Eliseu Wisniewski**
** Formado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
André Luiz Bordignon-Meira é autor da obra: Igreja sinodal em saída: contribuições do Papa Francisco para a eclesiologia (Paulus, 2026, 96 p.). Graduado em Teologia pela Faculdade Dehoniana de Taubaté (SP), mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o autor desenvolve sua atuação acadêmica e pastoral em estreita relação com a realidade eclesial brasileira. Presbítero da Arquidiocese de Campinas, exerce atividade missionária na Arquidiocese de Porto Velho (RO), onde também atua na formação teológica. É professor da Faculdade Católica de Rondônia, pesquisador e integrante do grupo de pesquisa Ecologia Integral e Arquitetura do cuidado integral, além de colaborar em espaços de divulgação e reflexão teológica.
A obra insere-se no amplo campo de reflexão sobre da renovação eclesial desencadeada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e aprofundada pelo magistério do Papa Francisco, particularmente pela Exortação Apostólica Evangelii gaudium. Seu eixo fundamental é a articulação entre Igreja “em saída” e sinodalidade, compreendidas não como expressões meramente programáticas, mas como critérios para repensar a identidade, a missão e as estruturas eclesiais. Bordignon-Meira apresenta uma Igreja chamada a superar a autorreferencialidade, aproximando-se das pessoas e das periferias físicas e existenciais, mediante a escuta, o diálogo, a misericórdia e o serviço. A evangelização é compreendida como processo de encarnação da fé nas situações concretas da história, especialmente onde se manifestam vulnerabilidade, pobreza, exclusão e sofrimento.
Ao longo dos três capítulos, o autor sustenta que o pontificado de Francisco constitui uma significativa atualização do impulso conciliar, sobretudo por recolocar a missão evangelizadora no centro da reflexão eclesiológica. A expressão “Igreja em saída” traduz uma mudança de postura: em vez de permanecer voltada para si mesma, a Igreja é chamada a “primeirear”, isto é, tomar a iniciativa, aproximar-se das realidades humanas e discernir nelas os sinais dos tempos. A proximidade não como estratégia pastoral, mas como consequência de uma determinada compreensão da própria identidade eclesial.
A relação entre a proposta eclesiológica de Francisco e a teologia da kenosis desenvolvida pelo teólogo Hans Urs von Balthasar (1905-1988) enriquece significativamente a proposta apresentada pela obra. O despojamento de Cristo torna-se chave hermenêutica para pensar uma Igreja capaz de renunciar a posições de autossuficiência, privilégios e formas excessivamente centralizadas de poder. A kenosis eclesial proposta pelo autor possui uma importante dimensão crítica: uma Igreja verdadeiramente missionária não pode limitar-se a conservar estruturas e práticas herdadas, mas precisa deixar-se interpelar pelo Evangelho e pelas transformações do contexto histórico.
É a partir dessa perspectiva que se coloca, de maneira incontornável, a questão do clericalismo. Ao valorizar o protagonismo dos leigos e das leigas e a vocação batismal de todos os membros do povo de Deus, Bordignon-Meira identifica na sinodalidade um possível antídoto para modelos eclesiais excessivamente clericalizados. As pequenas comunidades aparecem, nesse cenário, como espaços privilegiados de participação, discernimento e renovação pastoral. A eclesiologia “em saída” não se constrói apenas por reformas institucionais realizadas no centro da Igreja, mas também pela vitalidade das comunidades e pela participação efetiva daqueles que, em razão do batismo, compartilham a responsabilidade pela missão evangelizadora.
A reflexão se aprofunda na medida em que confronta a Igreja com os desafios e as transformações do mundo atual: migrações, pobreza, desigualdades econômicas, disputas políticas e mudanças climáticas. O autor insiste que a fidelidade ao Evangelho exige uma Igreja capaz de “abaixar-se” diante dessas realidades, assumindo uma postura de escuta e serviço. A teologia não pode permanecer distante da história; precisa tornar-se uma teologia “em saída”, disposta a dialogar com os dramas humanos e a discernir caminhos de resposta.
Entretanto, justamente nesse ponto reside também um dos desafios da proposta. A linguagem fortemente programática da “Igreja em saída” e da sinodalidade precisa encontrar mecanismos concretos de transformação das estruturas eclesiais. Descentralizar o poder, superar o clericalismo, ampliar a participação dos leigos, repensar os modelos paroquiais e fortalecer processos comunitários são tarefas que ultrapassam a formulação teológica e exigem mudanças institucionais, pastorais e culturais. A questão decisiva não é apenas reconhecer a necessidade de uma Igreja sinodal, mas determinar como essa sinodalidade poderá efetivamente modificar práticas, relações de autoridade e processos de tomada de decisão.
A obra de Bordignon-Meira apresenta uma contribuição pertinente ao debate eclesiológico atual. Seu elemento mais expressivo está em articular Concílio Vaticano II, magistério de Francisco, sinodalidade, kenosis e protagonismo batismal em torno de uma mesma exigência: uma Igreja menos autorreferencial e mais próxima da humanidade concreta. Mais do que oferecer um modelo acabado de renovação eclesial, o autor coloca em evidência perguntas que permanecem abertas: como superar efetivamente o clericalismo? Como distribuir responsabilidades e espaços de decisão? Como transformar a sinodalidade em prática ordinária da vida eclesial? Como fazer das pequenas comunidades sujeitos reais da missão?
A contribuição da obra manifesta-se sobretudo nessa capacidade de deslocar a discussão da simples adesão conceitual à “Igreja em saída” para o terreno concreto de suas consequências eclesiológicas e pastorais. O desafio que permanece é transformar o impulso missionário e sinodal em processos duradouros de conversão das estruturas, das relações e das mentalidades. A “Igreja em saída” não pode ser compreendida apenas como uma imagem inspiradora do pontificado de Francisco, mas como uma proposta exigente de reforma eclesial, cujo êxito dependerá da capacidade de traduzir proximidade, participação, descentralização e corresponsabilidade em práticas efetivas.
Referência Bibliográfica
BORDIGNON-MEIRA, André Luiz. Igreja sinodal em saída: contribuições do papa Francisco para a eclesiologia. São Paulo: Paulus, 2026, 96 p. ISBN 9788534961264
22/10/2026 
