Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 50 - 53
9 de agosto – 19° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Marcus Mareano*
Deus nos conduz
INTRODUÇÃO GERAL
Deus se envolve na história, acompanhando a humanidade nos seus processos históricos e existenciais. Ele não se mantém distante dos dramas humanos, mas se compromete com o caminhar do seu povo, orientando-o e iluminando-o.
O episódio da primeira leitura (1Rs 19,9a.11-13a) sugere à comunidade celebrante um retorno às fontes da fé, propondo uma peregrinação interior e espiritual ao encontro de Deus. Elias foi movido para uma nova experiência de fé, diferente do que se conhecia. O texto ressalta que a autenticidade dessa experiência não se dá pela ocorrência de manifestações espetaculares ou teofanias grandiosas, mas, antes, verifica-se no âmbito da simplicidade, da interioridade e da humildade. Deus se encontra na simplicidade dos momentos, e não no espetáculo visual.
No texto do Evangelho (Mt 14,22-33), os discípulos são enviados para a “outra margem”. Jesus vai ao encontro deles, caminhando sobre o mar, e mostra como Deus os sustenta e capacita para enfrentarem a adversidade. Os discípulos são encorajados a perceber Jesus e a confessá-lo como “o Senhor”. Crer na presença de Deus significa sempre nos surpreendermos com suas novidades em nossa vida. É ele quem nos movimenta para seguirmos adiante.
O movimento em direção a Deus também nos direciona ao próximo. A segunda leitura complementa a dinâmica de encontro com Deus ao demonstrar a solidariedade de Paulo com seu povo (Rm 9,1-5). A tristeza do apóstolo pode ser também a nossa, ao percebermos tantas pessoas que não vivem a fé verdadeiramente e perdem o encanto pela vida que Deus gera em nós.
Acolhamos essa força dinâmica de Deus em nós, que nos põe em movimento em direção a ele e aos irmãos e irmãs. Somos incentivados pela Palavra de Deus a nos desacomodarmos e seguir para novas margens.
I COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (1Rs 19,9a.11-13a)
O texto apresenta evidente referência às teofanias de Deus presenciadas por Moisés (Ex 19,16-17; 33,18-23; 34,5-8). Assim como Moisés, Elias recebe uma visita divina no Sinai/Horeb. Em ambos os casos, a revelação fundamenta e renova um compromisso de aliança: Moisés torna-se mediador da Aliança proposta por Deus ao seu povo; Elias assume a tarefa de reavivar a Aliança fragilizada pela infidelidade de Israel, tornando-se instrumento de sua restauração.
Entretanto, o relato bíblico destaca uma diferença significativa entre as duas experiências. Deus se manifesta a Moisés por meio de fenômenos naturais grandiosos e aterradores (Ex 19,16-17). Por sua vez, Elias encontra Deus não nesses elementos tradicionalmente associados às manifestações divinas, mas, de modo surpreendente, na brisa suave, insistindo na dimensão discreta da ação divina. Diante dessa novidade, o profeta, apropriadamente, reage com o gesto reverente de cobrir o rosto com o manto, reconhecendo a transcendência radical do mistério divino e sua proximidade com o ser humano.
O encontro com Deus tem consequências práticas. Embora o trecho litúrgico não as apresente, a narrativa prossegue com a missão confiada a Elias (1Rs 19,15-18), evidenciando que a experiência de fé não conduz à evasão do mundo, mas ao compromisso com a história. Assim, o encontro autêntico com Deus converte-se sempre em responsabilidade profética e em ação transformadora.
2. II leitura (Rm 9,1-5)
Esse texto inaugura nova grande seção da carta (Rm 9-11), na qual Paulo enfrenta uma questão crucial: como compreender a situação de Israel diante do Evangelho de Cristo, sobretudo pelo fato de grande parte do povo judeu não ter acolhido Jesus como Messias?
O tom inicial é marcadamente pessoal e dramático. Paulo inicia com uma declaração solene de veracidade, que reforça sua dor e responde antecipadamente à possível suspeita de que sua mensagem relativizaria Israel. Ele afirma que desejaria ser “anátema, separado de Cristo” (v. 3), em favor de seus irmãos segundo a carne. Tal linguagem evoca figuras bíblicas como Moisés (Ex 32,32), evidenciando a profundidade de sua solidariedade com Israel e seu amor radical.
