Carta do editor

Março-Abril de 2026

Campanha da Fraternidade 2026
Fraternidade e Moradia
"Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14)

Prezadas irmãs, prezados irmãos, graça e paz!

A casa, além de suprir uma necessidade básica, transcende o espaço e o tempo, consolidando-se como um pilar antropológico, o nosso “ponto fixo” no mundo, de modo que o espaço é responsável por moldar as memórias em nós. Recordo-me, por exemplo, da infância vivida na Casa Velha do Alto, onde moramos por tanto tempo, no Sítio Angico, Quixelô-CE. Lembro-me daquela vista para o nascente; do alpendre avistávamos as águas do açude e a serra azulzinha lá no horizonte. A cor avermelhada dos grandes tijolos das paredes sem cal e nosso outão, que cedo da tarde fazia sombra. Ali era nosso espaço de encanto, onde tudo era lúdico e eterno. À noite, o vento aracati assobiava nas frestas das portas, adentrando e refrescando todos os cômodos da casa.

A casa é afeto. É o ponto de partida sobre o qual organizamos o mundo, a vida se estabiliza e se arraiga em todos os espaços de nossa existência. O sociólogo e filósofo francês Maurice Halbwachs, ao estudar a memória, argumentava que as lembranças individuais se ancoram em quadros sociais, muitas vezes ligados a espaços físicos. A casa, o lar, é o primeiro e mais íntimo desses quadros, o locus onde o indivíduo constrói seu senso de permanência e pertencimento. A falta desse ponto fixo gera desorientação e fragilidade existencial.

Na Bíblia, a busca pelo ponto fixo está ligada à Terra Prometida. O povo de Deus é marcado pela dupla tensão da peregrinação e da busca por uma terra. Abraão é chamado a deixar sua casa (Gn 12,1), vivendo como estrangeiro, mas a presença de Deus era centralizada no Tabernáculo (miskan), uma morada provisória. A casa (bayit) adquire um significado de linhagem e, simbolicamente, remete à Casa de Deus (Templo). O Salmo 23,6 expressa essa segurança: “habitarei na Casa do Senhor por longos dias”.

O Novo Testamento radicaliza essa perspectiva. O lema da Campanha da Fraternidade 2026, “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), atesta que o logos se encarnou (eskenosen), aceitando assumir nossa frágil condição humana. Jesus, sem “onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20), mostra a provisoriedade terrena. A morada divina se interioriza: os cristãos são o “Templo do Espírito Santo” (1Cor 6,19). A promessa suprema é celestial: “na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2), a “casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (2Cor 5,1). A morada torna-se a comunhão eterna, estabelecendo o cristão como peregrino na terra, mas cidadão do céu (Fl 3,20).

A Campanha da Fraternidade deste ano é um grito por todos os que ainda não têm um lugar neste mundo. Antes de tudo, é um apelo à fraternidade. Um único irmão sem teto deveria ser causa de escândalo. Assim fica claro que a busca por um teto seguro não pode ser apenas uma promessa celestial ou um conceito filosófico abstrato. No contexto brasileiro, onde milhões vivem em condições sub-humanas ou sob ameaça de despejo, a moradia digna é um clamor de justiça social.

Se o Verbo de Deus instalou sua tenda entre nós, a nossa responsabilidade ética e política é assegurar que ninguém seja expulso do convívio fraterno por falta de um lar. Urge a implementação de políticas públicas que garantam o direito constitucional à moradia, transformando o “ponto fixo” de cada indivíduo em uma realidade de dignidade e segurança. O direito de ter um lugar no mundo é o direito de ser plenamente humano. É, pois, tempo de mover as estruturas para que a Casa do Pai seja refletida na terra com justiça. Como reza a Oração Eucarística V, o Senhor nos proteja “nas estradas do mundo rumo ao céu”.

Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp
Editor