Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 41 - 43
10 de maio – 6º DOMINGO DA PÁSCOA
Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**
“Se me amais, guardareis os meus mandamentos”
A liturgia deste domingo nos convida a viver o mandamento por excelência: o amor. Se amamos a Cristo, guardamos (pomos em prática) seus mandamentos. Viver o mandamento do amor só é possível com a ajuda do pedagogo divino, o Espírito Santo. Ele é o elo de amor entre o Pai e o Filho, a unção que nos foi dada no batismo e nos será ofertada novamente, em breve, na solenidade de Pentecostes, daqui a dois domingos. Hoje, a primeira leitura nos fala sobre a ação missionária de Filipe, que, descendo de Jerusalém à Samaria, anunciou ali a Jesus de Nazaré, o Ressuscitado. O anúncio de Jesus ressuscitado gera vida para os que estão aprisionados no pecado e no sofrimento corporal. Na segunda leitura, Pedro convida à santificação da vida, no coração, por meio de Cristo. Essa santificação leva o cristão a dar razão (logos: palavra) da esperança, que nasce de um coração confiante, que ama. A ação do discípulo de Jesus, o amor, gera dissonâncias e muitas vezes perseguição, mas é preferível sofrer por testemunhar a Cristo a sofrer sem testemunhá-lo. No Evangelho, Jesus nos convida ao amor, guardando seus mandamentos, que podem ser resumidos na tarefa fundamental de amar. Todo o testemunho cristão só é possível e frutuoso à luz do Espírito Santo, dado ao coração do cristão, o qual não é deixado na orfandade. É o Espírito que continua a inspirar a vida da Igreja, das comunidades de fé e de todos os servidores do Evangelho.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 8,5-8.14-17)
Em relato emblemático sobre a taumaturgia dos apóstolos, especialmente de Filipe, na Samaria, o autor dos Atos aponta, teologicamente, que, na Igreja primitiva, é Jesus ressuscitado quem continua a agir, por meio do Espírito que inspira e assiste os enviados (apóstolos). A ação missionária e evangelizadora de Filipe concede aos ouvintes saúde corporal e espiritual (v. 7). Muitos foram curados. Essa ação taumatúrgica, endereçada aos da Samaria por intermédio do evangelizador, é a contínua ação de Jesus na vida dos que creem. É preciso, porém, haver quem anuncie Jesus ao mundo, essa é a missão de todo cristão. A narrativa se divide em dois momentos: a ação evangelizadora de Filipe em um lugar da Samaria (v. 5-8) e os apóstolos que, em Jerusalém, ficam sabendo do que aconteceu e enviam para lá Pedro e João, os quais fazem a oração de epiclese (invocação do Espírito Santo) sobre os samaritanos, pois estes ainda não haviam recebido o Espírito (v. 14-17), mas apenas o batismo em nome de Jesus. Pedro e João impõem as mãos e eles recebem o Espírito Santo. O livro dos Atos dos Apóstolos apresenta à Igreja seu autorretrato, sua eclesiologia, que tem como figura primordial o pedagogo, o Espírito Santo. Trata-se de uma pneumatologia requintada que Lucas, o autor dos Atos, elabora. É o tempo do Espírito Santo, que atuou e atua na Igreja para que ela seja santa e consiga santificar as pessoas, realidades e coisas. A presença do Espírito é a presença mesma do Ressuscitado no nosso meio, a qual nos inspira e fortalece na comunhão, na participação e na missão.
2. II leitura (1Pd 3,15-18)
Pedro inicia essa leitura com o verbo no imperativo, como ordem: “Santificai (em grego, águiásate) vossos corações”. O coração do cristão é morada de Cristo. No original grego, o v. 15 começa desta forma: “Como o Senhor, Cristo, santificai em vossos corações”, dando-nos a entender que é Cristo, presente em cada coração, que nos santifica para as obras de justiça e misericórdia, a fim de vivermos segundo a vontade de Deus. O apóstolo Pedro nos convida a estar atentos (em sentido de defesa: apologian) e prontos para darmos razão (lógon) de nossa esperança (elpídos). Tudo isso seja realizado com mansidão, temor e boa consciência, e, se houver difamação, serão essas virtudes que envergonharão os difamadores, pois mais vale, segundo o apóstolo, o bom procedimento do cristão, a sensação de que está realizando o bem (v. 16). No versículo seguinte, Pedro justifica: pois é melhor sofrer praticando o bem que praticando o mal, pois o bem é vontade de Deus e o mal é recusar-se a realizar a vontade de Deus, indo na contramão de seu Reino (sua vontade). O v. 18 conclui, dizendo, explicativamente, que uma vez por todas (como diz Hebreus) Cristo morreu por causa dos pecados; o justo (dikaiós) pelos injustos (adíkon), para nos conduzir a Deus. Cristo morreu na carne, mas vivendo no Espírito. Se, por um lado, Cristo sofreu a injustiça da insensatez humana, por outro, saboreou a graça restauradora de Deus, que o resgatou da morte para a vida da ressurreição. É nessa experiência vivida por Cristo que temos garantida a vida nova, pois só quem assumiu a condição humana pode redimir tal condição.
