Roteiros homiléticos

30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 29 de outubro

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

  1. Introdução geral

A liturgia de hoje destaca o maior mandamento: amar a Deus e amar o próximo. No livro do Êxodo, encontramos uma série de leis sobre os deveres para com as categorias sociais mais necessitadas naquela época: estrangeiros, viúvas, órfãos e endividados. No Novo Testamento, essas exigências são plenificadas pelas palavras de Jesus, ao pôr em paralelo o amor a Deus e o amor ao próximo. Mais que palavras, a obra redentora de Cristo é a expressão de seu amor ao Pai e ao ser humano. O Filho de Deus é verdadeiramente aquele que se fez próximo de quem mais necessitava da plenitude da vida.

      II – Comentário aos textos bíblicos

  1. Evangelho (Mt 22,34-40): Amor a Deus, amor ao próximo

O evangelho de hoje nos situa diante de uma pergunta muito importante, não apenas para os judeus, mas também para nós, cristãos: o maior mandamento. É importante para nós, seguidores de Jesus, porque o mandamento nos reporta à prática evangélica.

A resposta de Jesus, fundamentada na Escritura, une dois mandamentos já conhecidos e praticados pelos judeus. O primeiro é amar a Deus (Dt 6,5), que resume a vocação própria de Israel, a razão de sua existência. Em Cristo, essa vocação estendeu-se a todos nós, chamados a amar a Deus no Filho amado. Ele nos ensinou o caminho de acesso a Deus Pai, no amor e na doação de sua vida integralmente.

O segundo é amar o próximo como a si mesmo (Lv 19,18), cujo fundamento é Deus, que ama o ser humano. A realização desse mandamento faz parte da vocação de Israel e, em Jesus, chegou à plenitude, porque Cristo amou o próximo não como a si mesmo, mas como o Pai o ama. Deu-se totalmente ao outro como se dava totalmente ao Pai e como o Pai se dava a ele. Sem reservas. Por isso, ao unir os dois mandamentos e defini-los como vontade de Deus expressa na totalidade da Escritura (lei e profetas), Jesus apresenta uma novidade à sua época e a nós.

Jesus quer ressaltar que o mais importante para cumprir a vontade de Deus não é o muito fazer, seja por Deus, seja pelos irmãos. O importante é ser para o outro, como ele próprio foi para Deus e para o próximo. Toda a sua vida e missão traduziram quem ele é: o Filho amado. Toda a sua ação em prol do outro foi baseada no amor filial, fonte de sua existência. Toda a Escritura (lei e profetas) testemunha que a realização da vontade de Deus está no cumprimento do duplo mandamento de amar a Deus e ao próximo. Tudo mais, nossos afazeres, nossas devoções etc. só têm sentido se nascem desse mandamento.

  1. I leitura (Ex 22,20-26): “Quem ama a Deus ame também a seu irmão” (1Jo 4,21)

A série de leis que aparecem nesse texto bíblico baseia-se em dois fundamentos:

– não se deve fazer a outrem o que não é desejado para si mesmo (Ex 22,20);

– Deus é o libertador e tem particular cuidado com os atribulados, escuta seus clamores e é misericordioso para com eles (Ex 22,26).

São estas as categorias sociais mencionadas nas proibições:

– o estrangeiro. Na Antiguidade, cada indivíduo tinha a identidade vinculada a uma tribo ou clã de origem que o protegia. Em viagem ou quando havia migração de uma pequena família para outra região, facilmente essas pessoas ficavam sem proteção e à mercê da violência, por causa da distância da tribo à qual pertenciam.

– a viúva e o órfão. A mulher era protegida pelo pai e, na falta deste, pelos irmãos adultos; se casada, pelo marido e, na ausência deste, pelos filhos adultos. A viúva propriamente dita era uma mulher cujo pai ou irmãos estavam ausentes e que, com a morte do esposo, tinha ficado sozinha com filhos ainda crianças. Nessa condição, a mulher estava totalmente desprotegida, podendo sofrer violência e escravidão. Ela está na mesma situação da criança órfã. 

  1. II leitura (1Ts 1,5c-10): Sois um exemplo para todos

A segunda leitura é um exemplo prático de amor a Deus e ao próximo, concretizado no perdão e na perseverança.

Paulo elogia os cristãos de Tessalônica por perseverarem na fé, apesar das tribulações pelas quais passaram. Eles imitavam o modo de viver de Paulo e, em última instância, o modo de viver de Cristo. Quando abraçaram a fé cristã, sofreram calúnias e outras perseguições dos moradores da cidade. Mesmo assim, nada os impediu de perseverar no amor a Deus e na divulgação do evangelho entre os que os perseguiam. Isso mostra que o amor ao próximo não é sinônimo de ajudar os aflitos. O próximo é aquele de quem me aproximo, seja para ajudar, seja para perdoar. Não podemos confundir “próximo” apenas com “necessitado”.

Os cristãos de Tessalônica eram alegres, apesar das perseguições. Não sentiam uma alegria superficial, como a que brota de um coração vazio de sentido e sedento por diversões. Tratava-se, antes, da alegria profunda de quem não guarda rancor, de quem sabe perdoar e amar. Eles perseveravam no amor a Deus e ao próximo.

      III. Pistas para reflexão

Destacar na homilia a dicotomia presente na vida de alguns cristãos e chamar a atenção para a unidade entre fé e vida.

Muitos cristãos ainda não assimilaram o mandamento de Jesus sobre o amor a Deus e ao próximo. Muitos lutam por justiça, têm uma prática social e estão engajados na luta por um mundo melhor, mas não têm um momento para estar com Deus em oração, não têm tempo para o Senhor, e, em consequência, suas ações não são fruto de escuta ou de discipulado. Outros cristãos vivem para louvar, para práticas devocionais de novenas e rosários; passam tanto tempo na igreja que não têm um momento para a família, para os amigos, para os vizinhos ou colegas de trabalho.

Discípulos e missionários orantes e atuantes, dedicados a amar a Deus e amar ao próximo, constituem os verdadeiros seguidores de Jesus.

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj


Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj, é graduada em Filosofia e em Teologia. Cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco, UNICAP. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com