Roteiros homiléticos

1º Domingo da Quaresma – 18 de fevereiro

Por Pe. Johan Konings, sj

I. Introdução geral

Estamos iniciando a Quaresma, tempo de conversão em vista da celebração do mistério pascal. Tempo de volta ao nosso “primeiro amor”, nosso projeto de vida assumido diante de Deus e Jesus Cristo. As leituras deste domingo ensinam-nos a acreditar na possibilidade da renovação de nossa vida cristã.

A liturgia de hoje se inspira na catequese batismal. Nos primórdios da Igreja, a Quaresma era preparação para o batismo, administrado na noite pascal. O batismo era visto como participação na reconciliação operada pelo sacrifício de Cristo por nós (cf. Rm 3,21-26; 5,1-11; 6,3 etc.). No mesmo espírito, a liturgia renovada do Concílio Vaticano II insiste em que, na noite pascal, sejam batizados alguns novos fiéis, de preferência adultos, e todos os fiéis façam a renovação de seu compromisso batismal. Essa insistência na renovação da vida batismal faz sentido, pois, enquanto não tivermos passado pela última prova, estamos sujeitos à desistência. Como à humanidade toda, no tempo de Noé, também a cada um, batizado ou não, Deus dá novas chances: eis o tempo da conversão.

A liturgia de hoje é animada por um espírito de confiança. Ora, confiança significa entrega: corresponder ao amor de Deus por uma vida santa (oração do dia). É claro, devemos sempre viver em harmonia com Deus, correspondendo ao seu amor. Na instabilidade da vida, porém, as forças do mal nos apanham desprevenidos. Mas a Quaresma é um “tempo forte”, em que convém pôr à prova o nosso amor, esforçando-nos mais intensamente por uma vida santa.

II. Comentários aos textos bíblicos

  1. I leitura: Gn 9,8-15

As águas do dilúvio representavam, para os antigos, um desencadeamento das forças do mal. Mas quem tem a última palavra é o amor divino. Deus não quer destruir o ser humano, impõe limites ao dilúvio e já não voltará a destruir a terra. O dilúvio é o símbolo do juízo de Deus sobre este mundo, mas, acima de tudo, está a sua misericórdia, simbolizada pelo arco-íris. No fim do dilúvio, Deus faz uma aliança com Noé e sua descendência, a humanidade inteira: apesar da presença do mal, ele não voltará a destruir a humanidade. Deus repete o dia da criação, em que venceu o caos originário, separou as águas de cima e de baixo e deu ao ser humano um lugar para morar. Faz uma nova criação, melhor que a anterior, pois acompanhada de um pacto de proteção. O arco-íris que, no fim do temporal, espontaneamente nos alegra é o sinal natural dessa aliança.

O salmo responsorial (Sl 25[24],4bc-5ab.6-7bc.8-9) lembra a fidelidade de Deus ao seu amor. O íntimo ser de Deus é, ao mesmo tempo, bondade e justiça: “Ele reconduz ao bom caminho os pecadores, aos humildes conduz até o fim, em seu amor”. Por essa razão, todos os batizados renovam, na celebração da Páscoa, seu compromisso batismal. 

  1. II leitura: 1Pd 3,18-22

A segunda leitura faz parte da catequese batismal que caracteriza a 1ª carta de Pedro. O batismo supõe a transmissão do credo. Assim, 1Pd 3,18-4,6 contém os elementos do primitivo credo: Cristo morreu e desceu aos infernos (3,18-19), ressuscitou (3,18.21), foi exaltado ao lado de Deus (3,22), julgará vivos e mortos (4,5). Tendo ele trilhado nosso caminho até a morte, nós podemos seguir seu caminho para a vida (3,18). O batismo, que lembra o dilúvio no sentido contrário (salvação em vez de destruição), purifica a consciência e nos orienta para onde Cristo nos precedeu.

Jesus, porém, não vai sozinho. Leva-nos consigo. Ele é como a arca que salvou Noé e os seus das águas do dilúvio. Com ele somos imersos no batismo e saímos dele renovados, numa nova e eterna aliança. Ao fim da Quaresma, serão batizados os novos candidatos à fé. Na “releitura” do dilúvio feita pela 1ª carta de Pedro, a imagem da arca está num contexto que lembra os principais pontos do credo: a morte de Cristo e sua descida aos infernos (para estender a força salvadora até os justos do passado); sua ressurreição e exaltação (onde ele permanece como Senhor da história futura, até o fim). Batismo é transmissão da fé.

  1. Evangelho: Mc 1,12-15

Quando de seu batismo por João, Jesus foi investido por Deus com o título de “Filho amado” e com seu beneplácito, que é, na realidade, a missão de realizar no mundo aquilo que faz a alegria de Deus: a salvação de todos os seus filhos. Assim, a missão de Jesus começa com a vitória sobre o mal, o qual se opõe à vontade de seu Pai.

