Roteiros homiléticos

3º Domingo da Páscoa – 15 de abril

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. Introdução geral

O tempo pascal é tempo favorável para aprofundar a experiência da ressurreição do Senhor. As Escrituras dão-nos a conhecer Jesus quando buscamos superar nosso distanciamento de Deus, cumprindo sua Palavra, e quando buscamos superar nosso distanciamento dos irmãos. O tempo da Páscoa nos faz superar nossas dúvidas, incompreensões e temores.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. I leitura: At 3,13-15.17-19 – Deus fez maravilhas por seu servo

Depois de ter curado um aleijado, Pedro pronuncia mais uma pregação querigmática, com todos os elementos que esse anúncio comporta (retomar a explicação da primeira leitura do domingo da Páscoa). Nele, o apóstolo introduz alguns elementos novos: Jesus está em continuidade com a história da salvação, e o agir dos judeus que condenaram Jesus foi por ignorância. Além disso, Pedro aprofunda o significado da rejeição de Jesus por parte dos judeus e retoma um tema importante para a teologia do evangelista Lucas: era necessário que o Messias sofresse.

Começando pela rejeição, Pedro deixa claro o que aconteceu a Jesus: ele era santo e justo, mas foi condenado pelos judeus. Jesus é chamado por Pedro de “o autor da vida” a quem impuseram a morte, mas Deus o ressuscitou. Note-se: a ação dos judeus incide sobre a vida de Jesus, condenando-o a morrer. Os judeus preferem um malfeitor, pois não conseguem, por ignorância, reconhecer que Jesus é o autor da vida. Mas Jesus não está somente sujeito ao poder dos judeus; está, sobretudo, sujeito ao poder de Deus, que “faz maravilhas por seu servo” (salmo responsorial), ressuscitando-o.

Os judeus ignoraram, isto é, desconheceram o significado da salvação operada em Jesus. Embora houvesse uma “cultura bíblica” entre os judeus, esta não foi suficiente para uma real transformação do povo. A ignorância deles estava, pois, no não cumprimento da lei de Deus (cf. a segunda leitura), que diziam conhecer. O tempo da Quaresma deste ano retomou com frequência esse tema da infidelidade à aliança… Os judeus insistiram nas más ações, ignorando o seu saber bíblico. A ignorância permaneceu, a ponto de não distinguirem Jesus de Barrabás, por quem optaram… Não sabem que Jesus foi glorificado pelo mesmo Deus de Abraão, Isaac, Jacó e dos antepassados. Isto é, a glorificação dele realiza as expectativas dos antigos e as promessas que lhes foram feitas. Os três patriarcas são aqui citados por sua fidelidade à aliança. Jesus continuou fiel a ela, como os antigos, mas os judeus não.

Por fim, por que Jesus, o Cristo (Messias), haveria de sofrer? Deus quis o sofrimento de seu Filho e, por meio desse sofrimento, aplacou a sua ira? Essa forma de entender a morte de Jesus não aprofunda o nosso conhecimento da salvação; ao contrário, induz a ideia de um Deus sanguinário, cruel e muito distante do Abbá de Jesus. A necessidade do sofrimento se entende à luz da lógica da aliança, da fidelidade e da filiação divina. O Messias devia sofrer por causa da sua fidelidade, que revela e explicita o agir fiel do Servo Jesus, como Filho obediente. Em termos humanos, é exatamente nos tempos do sofrimento e das dificuldades que tendemos a relaxar em nossas opções, buscando a autopreservação e desculpas para abandonar a missão e a fé. Jesus se mantém fiel na hora do sofrimento e na humanidade que assumiu; em meio aos sofrimentos, permaneceu fiel, reafirmando sua filiação divina e a aliança.

  1. Evangelho: Lc 24,35-48 – Nós comemos e bebemos com ele

O evangelho narra a continuidade do relato dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35). O ponto de partida é o relato dos dois peregrinos, Cléofas e, provavelmente, Maria, sua mulher, que estava com as outras Marias junto à cruz de Jesus (cf. Jo 19,25). Eles narram aos discípulos o que tinha acontecido no caminho e como reconheceram Jesus ao partir o pão. O gesto da partilha do pão, além de ser, desde então, um sinal de máxima importância para as comunidades dos seguidores de Jesus, deu nome à celebração mais importante da Igreja, como memorial da morte e ressurreição do Senhor. De fato, a missa foi primeiro designada como “fração do pão”, pois este gesto remetia à memória perigosa de Jesus, que, dando a vida, desmontou os esquemas de uma religiosidade infiel à vontade de Deus.

