Roteiros homiléticos

Publicado em janeiro-fevereiro de 2026 - ano 67 - número 367 - pp. 47-50

1º de fevereiro – 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Junior Vasconcelos do Amaral*

Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia deste domingo nos convida a pôr em prática nosso batismo, como profetas, pastores e povo sacerdotal, aos moldes de Jesus de Nazaré. A primeira leitura nos convida à profecia de uma vida de santidade e fidelidade a Deus. A fidelidade vai na contramão da idolatria, pecado de relativizar a Deus e absolutizar o que é relativo, o que é criatural. A idolatria leva a desvios de caráter e desvios éticos, que se traduzem em malefícios tanto para quem os pratica como para quem deles é vítima. Jerusalém, segundo Sofonias, pagará pelo pecado da idolatria no dia da cólera de Deus, no dia de seu Juízo. Na segunda leitura, somos convidados ao pastoreio, conforme Paulo, vivenciando a humildade e o serviço desinteressado de vantagens, senão da salvação, que não é um mérito, mas sim graça de Deus. No Evangelho, somos convidados a vivenciar o paradigma da vida de Jesus, resumido nas bem-aventuranças proclamadas por ele na montanha. Esse itinerário nos convida à pobreza, à mansidão, à busca da justiça, ao apaziguamento do mundo e, se preciso for, ao enfrentamento da perseguição por causa de Jesus e do seu Evangelho.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sf 2,3; 3,12-13)

Sofonias alude ao povo humilde que busca a Deus e põe em prática seus preceitos na vivência da justiça, procurando a humildade, essência mesma da nossa condição de criaturas. Todo esse projeto é teológico, pois Deus deseja que seu povo se relacione apenas com ele, evitando a abominação e a desgraça advindas da idolatria, o maior mal da humanidade, quando o ser humano coloca no lugar de Deus os ídolos, como fazia o povo de Israel ao cultuar os deuses cananeus. A justiça, em hebraico tsedaquah, é um atributo divino. Deus mesmo é justo e seu modo de ser é justo, pois deseja somente o bem às suas criaturas: os seres humanos e toda a criação, os animais e a natureza, que nos acolhe a todos.

Sobre a cólera de Deus, ela corresponde ao dia de Adonai, o dia de sua ira, um dia de desolação, do Juízo escatológico, tema sugestivo para entender as reformas promovidas por Josias (aproximadamente 622 a.C.), pois o livro de Sofonias tem como contexto esse período, o das últimas décadas do Reino do Sul, Judá. Contudo, nem tudo pretendido pelo rei reformador foi levado em consideração, sobretudo a conversão ao único Deus, justo e santo.

A idolatria foi o mal causador do exílio da Babilônia, pois reis e súditos cultuaram deuses estranhos e deixaram Adonai de lado. Na perspectiva de Sofonias, as instituições da cidade de Jerusalém que adoraram os deuses cananeus serão destruídas. Todos os líderes que perpetraram injustiças, todos os centros econômicos onde empréstimos desonestos ocorreram, tudo isso desaparecerá. Sofonias está usando essas imagens apocalípticas para mostrar o significado celestial do que vai acontecer. Deus permitirá que um grande exército venha e tome Jerusalém, será um dia abominável.

Por isso, Sf 3,12 justifica o fim de Judá: “deixarei entre vós um punhado de homens humildes e pobres. E no nome do Senhor porá sua esperança o resto de Israel”. Esses que ficarão depois do exílio e da pilhagem de destruição, que será promovida por Nabucodonosor num futuro próximo, serão um resto, poucas pessoas, como que um punhado. Eles, porém, mantêm-se firmes no Senhor; sua esperança está em Deus, e não nos ídolos. Eles não cometerão iniquidades nem falarão mentiras (v. 13). Em sua língua não se encontrarão palavras enganadoras. Serão apascentados por Deus como um rebanho e repousarão, ninguém mexerá com eles. São os queridos e amados de Deus e nenhum mal os atingirá.

2. II leitura (1Cor 1,26-31)

A teologia paulina tem como elemento fulcral o conceito de “eleição”. Todo cristão, como herdeiro da promessa abraâmica, é um eleito, chamado por Deus à salvação (v. 26), que não passa nem pela sabedoria humana nem pela riqueza que a nobreza possa conceder, mas provém de Deus por Jesus Cristo, justiça de Deus (cf. Rm 3,21-26). A salvação (soteria) é um dom de Deus para o ser humano. Paulo vê-se como um pastor que aconselha os seus a viver a santidade da salvação e não esperar recompensas, senão a vida eterna.