O mal tem muitas faces e, além disso, uma coerência interior que faz pensar numa figura pessoal, embora não visível no mundo material. Essa figura chama-se “satanás”, o adversário, ou “diabo”, destruidor, presente desde o início da humanidade. Impelido pelo Espírito de Deus, Jesus enfrenta no deserto as forças do mal – satanás e os animais selvagens –, mas vence, e os anjos do Altíssimo o servem. A “provação” de Jesus no deserto, depois de seu batismo por João, prepara o anúncio do Reino. Aproxima-se a grande virada do tempo: Jesus anuncia a boa-nova do Reino. Deus oferece novas chances. Incansavelmente deseja que o ser humano, embora seja pecador, viva (cf. Ez 18,23). Sua oferta tem pleno sucesso com Jesus de Nazaré. Este é verdadeiramente seu Filho (Mc 1,11). Vitória escondida, como convém na primeira parte de Marcos, tempo do “segredo messiânico”.

Nos seus 40 dias de deserto, Jesus resume a caminhada do povo de Israel e antecipa também seu próprio caminho de servo do Senhor. A tentação no deserto transforma-se em situação paradisíaca: Jesus é o novo Adão, vencedor da serpente. Seu chamado à conversão é um chamado à fé e à confiança. Nas próximas semanas o acompanharemos em sua subida a Jerusalém, obediente ao Pai. Será a verdadeira prova, na doação até a morte, morte de cruz. E, “por isso, Deus o exaltou”… (cf. Fl 2,9).

Assim preparado, Jesus inicia o anúncio do reino de Deus e pede conversão e fé no evangelho, o euangélion, a alegre notícia (cf. 3º domingo do tempo comum). Que ele exorte a acreditar na novidade, a gente entende. Mas por que conversão, se se trata de boa notícia? Exatamente por isso. Pois, como mostram os noticiários da TV, estamos muito mais sintonizados com notícias ruins do que com notícia boa. Conversão não é a mesma coisa que penitência, como às vezes se traduz em Mc 1,15, sem razão. Conversão significa dar nova postura à nossa vida e nosso coração, “deixar para lá” a imagem de um Deus ameaçador para nos voltarmos a ele e a seu reinado com um coração alegre e confiante.

III. Pistas para reflexão

Celebramos o 1º domingo da Quaresma. Muitos jovens não sabem o que é a Quaresma. Nem sequer sabem de onde vem o carnaval, antiga festa do fim do inverno (no hemisfério norte) que, na cristandade, se tornou a despedida da fartura antes de iniciar o jejum da Quaresma.

A Quaresma (do latim quadragesima) significa um tempo de 40 dias vivido na proximidade do Senhor, na entrega a Deus. Depois de ser batizado por João Batista no rio Jordão, Jesus se retirou ao deserto de Judá e jejuou durante 40 dias, preparando-se para anunciar o reino de Deus. Vivia no meio das feras, mas os anjos de Deus cuidavam dele. Preparando-se desse modo, Jesus assemelha-se a Moisés, que jejuou durante 40 dias no monte Horeb (Ex 24,18; 34,28; Dt 9,11 etc.), e a Elias, que caminhou 40 dias, alimentado pelos corvos, até chegar a essa montanha (1Rs 19,8). O povo de Israel peregrinou durante 40 anos pelo deserto (Dt 2,7), alimentado pelo Senhor.

Na Quaresma, deixamos para trás as preocupações mundanas e priorizamos as de Deus. Vivemos numa atitude de volta para Deus, de conversão. Isso não consiste necessariamente em abster-se de pão, mas sobretudo em repartir o pão com o faminto e viver todas as demais formas de justiça. Tal é o verdadeiro jejum (Is 58,6-8).

A Igreja, desde seus inícios, viu nos 40 dias de preparação de Jesus uma imagem da preparação dos candidatos ao batismo. Assim como Jesus, depois desses 40 dias, se entregou à missão recebida de Deus, os catecúmenos eram, depois de 40 dias de preparação, incorporados a Cristo pelo batismo, para participar da vida nova. O batismo era celebrado na noite da Páscoa, noite da ressurreição. E toda a comunidade vivia na austeridade material e na riqueza espiritual, preparando-se para celebrar a ressurreição.

A meta da Quaresma é a Páscoa, o batismo, a regeneração para uma vida nova. Para os que ainda não foram batizados – os catecúmenos –, isso se dá no sacramento do batismo na noite pascal; para os já batizados, na conversão que sempre é necessária na vida cristã. Daí o sentido da renovação do compromisso batismal e do sacramento da reconciliação nesse período.

Conversão e renovação, se preciso também arrependimento por nossas infidelidades, mas o tom principal é a alegria pela boa-nova e por Deus que, em Cristo, renova nossa vida.

Pe. Johan Konings, sj

Nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É doutor em Teologia e mestre em Filosofia e em Filologia Bíblica pela Universidade Católica de Lovaina. Atualmente é professor de Exegese
Bíblica na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte. Dedica-se principalmente aos seguintes assuntos: Bíblia – Antigo e Novo Testamento (tradução), evangelhos (especialmente o de João) e hermenêutica bíblica. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A-B-C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje; Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. E-mail: konings@faculdadejesuita.edu.br