Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2025 - ano 66 - número 365 - pp. 49-52

21 de setembro – 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Maicon Malacarne*

Uma esperteza santa que não engana os pobres

I. INTRODUÇÃO GERAL

A esperteza dos corruptos que se utilizam de todas as oportunidades para enganar os pobres é denunciada pelo profeta Amós. Trata-se de esperteza opressora e egoísta, muito próxima à cultura da corrupção, na qual os que se acham mais espertos aproveitam para alavancar seu bel-prazer. O administrador desonesto do Evangelho, embora paradoxal, conforme afirma Jesus, apresenta pistas de uma esperteza boa, voltada para ajudar os fracos, os endividados que estavam na mão do rico proprietário.

São Paulo ajuda a compreender que a atitude pastoral por excelência é revelar o rosto misericordioso de Deus, que “quer que todos sejam salvos”. No caso dos honestos, a oração é de agradecimento pelo bem que realizam e por seu exemplo de fidelidade. Já no caso dos desonestos, a prece é pela conversão, para que, ainda em vida, possam transformar as atitudes corruptas em novas oportunidades de reconciliação e de vida santa.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Am 8,4-7)

A profecia de Amós se situa, conforme o início do livro, no tempo de Ozias, rei de Judá (767-739 a.C.), e de Jeroboão II (782-753 a.C.). Amós era pastor e se dedicava ao cultivo de figueiras. Sua profecia está muito ligada aos problemas reais do povo, especialmente dos mais sofridos. Com voz impetuosa, denuncia as grandes injustiças e fala em nome de Deus: “Ouvi isto, vós que maltratais os humildes e causais a prostração dos pobres da terra” (v. 4).

O trecho da profecia desta celebração elenca algumas das atitudes daqueles que maltratam os pobres: “vender bem a mercadoria”, mas não com justiça; antes, com prontidão para “diminuir medidas, aumentar pesos e adulterar balanças, dominar os pobres com dinheiro” (v. 5-6). A atitude corrupta sempre torna os mais pobres em massa de manobra para os poderosos obterem benefícios. O profeta garante, em nome de Deus, que nenhuma dessas injustiças será deixada de lado: “Nunca mais esquecerei o que eles fizeram” (v. 7).

A sentença de Amós nos recorda que o Senhor é o justo juiz. Não um juiz punitivo e impiedoso, como nosso imaginário pode construir, mas juiz com espírito de verdadeira justiça, que provoca itinerários de conversão, de transformação dos estilos de vida. Nosso tempo, também marcado por inúmeras corrupções e falcatruas, precisa ser iluminado pela justiça de Deus e, acolhendo a oportunidade e o convite deste ano santo jubilar, buscar caminhos de transformação das pequenas e grandes injustiças que fazem parte da nossa vida.

2. II leitura (1Tm 2,1-8)

Se o profeta Amós, denunciando as injustiças do seu tempo, convida à conversão, a primeira carta de Paulo a Timóteo nos apresenta a universalidade do amor de Deus: “ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (v. 4). A Boa Notícia de Jesus não é seletiva ou exclusiva. O papa Francisco sempre insiste que a Igreja, o perdão, a acolhida devem ser para “todos, todos, todos...”. De fato, é interessante ficarmos atentos a quantas vezes a leitura repete a palavra “todos”. Deus salva a todos, mas é preciso assumir um estilo de vida em que haja coerência entre o que somos e o que Deus sonha em nós.

Uma atenção especial é sugerida por Paulo para a oração universal:  “Antes de tudo, recomendo que se façam preces e orações, súplicas e ações de graças” (v. 1). A oração deve ser como um reflexo da vida, sem dissonâncias entre o que vivo e o que rezo. Muito além de consistir somente em palavras exteriores, a oração é o mergulho no amor de Deus, para que Ele possa crescer em nossa vida e santificá-la: “façam a oração, erguendo mãos santas, sem ira e sem discussões” (v. 8). Nesse sentido, o desafio maior não é a quantidade de orações, mas sim tornar a vida uma oração.

A oração precisa atravessar aquilo que somos, todas as nossas relações! Em cada pessoa, a oração pode assumir uma perspectiva particular: rezar é aprender a viver mais pacientemente; rezar é alargar o coração; rezar é estender mais a mão e partilhar; rezar é silenciar; rezar é aprender a esperar; rezar é discernir a vontade de Deus; rezar é reconciliar(-se), aceitar um pedido de perdão!

3. Evangelho (Lc 16,1-13)

Um administrador desonesto é elogiado por Jesus. Trata-se da parábola do administrador que esbanjava os bens de um homem rico. Ao ser descoberto, buscou logo uma forma de “fazer amigos”, ou seja, estabelecer vínculos com os que tinham dívidas com o patrão: ao que devia cem barris de óleo, disse que escrevesse cinquenta (v. 6); ao que devia cem medidas de trigo, disse que escrevesse oitenta (v. 7). “Ele agiu com esperteza” (v. 8), disse Jesus.

A esperteza que Jesus menciona não é a esperteza fundamentada na enganação, no suborno, mas na possibilidade de “fazer amigos com o dinheiro injusto” (v. 9). É a relação que pode salvar a possível demissão do administrador. No fundo, trata-se do “resto” de misericórdia que a esperteza foi capaz de ativar. De fato, disse Jesus, “os filhos deste mundo são mais espertos nos negócios que os filhos da luz” (v. 8). Aprender da esperteza

desse administrador significa intensificar a experiência das relações de fraternidade, avançar na capacidade de “dividir pela metade”, facilitar o pagamento da dívida, fazer que uma família possa dormir tranquila porque terá alguns barris de óleo e algumas medidas de farinha a mais para sobreviver.

A honestidade na administração dos bens está na possibilidade e na “esperteza” de encontrar estradas para viver a administração da misericórdia, a administração do amor. O que o Evangelho propõe é uma reviravolta no estilo de vida cristão, uma verdadeira conversão dos nossos hábitos, entre os quais pode figurar a esperteza para fazer o mal. São Bento, ao escrever sua Regra, de fato, disse que nenhum monge deveria esquecer uma verdade fundamental: “Prometa a conversão dos seus costumes” (58,17).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Christoph Theobald, um dos grandes teólogos contemporâneos, sugere pensar o cristianismo como um “estilo” em que o conteúdo da vida e a forma com que se vive estão bem conectados. Trata-se de contínuo esforço de equacionar fé e vida como um estilo que perpassa todos os nossos dias. A liturgia da Palavra, de fato, convida-nos a transformar nossas perversões, que desumanizam aquilo que somos. Uma das sensações da corrupção é a alegria de tirar proveito da pequenez do outro; no entanto, essa sensação corrupta machuca ainda mais a nós mesmos, aquilo que somos, desvirtua nossa vocação para fazer o que é certo, além de aumentar os cenários de injustiça. Não podemos assumir o estilo de vida de um/a seguidor/a de Jesus se não adequarmos a “esperteza” à construção e ao anúncio do Reino de Deus. Se estamos distantes disso, precisamos acolher novamente o convite à salvação que se perdeu na dureza do coração.

Maicon Malacarne*

*é presbítero da diocese de Erexim, pároco da paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana – Roma.