Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 39 - 41

3 de maio – 5º DOMINGO DA PÁSCOA

Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

“Não se perturbe o vosso coração... Quem me viu, viu o Pai”

I. INTRODUÇÃO GERAL

Maio é símbolo de alegria pascal. É também o mês de Maria. Trata-se de um mês que neste ano concentra, além de dois domingos pascais, algumas das principais festas da Igreja: Ascensão do Senhor, Pentecostes e Santíssima Trindade. No meio desse mês, no dia 13, a Igreja recorda a memória de Nossa Senhora de Fátima. Portanto, falamos de um mês alegre e festivo, derivado do mistério da cruz e ressurreição, a plenitude da vida que indubitavelmente vence a morte e revela o contínuo amor de Deus, uno e trino. A primeira leitura relata a escolha de sete homens de origem grega e idôneos que servirão as viúvas a fim de que os apóstolos continuem a missão evangelizadora. Na segunda leitura, o apóstolo Pedro afirma que Jesus é a pedra rejeitada que se tornou a pedra angular, sobre a qual a Igreja encontra sustento. No Evangelho, parte de um longo discurso de despedida, João afirma que Jesus é o caminho, a verdade e a vida e que quem o vê, vê também o Pai. Jesus é o rosto amoroso de Deus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1. I leitura (At 6,1-7)

Na primeira leitura, entremeada ao mistério da graça pascal, reside ainda uma lacuna de descontentamento por parte dos fiéis de origem helênica em relação aos de origem hebraica. Os helenistas eram judeus que, tendo vivido na diáspora fora da Palestina, haviam adotado a cultura grega e dispunham em Jerusalém de sinagogas particulares, onde a Bíblia era lida em grego, possivelmente a LXX (Septuaginta). Há um problema a ser resolvido, o qual é evidenciado já no início do texto, no v. 1: “os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário”. As viúvas e órfãos sempre foram considerados vulneráveis e dignos de bom trato, como atestado em Ex 22,22-23. Há outros textos que levam em consideração esse estado de vida (Dt 10,18; 24,17s; 27,19; Sl 10,17-18; 82,3; 1Tm 5,9-10; Tg 1,27). O ato transformador da cena reside no v. 2: os doze apóstolos (símbolo da Igreja colegiada, que caminha na mesma direção do Evangelho de Jesus Cristo) reúnem a multidão e afirmam: “Não está certo que deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas”. O v. 3 põe em comum a resolução do problema: escolher sete homens de boa fama, repletos do Espírito Santo e de sabedoria, para serem responsáveis por essa missão. Quanto aos apóstolos, continuariam assíduos na oração e no anúncio da Palavra, o que consiste em dupla missão apostólica: reunir e presidir as liturgias da comunidade e catequizar (transmissão da fé). Lucas (autor dos Atos dos Apóstolos) não lhes impõe o termo “diáconos”, como se acostumou dizer, mas diz que estariam a “serviço” (diakonía; cf. Fl 1,1 e Tt 1,5). Todos eles têm nomes gregos, e o último era um prosélito (cf. 2,11). Dessa maneira, o grupo dos cristãos helenistas recebe uma organização eclesial distinta dos de origem hebraica. Talvez, em meio a essa distinção, residisse um pano de fundo sobre a política missionária (mais universal para os helenistas e mais particular para os hebreus de Israel). Os apóstolos oram sobre eles, impondo-lhes as mãos, ação antiga conhecida como cheirotonia, símbolo da transmissão de poder, do estado da graça, embora o verbo usado por Lucas no grego seja Epéthekan autois tás cheiras (ch tem som de “r” derivado da garganta). Esse ministério (serviço), não entendido ainda como hierárquico, mas carismático, pois brota do Espírito Santo, que acompanha a Igreja e assiste os apóstolos, deve ser acolhido como necessário para a vida da Igreja que nasce de Pentecostes e carece estar sempre em reforma, aggiornamento, atualização, segundo o adágio Ecclesia semper reformanda est. A diaconia de tais homens não suplanta a diaconia dos apóstolos, mas é subsidiária, preservando o sentido basilar da Igreja: koinonia – comunhão. Tal princípio da Igreja, de comunhão, possibilita-lhe fazer conhecida a Palavra de Deus (v. 7), a qual se espalha. Esse versículo apresenta as consequências do trabalho apostólico em comunhão com o Espírito Santo, correspondendo ao clímax e desfecho da narrativa: o número dos discípulos crescia em Jerusalém e muitos sacerdotes judeus aceitavam a fé em Cristo.

2. II leitura (1Pd 2,4-9)

Pedro utiliza, em sua narrativa, inúmeras imagens cristológicas. A pedra viva é importante entre as imagens: firme e resistente é Cristo, e a vida vivida sobre ele e nele nos faz resistir às dificuldades da existência, com nossas angústias e limitações, provando o amparo de Deus (v. 4). Formamos, como Igreja, um edifício espiritual do qual cada cristão faz parte e cuja pedra fundamental é Cristo. O sacerdócio existencial de Cristo nos comunica um sacerdócio batismal santo, para oferecer sacrifícios espirituais (v. 5). Pedro, nessa parênese (texto exortativo-argumentativo), está chamando os cristãos à consciência do novo sacerdócio: já não de sacrifícios cruentos, em que o sangue dos animais aplacava a ira de Adonai, no Antigo Testamento, mas do sacerdócio existencial, de nossa vida, que vai sendo imolada junto com a de Cristo no sacrifício do altar da cruz, único, irrepetível e pleno, fazendo-nos compreender a relação dessa carta com a epístola aos Hebreus, as quais, juntas, formam as “epístolas católicas”, pois suas temáticas são atemporais e para todos (Katholikós). O v. 6 é uma alusão a Is 28,16: “Eis que ponho em Sião (Jerusalém) uma pedra angular, escolhida e preciosa; quem nela crê não será confundido”. Essa pedra é Jesus Cristo, que do alto do Calvário passará da vida para a morte e, três dias depois, abraçará a ressurreição; uma pedra que, segundo Pedro, é rejeitada pelos edificadores, mas se torna pedra angular e, por outro lado, é pedra de tropeço (aludindo indiretamente aos maus) e que faz cair (alusão aos que a rejeitam e vivem a falta da fé). O motivo de seus tropeços é não crer na Palavra, que a eles também foi destinada. Para Pedro, é a Palavra que sustenta o ser humano que crê (v. 8). Em contrapartida, os chamados, a quem Pedro se dirige (vós), são raça escolhida, sacerdócio do Reino, nação santa, chamados à luz maravilhosa, à salvação que vem de Deus.