Em seguida, Paulo enumera os privilégios históricos e teológicos de Israel, reafirmando sua eleição (v. 4-5). O clímax dessa enumeração ocorre na afirmação de que Cristo procede de Israel segundo a carne, o que confere a esse povo um lugar singular no desígnio salvífico de Deus. A doxologia final pode ser lida como uma confissão cristológica implícita ou como um louvor dirigido a Deus, sublinhando a soberania divina que atravessa toda a argumentação paulina.
3. Evangelho (Mt 14,22-33)
Após despedir a multidão e ordenar aos discípulos que atravessassem o lago em direção à outra margem, Jesus se retira ao monte para orar a sós (v. 22-23). A oração antecede um momento importante, funcionando como preparação espiritual para eventos que exigem maior discernimento e coragem.
Enquanto Jesus permanece em diálogo com o Pai, os discípulos seguem sozinhos na travessia do lago. A viagem se desenvolve em condições adversas: é noite, o barco é agitado pelas ondas e enfrenta ventos contrários (v. 24). Tal cenário gera inquietação e insegurança entre os discípulos. A narrativa descreve uma experiência comum de desorientação, vulnerabilidade e temor que caracteriza a caminhada eclesial diante das forças que ameaçam a vida e a esperança.
Nesse contexto, Jesus vai ao encontro dos discípulos caminhando sobre o mar (v. 26). No imaginário bíblico, tal gesto é um atributo divino: somente Deus caminha sobre o mar (Jó 9,8b; 38,16), domina as águas profundas (Sl 77,17.20) e apazigua tempestades (Sl 107,25-30). A cena associa Jesus à soberania divina sobre as forças do caos e da morte. A expressão com a qual Jesus responde remete à fórmula de identificação divina do Antigo Testamento (Ex 3,14; Is 43,3.10-11). A exortação à confiança e à coragem reafirma aos discípulos que a presença de Jesus neutraliza o poder destrutivo do mal e sustenta a comunidade em sua travessia histórica.
Por fim, Mateus introduz um episódio singular, ausente nos demais Evangelhos: o diálogo entre Pedro e Jesus (v. 28-33). Pedro, ao deixar o barco, inicia um movimento em direção a Jesus. Contudo, ao perceber a força do vento, deixa-se dominar pelo medo, começa a submergir e clama por salvação. Jesus o socorre, mas reprova sua pouca fé e suas hesitações. Essa cena oferece uma representação da condição dos discípulos de todos os tempos: neles coexistem coragem e fragilidade, confiança e dúvida, desejo de seguir a Cristo e medo diante das adversidades, exigindo constante purificação da fé e renovação da adesão ao Senhor.
A narrativa se conclui com a confissão de fé (v. 33). O Evangelho reflete a experiência real e universal das comunidades cristãs, feitas de discípulos que muitas vezes aderem a Jesus com determinação, mas cujas convicções vacilam diante da perseguição, do sofrimento e das diversas provações da caminhada de fé.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
As leituras propostas convergem para uma reflexão sobre a presença dinâmica de Deus, que se revela de modo discreto e exigente. Elias, em fuga e desanimado, espera encontrar Deus nos sinais grandiosos, mas o Senhor manifesta-se na voz de um silêncio sutil. A cena convida a comunidade a reconhecer que Deus continua a falar mesmo nos momentos de crise e desalento, não pela imposição, mas pela proximidade que consola e orienta.
O Evangelho apresenta os discípulos em meio à tempestade, experimentando o medo e a fragilidade da fé. A experiência de Pedro (capaz de caminhar, mas também de afundar) espelha a condição do/a discípulo/a, chamado/a a manter o olhar fixo em Cristo para não sucumbir às forças do medo. A narrativa conduz à profissão de fé final, reconhecendo Jesus como Filho de Deus.
A segunda leitura introduz o drama interior de Paulo diante do mistério da incredulidade de Israel. Sua dor profunda revela um amor pastoral que não se fecha em juízos fáceis, mas permanece solidário com a história concreta do povo. Assim, podemos compreender que uma fé amadurecida sabe conviver com as tensões, reconhecendo que a ação de Deus na história é mais ampla do que nossos esquemas e expectativas imediatas.
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]

