Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 47- 50
2 de Agosto – 18° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Marcus Mareano*
Vinde ao banquete
INTRODUÇÃO GERAL
A celebração da Eucaristia é um banquete de Deus para nós. Não para nos fartarmos fisicamente, mas para nos alimentarmos da presença dele a fim de nos comprometermos com a partilha, a solidariedade e a compaixão.
Na primeira leitura, Deus chama seu povo a abandonar a terra da escravidão e a caminhar em direção à terra da liberdade: uma nova Jerusalém de justiça, amor e paz. O Senhor promete saciar para sempre a fome do seu povo e conceder, de forma gratuita, a vida em plenitude e a felicidade sem fim.
No Evangelho, Jesus aparece em torno de uma refeição, ensinando aos discípulos que o verdadeiro caminho para o Reino é acolher o pão que Deus oferece e partilhá-lo com todos. Os cinco pães e os dois peixes alimentam muitas pessoas, assim como nossos gestos de solidariedade podem fazer a diferença na sociedade. Com essa compreensão, a comunidade de seguidores poderá libertar-se do egoísmo e descobrir a liberdade que nasce do amor.
A segunda leitura é um cântico de louvor ao amor de Deus, um amor inabalável que nada pode destruir e que se revelou plenamente no envio de seu Filho, para nos convidar ao banquete da vida eterna.
Dessa forma, a liturgia deste domingo nos apresenta o grande convite de Deus: sentar-nos à mesa que ele nos preparou. Nessa mesa, o Senhor oferece o alimento que sacia nossas fomes mais profundas: fome de vida, de sentido, de felicidade e de eternidade. Tudo é dom, tudo é graça. Cabe a nós acolher esse amor, deixarmo-nos nutrir por ele e, por ele transformados, tornarmo-nos também pão partilhado para a vida do mundo.
I COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 55,1-3)
Nesse pequeno trecho, o profeta dirige aos exilados um apelo para realizarem um novo êxodo, deixando a escravidão na qual se instalaram e partindo em direção a uma nova realidade. O povo sofredor encontrará alimento, bebida e o conforto de Deus.
Para expressar essa restauração ansiada, o profeta utiliza a imagem de um banquete, que representa fartura e comunhão. Este se realizará em Jerusalém, onde o povo, à mesa com Deus, encontrará trigo, vinho, leite e alimentos saborosos. O que antes era fome e penúria passa a ser abundância e harmonia restaurada por Deus.
Diante disso, o profeta conclama para a coragem e a confiança. É preciso romper com a acomodação, abrir-se ao sonho e caminhar ao encontro do dom divino. Aqueles que se dispuserem a abandonar suas seguranças para responder ao chamado de Deus participarão de uma “aliança eterna” que jamaisserá rompida.
Quem aceitar esse dom encontrará a água que sacia a sede de sentido e o alimento que plenifica a vida. Assim, viverá uma nova relação com Deus e fará parte, em definitivo, da comunidade dos que foram restaurados e reintegrados ao povo de Deus.
2. II leitura (Rm 8,35.37-39)
A segunda leitura se inicia com uma interrogação sobre quem ou o que poderia separar o ser humano do amor de Cristo. Trata-se de questão importante sobre a qual pensar ainda atualmente, a fim de reconhecer a infinitude do amor de Deus. O texto bíblico enfatiza a força desse amor e certifica que nada poderia separar o ser humano dele.
As afirmações desenvolvidas contêm a certeza fundamental de que nada pode derrotar aquele que é objeto do amor imenso e eterno de Deus. Esse amor se manifestou plenamente no gesto supremo de Cristo, que se entregou até a morte para conduzir a humanidade ao caminho da salvação e da vida em plenitude. Em Cristo, Deus revelou o amor que vence todo o mal e garante à pessoa a segurança de estar sempre amparada por sua graça.
Nos versículos finais (v. 38-39), Paulo enumera uma série de forças que, segundo as crenças da época, poderiam ameaçar o ser humano. Essa lista não pretende descrever o mundo sobrenatural, mas apenas reforçar, de modo retórico e enfático, a convicção central do apóstolo: nenhuma realidade – nem a morte, nem os poderes cósmicos, nem qualquer criatura – é capaz de separar o cristão do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo. É esse amor indestrutível que sustenta a fé, dá sentido à existência e assegura à pessoa a vitória sobre todas as forças de destruição.
3. Evangelho (Mt 14,13-21)
No início do Evangelho deste domingo, Mateus nos mostra Jesus retirando-se para o deserto, seguido por grande multidão. Ali, movido pela compaixão, Ele acolhe a dor e a fome daquele povo e cura os enfermos (v. 13-14).
O deserto recorda aos ouvintes e leitores do Evangelho um lugar de encontro com Deus, no qual se aprende a confiar, a desapegar-se das seguranças humanas e a reconhecer que tudo é dom do amor divino. É também o lugar da consideração pelo outro, da partilha e da fraternidade, pois nele cada pessoa depende do cuidado e da solidariedade dos outros para continuar a caminhar. Assim, Jesus conduz o povo ao deserto não para isolá-lo, mas para fazê-lo redescobrir o essencial: a presença de Deus que sustenta e alimenta por meio de irmãos e irmãs.
Diante da multidão faminta, os discípulos querem despedir o povo, mas Jesus os desafia com uma palavra que ressoa até hoje: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (v. 16). Com isso, ele os chama à responsabilidade diante da fome e do sofrimento do mundo. Seguir Jesus é comprometer-se com as dores humanas, pois não há verdadeiro discipulado cristão sem solidariedade. A comunidade do Reino é aquela que escuta o grito dos necessitados e responde com gestos concretos de partilha, compaixão e cuidado fraterno.
Por fim, Jesus exerce a partilha. Ele toma os cinco pães e dois peixes, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção e os reparte entre todos. Ao agradecer, reconhece que tudo vem de Deus e tudo deve voltar a Deus por meio do amor. Nenhum bem é propriedade exclusiva. Tudo é dom confiado para o serviço e o bem comum.
Assim, a bênção de Jesus transforma o pouco em abundância e o medo em generosidade. A comunidade que vive dessa lógica do dom recebido e partilhado torna-se sinal do Reino de Deus: um povo novo, liberto do egoísmo, alimentado pela gratuidade e unido no amor que sacia toda fome.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
Muitas vezes se cultiva a imagem de que Deus prefere alguns, por serem cumpridores de preceitos, e exclui outros, por não corresponderem aos cânones da religião. Contrariamente a isso, a lógica divina se apresenta como uma proposta para todas as pessoas.
As leituras deste domingo, por meio do cenário da comensalidade, demonstram que Deus acolhe a todos para a comunhão de amor e deseja que todos dela participem. A primeira leitura constitui um convite à comunhão com Deus no banquete preparado por ele. No Evangelho, Jesus realiza essa comunhão na acolhida do dom oferecido e na partilha dos pães e dos peixes para que os discípulos os distribuam. A segunda leitura declara que a comunhão com o amor de Deus não se perde por nada e que essa é nossa vitória.
Portanto, a celebração da Eucaristia não pode servir para promover exclusões pastorais e favorecer ferramentas de acusação. Ela é o sacramento de comunhão, e Deus deseja a comunhão com todas as pessoas. Nossa liturgia se torna mais eficaz quando nos comprometemos com a vivência do que celebramos, com a acolhida de todas as pessoas nesse banquete de Deus e com a partilha solidária dos dons recebidos.
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]

