Por Darlei Zanon, jornalista e assessor editorial da PAULUS Editora
Eis o Artigo:
O mundo precisa de paz. Não é difícil perceber as razões de tal afirmação: vemos e vivemos diversos momentos de tensão, angústia e conflito; os noticiários estão cheios de notícias de guerra, violência, desgraças; praticamente todos os domingos, no seu tradicional Angelus, o papa reza pela paz no mundo, e suas últimas mensagens têm enfatizado muito a necessidade de eliminar os conflitos mundiais. Enfim, são tantos os sinais.
Na Bíblia encontramos muitas referências à paz. Do Gênesis ao Apocalipse, a palavra shalom (paz) aparece cerca de 350 vezes. Muitas estão no evangelho, ditas por Jesus. Após realizar uma cura, por exemplo, costumava dizer: “Vai em paz” (cf. Mc 5,34; Lc 7,50; Lc 8,48). Era frequente também em sua pregação desejar a paz a seus discípulos. Isso é tão importante que o abraço da paz já é uma tradição desde as primeiras comunidades cristãs. A saudação de Jesus é repetida em todas as celebrações eucarísticas, quando somos convidados a desejar a paz aos nossos irmãos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” (Jo 14,27). Certamente essa tradição foi fortalecida pela saudação do Cristo Ressuscitado. Ao encontrar os discípulos reunidos, Jesus os saúda no modo tradicional judaico: “A paz esteja convosco” (Lc 24,36; Jo 20,19). Somente depois dessa saudação Cristo se aproxima e mostra suas chagas, a fim de que creiam que ele ressuscitou verdadeiramente.
Isso tudo nos ajuda a compreender que só Jesus nos traz a verdadeira paz. “A paz que lhes dou não é como a paz que o mundo dá” (Jo 14,27). Quando optamos por Cristo, encontramos a paz, nosso coração se acalma. O estresse, a impaciência, a desunião, os conflitos e tantos outros males surgem quando nos afastamos de Jesus, quando procuramos a autossuficiência. Quando pensamos somente em nós, fechados na nossa autorreferencialidade, os resultados são desastrosos, mas quando deixamos Cristo habitar em nosso coração, o medo desaparece e a serenidade nos preenche.
Para iluminar a atitude do cristão, nada melhor que recordar o Sermão da Montanha, discurso relatado por Mateus no qual Jesus apresenta as características do Reino, ou uma nova ética, a cristã. Em dado momento, Jesus afirma: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Os cristãos são, portanto, distribuidores da paz que receberam de Jesus: paz que significa reconciliação com Deus e com os seres humanos, significa uma atitude interior e não apenas a ausência de guerra. A paz deixada por Cristo está intimamente ligada ao mandamento do amor. Só podemos amar a Deus e ao próximo se estamos em paz. Em paz conosco mesmo, em paz com os irmãos e em paz com Deus.
Certa vez, o saudoso papa Francisco desafiou os cristãos a serem artesãos da paz, promotores do diálogo e da unidade. A imagem do artesão é muito bonita e significativa, pois exprime bem a visão e metodologia de trabalho a serem concretizadas para alcançar a comunhão e a paz. O artesão é aquele pequeno produtor que exercita a sua arte com paciência, cansaço, cuidado e constância, mas também com particular maestria. O artesão se empenha e se envolve profundamente na sua criação, ele dá vida a algo. É um trabalho feito de pequenos e grandes gestos, a cada dia, em cada situação, em cada pequeno detalhe.
Hoje, cada um de nós é convidado a ser artesão corajoso e apaixonado do diálogo e da amizade. No próprio contexto, na própria realidade na qual vive, cada cristão é exortado a ser um mediador da paz e da fraternidade. Na sua recente viagem ao Camarões, o papa Leão XIV recordou: “No início desse ano, perante situações tão dramáticas, convidei a humanidade a rejeitar a lógica da violência e da guerra, para abraçar uma paz fundada no amor e na justiça. Uma paz que seja desarmada, ou seja, não fundada no medo, na ameaça ou nas armas; e desarmante, porque capaz de resolver os conflitos, abrir os corações e gerar confiança, empatia e esperança. A paz não pode ser reduzida a um slogan: deve encarnar-se num estilo, pessoal e institucional, que repudie toda e qualquer forma de violência. Por isso, reitero com veemência: ‘O mundo tem sede de paz […]. Chega de guerras, com os seus penosos amontoados de mortos, destruições, exilados!’ Este clamor pretende ser um apelo à vontade de contribuir para uma paz autêntica, colocando-a acima de qualquer interesse particular” (Discurso do Santo Padre às autoridades civis).
Existem, portanto, inúmeras formas de promover a paz e todos nós podemos contribuir, ainda que de maneira muito ínfima. Como verdadeiros artesãos da paz, procuremos a cada dia novas formas de encontro e diálogo que promovam a fraternidade e a amizade social.
23/04/2026 
