Roteiros homiléticos

31 de março – SÁBADO SANTO: Vigília Pascal

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. INTRODUÇÃO GERAL

A Vigília Pascal constitui o âmago de todo o ano litúrgico. Ela pode ser considerada a mãe de todas as vigílias e, por isso mesmo, é fundamental que todos participem dessa experiência e a vivenciem. No sábado santo, a vigília começa, após o pôr do sol, fora da igreja, onde o fogo é abençoado pelo celebrante. Esse fogo simboliza o esplendor do Cristo ressuscitado dissipando as trevas do pecado e da morte. Apresentamo-nos como discípulos do Ressuscitado com uma única palavra nos lábios – “Eis-me aqui” – e com disposição para seguir o mesmo caminho trilhado por ele. Da escuridão nascerá a luz de Cristo. Jamais nossos caminhos serão marcados pela escuridão. Nele e por causa dele a luz brilhará eternamente em nossos corações, a fim de que possamos também iluminar a vida daqueles que nos cercam.

A Vigília Pascal se divide em quatro momentos: 1) Liturgia da luz: o fogo é abençoado e torna-se novo para nós. Acende-se o círio pascal, o mesmo fogo que guiou o povo do Antigo Testamento na caminhada rumo à Terra Prometida; 2) Liturgia da Palavra: todas as leituras e salmos recordam a ação de Deus no meio do seu povo. Pela proclamação da Palavra, a morte foi vencida, tudo se fez novo, agora só há luz e vida; 3) Liturgia batismal: os novos cristãos são acolhidos pela comunidade. Todos os santos são invocados para interceder por aqueles que serão batizados e estes professarão sua fé; há uma renovação das promessas batismais daqueles que já receberam o sacramento e, sendo assim, todos são batizados pela ressurreição de Jesus; 4) Liturgia eucarística: o Cristo proclamado na Palavra como Ressuscitado é o mesmo da eucaristia. A Palavra e a eucaristia são alimentos essenciais para a vida dos batizados.

II. COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS

  1. Leituras

A liturgia da Palavra da Vigília Pascal contém nove leituras mais o evangelho, textos que apresentam toda a história da salvação, começando pela criação do mundo, passando pela libertação da escravidão no Egito, quando se celebrou a Páscoa da primeira aliança, e chegando à ressurreição de Cristo, a Páscoa da nova aliança, e ao nascimento da comunidade cristã, com o primeiro anúncio e o batismo, que simboliza o morrer com Cristo e com ele ressuscitar para uma vida nova. Não é possível comentar todas as leituras, mas se pode empreender uma reflexão global ou apontar um veio comum a elas.

Na leitura de Gênesis 22,1-18, Abraão levanta-se bem cedo, o que indica a prontidão e o desejo de obedecer a Deus. Diante do chamado, ele responde prontamente: Eis-me aqui! Estou presente! Eu não fujo! É a expressão de quem assume o projeto de Deus. Resposta de quem é chamado por Deus para uma missão. Diante do Deus que chama, não cabe qualquer outra resposta que não seja “eis-me aqui”. Quando o profeta Isaías foi chamado por Deus, sua resposta foi semelhante.

Quando Deus nos chama, não há alternativa a não ser nos apresentarmos diante dele. Não depende absolutamente de nossa boa vontade; se desejamos ou não; se estamos dispostos ou tomados pela preguiça; se temos talentos ou nos achamos incapazes de servir. Absolutamente não! Ao ouvirmos a voz de Deus nos chamar, devemos ouvir atentamente e, com espírito de servos, seguir os passos a nós destinados.

Um dos muitos nomes pelos quais Deus pode ser conhecido é o de providência. Em meio a tantas lutas e desafios que vivemos diariamente, devemos ter a plena certeza de que Javé é o Deus de toda a providência. Diante dos temores de que alguma coisa nos falte, devemos recuperar a mensagem de Abraão e meditar nela. Abraão, num momento marcado pela angústia e pela incerteza, pela contradição e por um desafio enorme, levanta os olhos. Ele não permanece com os olhos presos ao chão e a respostas humanas. Levanta os olhos como se estivesse à procura de uma saída e, ao levantar os olhos, enxerga a resposta. Seus olhos encontram a resposta dada por Deus.

Deus já havia providenciado tudo quanto era necessário para resolver seus maiores temores. Abraão já havia experimentado a presença do Deus peregrino, do Deus todo-poderoso, do Deus dos impossíveis, e agora o Deus da providência estava bem à sua frente. É importante saber e reconhecer que o Deus da providência conhece cada uma das nossas necessidades e, mais do que isso, caminha alguns passos à nossa frente. Não estamos à mercê das contradições deste mundo. Podemos ter a plena certeza de que o Deus que caminha ao nosso lado providencia as soluções necessárias e definitivas.

