Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2025 - ano 66 - número 365 - pp. 44-46

7 de setembro – 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Maicon André Malacarne*

Perder tudo para ganhar tudo: a sabedoria de Deus!

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia da Palavra deste 23º domingo do Tempo Comum – dia da Independência do Brasil – põe no centro o discipulado de Jesus e as exigências que configuram um novo modo de ser no mundo. Jesus convida ao desapego e chama a “carregar a cruz”, atitudes que devem ser enraizadas no Evangelho, com o discernimento do homem que quer construir uma torre e do rei que sai para guerrear contra o inimigo. O discipulado não pode ser compreendido como o cumprimento de normas exteriores, uma lista de códigos, mas deve ser aprofundado naquilo que a primeira leitura chama de “sabedoria divina”. Tal sabedoria é testemunhada na segunda leitura, em que a intercessão de Paulo em favor de um escravo fugitivo, Onésimo, guarda o pedido para que o cristão Filêmon, o dono do escravo, o acolha “não mais como escravo, mas como irmão querido”. Essa novidade relacional só pode ser alcançada à luz da sabedoria “do alto”.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sb 9,13-18)

Estamos diante de uma oração de súplica por sabedoria! Uma dimensão da sabedoria é aquela dos livros, das pesquisas e dos métodos científicos – que é muito importante e devemos aprofundar para participar do ato criador de Deus. Outra dimensão, no entanto, é a sabedoria que é fruto da graça de Deus. Esta não se aprende nas noções e códigos técnicos, mas com base em profunda comunhão com o Senhor:  “Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor?” (v. 13).

Diante dos inúmeros acontecimentos de cada dia, muitas respostas podem ser encontradas na sabedoria humana, na leitura de dados, mas o “passo a mais”, a “compreensão profunda”, é fruto do discernimento da graça, que não envolve um esforço pessoal, uma conquista individual, senão que a abertura àquilo que o Senhor capacita cada pessoa para viver, no amor.

Nossos dias são marcados, por exemplo, pela urgência climática, por tragédias de dias muito quentes e de tempestades nunca vistas, resultantes do aquecimento global e do efeito estufa. A ciência consegue oferecer respostas razoáveis sobre esses acontecimentos. O autor do livro da Sabedoria propõe – além disso – aprofundar todas as realidades à luz do “pensamento de Deus” (v. 14). Não se trata de contrapor uma sabedoria a outra, mas sim de buscar a comunhão mais profunda entre a sabedoria humana e a sabedoria divina, porque “só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra, e os homens aprenderam o que te agrada e pela Sabedoria foram salvos” (v. 18).

2. II leitura (Fm 9b-10.12-17)

A carta a Filêmon é um pequeno bilhete de poucas linhas em que Paulo se dirige a esse amigo pedindo por Onésimo, um escravo de Filêmon que havia fugido e foi convertido pelo anúncio de Paulo, na prisão. A carta é muito afetiva e encontra seu ponto alto nos v. 15-16: “Se ele te foi retirado por algum tempo, talvez seja para que o tenhas de volta para sempre, já não como escravo, mas, muito mais do que isso, como um irmão querido”.

De fato, um patrão tinha o domínio total sobre seu escravo. No caso de um escravo fugitivo, o patrão poderia vingar-se de diferentes formas. O pedido do apóstolo é para que Onésimo seja acolhido já não como escravo, mas como “irmão querido”. Aqui está o coração do Evangelho anunciado pela vida de Paulo. A abolição da escravatura, para um seguidor de Jesus, deve ser mais do que a promulgação de uma lei exterior e abranger a busca contínua e profunda pela fraternidade entre todas as pessoas.

A vida nova dos batizados põe em evidência não a divisão entre patrões e escravos, mas um estilo de vida cujo ápice é o amor, traduzido em respeito e reciprocidade. Na carta aos Gálatas, Paulo traduziu o mesmo amor com outras palavras: “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vocês são um só em Cristo Jesus” (3,28).

3. Evangelho (Lc 14,25-33)

As grandes multidões que seguiam Jesus – às vezes, como hoje, por motivos duvidosos – são desafiadas a aprofundar o significado do discipulado ou, à luz da primeira leitura, a sabedoria do discipulado, a qual jamais pode ser confundida com a busca de desejos pessoais, mas leva a pessoa a configurar um novo estilo de vida, segundo o Evangelho.

A primeira condição apresentada por Jesus é o desapego (v. 26). Desapegar-se não é esquecer, um “deixar pra lá” sem fundamento. Desapegar-se é discernir entre o que é prioritário e secundário, é a atenção com os pesos e medidas da vida. Jesus estabeleceu esse critério não como desatenção ao pai, à mãe, à mulher e aos filhos, mas como proposta para viver todas as relações à luz do mistério do discipulado: perder tudo para ganhar tudo! Gosto muito de rezar o desapego com as palavras do poeta Charles Péguy: “Fazei com que o vosso exame de consciência seja como o limpar os sapatos: não aconteça que leveis continuamente convosco a lama ou a recordação da lama no vosso caminho”. A lama e a recordação da lama são pesos que não precisamos carregar!

O seguimento de Jesus exige ainda outra condição: carregar a cruz (v. 27). Não se trata de um elogio ao heroísmo do discípulo, nem mesmo de aplausos aos sofrimentos:  “carregar a cruz” é convite para viver o cotidiano com suas exigências, com suas medidas, que nem sempre são fáceis. Quando ouvimos falar de cruz, já imaginamos morte, tragédia. Jesus ajuda a compreender outra dimensão da cruz, que é aquela do dia a dia, da repetição, dos sofrimentos a que todos estamos sujeitos no cansaço, na convivência com as pessoas, nas crises familiares, nos limites humanos, na falta de paciência, nos fracassos. São as cruzes de “cada dia”, que devem nos mobilizar para encontrarmos a bússola indicativa da liberdade, da esperança, da vida nova. Pela cruz experimentamos a solidariedade. Descobrimos, na cruz, que ninguém sofre sozinho e que as cruzes ficam mais brandas quando repartidas.

As imagens da construção de uma torre (v. 28-30) e do rei que sai para guerrear (v. 31-32) ajudam a compor o cenário das exigências do discipulado. Trata-se de “planejar”, de “construir”, de “elaborar planos” condizentes com o coração de Deus! A sabedoria humana deve ser cumulada na sabedoria do amor que torna o discipulado uma esperança de vida nova para todas as pessoas. Renunciar a tudo, perder tudo, viver da pobreza de coração é ganhar tudo, de um jeito muito maior.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O poeta Rainer Maria Rilke diz que “amar é durar”. Nestes nossos tempos absorvidos pela “liquidez”, em que tudo “escorre pelas mãos”, escolher firmemente o “durar” é amadurecer um caminho mais lento, observar com maior atenção, respirar com maior leveza, tratar os outros com maior gentileza, ativar sensações que a velocidade não permite e processos coletivos que o egoísmo quer bloquear. A “sabedoria de Deus” exige uma vida nova, um estilo que é desconcertante aos olhos do mundo e que sobrevive de fraternidade – relacionamentos novos fundados no amor. Ser discípulo/a de Jesus Cristo, mais do que nunca, é testemunhar radicalmente, com a própria vida, um mundo diferente, enfrentando os desafios e, em meio a eles, ativando máquinas de esperança, doadoras de um novo sentido da vida!

Maicon André Malacarne*

*é presbítero da diocese de Erexim, pároco da paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana – Roma.