Roteiros homiléticos

25 de dezembro – NATAL DO SENHOR – MISSA DO DIA

Por Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

O pobre menino é a fala de Deus

I. Introdução geral

As leituras da missa do dia do Natal nos dizem quem é esse Menino nascido na extrema pobreza. É a comunicação eterna de Deus, que acampa no meio de nós para caminhar conosco. É a fala, a palavra, a sabedoria, o projeto de Deus que existiu antes de o mundo ser criado. O Menino nascido no estábulo é quem nos explica como é o Deus invisível.

Somos tentados a imaginar um Deus todo-poderoso como os césares, que podiam, com um simples gesto, decretar a vida ou a morte de alguém sem ter de justificar seu ato. Somos tentados a imaginar Deus como um rei oriental das Mil e uma noites, cuja riqueza é incomensurável. Não. Deus é frágil e pobre como o Menino nascido num refúgio de animais. Somos tentados a imaginar Deus ao lado dos ricos e poderosos. Não. Ele é reconhecido Salvador dos pobres pastores, dormindo num cocho, não em um berço de ouro.

Ele é a fala de Deus. A fala eterna: anterior à criação e a fala que agora se manifesta. Ele é a fala e é o Filho. Se Deus havia falado por meio dos profetas, agora nos fala diretamente no Filho, que é a sua fala. Ele é o Filho que nos faz filhos, nascidos de Deus, livres de qualquer escravidão. Ele é o Filho que realiza o que a Lei manda, mas não faz. Ele é o Filho reclinado à direita do Pai, que nos faz a exegese do Deus que ninguém jamais viu.

II. Comentários aos textos bíblicos

  1. I leitura: Is 52,7-10

O poema lido na primeira leitura de hoje canta a esperança próxima do fim do cativeiro da Babilônia e a volta para Jerusalém ou Sião. Feliz é o mensageiro que traz a notícia da liberdade e do retorno à pátria! Que belos são os pés daquele que vem ligeiro, trazendo a Boa-nova! O que ele anuncia é que agora Deus reina.

Talvez seja um dos primeiros empregos na Bíblia da expressão anunciar a Boa-nova, evangelizar. O verbo hebraico utilizado chegou à nossa língua por meio do árabe, língua irmã do hebraico. No hebraico, a raiz verbal é vsr. Ela chegou para nós na palavra “alvíssaras”, usada classicamente para falar da recompensa de quem traz boas notícias. Alvissarar é dar boas notícias; alvissareiro é quem dá boas notícias ou faz boas previsões. O grego e o latim traduziram esse verbo por evangelizar. E aqui o Evangelho ou notícia alvissareira é o fim do cativeiro e o retorno a Jerusalém, sinal de que Deus voltou a reinar.

O poema se desenvolve imaginando a chegada dos exilados de volta a Jerusalém. As sentinelas da cidade são os primeiros a ver. Ao verem o grupo de exilados que retornam, estão vendo frente a frente Javé de volta para Sião: é a salvação, a vitória de Javé acontecendo. Seus gritos de alerta se transformam em algazarra de alegria, em cânticos e dança. Até as ruínas da cidade deserta são convidadas a jubilar com o alegre coro. É Javé que arregaçou as mangas para enfrentar as nações e salvar o seu povo. É a sua esperada salvação que chega inesperada.

  1. II leitura: Hb 1,1-6

O texto da segunda leitura não é uma carta ou epístola; costumeiramente chamado de homilia, é apenas um texto exortativo dirigido a judeu-cristãos.

Com a destruição de Jerusalém, no ano 70, pelas forças romanas comandadas por Tito, os judeu-cristãos consideravam ter perdido o que tinham de melhor e mais atraente: as celebrações festivas e o culto no Templo. Pensavam também em abandonar o cristianismo, um pouco descrentes de tudo. O escrito pretende reanimá-los e fazê-los entender que Jesus realiza tudo o que esperavam de melhor e supera o que tinham de mais valioso.

Eles valorizavam muito a Bíblia, a palavra de Deus que lhes chegou por meio dos profetas, os quais falaram aos seus antepassados em nome de Javé. Assim é que o escrito começa lembrando que Javé nos fala hoje, já não por meio de um intermediário, mas por seu próprio Filho. Esse Filho é também a Palavra, a fala, a sabedoria de Deus existente antes da criação do mundo e por meio de quem o próprio mundo foi criado.

Ele é a Palavra, a Fala, o Resplendor, a Revelação, a Comunicação de Deus. Essa sabedoria, esse projeto de amor é que sustenta o universo. Presente neste mundo, com sua morte de cruz ele desfez os laços do pecado, realizou de uma vez por todas a purificação que todos os anos os judeus celebravam no dia da expiação.

Agora, porém, ressuscitado, ele está reclinado à direita do Pai no banquete celeste, em lugar superior a todos os outros habitantes do céu. Esse Jesus morto e ressuscitado, que teve como berço um cocho e como leito de morte a cruz, fala-nos de Deus e da sua salvação. É nele que Deus se revela. Acima de todos os outros profetas, ele é a Fala definitiva do Pai. Não precisamos de outros profetas, basta Jesus para nos falar de Deus.

