Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 36-39
5 de julho – 14° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Marcus Mareano*
Deus dos simples
INTRODUÇÃO GERAL
A liturgia deste domingo convida a comunidade a discernir os lugares nos quais Deus se revela e os modos pelos quais ele o faz. Longe de manifestar-se na arrogância, na autossuficiência ou na lógica do poder opressor, Deus se deixa conhecer na simplicidade, na humildade e na pequenez. Essa inversão na lógica dos critérios humanos de grandeza constitui o eixo hermenêutico das leituras propostas.
A primeira leitura (Zc 9,9-10) apresenta a figura de um enviado de Deus cuja missão se realizará na pobreza e na humildade. Não será por meio da força militar ou da violência que esse mensageiro instaurará a ordem de Deus. Ao contrário, ele o fará por meio da simplicidade, desmontando os instrumentos de guerra e de morte e inaugurando um horizonte de paz plena.
No Evangelho (Mt 11,25-30), Jesus eleva ao Pai uma oração de louvor que explicita essa mesma lógica divina. A revelação do Reino, rejeitada pelos “sábios e inteligentes”, encontra acolhimento no coração dos “pequeninos”. Os pobres, os simples e os marginalizados se dispõem interiormente à mensagem de Jesus, enquanto os envaidecidos pelo conhecimento se mostram impermeáveis aos apelos de Deus. Em seguida, Jesus convida todos ao seu seguimento, afirmando que seu fardo é leve e suave e seu coração é humilde.
A segunda leitura (Rm 8,9.11-13) articula essa mesma lógica no modo de vida prático. Paulo exorta os romanos a viver “segundo o Espírito” e não “segundo a carne”. Esse apelo aponta para uma maneira de agir orientada pela graça e caracterizada pela abertura às surpresas divinas e pela conformação a Cristo.
II COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Zc 9,9-10)
A passagem com a qual iniciamos a liturgia da Palavra se situa em um contexto pós-exílico. O horizonte histórico-literário refletido nos textos indica um período posterior às conquistas de Alexandre da Macedônia, quando o povo judeu já se encontrava inserido no âmbito do Império Helenístico.
A figura do Messias é evocada de modo recorrente e apresentada sob diversas imagens simbólicas: rei, pastor e servo do Senhor. Na primeira seção (Zc 9,1-11,7), o profeta anuncia a intervenção definitiva de Deus em favor do seu povo por meio da figura messiânica; na segunda (Zc 12,1-14,21), os oráculos projetam a salvação e a futura glorificação de Jerusalém.
Nesse cenário, o profeta descreve o retorno do rei vitorioso à cidade santa, convidando Jerusalém à alegria e ao júbilo pela chegada de seu rei “justo e salvador” (v. 9). A entrada desse rei, embora triunfal, é marcada pela humildade e pela não violência. Ele não se apresenta montado em um cavalo de guerra, símbolo tradicional do poder militar, mas em um “jumentinho, filho de uma jumenta”. Esse gesto estabelece um contraste intencional com as demonstrações de força, poder e agressividade típicas dos governantes das grandes potências da época.
Paradoxalmente, esse rei humilde e pacífico possui autoridade para pôr fim aos conflitos (v. 10). Ele destruirá os instrumentos bélicos (carros, cavalos e arcos de guerra) e proclamará a paz universal. Seu reinado se estenderá longamente, “de um mar a outro” e “desde o rio até os confins da terra”, expressões que simbolizam a abrangência universal de sua soberania no imaginário do Antigo Oriente.
2. II leitura (Rm 8,9.11-13)
O texto proposto insere-se em um capítulo no qual Paulo reflete de modo particularmente denso sobre a vida segundo o Espírito. Nesse trecho, o apóstolo afirma que o Espírito de Deus, que acompanhou permanentemente a vida de Jesus, o ressuscitou, mostrando que, no desígnio divino, a entrega total da vida não desemboca na destruição, mas no surgimento de uma vida plena e definitiva.
Esse mesmo Espírito foi oferecido por Cristo aos seus discípulos (v. 11). Eles devem reconhecer que, ao configurarem a própria existência à de Cristo, participarão também da vida nova comunicada pelo Espírito. O que ocorreu com Jesus também se aplicará aos que o seguem.
