Publicado em novembro – dezembro de 2026 - ano 67 - número 372 - pp. 50 - 52
13 de dezembro – 3º DOMINGO DO ADVENTO
Por Ir. Dra. Izabel Patuzzo*
O Espírito do Senhor me ungiu e me enviou!
A liturgia deste domingo se caracteriza pela alegria. Todas as leituras ressaltam o projeto de Deus de nos retirar das trevas para sua luz. Elas nos encorajam a entrar no clima de alegria, porque a salvação está próxima. Na primeira leitura, o profeta do pós-exílio proclama sua mensagem quando o povo de Judá tinha acabado de retornar do exílio babilônico para a Terra Prometida. Os deportados que retornaram precisam retomar o ânimo e reorganizar-se. O profeta, apresentando-se como uma boa notícia, anuncia ter sido ungido e enviado como mensageiro da salvação que Deus oferece aos pobres. Na segunda leitura, Paulo orienta a comunidade de Tessalônica para que aguarde a vinda do Senhor com espírito de alegria, louvor e adoração, aberta ao Espírito Santo.
No Evangelho, o evangelista João completa a apresentação de João Batista, lembrada pelos outros evangelistas. Sua breve narrativa confirma que o profeta foi uma voz que veio preparar as pessoas para acolher a luz do mundo. O Batista acentua não ser nem profeta, nem Moisés, nem Elias, nem o Messias. Ele é apenas a voz que clama no deserto, convidando o povo para preparar o caminho da chegada do Senhor.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 61,1-2a.10-11)
A liturgia deste domingo volta a nos propor um texto do Trito-Isaías, que situa a realidade do povo escolhido na época posterior ao exílio, quando Jerusalém está em fase de reconstrução. Esse texto é expressão da alegria de um povo que acredita na sua renovação. A razão dessa grande alegria é descobrir que Deus está no meio do povo, independentemente de qual seja a situação. O cenário de pós-exílio é de incertezas, são poucos os recursos para retomar a vida. A população da cidade é pouco numerosa, a reconstrução é modesta e lenta; há impérios vizinhos que querem aproveitar-se do momento de fraqueza de Jerusalém para colonizar o povo da terra, mas aos poucos a vida vai se reorganizando.
Em meio às dificuldades para retomar a vida e reconstruir o que foi destruído pela invasão babilônica, surge a voz do profeta que anuncia ter vindo como ungido do Senhor para restaurar os corações atribulados, cuidar dos pobres, proclamar a redenção dos cativos e a liberdade dos prisioneiros. Tudo o que o povo ansiava. A vocação e missão do profeta consistem em pôr-se a serviço da Palavra para animar e encorajar o povo e curar os corações feridos por uma situação tão difícil. O povo volta a celebrar o tempo da graça, da libertação da escravidão imposta pelas dívidas cobradas por seus inimigos. Os destinatários da mensagem profética são todas as categorias de pessoas que mais sofreram com a guerra e o exílio. Para o povo escolhido, ter profetas em seu meio era um grande sinal de que Deus olhou para sua miséria. Por meio de seus mensageiros, Deus continua o cuidado amoroso do resto de Israel; por meio de seus profetas, Deus continua presente na vida de seu povo escolhido.
2. II leitura (1Ts 5,16-24)
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo nos convida a viver na alegria da presença do Senhor e dá orientações de como fazê-lo. A comunidade de Tessalônica, como as demais comunidades cristãs da primeira geração, vivia à espera da volta gloriosa de Jesus, a parúsia, como um acontecimento iminente. Nesse contexto, Paulo exorta a comunidade a viver na alegria dessa certeza de que o Senhor um dia virá e, ao mesmo tempo, a buscar a santidade.
Segundo os ensinamentos de Paulo, essa expectativa da vida com Cristo distingue os cristãos como pessoas que têm esperança. A vinda de Cristo será inesperada, não se pode estabelecer quando se dará. Para os cristãos, essa segunda vinda é não só motivo de esperança, mas também a motivação fundamental para o modo correto de vida e edificação da comunidade. Depois dos ensinamentos sobre a segunda vinda do Senhor e de forte convite a esperar vigilantes esse momento final da história humana, Paulo apresenta alguns elementos concretos que os tessalonicenses devem ter sempre em conta e que devem marcar a vivência cristã nesse tempo de espera, deixando-se guiar pelo Espírito Santo.
3. Evangelho (Jo 1,6-8.19-28)
A apresentação joanina de João Batista insere-se na dinâmica permanente do ser humano de encontrar-se entre trevas e luz. A missão conferida ao profeta consiste em ajudar o povo a descobrir a presença escondida do enviado de Deus. O Batista afirma não ser a luz, mas ter vindo a este mundo para dar testemunho da luz, isto é, avivar a percepção de sua existência. Implicitamente, sua missão profética denuncia as obras das trevas.
Visto que a luz é o resplendor da vida, João recebe a missão de apontar a possibilidade de vida, despertando em todos o desejo por ela e a esperança. Sua missão evidencia que há trevas, mas existe uma luz que não se deixa abafar pela escuridão. Essa luz é Jesus, o enviado de Deus para iluminar as trevas. Então, dar testemunho da luz significa estar em favor da vida. Segundo o Evangelho de João, o primeiro testemunho de que Jesus é o enviado do Pai vem de João Batista. Portanto, seu batismo de água simboliza a ruptura com a treva, ou seja, com a situação mantida pela instituição judaica, cujo centro de poder era o templo de Jerusalém. Jesus, como vida e luz da humanidade, inaugura um novo tempo, eliminando o pecado do mundo.
João Batista revela com clareza sua identidade e missão. Embora tenha sido enviado por Deus, ele não era a luz, não era o Messias. A luz sempre existiu, porque é Deus, enquanto o profeta tem plena consciência de sua natureza humana. Ele, porém, não atua por sua própria iniciativa, e sim em resposta à escolha divina, para concretizar o que Deus lhe confiou. Por não ser a luz, não tem a autoridade e o poder de eliminar as trevas. Ele também compartilha do espírito daqueles que aguardavam a luz da vida e, por isso, reconhece os sinais precursores de sua vinda.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Como anuncia o profeta Isaías, o Deus em quem acreditamos não é indiferente nem compactua com o racismo, a exclusão, a violência, a exploração, o terrorismo, o imperialismo e a prepotência, só para citar alguns males do mundo contemporâneo. É, sim, o Deus dos pobres, dos explorados, dos injustiçados, dos pequenos e abandonados. E como ele atua neste mundo? Chamando pessoas sensíveis à sua presença, que aceitam a missão profética de cuidar daqueles que mais necessitam de sua proteção. E Isaías aceita colaborar com Deus.
Segundo a mensagem de Paulo, o cristão é alguém que ora sem cessar, louva e dá graças, em todas as circunstâncias, pelo dom de Deus, pela sua presença amorosa, pela salvação oferecida. Sabemos encontrar espaços em nossa vida para um compromisso verdadeiro com a causa do Reino de Deus?
A atitude simples e discreta de João Batista é muito sugestiva: ele não procura atrair para si as atenções, não usa de sua missão para a busca de aplausos, honras ou promoção pessoal. Apenas empresta sua voz para dar visibilidade à luz, Jesus Cristo. Como nos pomos a serviço da Palavra, da luz que brilha em meio às trevas de nosso tempo?
Ir. Dra. Izabel Patuzzo*
*Ir. Izabel Patuzzo pertence à Congregação Missionárias da Imaculada. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção. Doutora em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: [email protected]

