Roteiros homiléticos

2º Domingo da Páscoa – 8 de abril

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. Introdução geral

O tempo pascal amplia a experiência da ressurreição celebrada no Tríduo. A cada domingo, a comunidade depara com o mesmo mistério da ressurreição de Jesus narrada de maneira diferenciada e fecunda. Por tratar de um acontecimento muito significativo, cada narrativa permite a entrada nesse mistério por meio de determinada porta. Neste domingo, a porta para a entrada no mistério é a própria comunidade de fé: seus gestos, seu testemunho, seu serviço ao mundo… Tudo afirma aquilo que os evangelhos transformaram em texto: Cristo ressuscitou! A manifestação do Ressuscitado aos irmãos e a Tomé se reproduz em cada um de nós e na nossa vida eclesial.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. I leitura: At 4,32-35 – Um só coração e uma só alma na fé

No segundo retrato da comunidade, o escritor dos Atos dos Apóstolos, provavelmente Lucas, compõe precioso retrato da comunidade das origens. Esse é um olhar muito simpático sobre a comunidade. Na verdade, a afirmação “entre eles ninguém passava necessidade” parece ser contestada pelos próprios escritos paulinos, que mencionam, por exemplo, a coleta promovida pelo apóstolo em favor dos irmãos em Jerusalém (cf. 1Cor 16,1-3). As necessidades vieram, talvez, por causa das perseguições sofridas. Contudo, sobressaem ao texto os valores alicerçados na comunhão (koinonia) existente entre eles, sinalizada por ricas expressões como: “um só coração e uma só alma”, “tudo entre eles era posto em comum”. Esse era o clima estabelecido entre os componentes da comunidade primitiva de Jerusalém, retratada por Lucas. Nesse terreno, a fé pascal na ressurreição fincou raízes profundas e era testemunhada pelos apóstolos com grandes sinais de poder (cf. v. 33). Esses grandes sinais de poder não são descritos aqui, neste trecho, como coisas extraordinárias ou mirabolantes, mas como evidências de uma importante transformação: “ninguém considerava como próprias as coisas que possuía”; “tudo entre eles era posto em comum”; os que eram proprietários vendiam os seus bens e colocavam o dinheiro aos pés dos apóstolos para a distribuição conforme as necessidades.

Essa transformação pascal era promovida pelo testemunho apostólico do Senhor Jesus. Esse testemunho gerava em todos, comunitariamente, a experiência coletiva da partilha de bens em favor das necessidades. Assim, os cristãos daquele tempo realizavam a sua fé por meio de gestos concretos de confiança em Deus e nos irmãos, desapegando-se de suas posses em favor do bem comum. Que grande sinal de poder estava sendo realizado: gerando mais vida por terem feito a experiência da vida de Jesus ressuscitado! Se o quadro nos causa admiração, que dirá àqueles conterrâneos e contemporâneos da comunidade. Assim, podemos também ver que esse mesmo apelo encontrou eco na distante comunidade de Corinto, que se envolveu na partilha. Lucas faz questão de demonstrar o efeito dessa vida comunitária: “E os fiéis eram estimados por todos”. Assim, a comunidade fundada na Páscoa de Jesus agia por atração, e não por proselitismo. O seu viver internamente irradiava a força da ressurreição para os outros.

  1. Evangelho: Jo 20,19-31 – O testemunho dos irmãos

A narrativa do evangelho do segundo domingo do tempo pascal, também chamado pela antiga tradição de “domingo de são Tomé”, põe-nos diante de três temas fundamentais: a fé e a dúvida em relação à ressurreição, o valor da comunidade no testemunho da fé pascal e a experiência de Jesus ressuscitado hoje. No centro desses três temas, o apóstolo Tomé, símbolo de todos os cristãos que procuram sinceramente crer em Jesus ressuscitado. O texto é dividido em duas partes fundamentais: na primeira, Jesus se manifesta à comunidade sem a presença de Tomé; na segunda, manifesta-se com Tomé presente. O texto principia com a afirmação do domingo, o primeiro dia da semana. No v. 26, volta a mesma referência por meio de outra expressão: oito dias depois. O primeiro e o oitavo dia são expressões que a tradição entendeu como referências ao “dia do Senhor”, o dia privilegiado da ressurreição. Outro elemento importante: nos dois momentos, a comunidade dos discípulos está reunida (vv. 19.26), mas, na primeira parte, o narrador menciona o detalhe de que eles estão reunidos a portas fechadas, com medo dos judeus. Jesus se põe no meio deles como aquele que supera os fechamentos e limites. Em meio ao medo que fecha e paralisa, Jesus deseja a paz, sopra sobre eles – como Deus, na criação, fizera com o boneco de Adão (cf. Gn 2,7) – e os envia, como ele mesmo fora enviado. Livre da sua inércia, a comunidade recupera sua capacidade de anunciar. Tomé será o primeiro destinatário do anúncio eclesial…

