Roteiros homiléticos

Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 60 - 64

30 de agosto – 22° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Marcus Mareano*

O exigente seguimento de Jesus

I INTRODUÇÃO GERAL

A abundância de pessoas nas assembleias ou a quantidade de seguidores nas mídias sociais não significam real compromisso com o seguimento de Jesus. Esta liturgia mostra que a proposta de Jesus é exigente e não pode ser acolhida por mero entusiasmo frenético.

Na primeira leitura (Jr 20,7-9), o profeta Jeremias testemunha sua experiência pessoal com a Palavra de Deus. Ele se diz seduzido pelo Senhor, a quem entrega integralmente sua vida, pondo-a a serviço da missão profética. Essa fidelidade acarreta-lhe sofrimento, isolamento e perseguição, revelando que a adesão coerente à vontade de Deus implica, muitas vezes, a aceitação do conflito e da dor. A experiência de Jeremias torna-se, desse modo, paradigmática para todos aqueles que acolhem a Palavra de Deus e procuram viver de acordo com seus valores.

Paulo exorta os cristãos a se oferecerem como culto agradável a Deus (Rm 12,1-2). O apóstolo afirma que esse é o sacrifício que verdadeiramente corresponde à vontade divina: não um rito exterior, mas uma vida transformada. Tal oferta se concretiza na recusa de se conformar com a mentalidade deste mundo, na capacidade de discernir a vontade de Deus e na disposição de orientar a própria vida segundo esse discernimento.

O Evangelho retoma e aprofunda essa perspectiva, ao apresentar Jesus advertindo os discípulos de que o caminho da vida não passa pelos êxitos ou triunfos humanos, mas pelo amor que se exprime no dom de si, até as últimas consequências (Mt 16,21-27). Seguir Jesus implica assumir o mesmo itinerário de entrega, fazendo da cruz não um obstáculo, mas o lugar onde se revela o sentido para a vida.

II COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Jr 20,7-9)

O texto apresenta uma oração de Jeremias. Ela parece perturbadora, pois se situa em um contexto de crise pessoal, marcado pela desilusão e pelo desânimo, possivelmente relacionado com o episódio da prisão do profeta pelos ministros do rei Sedecias e do seu lançamento numa cisterna, onde se afundava no lodo (Jr 38,4-6). Essa súplica assume uma forma de denúncia e de acusação dirigida a Deus, revelando o drama interior diante do sofrimento que resulta da fidelidade à vocação.

A acusação do profeta se estrutura por meio da forte metáfora da “sedução”. Jeremias descreve sua relação com o Senhor em termos de uma iniciativa divina irresistível, na qual Deus se insinua na sua vida, o pressiona e o domina. O verbo hebraico pth, utilizado no texto (v. 7), evoca o campo semântico da sedução amorosa, até com conotações de vulnerabilidade e engano, e é empregado em outros contextos bíblicos para designar a sedução de uma jovem (Ex 22,15). Do mesmo modo, o verbo ykl, que caracteriza a ação de Deus sobre o profeta, exprime a ideia de prevalecer, exercer poder ou dominar.

Contudo, o profeta sente-se abandonado por aquele que o seduziu e constrangeu à missão, ficando exposto à hostilidade, ao ridículo e à perseguição dos adversários (v. 8). Daí nasce sua desilusão, que se traduz na decisão de silenciar a Palavra e romper com a missão (v. 9). Não obstante, a Palavra de Deus permanece viva e atuante no interior do profeta, comparável a um fogo ardente que consome seu coração e o impede de renunciar à vocação recebida.

2. II leitura (Rm 12,1-2)

Paulo exorta os romanos a se oferecerem a si mesmos a Deus. O “corpo” representa o ser humano enquanto sujeito de relações, chamado a viver em comunhão com Deus, com os outros e com o mundo. Assim, o cristão é aquele que se entrega inteiramente a Deus e orienta todos os momentos da sua existência para ele.

Essa entrega assume a forma de um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Tais qualificativos se inserem em uma tradição bíblica que distingue o culto meramente formal e exterior do culto autêntico, que brota do interior do ser humano e envolve a totalidade da sua vida (Am 5,21-25; Os 6,6; Jo 4,23-24). Portanto, o verdadeiro culto consiste, para Paulo, na oferta integral da própria vida a Deus, em resposta à misericórdia recebida e à salvação concedida.

