Roteiros homiléticos

17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 30 de julho

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Vossa vontade vale mais que ouro e prata (Sl 118,72)

  1. Introdução geral

As leituras de hoje nos falam sobre a prioridade fundamental em nossa vida, o reino de Deus. Esse aspecto é muito atual, porque nossa época revela uma crise de valores. Todos os dias vemos, nos meios de comunicação, uma verdadeira batalha para vender ideologias, que vão desde fórmulas para emagrecimento instantâneo até milagres e exorcismos. Isso mostra quanto estamos acostumados a colocar em primeiro lugar, em nossa vida, os interesses particulares e egoístas. As leituras de hoje nos exortam a saber distinguir o verdadeiro do falso, a discernir os valores e a acolher o valor mais alto que deve sobrepor-se a todos: a vontade de Deus a ser praticada em nosso cotidiano.

Santo Inácio de Loyola nos orienta que o ser humano deve usar de tudo que possa ajudá-lo a atingir a “finalidade para a qual foi criado”, que é sua salvação, e, da mesma forma, deve desvencilhar-se de tudo que o impede de alcançá-las (Exercícios Espirituais, n.23).

       II – Comentário dos textos bíblicos

  1. Evangelho (Mt 13,44-52): o reino de Deus é como um tesouro, uma pérola

Na parábola narrada por Jesus, o reino de Deus aparece como o maior de todos os tesouros, a joia mais rara, que todos deveriam querer para si e fazer todas as renúncias para conseguir. Além disso, o reino de Deus é um dom que todos podem encontrar, pois nos foi legado por Jesus.

As duas parábolas, a saber, a do tesouro e a da pérola, nos colocam diante do máximo valor, mas, ao mesmo tempo, exigem de nós o maior desprendimento: há que deixar algo por ele, há que renunciar a tudo para conseguir o tesouro e para obter a pérola. É um paradoxo; sendo puro dom, contudo, exige uma opção radical.

O Reino é tarefa e compromisso, um caminho e um modo de viver. O Reino se identifica com o modo de viver de Jesus, pois é compromisso de amor, de acolhida e de misericórdia e justiça. É a presença de Deus no interior do ser humano, que se traduz em gesto de amor para com todos. O Reino implica uma escolha radical, de tal forma que nada deve nos impedir de participar dele. E supõe que se tenha deixado tudo para seguir Jesus.

  1. I leitura (1Rs 3,5. 7-12): vossa sabedoria, ó Senhor, vale mais que as riquezas

Os reis dos povos antigos pediam a seus deuses vida longa, segurança nacional, exército invencível, prosperidade e um poder duradouro. Também os reis de Israel pediam ao Deus da aliança vida longa, preferencialmente, além da derrota dos inimigos e riquezas; e tudo isso esperavam do Senhor, pois em nome de Deus governavam o povo eleito.

Nessa primeira leitura, Salomão fez a Deus um pedido discreto e criterioso: pediu sabedoria para discernir, para saber conciliar e fazer justiça. Ou seja, Salomão escolheu pedir os dons mais essenciais para liderar corretamente seu povo. Ele soube reconhecer os valores mais elevados que as riquezas ou a derrota de seus inimigos.

Salomão sabia que, perante as coisas deste mundo, ele era um instrumento de Deus, um intermediário através do qual Deus agia em relação ao povo eleito. E para saber como se posicionar diante de todas as coisas sem deixar de ser fiel à vontade de Deus, fazia-se necessário ter sabedoria para bem se conduzir na vida.

Salomão foi elogiado por Deus porque soube discernir o que é mais precioso para quem tem fé.

  1. II leitura (Rm 8,28-30): o Senhor é nossa herança, ele nos criou por amor

A segunda leitura afirma que somos predestinados. O que isso significa? Ao escrever isso, Paulo tem em mente que, desde toda a eternidade, Deus tem um projeto de amor, a saber, a salvação do ser humano. Significa que a salvação do ser humano está prevista nos planos de Deus desde sempre; é nesse sentido que somos predestinados, ou seja, no sentido de que isso estava previsto, faz parte do plano divino.

Santo Inácio de Loyola nos diz que fazer a redenção humana é uma decisão das Três Pessoas Divinas (Exercícios Espirituais, n.107). A redenção ou salvação faz parte do amor de Deus pelo ser humano, amor gratuito e incondicional que está aberto a todos, e não restrito a um grupo seleto de pessoas.

A salvação prevista no plano de Deus não é algo abstrato, mas significa que quem aderir a Jesus, vivendo como ele viveu, identifica-se com ele e, por isso, liberta-se do egoísmo e do pecado. Para isso, o Espírito Santo vem em nosso auxílio em todas as circunstâncias da vida, e, por isso, tudo concorre para o nosso bem.

Dizer que “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (v. 28) não é no sentido de que tudo vai dar certo, que nada de ruim vai nos atingir e que seremos blindados contra os dissabores da vida, como muitos pregam hoje em dia. Significa que Deus fará com que todas as circunstâncias, inclusive as coisas ruins que nos acontecem, concorram para a nossa santificação. Tudo o que nos acontece fica submetido à finalidade principal de nossa vida, que é a salvação e a participação no reino de Deus, para as quais fomos criados.

As coisas ruins que nos acontecem devem servir para nos ajudar no caminho da santificação, porque nada que nos acontece poderá mudar o projeto de Deus que é nos levar à plenitude do Reino. Mas tudo isso exige sabedoria para colocar em primeiro lugar o reino de Deus, o verdadeiro valor de nossa existência.

III. Pistas para reflexão

A homilia deve despertar na assembleia a importância de saber escolher e de valorizar o que realmente é importante. Saber que nossa melhor escolha é por Deus e pelo seu reino de justiça, misericórdia e paz. Que Deus é nosso maior bem; ele está conosco e cuida de nós. Seu Espírito nos envolve e transforma tudo que nos rodeia num bem para nossa santificação.

Ser cristão não é pertencer a uma elite predestinada de vencedores que não passam por nenhum desconforto, incômodo, problema ou sofrimento. Ser cristão é optar por Cristo e pelo seu estilo de vida, que pode nos levar à cruz. Contudo, não ficaremos desamparados nem abandonados. Deus cuida de nós, e o Espírito Santo transforma tudo que nos acontece em motivo de plenificação de nossa vocação à santidade. Sofremos, mas somos felizes porque Deus está conosco; pior é sofrer sem ter o conhecimento do amor de Deus.

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj, é graduada em Filosofia e em Teologia. Cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco, UNICAP. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com