do processo educativo. Na homilia da missa de proclamação, o papa lembrou a contribuição de Newman para a teoria e a prática da educação. Disse ele:
Entre a duradoura herança de São John Henry encontram-se alguns contributos muito significativos para a teoria e a prática da educação. “Deus – escreveu ele – criou-me para lhe prestar um serviço específico. Confiou-me uma tarefa que não confiou a outros. Tenho uma missão: talvez não a chegue a conhecer nesta vida, mas ela ser-me-á revelada na vida futura” (Meditations and Devotions, III, I, 2). Nestas palavras, encontramos expresso, de um modo esplêndido, o mistério da dignidade de cada pessoa humana e também o da variedade dos dons distribuídos por Deus (Leão XIV, 2025).
Ainda na mesma homilia, citando Francisco sobre os desafios do mundo em que vivemos, Leão XIV afirma:
Recordo o que sublinhou o meu amado predecessor, papa Francisco, no seu discurso à Primeira Plenária do Dicastério para a Cultura e a Educação: devemos trabalhar juntos para libertar a humanidade da escuridão do niilismo que a rodeia e que é, talvez, a doença mais perigosa da cultura contemporânea, pois ameaça “anular” a esperança (Discurso aos participantes na Plenária, 21 de novembro de 2024). A referência à noite que nos rodeia recorda-nos um dos textos mais conhecidos de São John Henry, o hino “Lead, kindly Light” (“Luz terna, suave, leva-me mais longe”). Nessa linda oração, percebemos que estamos longe de casa, que temos pés vacilantes, que não conseguimos decifrar claramente o horizonte. Mas nada disso nos detém, porque encontramos o nosso Guia: “Conduze-me, terna Luz […] a noite é escura e estou distante de casa, conduze-me, tu, sempre mais avante” (“Lead, kindly Light. The night is dark and I am far from home. Lead Thou me on!”).
Este é o Newman que dá nome ao hall da “cafeteria” que frequentei como estudante, em Urbana, tantos anos atrás. Hoje, São João Henry Newman é o 38º Doutor da Igreja.
Referências bibliográficas
FRANCISCO, Papa. Mensagem para o LVII Dia Mundial das Comunicações Sociais. 21 maio 2023. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/20230124-messaggio-comunicazioni-sociali.html. Acesso em: 16 dez. 2025.
KELLY, S. A conservative at heart? The political and social thought of John Henry Newman. Dublin: Columba Press, 2012.
LEÃO XIV, Papa. Homilia na missa e proclamação de São John Henry Newman como Doutor da Igreja. 1º nov. 2025. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/homilies/2025/documents/20251101-messa-giubileo-formatori.html. Acesso em: 16 dez. 2025.
LIMA, V. A. de. Paulo Freire: a prática da liberdade para além da alfabetização. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo; Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2021.
RATZINGER, Card. J. Discurso no centenário da morte do cardeal John Henry Newman. 28 abr. 1990. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19900428_ratzinger-newman_po.html. Acesso em: 16 dez. 2025.
[1] Cf.: https://en.wikipedia.org/wiki/St._John%27s_Catholic_Newman_Center. Disponível em: 16 dez. 2025.
[2] O anglicanismo é uma das tradições cristãs que surgiram com a Reforma Protestante. Por não aceitar a decisão do papa Clemente VII sobre a impossibilidade de seu divórcio, o rei Henrique VIII separou a Igreja da Inglaterra da Igreja Católica, em 1534. O anglicanismo combina tradições católicas e reformistas. A Bíblia cristã é seu livro sagrado.
[3] Sobre a arqueologia do conceito de “cultura do silêncio”, cf. LIMA, 2021.
*Prof. Dr. Venício A. de Lima
*é professor emérito da Universidade de Brasília, especialista em História do Cristianismo Antigo e membro do Observatório da Comunicação Religiosa (OCR). E-mail: [email protected]