Em sua perspectiva, que difere da perspectiva humana, Deus escolhe o que o mundo relega como estúpido para confundir os sábios, que se valem de sua inteligência e perspicácia. Escolhe o fraco para confundir os que são fortes, que se valem de suas forças corporais (v. 27). Essas artimanhas de Deus vão na contramão das humanas. Ele escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante, não se valendo da meritocracia, mas da graça, que, em sentido contrário, valora não o que tem valor, mas o insignificante (v. 28). Toda essa perspectiva paulina é para revelar mais a graça que as astúcias e articulações humanas. Ninguém, admoesta Paulo, deve gloriar-se de si mesmo. Deus é quem dita suas preferências e seus valores (v. 30), pois tudo isso o faz em vista de Jesus Cristo, que se tornou para todos, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e libertação. Por fim, em tom exortativo (parenético), Paulo diz: “quem se gloria, glorie-se no Senhor”. Para ele, toda glória vem de Deus, e o cristão não tem uma glória (poder de ressurreição, de vida nova) de per si. A graça da glória presente, vivida na carne, e futura, da vida da ressurreição, é sempre dom de Deus.

3. Evangelho (Mt 5,1-12a)

O Evangelho das bem-aventuranças está intimamente relacionado à liturgia deste dia, pois somos convocados por Jesus para a fidelidade a Deus, considerando-o nossa única riqueza. Por essa razão, justifica-se ser pobre em espírito, porque a glória de Deus é absoluta em relação à nossa existência vulnerável, relativa e finita, que não se sustenta nem por nossa sabedoria nem por nossa força corporal, mas por pura graça de Deus, da parte de seu Filho, Jesus Cristo, que veio para nos salvar.

Os doze versículos dessa página mateana constituem o frontispício de um grande discurso que abarca três capítulos (5-7), correspondendo ao “Discurso da montanha”. Mateus é um Evangelho composto de dois gêneros fundamentais: narrativa e discurso, que se entrelaçam dentro do gênero maior conhecido como Evangelho. Encontramos no conjunto do Evangelho de Mateus cinco discursos, lembrando uma nova Torá, proposta e apresentada pelo novo Moisés, Jesus, numa montanha, que lembra o Sinai-Horeb, ao novo Israel, a Igreja. Os capítulos discursivos de Mateus são: 5-7; 10; 13; 18; 24-25. O sermão inaugural pode ser considerado o grande legado de Jesus para seus discípulos, a Igreja, comunidade de todos os que o seguem.

As bem-aventuranças, do substantivo plural grego makárioi, estão também presentes em Lc 6,20-23 de forma resumida. Em Mateus, o discurso comporta, além da expressão “bem-aventurados”, que se repete nove vezes, alguns outros ditos sapienciais sobre o sal e a luz, o ensino sobre a Lei, a ira e a vingança, sobre o amor aos inimigos, as esmolas, a oração do pai-nosso, o jejum, o tesouro no céu, o dinheiro, as preocupações com a vida, o julgamento, o pedido, a porta estreita, a árvore e os frutos, e o tema dos verdadeiros discípulos.

Mateus 5,1 traz o termo “pobres no espírito” abrindo as bem-aventuranças. Empobrecer-se de si é condição fundamental para o enriquecer-se de Deus. O Reino dos Céus é constituído dos que se deixam esvaziar de si mesmos para acolher a riqueza salvífica de Deus. Os que choram serão consolados (v. 4); os mansos herdarão a terra (v. 5); os que têm fome e sede de justiça serão saciados (v. 6); os misericordiosos encontrarão misericórdia (v. 7); os puros verão a Deus (v. 8); os pacificadores serão chamados filhos de Deus (v. 9); os perseguidos encontrarão recompensa nos céus (v. 10-11).

No conjunto das bem-aventuranças encontra-se desenhado o itinerário da vida de Jesus, sua pregação e testemunho, por palavras e obras. Tudo o que ele fez e fará durante sua vida terrena está delineado nas bem-aventuranças registradas por Mateus. O bem-aventurado/bendito por excelência é Jesus, porque se deixou moldar e plasmar pela vontade de Deus, fazendo-se servo de todos (Mt 20,28). Portanto, as bem-aventuranças estabelecem, ainda, o modus vivendi dos discípulos de Jesus e da Igreja, seguidora do Mestre. Da pobreza à perseguição, passando pela mansidão e pela pacificação, nós, cristãos, somos chamados hoje a seguir o paradigma de Jesus, que se fez servo obediente por amor a Deus a fim de salvar a muitos (Mt 26,26-28).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Ajudar a comunidade eclesial a perceber a relação entre as leituras, desde a do profeta Sofonias, que convida à fidelidade a Deus mediante a abolição da idolatria, o que se traduz em vida plena para os filhos e filhas de Deus. Incentivar as pessoas a perceber, como diz a segunda leitura, a eleição de Deus, que as convida à santidade, a se gloriarem no Senhor, e não nas próprias forças ou sabedoria. Na vida comunitária, o que mais importa é servir, mesmo que não sejamos reconhecidos ou recompensados por isso. Convidar os fiéis a cultivar as bem-aventuranças, na vivência da humildade perante Deus, da necessária mansidão, da busca pela justiça e misericórdia para a construção da paz, mesmo que em meio às perseguições, sintomas do processo de aversão à mensagem de Jesus, por nós proclamada e testemunhada.

Junior Vasconcelos do Amaral*

*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico. E-mail: [email protected]