Eliseu Wisniewski*
* Presbítero da Congregação da Missão Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
Eis o Artigo:
Ao celebrarmos o primeiro ano de falecimento de Papa Francisco, inaugura-se um tempo oportuno para revisitar um pontificado que imprimiu marcas profundas na Igreja Católica e no cenário sociocultural global. Longe de uma evocação meramente comemorativa, esta memória pretende situar a densidade teológica, pastoral e histórica de seu legado, avaliando sua recepção e seus desafios em perspectiva intraeclesial e mundial. Francisco, ao longo de seu ministério petrino, articulou um projeto eclesial cujo eixo fundamental foi a misericórdia, não como conceito abstrato, mas como chave hermenêutica capaz de reorientar relações, estruturas e prioridades pastorais. Tal centralidade emerge como elemento decisivo para compreender tanto seu estilo quanto suas opções concretas de governo e magistério.
A insistência de Francisco sobre a misericórdia frequentemente condensada na afirmação de que “Deus nunca se cansa de perdoar” configurou-se como um contraponto crítico às tendências de autorreferencialidade e autorreclusão que marcaram setores da vida eclesial. A partir dessa chave, a Igreja é convocada a redescobrir sua identidade como “casa de acolhida”, espaço de experiência do amor que restaura e gera vida nova. Em termos teológicos, trata-se de reabilitar uma compreensão dinâmica da graça, entendida menos como delimitação moral e mais como horizonte de encontro, discernimento e reconstrução. A hermenêutica da misericórdia, portanto, tem implicações eclesiológicas: ela desloca a Igreja de uma postura defensiva para uma atitude pastoral de abertura, diálogo e acompanhamento, o que se tornou um dos traços característicos do pontificado.
Nesse contexto, ganha relevância a opção preferencial pelos pobres, categoria que Francisco ressignifica ao integrá-la às “periferias existenciais”. A expressão, recorrente em seus discursos e documentos, aponta para realidades humanas marcadas pelo abandono, invisibilidade e precarização, sejam elas materiais, culturais, espirituais ou afetivas. Sua crítica à “cultura do descarte”, entendida como lógica estrutural do sistema econômico e político global, estabeleceu um marco discursivo que transcendeu o âmbito eclesial e repercutiu no debate público internacional. Trata-se de um diagnóstico que compreende a desigualdade não como fatalidade, mas como produto de escolhas socioeconômicas, e que convoca a uma reconfiguração ética das políticas e das práticas institucionais. Sob esse prisma, a ação pastoral proposta por Francisco não se reduz a assistência, mas implica compromisso transformador, solidariedade política e denúncia profética.
O impulso dado a uma “Igreja em saída”, amplamente tematizado na exortação Evangelii Gaudium, é expressão concreta dessa sensibilidade. Mais do que uma metáfora, a expressão constitui uma crítica à tentação da autorreferencialidade e um convite a que a comunidade cristã se confronte com a realidade tal como ela é: complexa, plural, ambígua e desafiadora. Essa perspectiva missionária exige, segundo Francisco, uma conversão pastoral que supere a mera conservação das estruturas e favoreça a criatividade evangelizadora, a proximidade com os pobres e a capacidade de ler os sinais dos tempos. Nesse sentido, sua proposta evidencia tensões internas, especialmente entre modelos eclesiológicos mais centrados na identidade doutrinal e aqueles que privilegiam o discernimento contextualizado. Essas tensões, longe de fragilizar o pontificado, evidenciam o dinamismo inerente ao processo de recepção e ao pluralismo teológico presente na Igreja do nosso tempo.
Do mesmo modo, é necessário destacar a contribuição decisiva de Francisco para o desenvolvimento da consciência ecológica em chave integral, sintetizada na encíclica Laudato Si’. Trata-se de um marco teológico e sociopolítico ao articular ecologia, justiça social e espiritualidade. A noção de “casa comum” reconfigura a compreensão das relações entre ser humano, criação e economia, deslocando a reflexão ecológica de um discurso meramente técnico para um horizonte ético e antropológico. A “conversão ecológica” proposta por Francisco implica mudanças estruturais e culturais que atingem estilos de vida, modelos de produção e modos de organização social. Sua recepção, tanto na esfera eclesial quanto na sociedade civil, revela a força mobilizadora do texto, mas também as resistências de um sistema global alicerçado no consumo e na exploração dos recursos naturais. A análise crítica do legado ecológico de Francisco passa, portanto, pela tensão entre o ideal proclamado e a efetiva transformação das práticas.
Outro aspecto fundamental do pontificado, cuja relevância permanece em curso, é o impulso dado à sinodalidade. A sinodalidade, compreendida como modo de ser Igreja em que o povo de Deus caminha junto, constitui um resgate de dimensões antigas da tradição e, ao mesmo tempo, uma novidade na forma de exercício da autoridade e do governo eclesial. Francisco insistiu que todos: leigos, religiosos, ministros ordenados são chamados a escutar e a discernir a voz do Espírito presente na diversidade de experiências e contextos. Em termos teológicos, pode-se afirmar que o pontificado recupera a dimensão pneumatológica da eclesiologia, ao mesmo tempo em que propõe um deslocamento do eixo de decisão: da verticalidade exclusivamente hierárquica para uma articulação mais participativa e dialogal. Contudo, esse processo também encontrou resistências e polarizações, sobretudo em setores que temem uma relativização da doutrina ou a perda de clareza institucional. A memória crítica da sinodalidade inaugurada por Francisco exige, portanto, reconhecer tanto seus frutos quanto suas limitações, e considerar o longo caminho ainda necessário para sua consolidação.
Por fim, ao fazermos memória deste primeiro ano de sua páscoa definitiva, torna-se incontornável retomar seu testemunho pessoal de proximidade, simplicidade e ardor missionário. Francisco reiterou, em inúmeras ocasiões, que “ninguém se salva sozinho”, enfatizando a dimensão comunitária da fé e da existência humana. Do mesmo modo, suas afirmações de que “a realidade é superior à ideia” e de que é preferível “uma Igreja acidentada por sair às estradas do que enferma por se fechar” funcionam como sínteses de seu programa pastoral. Essas expressões, amplamente difundidas, revelam uma espiritualidade encarnada que rejeita abstrações paralisantes e privilegia o encontro concreto, o diálogo e o serviço. No entanto, sua recepção também evidencia tensões: para alguns, tais afirmações abriram novos horizontes de renovação; para outros, suscitaram inquietações quanto à preservação de tradições e estruturas consolidadas.
Sob esse enfoque, a memória de Francisco, no primeiro aniversário de seu falecimento, obriga-nos a enfrentar o desafio de uma hermenêutica equilibrada: uma leitura que reconheça a força profética de seu pontificado, sem ignorar os conflitos, críticas e resistências que o atravessaram. Seu legado permanece vivo não apenas como repertório de gestos e palavras, mas como provocação contínua a viver com autenticidade o Evangelho em um mundo marcado por desigualdades, crises ambientais e transformações culturais profundas. Celebrar sua memória não significa cristalizar sua figura, mas permitir que seu testemunho continue a interpelar, inspirar e desafiar a Igreja e a sociedade em sua busca por justiça, paz e fraternidade universal.
23/04/2026 
