Roteiros homiléticos

4º Domingo da Quaresma – 31 de março

Por Aíla Luzia Pinheiro Andrade

É necessário celebrar a reconciliação

I. Introdução geral

Nas leituras de hoje, há um convite para a celebração e para a reconciliação. Nesse convite, está implícita a necessidade de mudarmos nossa visão sobre Deus e, consequentemente, nossa relação com ele. Deus não é como o faraó do Egito, e nós não devemos manter com ele uma relação interesseira, mas de amor gratuito e filial. Somente à luz desse novo olhar para Deus é que poderemos compreender o modo pelo qual ele atua na história. Enquanto pensarmos que somos justos, faremos mau julgamento das pessoas que não seguem nossos padrões religiosos. Agindo assim, seremos incapazes de sentir a necessidade de reconciliação com Deus e com o próximo.

II. Comentários aos textos bíblicos

1. Evangelho: Lc 15,1-3.11-32

Em Lc 15 está a chave de interpretação da obra de Jesus: Deus sai em busca do perdido. Os vv. 1-3, introdutórios, apresentam o contexto e a motivação das parábolas. Os cobradores de impostos e os pecadores se aproximam de Jesus para ouvi-lo, enquanto os fariseus e os escribas criticam a atitude de Jesus, que toma refeição com os pecadores. Sabe-se que participar da mesma mesa significa comungar das ideias e do estilo de vida. Ao partilhar a refeição com os pecadores, Jesus põe em jogo sua reputação de homem de Deus. Mas as parábolas que ele contará vão contrapor-se às murmurações dos seus adversários, mostrando a ação do Pai, que se reflete na atuação de Jesus.

O texto se divide em duas cenas: o filho mais jovem (15,11-24) e o filho mais velho (15,25-32). Estas são unidas pela ação do pai, o protagonista de todo o relato. O ponto central é o encontro com o pai, comentado pelo refrão que sela toda a cena: “Este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado” (15,24).

Os vv. 11-16 narram a situação do filho mais novo, sua emancipação e o desperdício de sua herança. A herança não significa exatamente bens materiais, mas tudo o que sustenta a vida. O filho mais novo se distancia, rompe com o pai; vai para uma terra longínqua, dissipa os bens e, finalmente, chega a uma situação desumana, pois cuidar dos porcos é o nível mais baixo que um judeu poderia descer em sua dignidade. Fato mais agravante é nem sequer poder alimentar-se da ração destinada a esses animais.

Os vv. 17-21 narram o processo de retorno à casa paterna. Inicialmente, com a tomada de consciência sobre a vida digna que poderia ter na casa do pai como empregado. A lembrança da fartura é contraposta à sua situação de fome e miséria. Num primeiro momento, é a fome que o impele a voltar para casa. Sabedor de seu erro, porém, reconhece que não é digno de ser acolhido como filho. Por fim, recordando-se da bondade do pai, que não maltratava seus empregados, retorna em busca de pão. O pai, ao avistá-lo, corre-lhe ao encontro, movido de compaixão, envolve-o num abraço e cobre-o de beijos – ou seja, acolhe-o como filho amado. Ordena aos empregados que tragam roupa nova, joia e sandália, para que o filho seja restituído em sua dignidade filial. Em seguida, exige que se celebre o retorno à vida. É a alegria pelo pecador que foi convertido, pelo perdido que foi encontrado. Aqui se justifica a atitude de Jesus de partilhar a refeição com os pecadores.

Nos vv. 25-32 entra em cena o filho mais velho. Ele se ressente porque o pai acolheu o filho mais novo sem reservas. O ressentimento o leva a manter-se fora, a não comungar com a atitude paterna, e por isso até critica o pai. Este sai ao encontro desse filho também e suplica-lhe que entre, pois é necessário alegrar-se e festejar o retorno do filho mais jovem. Contudo, o filho mais velho está enciumado, porque não mantém com o pai uma relação afetiva, mas sim serviçal.

A narrativa termina com um convite para celebrar o retorno do pecador arrependido. Jesus mostra que o Pai sai em busca dos perdidos e festeja porque são resgatados. Essa era também a atitude de Jesus e deve ser a nossa.

2. I leitura: Js 5,9a.10-12

Embora o Senhor tenha sido sempre fiel, a aliança ficou parcialmente interrompida por causa da desobediência daqueles que saíram do Egito. Conforme o v. 9, a entrada na terra prometida faz que Deus remova definitivamente a vergonha do povo. Considerando a expressão “opróbrio dos egípcios”, os mestres judeus interpretam que os egípcios escarneciam dos hebreus peregrinos no deserto, duvidando de que Deus lhes cumprisse a promessa.

A Páscoa não havia sido celebrada no deserto. Agora, nova geração de hebreus reconcilia-se com Deus, retomando a aliança e o projeto divino. A celebração da Páscoa na terra prometida é renovação da aliança e reinaugura o processo histórico salvífico para o povo de Deus. Na festa da Páscoa, os hebreus celebram, principalmente, a gratuidade do Senhor, que os amou e os libertou da escravidão, os alimentou e lhes deu uma terra onde pudessem viver com dignidade.

