Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 56 - 60
23 de agosto – 21° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Marcus Mareano*
Escolha divina e disposição humana
Escutamos popularmente que “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”. Essa máxima encontra fundamento nas leituras da celebração deste domingo.
No texto da primeira leitura (Is 22,19-23), o próprio Deus depõe Sobna e estabelece Eliacim, conferindo-lhe autoridade, simbolizada pela “chave da casa de Davi”. O texto sublinha que toda forma de poder legítimo não nasce da ambição humana, mas do chamado e da iniciativa divina, que eleva e destitui segundo seus critérios de justiça e fidelidade ao povo.
Essa mesma lógica é aprofundada em Rm 11,33-36, passagem na qual Paulo irrompe num hino de louvor à sabedoria e aos desígnios insondáveis de Deus. Após refletir sobre o mistério da eleição e da salvação, o apóstolo reconhece que os caminhos de Deus ultrapassam a compreensão humana e que tudo provém dele, por ele existe e para ele converge. A leitura relativiza qualquer pretensão humana de domínio ou de mérito absoluto, estabelecendo Deus como origem, sustentação e fim de toda a realidade.
O Evangelho de Mt 16,13-20 mostra que essa iniciativa divina se manifesta na confissão de fé da identidade de Jesus e na constituição de Pedro como referência visível da comunidade. O reconhecimento de fé feito por Pedro não é fruto de uma percepção meramente humana, mas resultado da revelação do Pai. Por conseguinte, a autoridade confiada a Pedro, representada pelas “chaves do Reino dos Céus”, ratifica a ideia de que a missão e a autoridade na comunidade são dons concedidos por Deus para o serviço e a edificação do seu povo.
As leituras evidenciam que Deus age na história escolhendo mediadores humanos, mas permanece sempre como o verdadeiro protagonista. A autoridade, a fé e a missão das pessoas não se baseiam nas próprias capacidades, mas na gratuidade divina, que elege essas pessoas e conduz seus escolhidos para a realização de seu plano de amor.
II COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 22,19-23)
O oráculo de Isaías se dirige a Sobna, apresentado como administrador do palácio, a quem é anunciada a destituição do cargo e a consequente substituição por Eliacim (v. 19-20). Essa ação divina representa a reprovação de Deus do mal exercício da função pública, que estava centrada na autopromoção e não no bem comum.
O novo administrador eleito será revestido, cingido e instituído para as funções junto ao povo. Sua caracterização de pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá (v. 21) indica um exercício da autoridade marcado pela solicitude, pelo cuidado e pela justiça. Do mesmo modo, a imagem da estaca firme (v. 23) sugere estabilidade e segurança, revelando a esperança do profeta de que Eliacim desempenharia suas funções com solidez e responsabilidade.
Entre as atribuições, ele receberá o chamado “poder das chaves”. No contexto da corte real, o mordomo era o guardião das chaves do palácio, responsável pela administração dos bens do soberano, pelo controle da abertura e do fechamento das portas e pela determinação de quem poderia ter acesso à presença do rei. O poder das chaves designa uma autoridade delegada, exercida em nome de outrem e orientada para a boa ordem da comunidade.
Isaías mostra que o verdadeiro serviço das chaves não consiste em privilégios ou benefícios pessoais, mas no exercício responsável da autoridade como serviço ao povo. Eliacim deverá ser como um pai para aqueles que estão sob sua responsabilidade e buscar, com solicitude, amor e justiça, o bem de todos.
2. II leitura (Rm 11,33-36)
Após refletir longamente sobre o desígnio salvífico de Deus e procurar discernir o lugar de Israel nesse projeto (Rm 11,1-32), Paulo apresenta uma irrupção contemplativa, marcada pelo assombro diante da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus (v. 33). Essas três prerrogativas divinas constituem o fundamento das exclamações e interrogações retóricas que estruturam o restante do hino (v. 34-36), conferindo-lhe um caráter doxológico que difere do estilo argumentativo precedente.