3. Evangelho (Jo 14,15-21)
Ainda em tom de despedida, Jo 14,15-21 nos põe diante do enunciado condicional: “Se me amais, guardareis meus mandamentos”. Para Jesus, nessa cena de adeus, em preparação para a morte, deixar aos seus discípulos um legado, o mandamento do amor, é fundamental. Não apenas deixar um legado é importante, mas também que este seja posto em prática. Jesus, embora digno de confiança para seus discípulos-apóstolos, também confia neles e sabe que podem dar continuidade à missão: amar e servir o mundo pelo amor. Jesus não abandona seus discípulos, mas rogará ao Pai que envie o Defensor (parákleton), a fim de que esteja presente continuamente junto aos seus discípulos-apóstolos. Trata-se do Espírito da verdade (pneuma tés aletheías), o qual o mundo não pode receber, pois não o vê nem o conhece. Para João, é necessária a fé (pístis). Na perspectiva do Quarto Evangelho, o elemento da fé, crer, acreditar, não é simples confiança, mas adesão de vida, compromissada com a mensagem de Jesus. “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5). Não é sem sentido que a palavra “fé”, em grego pístis, aparece em João uma centena de vezes. Trata-se do Evangelho da fé (fidelidade) e do amor, da expressão bela da Aliança Nova com Deus, em Cristo. Para Jesus, em João, os discípulos conhecem (gnóskete) o Espírito, pois ele vive no meio da comunidade. O Espírito é o elo entre Jesus e seus discípulos. Por isso, quando, já ressuscitado, Jesus aparece aos discípulos, envia, reenvia, sobre eles o Espírito Santo (Jo 20,22), para dizer que estará, pelo Espírito, continuamente e ainda hoje com a comunidade discipular. O v. 18 confirma essa adoção de Jesus: “Não vos deixarei órfãos”. Ele vem para nós, está no meio de nós, como dizemos na liturgia eucarística dominical (ou diária). No v. 19, Jesus, num trocadilho, diz que o mundo não o verá mais, mas eles, seus discípulos, o verão, pela graça santificante do Espírito, em um contínuo e eterno Pentecostes. Jesus estará no Pai e nos discípulos pelo Espírito (v. 19). Essa dupla morada de Jesus garante que ele não deixa sua Igreja órfã, mas a acompanha pelas estradas da vida (v. 20). Estar em Jesus e Jesus estar nos discípulos é promessa cumprida na vida cotidiana dos que estão irmanados e unidos pelos laços do Espírito Santo. Da mesma forma que começou o Evangelho deste domingo, o v. 21 fala do amor: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama”. E quem ama a Jesus é amado pelo Pai, pois é para reconciliar a humanidade com o Pai que Jesus se ofereceu ao mundo como vítima de resgate, a fim de tornar a todos filhos e filhas.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Convidar os fiéis à missão de evangelizar: anunciar a mensagem da Boa-nova de Jesus a quem necessita, sobretudo a quem está adoecido e a todos os que estão sem esperança. Orientar a reflexão para a pneumatologia, para a ação do Espírito Santo na vida da Igreja, sobretudo para o que o Espírito vem realizando em prol da comunidade e de seus fiéis. Destacar a importância dos que são perseguidos por causa da fidelidade ao Evangelho, percebendo que todos nós, se fiéis à mensagem de Jesus, teremos de lidar com tais perseguições, mas sempre com mansidão, sem perder a tenacidade da fé.
Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**
*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhorado Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]