A experiência de Abraão foi tão significativa, que o lugar ficou conhecido como aquele em que Deus providenciou a resposta. O povo de Deus, quando no deserto andava, experimentou de muitas maneiras a providência divina. Possivelmente a história da providência de Deus o alimentando com o maná tenha se refletido na maneira de ele viver. Mas tanto a história do maná quanto tantas outras existentes na Bíblia são relatos distantes de cada um de nós. Precisamos perguntar sobre as nossas próprias experiências! Afinal, o Deus da providência é o mesmo ontem, hoje e será para sempre! Mas às vezes é bem difícil confiar na providência de Deus. No entanto, como Abraão, devemos aprender que ser dependentes de Deus não representa nenhum contratempo, porque ele sempre há de se manifestar como o “Deus da providência”.

A leitura de Isaías 55,1-11 nos traz um oráculo dirigido aos pobres. A situação deles é por demais crítica, pois carecem de alimentos básicos para a sobrevivência. A vida deles se encontra ameaçada. Correm, na verdade, o risco de morrer antes do tempo. Mas morrerão não porque seja vontade de Deus ou porque não tenham nenhum projeto de vida pelo qual valha a pena lutar. A morte se aproxima deles por mãos de outros; os injustos e violentos os ameaçam e, com isso, agridem a imagem de Deus neles.

Encontramos no texto interessante releitura da tradição davídica quando se afirma a dimensão comunitária da aliança, ou seja, que Deus faz aliança diretamente com o povo. Nesse sentido, o poder, que em mãos régias era geralmente utilizado para oprimir o povo por meio da cobrança de impostos, é agora entregue à comunidade a fim de que viva a prática da justiça e do direito.

  1. Evangelho: Mc 16,1-7

O túmulo vazio é clara representação de que Jesus não se encontra onde os poderes do império da maldade o deixaram. Jamais o império, por mais poder que presuma ter, terá a última palavra. O poder pertence unicamente a Deus, que ressuscitou Jesus de entre os mortos. Pela primeira vez na história a força do império encontra uma fonte de resistência imorredoura. O túmulo vazio faz uma denúncia anti-imperialista e anticolonialista a todos as formas de opressão e de violência e, ao mesmo tempo, faz uma afirmação da vida sobre todas as formas de morte.

Observemos que Jesus não aparece aos tradicionais discípulos. A aparição acontece diante de três mulheres, a saber, Maria Madalena, Maria de Tiago e Salomé. O testemunho das mulheres subverte a ordem das coisas naquela época. Jesus transfere às mulheres o privilégio da descoberta do poder da ressurreição e, com isso, desloca dos discípulos para as discípulas o centro de gravidade da comunidade.

Sob o testemunho delas e somente delas é que eles são desafiados a ir ao encontro do Mestre na Galileia. Insinua-se que a manifestação de Jesus não será marcada pelo triunfalismo. Ele não é um César em caminhada triunfal pelas ruas de Roma após mais uma vitória militar. Os discípulos descobrirão que o caminho de Jesus é o caminho que eles têm para seguir. Conflitos e cruz fazem parte do cenário do discipulado. Todavia, em meio aos conflitos, Jesus sempre se apresentará ao lado de seus discípulos.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

– Talvez possamos absorver a real intensidade da experiência abraâmica alterando os termos que ali aparecem para sentir o forte impacto das palavras: retiremos, por alguns momentos, o nome de Abraão e insiramos o nosso próprio nome. Conseguimos notar a diferença? Como responderíamos? E saibamos que Deus não se confunde nem muito menos nos confunde. Ele nos chama pelo nome a fim de vivermos intensamente seu projeto. O princípio é bem claro: o chamado é sempre individual. Dessa forma, algumas perguntas se fazem urgentes: o que o Senhor quer de nós? Como podemos ser úteis para a sua missão e o seu projeto de transformação deste mundo?

– A presença do Cristo ressurreto em nós tem a capacidade de nos resgatar dos marasmos da vida. Somente a força da ressurreição pode interromper os passos que damos nos descaminhos da existência. Nele podemos repensar a vida, os caminhos, os projetos e a maneira de viver como discípulos. Basta tão somente dizermos: “Eis-me aqui, Mestre”.

Luiz Alexandre Solano Rossi

Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Unicamp e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da PUCPR. Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br