3. Evangelho (Jo 14,1-12) 

O Evangelho de João, diferentemente dos sinóticos, tem um conjunto de capítulos chamados “discurso de despedida” (Jo 13-17). Eles correspondem ao início do “Livro da Glória”, o qual segue até Jo 20, o final canônico do Evangelho. O capítulo 14 pode ser comparado a um estágio elevado no discurso de Jesus, que, após ter lavado os pés dos discípulos na última ceia, começa a despedir-se deles. Não se trata, porém, de qualquer despedida: ela é dramática e forte, contendo símbolos imperiosos para entender a essência da narrativa joanina, o amor (Jo 15,12 – o novo mandamento; repetição de 13,34). Jo 14,1-12 corresponde a uma passagem instigante, situada logo após o diálogo entre Simão Pedro e Jesus. Simão afirma que daria sua vida por Jesus, e este retruca: “Em verdade, em verdade, te digo: o galo não cantará sem que me renegues três vezes”. Jo 14,1 já apresenta uma espécie de catarse por parte de Jesus, não obstante a futura decepção com a tripla negação petrina: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também”. Para Jesus, o coração não pode se deixar perturbar diante dos desafios. É preciso crer em Deus e crer nele também. Ele é o enviado do Pai, digno de fé. Jesus, em seguida (v. 2), diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas (em grego, Monai: “moradas” ou “casas celestiais” que serão escatologicamente habitadas pelos crentes depois da parusia, a segunda vinda de Cristo). O sentido figurado seria “permanência”, “estada” ou “alojamento”. Jesus afirma: “vou preparar um lugar para vós”. Para o sentido de despedida que tem Jo 14, essa é a certeza que Jesus reserva diante da incerteza de Simão Pedro, que afirma que jamais o negaria, que daria sua própria vida por ele. Pedro é símbolo da instabilidade diante da certeza escatológica que Jesus tem para oferecer. Na lógica de uma leitura psicanalítica, pode-se dizer que a angústia de Pedro seria possivelmente tamponada por uma promessa que ele não consegue sustentar, em troca da certeza de que só Jesus pode oferecer: as moradas celestes, uma permanência eterna, típica de um Deus que habita provisoriamente a carne humana. Jesus ainda promete que, depois que se for, vai voltar e levar todos consigo, possibilitando-nos entender que o destino de seus seguidores é a pátria celeste, as moradas eternas, em contraposição à vida que tem seus dias contados neste mundo. No v. 4, Jesus diz que, para onde ele vai, seus discípulos conhecem o caminho: caminho que é ele mesmo, sua vida divina assumida na carne, pois “o que não foi assumido, não é redimido” (Santo Irineu). Tomé intervém e diz que não sabem para onde Jesus vai e como podem, então, conhecer o caminho (v. 5). Em seguida (v. 6), Jesus afirma em tom autoproclamativo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Para Konings, “as sete proclamações figurativas (em forma de símbolo) devem ser entendidas à luz da Páscoa, do mistério da morte e vida de Jesus” (KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005, p. 156). Sendo assim, ao revelar estes símbolos – caminho, verdade e vida –, Jesus está indicando que quem caminha ao seu lado encontra a verdade e obtém a vida eterna, a qual, para o Quarto Evangelho, equivale ao Reino de Deus (vontade de Deus). Jesus ainda inclui: “Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Ele está se revelando a Tomé e aos discípulos como o acesso definitivo a Deus, como o caminho pelo qual todos chegamos à salvação oferecida por Deus. Para Jesus, conhecê-lo é a condição sine qua non para acessar o Pai. Essa nova gnose oferecida por Jesus não é a mesma que era combatida ou com a qual o Quarto Evangelho dialoga. Jesus não quer um conhecimento intelectual, mas uma experiência de permanência, de estar com ele, a fim de que por ele conheçamos a Deus. Trata-se de relação mais profunda. No v. 8, Felipe pede: “Mostra-nos o Pai”. Jesus, provocado por essa inquietação, elabora um profundo discurso (v. 9-12) para evidenciar a seu discípulo que há muito tempo está com ele e que ele vê o Pai em Jesus, mas não entende, por falta de uma fé mais profunda. Jesus está no Pai e o Pai está nele, e essa é a garantia para que todo fiel possa permanecer definitivamente um dia na ressurreição e realizar obras como as de Jesus: de vida e salvação para os outros.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Perceber que Jesus revela a imagem de Deus, que visita a história humana e se preocupa com ela. Estimular a comunidade a perceber o rosto de Jesus nas pessoas, fazendo da celebração eucarística também um encontro de fraternidade. Estimular as pastorais da pessoa idosa a promover momentos de reflexão com os idosos, uma vez que entre eles há também inúmeros viúvos e viúvas, a exemplo da primeira leitura.

Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]