O relato prossegue com uma nova manifestação de Jesus no meio deles, em um momento de muita intimidade com seus amigos. Ele lhes deseja a paz, insiste em ser reconhecido pelos seus e até pede para comer com eles, buscando sanar toda confusão e incerteza. Comer junto com os discípulos após a ressurreição será forte argumento usado por eles na pregação (cf. At 10,41). Isso significa que Jesus, que andou pelo mundo anunciando o reino de Deus e tomando refeição com os pecadores, se manifestou aos seus, depois da ressurreição, na intimidade da comunidade, tomando alimento com eles, demonstrando estar vivo para que neles se fortalecesse a fé na ressurreição e o anúncio da nova Páscoa não fosse nunca interrompido.

Segue, após a refeição, nova catequese. Jesus relaciona os acontecimentos da sua paixão com a totalidade das Escrituras: lei de Moisés, salmos e profetas, as três grandes unidades da Bíblia dos hebreus. Essa forma de leitura bíblica, relacionando textos dessas três grandes unidades, diz respeito ao modo rabínico de leitura, chamado harizá. Fazer harizá significa, literalmente, “enfileirar contas”, como quem tece um colar. Criam os judeus que, quando os textos da Bíblia eram harmonizados assim como as contas de um colar, a experiência da aliança estabelecida no monte fumegante se reeditava. Por isso, no relato anterior, os discípulos de Emaús sentiram o coração arder! Com a ressurreição de Jesus, a aliança foi restaurada e as Escrituras encontram nele a fidelidade, a unidade e o seu sentido último (cf. aclamação).

  1. II leitura: 1Jo 2,1-5a – Temos junto do Pai um defensor

A primeira carta de João é uma exortação carinhosa aos discípulos para que não desanimem diante dos pecados, pois podem contar com Jesus, o nosso mediador e defensor, que deu a vida para libertar toda a humanidade do pecado e do mal. Mas essa confiança nos reenvia ao compromisso de viver na fidelidade, a exemplo de Jesus, guardando os seus mandamentos. Para isto o apóstolo escreve sua carta: para que os discípulos não pequem, mas, vivendo os mandamentos, conheçam a Deus e façam brilhar o seu amor pelo mundo. Viver os mandamentos não é apenas pronunciá-los da boca para fora ou decorá-los. Isso seria mentira e fingimento. Outrossim, é decisivo que os vivamos de maneira cada vez mais alicerçada na palavra dos apóstolos (v. 1), buscando manifestar o amor de Deus pelo mundo (v. 5). Mas qual é o amor de Deus pelo mundo? É Jesus, aquele que deu a vida como vítima de expiação pelos pecados, aquele que, vivendo a aliança na perfeita obediência e fidelidade, realizou um sacrifício agradável a Deus, coerente e eficaz. Por isso, temos em Jesus o inteiro perdão dos pecados.

III. Dicas para reflexão

Conhecer a Deus é guardar os seus mandamentos, ser fiel à aliança. Esse é o índice que dá comprovação à nossa fé. Assim como Jesus, o cristão deve buscar viver a aliança com Deus, contando sempre com a sua presença na hora das dúvidas e provações.

O conhecimento bíblico deve nos conduzir à fidelidade e ao amor a Deus e aos irmãos. O verdadeiro conhecimento de Deus realizado por meio das Escrituras aproxima-nos dos irmãos. Jesus verdadeiramente conheceu a Deus e, com a ressurreição, foi exaltado à direita do Pai sem, contudo, deixar os irmãos, seus discípulos.

Fazer a memória perigosa de Jesus, celebrando o dia do Senhor na partilha do pão, remete-nos à existência, onde somos chamados a partilhar o pão da nossa vida com os outros.

Luiz Alexandre Solano Rossi

Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br