Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 44 - 47
26 de julho – 17° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Marcus Mareano*
Qual é o teu tesouro?
Somos seres movidos por desejos. Alguns bons, outros nem tanto. A liturgia deste domingo propõe uma reflexão acerca das prioridades que orientam a existência humana, bem como dos valores que estruturam nosso agir.
Salomão, rei de Israel, é apresentado como modelo de sabedoria no texto da primeira leitura (1Rs 3,5.7-12). Tal qualidade se evidencia na capacidade de discernimento que permite identificar aquilo que é perene, evitando a valorização demasiada dos bens efêmeros e a alienação provocada por falsas seguranças.
No Evangelho (Mt 13,44-52), por meio de parábolas, Jesus exorta os discípulos a reconhecer o Reino de Deus como prioridade absoluta. Diante desse bem supremo, compreendido como o verdadeiro “tesouro”, todos os demais interesses, aspirações e posses devem ocupar um lugar secundário.
O pequeno trecho da carta aos Romanos (segunda leitura: Rm 8,28-30) retoma essa perspectiva ao convocar seus destinatários para configurarem a própria existência segundo as exigências de Jesus. Deus predestinou cada pessoa a ser conforme a imagem do Filho, Jesus.
I COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (1Rs 3,5.7-12)
Esse texto evidencia que, no contexto de Israel, a figura do rei é compreendida como instrumento de Deus. O rei serve de mediador para realizar os planos de Deus para seu povo. É por meio da pessoa régia que a ação divina se manifesta na história, orientando e governando a vida comunitária de Israel.
Salomão não interpretou sua função régia como privilégio destinado à satisfação de interesses pessoais, e sim como ministério recebido de Deus e destinado ao serviço do povo (v. 7-8). O monarca reconhece que a autoridade comporta responsabilidade ética e que seu exercício deve ser orientado pela sabedoria prática (v. 9), entendida como capacidade de discernimento e como busca do bem comum.
Por fim, o texto destaca a qualidade da súplica de Salomão e a resposta positiva de Deus ao seu pedido (v. 11-12). Ele não solicita riquezas, prestígio ou poder, mas sim as disposições interiores e as competências necessárias para cumprir fielmente a missão confiada por Deus. Assim, Salomão se torna, para o autor bíblico, um paradigma humano capaz de escolher aquilo que possui valor perene, sem se deixar seduzir por bens passageiros.
Ao afirmar que o pedido de Salomão “agradou ao Senhor” (v. 10), o texto propõe implicitamente ao povo de Israel a adoção de valores duradouros, essenciais e espiritualmente significativos, em contraste com a busca de bens transitórios.
2. II leitura (Rm 8,28-30)
A passagem de Rm 8,28-30 se insere no grande argumento paulino sobre a ação salvífica de Deus em Cristo e sobre a esperança que sustenta a vida dos fiéis. Paulo afirma, de início, que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus (v. 28). Logo, a história pessoal e comunitária das pessoas não é marcada pelo acaso, mas acompanhada pela Providência divina.
Em seguida, essa perspectiva se amplia ao afirmar que Deus “predestinou” os fiéis a serem conformados à imagem de seu Filho (v. 29). A predestinação não deve ser entendida como um determinismo rígido, e sim como o desejo amoroso de Deus, que sempre quis a humanidade configurada ao Cristo. Esse processo de transformação ocorre na vida cristã pela ação do Espírito. A pessoa vai sendo moldada segundo o modelo de Cristo, cujo modo de viver, amar e se entregar revela plenamente a vontade salvífica do Pai.
Enfim, há uma descrição em sequência do itinerário da salvação (v. 30). É uma visão unitária do agir divino (predestinar, chamar, justificar e glorificar), no qual o chamado inicial conduz à justificação, isto é, à inserção no relacionamento justo com Deus, e culmina na glorificação, que indica a participação plena na vida divina. O uso do tempo verbal no passado (“glorificou”), embora a referência seja a uma realidade futura, expressa a firmeza da promessa. Para Paulo, o que Deus iniciou na vida daqueles que creem já carrega a garantia da realização definitiva.
3. Evangelho (Mt 13,44-52)
Neste domingo, concluímos a leitura do capítulo de Mateus dedicado às parábolas. Nesse ensinamento (Mt 13,1-52), Jesus instrui a respeito do mistério do Reino dos Céus por meio de imagens do cotidiano das pessoas, provocando questões para a conversão.
Na primeira parte (v. 44-46), encontram-se duas parábolas a respeito do valor incomparável do Reino dos Céus. Ambas as imagens, de um tesouro escondido no campo e de uma pérola de grande valor, demonstram que o anúncio realizado por Jesus constitui um bem supremo diante do qual todos os demais valores devem ser relativizados. O discípulo autêntico é aquele que reconhece, na descoberta do Reino, uma experiência decisiva e transformadora, capaz de redefinir prioridades de valores e orientar toda a existência em torno da novidade de grande valor.
A segunda parte (v. 47-50) apresenta o Reino sob a metáfora de uma rede lançada ao mar, que recolhe peixes de diversas espécies. De forma semelhante à parábola do joio e do trigo, esse texto ensina que o Reino não se desenvolve como um espaço exclusivo para alguns perfeitos, mas como uma realidade onde convivem, simultaneamente, bons e maus. No tempo oportuno, Deus separará uns dos outros. Ele concede ao ser humano tempo suficiente para amadurecer escolhas e reorientar a própria vida. Essa menção ao juízo final (v. 49-50) funciona como apelo à comunidade para escolher decididamente pelo Reino.
A terceira parte (v. 51-52) apresenta breve diálogo conclusivo entre Jesus e os discípulos. O evangelista enfatiza que o verdadeiro discípulo é aquele que “compreende”, termo que, no vocabulário teológico mateano, significa acolher o ensinamento de Jesus com atenção, discernimento e compromisso. Assim, o escriba que extrai de seu tesouro coisas novas e velhas representa as pessoas de origem judaica, conhecedoras das Escrituras de Israel (o “velho”), que agora são convidadas a reinterpretá-las à luz da novidade do Evangelho (o “novo”).
Nessa dinâmica constante entre tradição e inovação, o discípulo encontra o caminho do Reino dos Céus e, uma vez que começa a percorrê-lo, é chamado a nele perseverar com decisão, coerência e empenho.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
Sempre temos muitas opções para escolher. A escolha de algo implica perda de outras coisas. O desafio ordinário está em optar pelo que realmente é importante e desapegar-se do que é desnecessário.
A orientação da primeira leitura é pedir a Deus sabedoria, que não significa informações a respeito de algo, mas capacidade de discernimento e de ação para a vida prática. O Evangelho instiga nossa mente para refletirmos sobre o que buscamos e propõe um tesouro a ser descoberto na interioridade da oração. Quando esse bem maior é encontrado, todas as outras coisas perdem valor. Por fim, Paulo nos recorda que somos destinados para o eterno amor de Deus, e não para a fascinação do que é provisório.
Entre as muitas possibilidades que temos, o Evangelho sempre se apresenta como a melhor de todas. Por ele optaram inúmeras testemunhas ao longo da história, e ainda hoje podemos reconhecer, em nosso meio, como a experiência de fé em Cristo muda a vida das pessoas e a nossa própria.
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]