  1. Evangelho: Jo 1,1-18

O evangelista colocou na abertura do seu Evangelho um hino da sua comunidade, que é, como nas grandes obras musicais, o que se chama de ouverture. Apenas dá as primeiras notas, passando brevemente por alguns dos motivos mais significativos da obra.

O hino já era estruturado de acordo com a retórica semita (o paralelismo quiástico ou cruzado), em que o primeiro tópico está em paralelo com o último, o segundo com o penúltimo, e assim por diante. Podemos compará-lo a um sanduíche, aqui bem grande: nos dois extremos, duas fatias de pão, depois duas fatias de queijo, duas folhas de alface, duas fatias de tomate etc. e, no centro, a carne ou presunto, o que é mais suculento.

O evangelista apenas acrescentou ao hino duas referências a João Batista, que não era a luz, como poderiam pensar discípulos seus, mas, ao contrário, testemunhou que Jesus, que veio depois, é anterior a ele. No entanto, o evangelista fez isso respeitando a estrutura anterior do hino. Inseriu as duas observações sobre o Batista em dois pontos que se correspondiam, mantendo inalterado todo o restante do poema. Fez como se, no nosso grande sanduíche, colocasse mais duas rodelas de ovo, uma de um lado e outra do outro. Basta observar que, retirando as duas referências ao Batista, a sequência das ideias corre melhor. Não é difícil notar neste esquema a estrutura do hino:

      Na Criação                                                            Na Nova Criação

O VERBO                                                                      O FILHO

A – em Deus (vv. 1-2)                                                           A’ – no Pai (v. 18)

   B – na Criação (v. 3)                                              B’ – Na Graça (v. 17)

     C – luz para os homens (vv. 4-5)                      C’ – plenitude para nós (v. 16)

        D – o Batista (vv. 6-8)                                 D’ – o Batista (v. 15)

          E – vem ao mundo (vv. 9-11)                  E’ – encarna-se (v. 14)

             F – e deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus

O centro do hino, a carne ou o presunto do nosso sanduíche, é o tópico “deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”. Esse é o ponto de chegada, a dignidade de filhos de Deus para os que creem em Jesus. Até aí, o Verbo, a Palavra, a Fala, a divina Sabedoria de Deus, antes do mundo, já estava voltada para Deus (A). Foi ela que criou o mundo e nada se fez sem ela (B). Era a luz e a vida para a humanidade (C), e essa luz vem ao mundo, que não a acolhe (E). Até então, o mundo, eles, a humanidade.

Depois o hino se volta para nós, que acolhemos o Verbo-Filho. O Verbo encarnado que veio participar do nosso êxodo – literalmente, “acampou entre nós” – é o Filho, cuja glória vimos, cheio de amor e fidelidade (E’). Recebemos da sua plenitude (C’) e ele nos faz cumprir a Lei de Deus, pois Moisés, que queria ver a face de Deus, mas não a viu, apenas trouxe a Lei. O Verbo é quem pratica, realiza, faz (o mesmo verbo utilizado para dizer que a Palavra criou o mundo) o amor e a fidelidade (B’). Se ninguém, nem Moisés, viu a Deus, foi o Filho que – agora reclinado à direita do Pai, voltado para o colo do Pai – nos explicou quem é Deus (A’).

III. Pistas para reflexão

O Menino nascido no estábulo é quem nos explica como é o Deus invisível. Ele é a fala de Deus. A fala eterna: anterior à criação e a fala que agora se manifesta. Ele nos fala ainda hoje, basta prestar atenção, estar alertas.

Ele é a fala e é o Filho. Se Deus havia falado por meio dos profetas, agora nos fala diretamente no Filho, que é a sua fala. Ele é o Filho que nos faz filhos, nascidos de Deus, livres de qualquer escravidão. Ele é o Filho que realiza o que a Lei manda, mas não faz. Ele é o Filho reclinado à direita do Pai que nos faz a exegese do Deus que ninguém jamais viu.

É preciso vencer a tentação de ver Deus no poder como os poderes podres deste mundo, de ver Deus nas grandezas monumentais de pés de barro deste mundo, de ver Deus nos espetáculos fúteis e enganadores deste mundo. É preciso aprender a ver Deus em Jesus. Só ele, nenhum imperador deste mundo, nos revela quem é Deus.

Que belos são os pés daquele que vem ligeiro trazendo a Boa-nova! O que ele anuncia é que agora Deus reina. O reinado de Deus se manifesta quando os cativos deste mundo adquirem a liberdade, os desalojados voltam para casa, os expatriados voltam à sua cidade. A Boa-nova, o Evangelho, é que Deus liberta os cativos e repatria os exilados, deixa a todos livres e em casa.

 

Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico. Autor dos livros A Bíblia e suas contradições: como resolvê-las e A missa: da última ceia até hoje, ambos publicados pela Paulus.