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Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 21-29

A CELEBRAÇÃO DA PALAVRA NO DIA DO SENHOR

Por Dr. Emerson Sbardelotti*

O presente artigo busca refletir sobre a importância da celebração da Palavra de Deus enquanto lugar de encontro com Jesus de Nazaré, com sua pedagogia e prática libertadora, no qual os cristãos leigos e leigas são convidados a segui-lo e fazer as mesmas opções, assumindo as consequências da defesa de todas as vidas.

 

1. Celebração da Palavra: lugar de encontro com Jesus de Nazaré

Promovam-se celebrações da Palavra de Deus nas vigílias das grandes festas, em certos dias da Quaresma e do Advento, nos domingos e dias santos, principalmente nos lugares em que não há sacerdotes (SC 35,4).

Quando iniciei minha caminhada de agente de pastoral leigo e ministro da Palavra, na década de 1990, em visita às comunidades eclesiais de base na paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida (naquela época, eram mais de 25; hoje, são apenas 9) para presidir celebrações da Palavra de Deus, chegava antes do início e me reunia com as lideranças para saber o que havia acontecido de importante ali naquela semana: nascimentos, falecimentos, o calçamento e o saneamento básico que nunca ficavam prontos, reuniões das equipes de serviço, de liturgia, de catequese, dos círculos bíblicos, da pastoral da juventude, do movimento comunitário e/ou da associação de moradores numa sala da igreja, a festa da padroeira e/ou do padroeiro que se aproximavam. Os acontecimentos da vida eram levados para a celebração da Palavra e a celebração da Palavra era levada para os acontecimentos da vida. Fé e vida.

A cada celebração da Palavra que presido, mesmo depois de tantos anos, sempre me emociono profundamente, pois, apesar de me preparar espiritualmente, de ler e reler a Palavra a ser proclamada no domingo, dia do Senhor, de cantar músicas da caminhada que fazem exegese da Palavra de Deus, vejo-me suando frio, ou, como se diz, “com aquele friozinho na barriga”. Com mulheres e homens que vieram antes de mim, aprendi que a emoção de presidir e partilhar a Palavra junto à assembleia reunida é experimentar em “comum-unidade” a presença misericordiosa do Deus da vida, buscando levar ao povo de Deus, como canta o Pe. Zezinho, scj, a palavra certa: “Dá-me a palavra certa, / na hora certa / e do jeito certo / e pra pessoa certa / […]. Palavra é como pedra / preciosa, sim, / quem sabe o valor cuida bem do que diz. / Palavra é como brasa, / queima até o fim, / quem sabe o que diz vai levar a Palavra”. E queima de fato, até o fim!

A celebração da Palavra é um lugar de encontro com Jesus de Nazaré que desperta três virtudes vitais (o respeito, o diálogo e o encontro), impulsiona três atitudes vitais – a koinonia (comunhão), a diakonia (serviço) e a martíria (testemunho) – e no qual cristãs e cristãos seguem três regras: optar por Jesus de Nazaré, fazer as mesmas opções de Jesus de Nazaré e assumir todas as consequências. Além disso, possui atrativos que deveriam ser comuns a todas as pessoas, quando profundamente vivida: leva à defesa de todas as vidas, à busca da paz e da justiça social, contra toda pobreza, no seguimento de Jesus de Nazaré, de sua pedagogia e prática libertadora.

Sobre a pobreza, o papa Leão XIV adverte-nos:

Com efeito, o Evangelho mostra que esta pobreza abrangia todos os aspectos da sua vida. Desde a sua entrada no mundo, Jesus experimentou as dificuldades relacionadas com a rejeição. […] Trata-se da mesma exclusão que caracteriza a definição dos pobres: eles são os excluídos da sociedade. Jesus é a revelação deste privilegium pauperum. Ele apresenta-se ao mundo não só como Messias pobre, mas também como Messias dos pobres e para os pobres (DT 19).

É também importante fazer memória da Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia, aprovada por São Paulo VI em 4 de dezembro de 1963, durante o Concílio Ecumênico Vaticano II (Roma, 1962-1965), que promove e incentiva a celebração da Palavra de Deus com frequência, mistagogia e simplicidade, não só na Igreja, mas em outros espaços em que se reúnam os fiéis leigos e leigas para experimentar Jesus de Nazaré em sua vida. Não obstante, é certo que a celebração da Palavra não substitui a celebração eucarística. Podemos afirmar, porém, com toda a certeza, que a celebração da Palavra de Deus foi e continua sendo um dos frutos concretos da recepção do Vaticano II na América Latina e Caribe, principalmente aqui no Brasil.

Dom Clemente José Carlos Isnard afirma:

A celebração da Palavra de Deus é um ato litúrgico reconhecido e incentivado pela Igreja. Sua reflexão torna-se ainda mais significativa se considerarmos o apreço das comunidades pela leitura e meditação da Sagrada Escritura e a prática de leitura orante.A Palavra de Deus é acontecimento, onde o Pai entra na história, onde o Filho prolonga o mistério de sua Páscoa e o Espírito atua com sua força. As celebrações da Palavra de Deus, especialmente aos domingos, fundamentam-se no caráter sacerdotal de cada batizado e de cada batizada.