Nessa perspectiva, Paulo conduz os cristãos às implicações éticas dessa realidade (v. 12-13). Viver “segundo a carne” conduz à morte, que não significa apenas a morte física, mas sobretudo a impossibilidade de alcançar a vida eterna e definitiva. Viver “segundo o Espírito” conduz à ressurreição e à plena realização da existência.
Nos textos de Paulo, o termo “carne” não designa simplesmente a dimensão material do ser humano, mas sobretudo a atitude de fechamento a Deus, marcada pelo egoísmo, pela autossuficiência e pela rejeição dos valores divinos. O termo “espírito” remete à existência orientada pela relação com Deus, pautada pela escuta de sua vontade, pela adesão ao seu projeto e pela doação da vida em favor dos outros.
Diante disso, Paulo conclama aqueles ouvintes a uma decisão fundamental: optar por um modo de vida configurado ao Espírito. O apóstolo demonstra que a conformação a Cristo, mediada pela ação do Espírito, conduz o ser humano à vida plena e definitiva.
3. Evangelho (Mt 11,25-30)
A passagem do Evangelho deste domingo é composta de três partes. As duas primeiras (v. 25-27) também se encontram em Lucas (Lc 10,21-22), pois vêm de uma fonte comum aos dois evangelistas. A terceira (v. 28-30) é exclusiva de Mateus.
A primeira parte (v. 25-26) constitui uma oração de louvor dirigida por Jesus ao Pai, que escondeu aquelas coisas aos sábios e inteligentes (doutores da Lei e fariseus) e as revelou aos pequeninos (os discípulos, os pobres e os marginalizados). As pessoas legalistas se consideravam justas e garantidas na salvação, por isso resistiam a qualquer questionamento ao sistema religioso no qual se haviam instalado. Em contraposição, os menos favorecidos da sociedade acolhiam a mensagem do Evangelho e se colocavam surpreendentemente receptivos à proposta libertadora de Jesus.
A segunda parte (v. 27) aprofunda a anterior e explicita aquilo que foi ocultado aos “sábios e inteligentes” e revelado aos “pequeninos”. Jesus afirma que somente por meio dele, o Filho, é possível entrar na comunhão plena com o Pai. Quem rejeita Jesus permanece preso às imagens distorcidas de Deus, usadas muitas vezes para julgar e excluir. Quem o acolhe e segue, ao contrário, aprende a viver na obediência confiante aos projetos de Deus e na comunhão profunda com ele.
A terceira parte (v. 28-30) consiste em um convite direto: “vinde a mim” e “tomai sobre vós o meu jugo”. A imagem do jugo, no contexto farisaico, era tradicionalmente atribuída à Lei, considerada a norma suprema da vida (Eclo 6,24-30; 51,26-27). Contudo, na prática, ela se tornou, para muitas pessoas, um fardo quase impossível de carregar. A multiplicidade das prescrições (aproximadamente 613 preceitos) gerava peso e angústia. A incapacidade cotidiana de cumpri-las alimentava a culpa e a sensação de indignidade e de distanciamento de Deus. Assim, os preceitos acabavam por aprisionar, em vez de libertar.
A proposta de Jesus contrapõe-se a essa lógica. Ele dirige sua oferta amorosa àqueles que a religião oficial excluía e assegura que Deus não os rejeita, mas os convida a integrar a nova realidade do Reino. É nesse novo dinamismo, marcado pela misericórdia e pela libertação, que encontram a alegria e a vida plena que as leis antigas jamais lhes puderam oferecer.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
As três leituras convergem para a afirmação de que Deus se manifesta de maneira privilegiada na simplicidade. Somente quem se dispõe interiormente se torna capaz de acolher plenamente sua revelação e seu projeto de salvação.
Em vez de nos apegarmos a conhecimentos ou aguardar uma manifestação ostensiva, podemos aderir ao caminho proposto pelo Mestre do fardo suave. Quando nos desprendemos um pouco, damos oportunidades para a ação divina e permitimos as surpresas de Deus em nossa vida.
A verdadeira soberania divina não se impõe, mas se oferece na forma de serviço e mansidão, revelando a lógica de um Deus que constrói a paz por caminhos radicalmente distintos dos padrões humanos.
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]

