Roteiros homiléticos

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 9 de julho

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

O Senhor é bondade e mansidão

  1. Introdução geral

Jesus é o revelador do Pai. O Deus que se revela através de Jesus é inaudito, não segue os padrões de rigidez preestabelecidos pela religião daquela época. Por isso os “sábios e entendidos” deste mundo não acolhem a revelação de Deus que Jesus lhes traz e rejeitam o enviado do Pai. Os pequenos, ao contrário, acolhem Jesus, porque se alegram no encontro com um Deus bondoso, misericordioso, cheio de mansidão.

II – Comentário dos textos bíblicos

 

  1. Evangelho (Mt 11,25-30): manso e humilde de coração

Perante os sábios e entendidos, representados pelos orgulhosos galileus dos versículos da passagem anterior (Mt 11,20-24), estão os “pequenos” que acolheram a palavra de Jesus, o qual é a revelação da vontade do Pai. Os “sábios e entendidos” são os que organizam a vida segundo cálculos econômicos, padrões sociais e leis religiosas. Os “pequenos” são os simples, os pobres, os excluídos da sociedade e da religião. São aqueles capazes de compreender que é possível outro mundo, outra vida, outra humanidade. Estes são os que verdadeiramente “sabem”, os que obtêm um conhecimento superior em contato com o modo de viver de Jesus.

Essa passagem proclama a “inversão” evangélica, ou seja, a revelação do conhecimento supremo que se expressa no amor mútuo, na ternura, na acolhida ao outro. A verdade sobre Deus é compreendida pelo coração, ela é a verdade da vida a serviço do próximo e na acolhida do pecador.

A revelação que nos diz quem é Deus não é encontrada nas leis do mercado internacional, nem nos padrões sociais, nem na rigidez das normas religiosas. Mas está fundada na experiência de Jesus, que dialoga com Deus, como um Filho com seu Pai. Por isso Jesus dá graças ao Pai em gesto de admiração e louvor.

Jesus não é um mestre transmissor de uma lei que distancia as pessoas de Deus. A função fundamental de Jesus consiste em agir como revelador de Deus para as pessoas, por isso, ao falar de Deus, está falando de si mesmo. A vida de Jesus nos diz quem é o Pai. Jesus age à maneira do Pai. O Deus que se revela em Jesus não é um juiz implacável, mas um Pai cheio de mansidão e de bondade, misericordioso e fiel, pronto para tirar o jugo do pecado que pesa sobre nós e nos conceder a paz.

 

  1. I leitura (Zc 9,9-10): o rei humilde vem a teu encontro

Era comum na Antiguidade que os reis fizessem um cortejo triunfal ao voltarem da guerra, exibindo pessoas e objetos como troféus de vitória. No texto de Zacarias, ao contrário, o cortejo real sem a pompa característica de sempre deixa claro que se trata de um rei humilde e pacífico que não imporá seu domínio através da guerra.

Nota-se a humildade do rei através da forma como ele vem montado, sobre um animal de carga, e não sobre o cavalo, como ostentavam os reis e monarcas da época. O cavalo era a montaria própria do rei que ia para a guerra, o jumento era usado quando se queria expressar um caráter amistoso.

Além disso, o texto de Zacarias afirma que o rei messias eliminará todo poderio militar e seu domínio difundirá a paz por toda a terra, entre todas as nações.

  1. II leitura (Rm 8,9.11-13): viver em humildade

Nesse texto da segunda leitura, Paulo elenca as implicações da vida cristã. Se recebemos o Espírito Santo, é para viver na mesma dinâmica que Jesus viveu. Não é possível ser cristão e viver uma vida totalmente diferente daquilo que Jesus fez e ensinou. O apóstolo elenca que há dois modos diferentes de viver: conforme o espírito ou conforme a carne.

Há pessoas que colocam o foco de sua vida, ou seja, tomam suas decisões e fazem suas escolhas, tendo por meta a edificação do reino de Deus. Significa que, em tudo que fazem, dizem ou vivem, procuram fazer a vontade divina. De acordo com Paulo, essas pessoas vivem segundo o espírito, pois visam ao que é definitivo, espiritual, verdadeiro.

Outras pessoas permitem que a direção de sua vida seja determinada por tudo que é efêmero, fugaz, relativo. Estas estão muito apegadas a tudo que é deste mundo, ao prazer, ao acúmulo de bens e à indiferença com relação à vontade de Deus.

Essas pessoas não estão interessadas na dimensão espiritual da vida; sua norma de conduta é tirar vantagem em tudo. Mesmo que se digam religiosas e frequentem a igreja, são pessoas carnais, no dizer do apóstolo. Pois viver segundo o espírito é viver em humildade, mansidão, na misericórdia e na acolhida ao outro, como Jesus nos ensinou.

III. Pistas para reflexão

Levar a comunidade a refletir sobre o significado de ser cristão.

Um verdadeiro discípulo de Cristo não é aquele que simplesmente vai à igreja, está engajado na paróquia e recebe os sacramentos. Ser cristão é muito mais que isso, é viver como Cristo viveu, é ser manso, humilde, misericordioso e bondoso à maneira de nosso Pai celeste, como nos foi mostrado por Jesus.

Lembrar que há pessoas que se sentem muito santas, justas e corretas e, no entanto, não exercem a misericórdia, revidam o mal com o mal, não praticam o perdão e constantemente julgam e condenam todos os que não vivem segundo seus critérios ou conforme sua noção de Deus como juiz implacável que se compraz em enviar os pecadores para o inferno.

Os batizados precisam ser evangelizados. Há muitos cristãos que desconhecem os verdadeiros ensinamentos de Cristo. Mesmo entre aqueles que são católicos desde longa data, há muita resistência em aceitar o amor do Pai misericordioso que se revelou na vida, nos atos e nas palavras de Jesus.

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj, é graduada em Filosofia e em Teologia. Cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco, UNICAP. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com