As celebrações da Palavra de Deus não são uma criação das últimas décadas, mas fazem parte da Tradição da Igreja. As comunidades primitivas criaram uma estrutura própria de celebração da Palavra – o ofício divino. Hoje existem, nas comunidades católicas do Brasil, diversos roteiros da celebração da Palavra. A finalidade destas celebrações é a de assegurar às comunidades cristãs a possibilidade de se reunir no domingo e nas festas, tendo a preocupação de inserir suas reuniões na celebração do ano litúrgico e de as relacionar com as comunidades que celebram a Eucaristia (Isnard, 2014, p. 7-8).

A celebração da Palavra é o lugar de encontro com Jesus de Nazaré, pois o Mestre está presente em todos os momentos alegres, em todos os momentos tristes e, principalmente, em todas as lutas que circundam nossas comunidades. “Não deixemos que nos roubem a comunidade!” (EG 92).

Na maioria de nossas comunidades espalhadas pelo Brasil, a celebração da Palavra está assim dividida: 1) ritos iniciais; 2) liturgia da Palavra; 3) coleta fraterna; 4) louvor e ação de graças; 5) comunhão eucarística; 6) ritos finais. Ao prepararem-na e dela participarem com respeito e dignidade, fica evidente a alegria dos cristãos leigos e leigas, que sabem que, além de ser um ato litúrgico, ela é uma das missões que cada batizado e batizada deve assumir enquanto sacerdócio, por amor a Deus e ao povo reunido. A celebração da Palavra é o lugar propício para que as pessoas não só ouçam falar de Jesus de Nazaré, mas também experimentem o próprio Cristo no meio da comunidade reunida.

Se a liturgia é um locus theologicus, a Palavra é um locus liturgicus. Essa proposição afirma que jamais a liturgia foi completa e plena sem a celebração da Palavra (Bogaz; Hansen, 2020, p. 39).

2. Celebração da Palavra: apontamentos à luz do Documento de Aparecida

Com profundo afeto pastoral, queremos dizer aos milhares de comunidades com seus milhões de membros, que não têm a oportunidade de participar da Eucaristia dominical, que também elas podem e devem viver “segundo o domingo”. Podem alimentar seu já admirável espírito missionário participando da “celebração dominical da Palavra”, que faz presente o mistério pascal no amor que congrega (cf. 1Jo 3,14), na Palavra acolhida (cf. Jo 5,24-25) e na oração comunitária (cf. Mt 18,20) (DAp 253).

A 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho realizou-se na cidade de Aparecida, no estado de São Paulo, Brasil, de 13 a 31 de maio de 2007. A basílica nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, acolheu 266 participantes, entre os quais 162 membros votantes na assembleia, 81 convidados, 8 observadores de outras religiões e 15 peritos. O Documento de Aparecida teve como redator o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, nosso querido e saudoso papa Francisco, e como tema: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”. Ele retoma o chamado do Espírito a todas as Igrejas do continente, para uma profunda fidelidade às suas origens, nunca se esquecendo dos pobres. Três iniciativas de grande significado popular e pastoral ocorreram ao mesmo passo e nos arredores de Aparecida: 1) Seminário Latino-americano de Teologia, coordenado pelo Conselho Nacional do Laicato do Brasil e transmitido pela internet; 2) Romaria das Pastorais Sociais – CEBs – Pastoral da Juventude; 3) Tenda dos Mártires da Caminhada. Tais iniciativas apresentaram aos participantes o rosto de uma Igreja dos pobres, em saída, sinodal. Em 2027, a Conferência de Aparecida completa vinte anos, e sua contribuição continua atual: a consciência de que cada cristão e cristã deve tornar-se verdadeiro discípulo-missionário, verdadeira discípula-missionária, no seguimento de Jesus de Nazaré numa Igreja sinodal, em saída e dos pobres.

Em seu discurso inaugural, o papa Bento XVI acentuou:

A fé liberta-nos, de igual modo, do isolamento do eu, porque nos leva à comunhão: o encontro com Deus é, em si mesmo e como tal, encontro com os irmãos, um ato de convocação, de unificação e de responsabilidade pelo outro e pelos demais. Neste sentido, a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza (cf. 2Cor 8,9).

[…] Por isso, é necessário educar o povo para a leitura e a meditação da Palavra de Deus: que ela se transforme no seu alimento para que, pela sua própria experiência, vejam que as palavras de Jesus são espírito e vida (cf. Jo 6,63). Caso contrário, como poderão anunciar uma mensagem cujo conteúdo e espírito não conhecem profundamente? Temos de fundamentar o nosso compromisso missionário e toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus.[…] O domingo significa, ao longo da vida da Igreja, o momento privilegiado do encontro das comunidades com o Senhor ressuscitado (Bento XVI, 2007).