Assim, oferecer inteiramente a própria vida a Deus implica, em primeiro lugar, não se conformar com “este mundo”, isto é, manter uma atitude crítica diante das estruturas, dos esquemas mentais e dos valores que sustentam uma realidade marcada pelo egoísmo e pelo pecado. Em segundo lugar, exige uma transformação interior profunda, que envolve o coração, a mentalidade e a inteligência, tornando o fiel capaz de discernir a vontade de Deus e de orientar sua vida de acordo com ela.

O “culto espiritual” de que Paulo fala implica a relação com Deus, com os outros e com o mundo. O cristão é chamado a renunciar aos caminhos do orgulho, da autossuficiência, da injustiça e do pecado, e a empenhar-se no conhecimento dos desígnios divinos, acolhendo-os interiormente e vivendo de forma coerente com as exigências do Evangelho.

3. Evangelho (Mt 16,21-27)

Nesse texto do Evangelho, Jesus explicita que o caminho messiânico passa necessariamente pelo sofrimento, pela cruz e pela morte, e estende essa exigência aos discípulos.

A afirmação de Jesus resulta de sua sensibilidade aos eventos históricos: as autoridades judaicas têm a intenção de eliminar fisicamente aquele que ameaça as estruturas religiosas e sociais vigentes. Consciente desse desfecho, Jesus não abdica da missão recebida, mas reafirma sua decisão de levar o projeto de amor do Pai até as últimas consequências.

Entretanto, Pedro reage de forma veemente a essa perspectiva e opõe-se à possibilidade de Jesus sofrer o destino da cruz (v. 22). Como porta-voz da comunidade dos discípulos, sua reação revela uma compreensão ainda incompleta e inadequada do mistério de Deus na vida de Jesus. Seu entendimento estava marcado pela lógica comum daquele tempo, segundo a qual o Messias deveria cumprir sua missão de forma gloriosa, com êxito e vitória.

A resposta severa de Jesus a Pedro visa corrigir essa visão distorcida e reconduzir os discípulos à compreensão autêntica do desígnio divino (v. 23). A salvação não se realiza por meio de triunfos humanos nem de esquemas de poder e dominação, mas pelo amor levado até as últimas consequências, cuja expressão mais extrema é a cruz. Pedro reproduz as tentações enfrentadas por Jesus no início do seu ministério (Mt 4,3-10).

Em seguida, Jesus instrui acerca das exigências do discipulado. Segui-lo implica renunciar a si mesmo, tomar a própria cruz e acompanhá-lo no seu caminho de amor, entrega e dom da vida (v. 24). A renúncia a si mesmo não significa negação da própria identidade, mas a superação do egoísmo e da autossuficiência, de modo que a vida se torne um dom oferecido a Deus e aos outros. Um discípulo não pode permanecer centrado nos seus interesses pessoais, mas é chamado a uma existência aberta, marcada pela gratuidade e pela solidariedade.

Por fim, Jesus apresenta três motivações fundamentais para que os discípulos acolham o caminho da cruz (v. 25-27). Em primeiro lugar, afirma que quem perde a vida por amor a encontra, pois a verdadeira vida é aquela que se recebe de Deus como dom eterno. Em segundo lugar, recorda que a vida presente não é definitiva e, por isso, não deve ser preservada a qualquer custo, mas orientada para a conquista da vida plena, a qual se constrói no amor e na entrega. Por fim, evoca o horizonte do juízo final, no qual cada um será recompensado segundo as próprias opções de vida.

III. PISTAS PARA A REFLEXÃO

As leituras afirmam que a fidelidade a Deus supõe a coragem de assumir um caminho contracultural, marcado pela entrega e pela transformação interior. Seja na missão profética de Jeremias, na exortação ética de Paulo ou no discipulado proposto por Jesus, a experiência de fé apresenta-se como resposta total ao chamado de Deus, que passa pela cruz, mas conduz à verdadeira vida.

Esses textos nos motivam a viver a fé com autenticidade e coragem em um contexto frequentemente marcado pelo individualismo e pela busca de reconhecimento. A Palavra de Deus continua a arder no coração e a impulsionar o testemunho. Assumir a cruz hoje envolve seguir o caminho de Jesus, que consiste na doação amorosa de si a Deus e à humanidade.

Pe. Marcus Mareano*

*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]