Tomé recebe o testemunho da comunidade: “Vimos o Senhor”. Mas ele apresenta suas dificuldades de acolher o testemunho. Quer ver, tocar os sinais da paixão… Nega-se a crer sem ter suas exigências atendidas. Note-se que Tomé não demonstra ter um comportamento anômalo ao da comunidade. Ela também teve dificuldades (portas fechadas, medo). A ela também Jesus mostra as mãos e o lado. Mas, na primeira parte do relato, Tomé estava distanciado da comunidade. Não poderia experimentar o que os outros vivenciaram. Seu distanciamento, ou melhor, seu isolamento enfraqueceu a sua fé na ressurreição… Tomé também tem fechadas as portas dos ouvidos e do coração. O escândalo da cruz, que nos outros produziu medo, nele produz desconfiança. Assim, não ouviu o testemunho dos irmãos e, sem ouvir, não pôde chegar à fé.

A fé e a dúvida em relação à ressurreição acontecem com todos: com Tomé, mas também com a comunidade. É necessário percorrer o itinerário de uma para a outra. O evangelho nos oferece as pistas: primeiro fortalecer os vínculos, sobretudo os de fé, com a comunidade; acolher a revelação do evangelho (boa notícia) que a comunidade cristã custodia, mas também ser sincero sobre as próprias dificuldades. Jesus mesmo está atento a elas quando se manifesta e convoca Tomé a adotar nova postura a fim de ajudá-lo na fé. O Senhor permite que essas dificuldades encontrem nele respostas, entre as quais estão os sinais. A comunidade vive dos sinais da presença de Jesus (primeira leitura). É por isso que, como um mistagogo, a comunidade pode conduzir à experiência da ressurreição. É também na comunidade que se dá o testemunho querigmático do anúncio (primeiro domingo da Páscoa). O rito da comunhão retoma, pela antífona a ser cantada como refrão, a experiência de Tomé. Assim como ele foi chamado por Cristo a estender as mãos para tocar-lhe as chagas, o fiel, na eucaristia, estende as mãos para (receber) tocar os sinais da paixão e ressurreição do Senhor.

Na segunda parte do texto, Tomé está presente na comunidade quando Jesus novamente se manifesta, fazendo igual saudação de paz. Dirigindo-se a ele, Jesus o convida a realizar suas demandas e lhe censura a falta de fé, declarando a bem-aventurança dos que creram sem ter visto. Junto da comunidade, o apóstolo pode fazer a experiência da ressurreição que, no seu isolamento, lhe estava fora do alcance. Experimentar significa também sair de si, entrar em relação, deixar-se guiar pelo outro e para o novo que surpreende e convoca, mas também alegra, fortalece e transforma.

  1. II leitura: 1Jo 5,1-6 – O amor a Deus supõe o amor aos irmãos

A primeira carta de João é um precioso escrito, marcado pelos primeiros embates da Igreja com o gnosticismo, corrente filosófica muito influente na região da Ásia Menor. Em suma, essa corrente de pensamento diminuía a força da comunidade e a ameaçava no seu cerne ao inserir elementos doutrinários estranhos à fé, como um modo de conhecimento de Deus que prescindia dos irmãos. Argumentando com base na fé nascida do batismo de Cristo – alusão à água e ao sangue (v. 6) e na imensa solidariedade de Jesus para com a humanidade, o texto chama a atenção para o vínculo que a fé gera: os cristãos entre si, com Cristo e com Deus. A leitura põe em relação importantes elementos da vida cristã: a fé e o amor. O amor a Deus conduz aos outros e vice-versa. A verdadeira fé faz circular o amor entre todos os que declaram amar a Deus.

III. Dicas para reflexão

A vivência de comunhão com a ressurreição de Jesus, testemunhada pelos apóstolos, é propulsora de partilha e de atenção às necessidades dos outros. Quem vive a Páscoa promove a vida dos irmãos.

Neste ano eleitoral, a partilha de bens pode assumir feições bastante interessantes. Movidos pela ressurreição de Jesus e unidos por uma fé operante e concreta, somos convidados a escolher projetos políticos e candidatos que tenham muito presente o bem comum, para que as necessidades dos pobres, como a saúde, a educação, a segurança pública, o trabalho e a moradia, sejam distribuídos igualmente entre todos. Vamos partilhar o voto?

O evangelho chama a atenção para a importância da comunidade na sua capacidade comunicadora da fé. Tomé é cada discípulo que faz o seu caminho de volta, o caminho ao seio da comunidade, que, como corpo do Senhor, sempre estará disposta a promover o encontro com Jesus ressuscitado.

A fé cristã supõe o amor. Ambos se realizam na circularidade das relações que têm em Cristo o modelo central de solidariedade ao ser humano.

Luiz Alexandre Solano Rossi

Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br