Paulo reconhece que os desígnios divinos permanecem envoltos em mistério e excedem radicalmente as capacidades humanas de compreensão e de explicação (v. 34-35). Deus se apresenta sempre além de qualquer concepção humana. Diante dessa transcendência, o ser humano reconhece a própria pequenez, os próprios limites e finitude. Ainda assim, a pessoa é convidada a confiar, acolhendo com humildade a Palavra de Deus e procurando seguir seus caminhos com simplicidade e amor.
Desse modo, aquele que crê se caracteriza pela entrega confiante à vontade de Deus. O espanto diante do mistério, aliado ao reconhecimento da soberania divina, transforma-se então em atitude de adoração e louvor, culminando na doxologia (v. 36).
3. Evangelho (Mt 16,13-20)
O episódio do Evangelho versa sobre a fé dos discípulos em Jesus. Contudo, Simão se torna o porta-voz do grupo para confessar a fé. Por conseguinte, Jesus o designa para uma missão, demonstrando-lhe sua nova identidade.
A questão proposta em Mt 16,13-19 é fundamental para a compreensão da identidade de Jesus. Os discípulos caminhavam com ele e ainda não sabiam tão bem quem ele era nem tinham certeza da sua missão como Messias. Entusiasmados, eles o seguiam.
O destino final da viagem é Jerusalém (onde se dará a crucificação e a ressurreição), mas no caminho, passando pela região de Cesareia de Filipe, Jesus interpela os discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v. 13). A questão era acerca da percepção que os outros tinham de Jesus, qual ideia sobre ele circulava entre as pessoas, o que achavam de tudo que era feito e dito. Os discípulos respondem: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Jeremias ou um dos profetas” (v. 14). A multidão percebia que Jesus falava em nome de Deus, como um profeta, como alguém da parte de Deus, mas não reconhecia sua identidade mais profunda.
Então, o questionamento se transfere diretamente aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 15). Os discípulos já tinham uma caminhada com Jesus, conheciam-no mais do que a multidão e podiam afirmar algo mais do que aquelas pessoas empolgadas, por isso, Simão Pedro, como porta-voz dos outros, diz: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Eles reconhecem em Jesus o esperado pelo povo de Israel, um revolucionário, alguém que fosse libertar os judeus da dominação romana.
A resposta acertada causa admiração em Jesus. Pedro é bem-aventurado por reconhecer algo tão valioso para o novo seguimento no qual o grupo se empenhava. No entanto, esse entendimento tem origem em Deus, não é esforço da inteligência humana, não foram a carne e o sangue que revelaram isso a Pedro (v. 17).
Por conseguinte, Jesus dá uma nova identidade àquele companheiro. Ele é designado como pedra, como rocha, representando o compromisso de manter-se firme e confirmar os outros do grupo na fé professada.
Para isso, Pedro recebe as chaves (Is 22,22) do Reino dos Céus e o poder de ligar e desligar as coisas dos céus e da terra (v. 19). A descrição quer explicitar a missão da Igreja de refletir o mistério do Reino anunciado por Cristo. O que for de acordo com o que está no céu deve ser também na terra e vice-versa. O trecho se conclui com a recomendação de que não se dissesse que Jesus era o Cristo.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
Essas leituras destacam a iniciativa de Deus, que conduz a história e confia missões segundo seu desígnio. Em Isaías, é Ele quem concede e retira a autoridade, simbolizada pela chave da casa de Davi. Em Romanos, Paulo reconhece a profundidade e a incompreensibilidade dos planos de Deus, de quem tudo procede e para quem tudo converge. Em Mateus, a confissão de fé feita por Pedro e a autoridade que lhe é confiada revelam que a fé e a missão na Igreja não nascem da iniciativa humana, mas da revelação e da graça de Deus, postas a serviço do seu povo. No nosso tempo, como Deus continua a escolher e a capacitar as pessoas?
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]

