Roteiros homiléticos

Domingo da Páscoa – 1º de abril

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. Introdução geral

A morte de Jesus foi marcada pela fidelidade, pela justiça e pelo amor. O Inocente foi condenado por um tribunal injusto… Contudo, a sua ressurreição contém importante inversão: a justiça de Deus, que é maior, reconhece a inocência do Filho. O tribunal divino pronuncia sua sentença, conferindo a Jesus uma vida nova, sem igual, pois só ele cumpriu a vontade do Pai.

II. Comentário dos textos bíblicos

Neste domingo da Páscoa, os cristãos são chamados a uma vida nova, que vence a morte, as dúvidas, os medos e os vazios da existência. A proclamação da fé cristã indica o resultado de viver como Jesus: alcançar a plenitude da vida e ser sinal de esperança para o mundo.

  1. I leitura: At 10,34a.37-43 – Passou pelo mundo fazendo o bem…

O querigma não é só um anúncio primeiro que principia outros. É anúncio primordial e estruturante, contido em toda a pregação da Igreja, dos primórdios até os dias de hoje. O anúncio querigmático de Pedro contém todos os elementos da pregação primordial da Igreja: conforme as Escrituras (v. 43a), Jesus é o ungido de Deus para a missão (v. 38). Mas ele sofre a rejeição e a morte (v. 39). Deus, contudo, concede-lhe a ressurreição dos mortos, tornando-o Senhor e Juiz (v. 40-42). Diante desse acontecimento, os discípulos fazem o convite à conversão (v. 43b). Esses mesmos elementos estão presentes noutras formulações querigmáticas e até mesmo na liturgia da Igreja, que sempre proclama: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”

Embora o conteúdo pascal da pregação querigmática seja o seu eixo fundamental, a afirmação contida no versículo 38 é bastante comovente: Jesus passou pelo mundo fazendo o bem e curando a todos os que estavam com o demônio, porque Deus estava com ele. Essa afirmação demonstra o jeito de viver daquele que venceu a morte, isto é, o tipo de vida que o qualificou para a ressurreição. É por isso que Jesus se torna modelo para os discípulos, pois sua morte e ressurreição dizem respeito ao modo como ele viveu neste mundo: não para si, mas para os outros; não autocentrado, mas deixando-se guiar por Deus. Aqueles que seguem Jesus poderão desfrutar vida nova se, imitando o seu modo de vida neste mundo, se deixarem guiar por Deus. Assim, o querigma continuará a ser anunciado existencialmente pelas obras de seus discípulos.

  1. Evangelho: Jo 20,1-9 – O amor que sinaliza a vida

O relato da ressurreição comporta elementos oriundos de fontes diversificadas. Também o recorte operado pela liturgia interrompe a narrativa que tem no encontro de Madalena com Jesus ressuscitado o seu ápice. Seja como for, a liturgia, nas suas opções, impõe-se e será necessário tirar o devido proveito disso.

O relato começa com a menção do primeiro dia da semana. Esta é uma marca comum aos textos da ressurreição e encontra ressonância e concretude no domingo, como dia memorial por excelência do acontecimento fundador da fé. Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro e percebeu a pedra do sepulcro removida. Sem entrar no túmulo, ela recorre aos discípulos, Pedro e o discípulo amado, que acorrem ao local. Pedro, todos sabemos, é aquele que confirma a fé dos demais, por isso entra primeiro no recinto. O discípulo amado é um personagem impreciso, equivocadamente identificado com o evangelista João. Entre as hipóteses possíveis, ele seria o protótipo do discípulo, construção que exprime um ideal, uma meta de seguimento. O fato de um correr atrás do outro poderia ser esclarecido com base nessa ideia de meta, pois, no Evangelho de João, Pedro está referenciado ao discípulo amado ao menos cinco vezes. Este corre à frente também porque experimenta o amor e, tendo sido fiel no momento da cruz, assimilou o seu sentido último, o amor. Por isso, compreende os sinais no sepulcro vazio. Ele tem, portanto, uma função propedêutica para os discípulos, sobretudo para Pedro, a quem abre caminho para o Ressuscitado. Também por isso espera que o outro adentre primeiro o túmulo; ainda assim, de fora, vê os panos mortuários jogados ao chão e crê antes de Pedro…

De Pedro diz-se que entra e vê também as faixas de linho no chão, mas o pano que fora posto sobre a cabeça de Jesus colocado num lugar à parte. Ele ainda está migrando do escândalo da cruz para a convicção da ressurreição. Continuará precisando do amigo que lhe conduza à fé no Ressuscitado. Só atingirá a sua estatura no amor ao Mestre e na compreensão das Escrituras.