Aparecida afirma que é preciso dar “graças a Deus, que nos deu o dom da palavra, com a qual podemos comunicar-nos com ele por meio de seu Filho, que é sua Palavra (cf. Jo 1,1), e entre nós” (DAp 25). Relembra que, “na América Latina e no Caribe, inumeráveis cristãos procuram buscar a semelhança do Senhor ao encontrá-lo na escuta orante da Palavra” (DAp 142); que “o mesmo e único Espírito guia e fortalece a Igreja no anúncio da Palavra, na celebração de fé e no serviço da caridade, até que o Corpo de Cristo alcance a estatura de sua Cabeça (cf. Ef 4,15-16)” (DAp 151); que, “seguindo o exemplo da primeira comunidade cristã (cf. At 2,46-47), a comunidade paroquial se reúne para partir o pão da Palavra e da Eucaristia e perseverar na catequese, na vida sacramental e na prática da caridade” (DAp 175); que “entende-se, assim, a grande importância do preceito dominical de ‘viver segundo o domingo’, como necessidade interior do cristão, da família cristã” (DAp 252); que “é necessário cultivar a amizade com Cristo na oração, o apreço pela celebração litúrgica, a experiência comunitária, o compromisso apostólico mediante um permanente serviço aos demais” (DAp 299); que, “acolhendo a Palavra de vida eterna e alimentados pelo Pão descido do céu, [o discípulo] quer viver a plenitude do amor e conduzir todos ao encontro com Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida” (DAp 350); que a pastoral urbana deve integrar “os elementos próprios da vida cristã: a Palavra, a liturgia, a comunhão fraterna e o serviço, especialmente aos que sofrem pobreza econômica e novas formas de pobreza” (DAp 517g).

Todos os números acima do Documento de Aparecida, conjuntamente com o número 253, oferecem uma interpretação positiva e incentivam a celebração da Palavra, pois ela “é uma verdadeira ação litúrgica. É a celebração do dia do Senhor, páscoa semanal, ritualizada pela Palavra de Deus anunciada” (CNBB, 2025, p. 102).

De certa forma, o Documento de Aparecida reforça a originalidade, a força e a necessidade atual da celebração da Palavra de Deus, até mesmo como combate ao crescente clericalismo em nossas comunidades, paróquias e dioceses.

Considerações finais

À luz do Documento de Aparecida, a celebração da Palavra de Deus revela-se um convite a todos os leigos e leigas a se reunirem para fazer memória de Jesus de Nazaré; experimentar no cotidiano suas palavras, praticando-as no respeito, no diálogo e no encontro com os descartados e descartadas, marginalizados e marginalizadas, excluídos e excluídas. A celebração da Palavra de Deus é um acontecimento comunitário, em que fé e vida revelam o rosto de Deus, um rosto com vários rostos: “feições de crianças, feições de jovens, feições de indígenas, feições de afro-americanos, feições de camponeses sem-terra, feições de operários, feições de subempregados e desempregados, feições de marginalizados” (Celam, 1979, p. 32-38). A celebração da Palavra de Deus nos transforma em testemunhas da esperança.

 

Referências bibliográficas

BENTO XVI, Papa. Discurso do papa Bento XVI na sessão inaugural da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe. Vaticano, 13 maio 2007. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedictxvi/pt/speeches/2007/may/documents/hf_bn-xvi_spe_20070513_conference-aparecida.html. Acesso em: 24 out. 2025.

BOGAZ, A. S.; HANSEN, J. H. Igreja nos primórdios: a força da Palavra. In: PARO, T. F. (org.). Atualização litúrgica 3: Associação dos Liturgistas do Brasil. São Paulo: Paulus, 2020.

CELAM. Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe – 13-31 de maio de 2007. 14. reimp. Brasília, DF: Edições CNBB; São Paulo: Paulus: Paulinas, 2013.

CELAM. Evangelização no presente e no futuro da América Latina: conclusões da Conferência de Puebla. 10. ed. São Paulo: Paulinas, 1979.

CNBB. Celebração da Palavra de Deus. 5. reimp. São Paulo: Paulus, 2014.

CNBB. Guia Litúrgico-Pastoral: revisado e atualizado. 4. ed. Brasília, DF: Edições CNBB, 2025.

FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus: Loyola, 2013.

ISNARD, C. J. C. Apresentação. In: CNBB. Celebração da Palavra de Deus. 5. reimp. São Paulo: Paulus, 2014.

LEÃO XIV, Papa. Dilexi Te: Exortação Apostólica sobre o amor para com os pobres. Vaticano, 4 out. 2025. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leoxiv/pt/apost_exhortations/documents/20251004dilexi-te.html. Acesso em: 16 out. 2025.

PALAVRA certa. Intérprete e compositor: Pe. Zezinho, scj. In: MISSA Fazedores da paz. Intérprete: Pe. Zezinho, scj. São Paulo: Comep, 1998. 1 CD, faixa 3.

Dr. Emerson Sbardelotti*

*Emerson Sbardelotti é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, agente de pastoral leigo e ministro da Palavra na paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Cobilândia, Vila Velha, arquidiocese de Vitória-ES. E-mail: [email protected]