Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2025 - ano 66 - número 365 - pp. 46-49

14 de setembro – EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

Por Maicon Malacarne*

A cruz: paradoxo e mistério do amor!

I. INTRODUÇÃO GERAL

A cruz é uma escola. A festa deste domingo, Exaltação da Santa Cruz, não constitui um elogio ao sofrimento, não consiste em aplausos à dor, mas aponta para a capacidade de encontrar, no mais contraditório dos sinais, o amor exagerado, o amor que transborda, o amor capaz de dar a vida. Não existe amor sem cruz! Na escola da cruz, a disciplina fundamental é o amor.

A liturgia da Palavra nos conduz por um itinerário de descoberta do aprendizado da cruz. O livro dos Números, com base no episódio da serpente de bronze, convida-nos a “contemplar o alto”. Esse mistério só pode ser alcançado, conforme a sabedoria do hino da carta aos Filipenses, da segunda leitura, por meio do movimento sagrado de “abaixamento-levantamento”. O mistério da cruz encontra sentido à luz da revelação do Evangelho de João:  “como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado”. A Exaltação da Cruz é o reconhecimento de um amor inesgotável que pode ser experimentado com os olhos fixos em Jesus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Nm 21,4b-9)

O episódio narrado na primeira leitura acontece no deserto, na caminhada de libertação do povo de Deus, sob a liderança de Moisés. A caminhada era difícil e reunia todas as contradições que a escolha por autonomia implica. O povo estava libertando-se da escravidão egípcia: havia cansaço, desânimo, murmuração, vontade de retornar... Tudo ganha maior peso com o aparecimento de serpentes venenosas, que mordiam e matavam as pessoas.

A súplica de Moisés pelo povo, para que o Senhor Deus os livre daquelas terríveis serpentes, vem seguida de um pedido do próprio Deus: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela viverá” (v. 8). Mais do que propor a criação de um amuleto, o pedido tem uma carga pedagógica profunda: trata-se de direcionar o olhar para o Senhor; trata-se de olhar “para cima”, gesto teológico que conclama o povo a não esquecer que Deus caminha com eles, está junto deles, não obstante as tragédias da peregrinação da vida.

Não olhe para cima é um filme de 2021 que ajuda a meditar esse texto bonito do livro dos Números! Nos Estados Unidos, dois astrônomos descobrem que um meteorito destruirá a Terra em poucos meses. Tentam avisar as autoridades, mas ninguém quer ouvir. Quando as evidências se tornam mais reais, as mesmas autoridades decidem que “ninguém deve olhar para cima” e buscam, até o fim, negar a ameaça. “Olhar para cima” é sempre um ato corajoso e libertador!

2. II leitura (Fl 2,6-11)

Se Moisés construiu uma serpente de bronze e convidou o povo a “erguer o olhar”, a carta de Paulo aos Filipenses nos ajuda a refletir, com base no hino da segunda leitura, que não há um “levantar-se” sem um necessário “abaixar-se”. No mistério da encarnação de Jesus Cristo, aprendemos sobre o paradoxo abaixamento-exaltação. Buscar a salvação no alto não significa nos afastarmos da realidade, mas o contrário: quanto mais firmes estamos no “chão da vida”, mais conseguimos expandir o olhar na direção do céu.

Aprendemos tudo isso de Jesus. De fato, o hino se inicia destacando que, não obstante sua condição divina, “ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (v. 7-8). A humanidade não é um problema; humanizar é o caminho necessário. A cruz é o maior exemplo desse abaixamento de Jesus, a radicalidade da contradição.

Assumir a condição humana é a porta de entrada para a segunda fase do hino: “Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome” (v. 9). Jesus é o Senhor de todas as coisas! Assumindo em tudo a humanidade, ele a conduz à divinização. Humanidade e divindade já não estão separadas, mas em Jesus Cristo alcançam o ponto de encontro e, na cruz, o ápice da doação total da vida.

3. Evangelho (Jo 3,13-17)

O Evangelho de João guarda esse encontro profundo e “noturno” entre Jesus e Nicodemos. O texto sublinha que o primeiro encontro entre eles aconteceu “à noite” (3,2). Mais tarde, depois da crucificação de Jesus, Nicodemos apareceu ao lado de José de Arimateia carregando o corpo de Jesus da cruz para a sepultura (19,38-42). Antes disso, no meio das trocas de acusações sobre Jesus, Nicodemos o defendia entre os importantes do templo (9,50).

Nicodemos fez da sua vida uma procura por Jesus! O discernimento aponta na direção de uma vida nova, da abertura ao convite para “nascer de novo”, de um excesso do bem na realidade de cada dia. O novo nascimento é batismal e pascal; ou seja, é sempre maior do que aquilo que podemos enxergar, é sempre marcado pelo mistério, gerado no ventre amoroso do Pai e amadurecido na consciência dos territórios das sombras.

O trecho do Evangelho acena diretamente à primeira leitura. De fato, Jesus diz a Nicodemos:  “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (v. 14-15). O paralelo é explícito: a serpente levantada no deserto é o próprio Cristo levantado na cruz. A vida nova que o povo de Deus recebia ao “olhar para o alto” é a vida plena, doada gratuitamente, na cruz: “pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (v. 16).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A festa da Exaltação da Santa Cruz não deve tornar-se um momento de devocionismo abstrato, mas revela o compromisso mais alto e sóbrio em torno do significado da doação total da vida. Nos dias em que esteve conosco, Jesus testemunhou que a forma mais profunda de amar é servir os irmãos e irmãs, um serviço generoso e gratuito, capaz de alcançar até a morte na cruz. Essa capacidade de amar e servir não se manifesta pelo distanciamento do mundo e da realidade, mas na profundidade com que vivemos o cotidiano, na forma pela qual estabelecemos relações, convivemos em família e comunidade, denunciamos as injustiças e ajudamos a construir um mundo mais humano e, portanto, mais divino!

Maicon Malacarne*

*é presbítero da diocese de Erexim, pároco da paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana – Roma.