Os panos dobrados e as faixas ao chão, como símbolos, permitem inúmeras hipóteses. Entre as mais aceitas está aquela que compara os panos mortuários de Lázaro com os de Jesus. O primeiro sai atado do túmulo, pois sua “ressurreição” é um sinal provisório. Lázaro morreria novamente e precisaria de suas mortalhas. Jesus ressuscitou uma vez por todas e já não precisará dos panos. Mas não faz mal associar as teorias: os panos no sepulcro contrariam a possibilidade de roubo do corpo de Jesus, pois ladrão algum se daria ao trabalho de retirar os panos e transportar o corpo nu.

O relato da ressurreição, ao focalizar Pedro e o discípulo amado, dá-nos importantes pistas para balizar nossa experiência de Páscoa: não se chega à fé na ressurreição sem três ingredientes básicos. Estes ingredientes estão relacionados à pessoa do discípulo amado e a Maria Madalena. O amor é o primeiro ingrediente: tanto o discípulo amado quanto Maria Madalena fazem a experiência do amor ao Mestre, a qual, para Pedro, será mais tardia. O segundo ingrediente é a comunidade: Pedro precisa do anúncio de Madalena e da guia do seu companheiro de corrida, que o introduz no sepulcro e no contato com os sinais. Por fim, a compreensão das Escrituras será sempre a chave última para acessar a ressurreição!

  1. II leitura: Cl 3,1-4 – Ressurreição para já!

A ressurreição de Cristo desencadeia um modo de vida que começa desde já. Paulo está se dirigindo a uma comunidade que ainda vive no seu tempo, historicamente. No entanto, afirma que eles já são ressuscitados com Cristo. Como pode, se ainda não morreram? A ressurreição não é acontecimento para depois da morte? O discurso só pode ser entendido à luz do batismo, que, segundo o apóstolo, pela fé, reproduziu na vida do cristão a experiência de morte e ressurreição (cf. Cl 2,12). Assim, o cristão, que está inserido em Cristo pelo batismo (v. 3), tendo morrido com ele, já desfruta dessa vida nova que é própria dele. A ressurreição de Jesus contagia já os que ainda estão a caminho e se dispuseram a morrer para as coisas terrestres (v. 2).

Mas é possível viver como mortos e ressuscitados em Cristo? O discurso do apóstolo faz supor que sim. Em primeiro lugar, pela ligação dos discípulos e batizados com Jesus. Eles têm a sua vida escondida com Cristo, em Deus (v. 3). Então, na vida de cada discípulo e da comunidade, opera a vida e a morte de Jesus ressuscitado. Mas a ressurreição não é um prêmio que se adiciona à existência. É um modo de vida que começa já e continua de modo cada vez mais intenso e progressivo: “esforçai-vos por alcançar… aspirai…”. Aquilo que foi dito no comentário da primeira leitura a respeito de Jesus vale para o cristão a ele unido: Cristo morreu e ressuscitou como viveu, também o cristão deve morrer e ressuscitar como vive; isto é, segundo a sua união com Cristo.

III. Dicas para reflexão

Jesus morreu e ressuscitou como viveu: passou pelo mundo fazendo o bem, deixando-se guiar por Deus. Fazer a experiência da ressurreição tem que ver com o modo de vida que a comunidade assume: a vida de Jesus.

A ressurreição, como experiência, supõe o amor, a comunidade e o conhecimento das Escrituras. Estamos todos como o discípulo Pedro: em processo de busca e encontro do Ressuscitado. Somos todos como Madalena e o discípulo amado: cremos à medida que amamos e conduzimos outros a essa mesma experiência.

A morte e a ressurreição são mistérios vividos hoje, neste mundo. Não são realidades para depois… Os batizados morrem com Cristo e ressuscitam com ele. Por isso devem orientar sua vida para o alto e continuamente morrer para as coisas terrenas, isto é, para o modo de vida que não é o de Jesus.

Luiz Alexandre Solano Rossi

Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br