Portanto, o texto enfatiza esse novo começo, essa nova etapa na vida e na história de Israel que implicava uma ruptura com a desobediência do deserto. A celebração da Páscoa atualiza, ritualmente, a libertação da escravidão, mas também serve para fazer memória da história, aprender com os erros e solidificar a fidelidade a Deus.

Além de enfatizar a reconciliação na celebração da Páscoa, o texto ressalta que os hebreus comeram do produto da terra e depois disso o maná cessou (cf. vv. 11b e 12a). Esse detalhe mostra uma mudança. O povo passou do maná providenciado durante a peregrinação no deserto para o alimento que era fruto da terra. Assim como o maná, o fruto da terra é símbolo da provisão generosa de Deus, agora de forma diferente, porque a etapa histórica também é diferente.

Os hebreus estavam na terra da qual Deus havia dito que manava leite e mel, e a palavra de Deus se cumpria agora que provavam dos frutos dessa terra fértil, onde poderiam viver com dignidade. O povo confirmava a generosidade do Senhor e o total cumprimento de suas promessas.

A posse da terra prometida exigia um povo renovado, distinto do que estava no Egito, com um estilo alternativo de viver, como uma nova humanidade. Era a consolidação das relações entre Deus e seu povo e a afirmação da identidade de povo de Deus. Por isso era necessário celebrar.

3. II leitura: 2Cor 5,17-21

A reconciliação descrita nesse capítulo exige uma vida nova e diferente. Os vv. 16-21 ressaltam que o começo dessa vida nova é marcado pelo modo como julgamos os outros. A sociedade atual avalia as pessoas pela aparência, pela cultura, pela inteligência, pelas posses e por sua habilidade em manipular as circunstâncias. No âmbito religioso, há a tendência de julgar os menos engajados ou os desengajados da Igreja como “pessoas do mundo” e de má conduta.

Paulo declara enfaticamente que a perspectiva do cristão, ao ver todas as coisas, deve ser a mesma de Jesus. O apóstolo é credenciado para afirmar isso porque houve um tempo em que ele julgou erroneamente os seguidores do Messias.

Os vv. 17-19 salientam que em Cristo todas as coisas são velhas e agora tudo é novo, e isso ocorre por causa da graça de Deus, que reconciliou o mundo inteiro consigo. Estar “em Cristo” (v. 17a) representa uma relação íntima, e Paulo a expressa com o termo “nova criatura” (v. 17b). Falar de nova criação era a maneira usual com que se descrevia um prosélito judeu (alguém que se convertia ao judaísmo). Esse conceito adquiriu um sentido mais profundo. Os cristãos são novas criaturas porque, “em Cristo”, são pessoas renascidas que assumem atitudes novas por meio de um espírito novo.

Por Cristo, Deus criou nova humanidade; tudo vem de Deus, ele é o autor da salvação. O impacto da sua obra redentora é a reconciliação (v. 18). O verdadeiro significado da reconciliação é que Deus tomou a iniciativa de perdoar ao ser humano por seus crimes, faltas, hostilidade, rebelião e pecado. A iniciativa foi sempre de Deus.

Na reconciliação, o perdão é essencial. Deus não considerou nossas transgressões (v. 19b), mas tomou a iniciativa de perdoar. Quando alguém experimenta a reconciliação com ele, é natural que queira reconciliar-se com seu semelhante. Além disso, Deus “nos deu o ministério da reconciliação” (v. 18c). Somos portadores e agentes que têm a obrigação de realizar a reconciliação entre a humanidade e Deus; consequentemente, a reconciliação se torna possível e necessária entre os seres humanos.

Deus pôs em nossas mãos a palavra de reconciliação e espera que sejamos seus mensageiros (cf. v. 19c). A reconciliação não é iniciativa nossa, mas é algo que Deus realizou por meio de Cristo (cf. v. 20). O Senhor pôs de lado tudo aquilo que significava distanciamento a fim de proclamar a paz entre o Criador e a criatura. O evangelho é boa notícia, a reconciliação realizada por Deus merece e deve ser proclamada à humanidade inteira.

Paulo nos leva ao ápice do ministério cristão com a declaração de que “somos embaixadores de Cristo” (v. 20a). O papel do embaixador é singular, porque está credenciado pela autoridade que o enviou. Deus nos delega como embaixadores para a obra reconciliadora.

III. Pistas para reflexão

Enfatizar que nossa condição de cristãos não nos identifica com o filho mais velho, cumpridor dos mandamentos, mas sim com o filho pecador e necessitado de perdão. Procurar fazer que cada pessoa da assembleia se identifique com o filho mais novo, porque somente assim será possível celebrar a nossa libertação definitiva do pecado e da morte na Páscoa do Senhor.25

Aíla Luzia Pinheiro Andrade

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj, é graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com