Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2025 - ano 66 - número 365 - pp. 52-54

28 de setembro – 26º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Maicon Malacarne*

Com Jesus, diminuir os abismos da humanidade

I. INTRODUÇÃO GERAL

Neste 26º domingo do Tempo Comum, o Evangelho nos apresenta a parábola de Lázaro e do homem rico. Jesus desafia os fariseus a construir novas relações – em primeiro lugar, entre as pessoas e, depois, com os bens da terra. Atentar para o abismo que “separa” os dois personagens principais é fundamental para compreender que a Boa Notícia de Jesus não é um código moral, um conjunto de normas, senão que o esforço cotidiano de diminuir as distâncias e viver nova fraternidade. O profeta Amós e a carta de Paulo a Timóteo iluminam este grande convite de Jesus: perceber as grandes injustiças, denunciá-las e dar um testemunho exigente de fidelidade, que dá sentido real à vida.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Am 6,1a.4-7)

No último domingo, o profeta Amós fez uma denúncia contra os comerciantes que enganavam o povo da época por meio de diferentes formas de corrupção. O mesmo profeta denuncia, neste domingo, outro grupo bem específico: “Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião, os que se sentem seguros nas alturas de Samaria!” (v. 1). Trata-se dos chefes políticos, dos aristocratas, dos grandes poderosos que viviam em seus palácios, distantes, e submetiam o povo a grandes sofrimentos.

Amós descreve a vida suntuosa deles em suas residências, suas festas, suas comidas e bebidas, a ostentação da riqueza à custa do trabalho dos pobres. Diante dessa injustiça, o profeta anuncia o juízo de Deus, que não permanece indiferente: “eles irão agora para o desterro, na primeira fila, e o bando dos gozadores será desfeito” (v. 7).

De fato, anos mais tarde, em 722 a.C., os assírios invadiram e destruíram a Samaria, mataram e dispersaram os habitantes. Cumpriu-se a palavra do profeta. A denúncia é sempre um grande farol para refletir sobre nosso estilo de vida. Os bens, o luxo, a ostentação são sempre perigosos e criam a falsa imagem de imortalidade. Nossa vida espiritual, que conduz o itinerário dos nossos dias, deve ser orientada para uma vida modesta, justa, solidária e amorosa, conforme indica a liturgia da Palavra deste domingo.

2. II leitura (1Tm 6,11-16)

Na parte conclusiva da primeira carta de Paulo a Timóteo, encontramos o grande convite ao testemunho da fé. Testemunhar significa acolher a Boa Notícia de Jesus e comunicá-la ao mundo, especialmente por meio da forma de vida, das palavras e das ações de cada dia.

O testemunho fiel de um seguidor de Jesus, destaca Paulo, desenvolve-se em várias direções: sabe discernir as falsas mensagens das verdadeiras, amadurecer a diferença entre aparências e realidade, “procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão” (v. 11). Não é uma tarefa fácil! A referência de tudo é Jesus Cristo: “Diante de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu o bom testemunho da verdade” (v. 13). Jesus é a primeira testemunha de fidelidade até a cruz, até o fim!

Pelo batismo, fomos introduzidos à vida em Cristo, e a vida batismal nos desafia para o compromisso de viver as virtudes e o discernimento que Paulo solicitou a Timóteo, bispo de Éfeso, e, consequentemente, a todas as lideranças comunitárias. Trata-se de assumir a vida de batizados, sendo fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo, testemunhando essa fidelidade firmados no bem, sem corromper ou instrumentalizar a mensagem salvadora e libertadora do Senhor.

3. Evangelho (Lc 16,19-31)

O Evangelho deste domingo desenha um quadro muito desafiador. Jesus conta uma parábola aos fariseus (v. 19), falando de um homem muito rico, sem nome, e um homem muito pobre, de nome Lázaro. Para matar a fome, Lázaro esperava algumas migalhas caírem da mesa do rico, que nunca nem sequer viu o pobre. Ele estava muito preocupado com outras coisas! Os dois, embora com diferenças abissais em vida, dividem o mesmo destino: a morte.

A morte é o acontecimento em que todas as diferenças desaparecem! Na morada eterna, Lázaro foi acolhido e o rico padeceu em meio às chamas e ao sofrimento.

A parábola não faz um julgamento moral sobre a riqueza e a pobreza. O sofrimento do rico não foi porque ele era rico e a acolhida de Lázaro não foi porque ele era pobre. O que está em jogo é o “abismo da separação”, é a opção pelo egoísmo, pela distância, pelo fechamento, que contradizem a natureza da criação humana e a força transformadora do Evangelho.

Jesus não contou a parábola para dizer como será a eternidade, na perspectiva única da salvação, mas para afirmar um estilo de vida, superando as divisões e estabelecendo relações de proximidade. O julgamento final é a continuidade das nossas escolhas! Quando o rico se deu conta disso, o Evangelho diz que ele “levantou os olhos” (v. 23). O homem rico só tinha olhos na direção da sua riqueza e era cego para alcançar Lázaro; só via a si mesmo, seus problemas e sua mesa cheia.

Na tradição bíblica, quando ajudamos alguém, não estamos fazendo um favor. Para a teologia da criação, tudo é de Deus, e se um irmão ou uma irmã estão sem nada, isso ocorre porque existe o pecado grave da falta de partilha. Por exemplo, o papel da esmola, um dos exercícios quaresmais, é garantir o direito dos pobres e abrir um caminho de construção da justiça e da salvação.

O Evangelho é objetivo: trata-se de diminuir as distâncias, superar os abismos e construir relações saudáveis para retomar o plano criador de Deus e a Boa Notícia anunciada e vivida por Jesus Cristo.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A morte é um acontecimento inevitável. Adélia Prado, em uma poesia, chama-a de “minha comadre”. Ela está sempre diante dos nossos olhos, mas a liturgia da Palavra nos recorda que a morte não deve ser pensada apenas como um “depois”, e sim como real continuidade do hoje. O perigo maior é de não viver. Não viver significa gastar a vida com coisas supérfluas, com máscaras, com divisões e separações, com ostentação, com uma vida rasa, sem propósito, que dança conforme o vento. Uma vida perdida. Consigo acolher uma vida que supera os abismos? Uma vida relacional e desapegada tem espaço no meu projeto de vida? De fato, Victor Hugo, no clássico Os miseráveis, escreveu: “Morrer não é nada, o mais difícil e mais assustador é não viver!”.

Maicon Malacarne*

*é presbítero da diocese de Erexim, pároco da paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana – Roma.