Carta do editor

Julho – Agosto de 2026

CELEBRAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS
A Palavra que alimenta e a vida que se faz altar:
A importância da celebração da Palavra nas comunidades.

Prezadas irmãs, prezados irmãos, graça e paz!

“A Palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4,12). A Palavra não é um texto silenciado pelo papel, mas um fogo sagrado que arde no nosso coração e uma luz que, com mansidão e força, teima em brilhar nas frestas das nossas fragilidades humanas.

Este número de Vida Pastoral chega às suas mãos para reafirmar aquilo que a Igreja nos ensina desde sempre e que foi muito bem condensado na Dei Verbum: “Na Sagrada Escritura, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala” (DV 21). A fonte que sustenta nossa caminhada – o rio cristalino que sacia nossa sede de infinito – é a Palavra de Deus.

Reunimos nesta edição reflexões que vinculam, de forma indissociável, a mística da escuta ao compromisso inadiável com a caridade libertadora. Iniciamos com a contribuição fundamental da Ir. Veronice Fernandes, que nos situa diante de um dado estatístico que é, acima de tudo, um dado teológico: cerca de 70% das comunidades católicas do Brasil se reúnem aos domingos para celebrar ao redor da mesa da Palavra. A autora nos recorda que essas celebrações não são “suplências” ou soluções de emergência por falta de presbíteros; são, na verdade, instâncias sagradas em que a Igreja, povo de Deus, exerce a beleza e a dignidade do seu sacerdócio batismal. A Palavra ali proclamada não é apenas lida, mas se faz presença real e alimento que sustenta a esperança.

Aprofundando a dimensão espiritual dessa prática, o Pe. Moisés Henrique analisa como a celebração da Palavra torna-se um momento fundamental para o desabrochar da vida interior e comunitária. Sua reflexão demonstra que a escuta orante das Escrituras não é um ato passivo, mas uma força transformadora que capacita os batizados para a necessária maturidade na fé. A aparente carência ministerial transfigura-se, assim, em oportunidade de protagonismo leigo, consolidando o rosto de uma Igreja verdadeiramente ministerial e sinodal, que caminha sob o ritmo da respiração do Espírito.

No espírito renovador do Concílio Vaticano II, Emerson Sbardelotti reforça o pulsar vibrante das comunidades eclesiais de base. Ele nos lembra que a celebração da Palavra é o lugar do encontro real com Jesus de Nazaré. Sbardelotti relata como a vida real – os nascimentos, as lutas pelo saneamento básico, a dor dos falecimentos e a alegria da partilha – entra na liturgia para ser transfigurada pelo Evangelho. É a “fé e vida” em abraço e comunhão, mantendo acesa a brasa da koinonia, da diakonia e da martíria e impedindo que o rito se torne gestos frios e distantes.

Por fim, a mística da Palavra encontra seu ápice na prática da compaixão. Com minha singela contribuição, inspirado pela profética exortação Dilexi Te, do papa Leão XIV, apresento a “liturgia do cuidado”. Aqui, a poesia da fé encontra seu chão mais concreto: o pobre é o sacramento de Cristo. Se a Palavra nos alimenta no ambão, é na carne do irmão sofrido que ela se faz história, redenção e verdade absoluta.

Somamos a isso a valiosa inspiração do Pe. Marcus Mariano com os roteiros homiléticos, que enriquecem nossa meditação e vivência da Palavra. Somos convidados a redescobrir que não há separação entre o incenso que sobe do altar e a poeira das estradas onde o povo caminha.

Que estas reflexões ajudem nossas comunidades a serem, cada vez mais, “hospitais de campanha” e faróis de esperança, nos quais a Palavra de Deus seja acolhida, celebrada e, sobretudo, vivida no amor que congrega, cura e liberta.

Boa leitura!

Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp

Editor