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Publicado em Set-out

A misericórdia de Deus é sem fronteiras: O encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30)

Por Centro Bíblico Verbo

No tempo de Jesus, havia muitas leis que separavam as pessoas. As leis da pureza determinavam quem estava mais próximo de Deus e quem estava mais distante. Uma pessoa impura era eliminada do convívio social e novamente admitida mediante rituais de purificação. Havia impurezas transitórias e permanentes – por exemplo, o estrangeiro era considerado impuro por sua própria condição.

Embora não faça parte da nossa cultura o sistema do puro e do impuro, ainda há muitas barreiras e preconceitos que separam e dividem as pessoas nos diversos ambientes sociais. Lembramos aqui um fato corriqueiro, que acontece com frequência: certa vez, José Antônio, um homem negro e muito simples, foi visitar a sua irmã, que trabalhava num edifício de luxo. Enquanto ele esperava pela chegada do elevador, uma moradora se aproximou dele e lhe disse: “Este elevador é o social, o do senhor fica do outro lado”. Nesse momento, José Antônio sentiu-se humilhado, com um nó na garganta, e nada conseguiu responder. Depois que a raiva passou, ele ficou indignado e sentiu, na própria pele, a dor do preconceito. E ele concluiu: “Esse fato reforçou em mim a constante atenção para não discriminar nem tratar mal a ninguém”.

Um dos desafios da comunidade de Marcos era a necessidade de superar as divisões existentes entre judeus e estrangeiros. Em diversos relatos, vemos Jesus superando esses obstáculos: ele convive com pessoas excluídas e marginalizadas (Mc 1,29-31; 5,21-43); é criticado por comer com publicanos e pecadores (Mc 1,15-17).

Este artigo nos ajudará a caminhar com Jesus. Com ele, queremos ultrapassar as fronteiras da Galileia em direção à região de Tiro e de Sídon. Para isso, precisamos ter uma atitude de diálogo e escuta. É importante nos deixar questionar pela palavra de sabedoria que nasce da experiência. Que esta reflexão nos leve a identificar os demônios que precisamos exorcizar hoje em nossa vida e na vida das pessoas com as quais convivemos.

 

1. Da Galileia para Tiro

“Saindo dali, foi para o território de Tiro” (Mc 7,24). Jesus sai da alta Galileia, região acidentada e montanhosa, uma paisagem muito diferente da baixa Galileia e da região do Vale, marcada por suaves colinas e planícies. Por causa das altas montanhas, o acesso às diferentes localidades é mais difícil, dificultando a comunicação entre as aldeias e os povoados da alta Galileia. Nessa região, o processo de urbanização durante o período romano foi menor. Era uma população tradicional e fechada às diferentes culturas e etnias.

Acompanhando os passos de Jesus, vemos que ele se desloca da alta Galileia para a região de Tiro. Causa espanto o fato de um judeu galileu sair para a terra dos gentios. Segundo o relato de Marcos, essa viagem de Jesus acontece depois de longa discussão com os fariseus e alguns escribas vindos de Jerusalém, ou seja, com os representantes do poder oficial. Entre os judeus galileus e os habitantes de Tiro, chamados simplesmente de “siro-fenícios”, havia divisões religiosas, políticas, sociais e econômicas. Entre esses dois grupos, havia uma hostilidade recíproca.

Na memória do povo judeu há algumas lembranças ruins de Tiro. Dessa região, temos a rainha Jezabel (fenícia). Essa mulher oficializou o culto a Baal em Israel, no século IX a.C. (cf. 1Rs 16,31-32). Os profetas denunciaram o luxo e a opressão provocados por Tiro (Ez 26,15-21; Zc 9,3). Durante a revolta dos macabeus, Tiro, Ptolemaida e Sídon lutaram contra os judeus, defendendo os imperadores selêucidas (cf. 1Mc 5,15). No tempo da dominação romana, Sidônia, a cidade da Fenícia, era o principal porto da região na viagem a Roma, trazendo o produto comercial, o exército e a cultura helenizada de Roma, opressora dos judeus, para a Palestina.

Os fenícios sempre exploraram os galileus no mundo do comércio. A Galileia era terra fértil e a produção de grãos, vinho, óleo e carne era abundante. Além da riqueza agrícola e da pescaria, existia na região um centro de produção de cerâmica em Kfar Hananiah e Shikin, situadas entre a alta e a baixa Galileia. A região de Jericó oferecia extraordinárias tamareiras, plantas de precioso bálsamo, e também era conhecida como a cidade das palmeiras (cf. Dt 34,3; Jz 1,16). Uma parte dessas riquezas era levada para Tiro e Sidônia, cidades portuárias da Fenícia, passando pela alta Galileia. Na transação comercial, os fenícios sempre levaram vantagem, aumentando o conflito com os judeus galileus.

No campo religioso, as cidades helenizadas da Fenícia, província da Síria, representavam, para os judeus do tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, a expressão máxima do culto a outras divindades. Na comunidade de Marcos, situada na alta Galileia ou no sul da Síria, havia a presença mista de judeus e de gentios, a qual constituía um dos conflitos da comunidade. O conflito se agravou com a chegada à alta Galileia dos judeus refugiados de Jerusalém por causa da Guerra Judaica. Eles, incluindo os escribas, consideravam os gentios como impuros e condenados por Deus.

Diante desse conflito, a comunidade de Marcos descreve o encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia e sua filha possuída por demônio, simbolizando o encontro dos judeus galileus com os endemoninhados. Essa história é uma catequese da comunidade para superar as dificuldades na convivência entre as pessoas de diferentes culturas, etnias e gênero.

 

2. Todos têm direito de participar da mesa do reino! (Mc 7,24-30)

A visita de Jesus à região de Tiro e o seu encontro com uma mulher siro-fenícia causaram espanto e entraram em contradição com a concepção messiânica da época, segundo a qual a salvação seria somente do povo de Israel. Mas esse encontro ampliou o conceito de Messias em vários sentidos: geográfico, étnico, religioso e de gênero. De acordo com a narrativa de Marcos, é possível entender que Jesus se retirou da Galileia para escapar do tormento dos fariseus ou para fugir de Herodes, que governava a Galileia e a Pereia e há pouco tirara a vida de João Batista (cf. Mc 6,16).

Em território estrangeiro, Jesus entrou numa casa e quis permanecer oculto. Que casa seria essa? Podia ser uma casa de judeus que habitavam a região de Tiro. A intenção de Jesus era refazer suas energias, mas isso não foi possível, pois uma mulher ficou sabendo de sua presença ali e invadiu a casa, atirando-se a seus pés. Esse gesto era típico de quem prestava uma homenagem ou pedia um favor. Em sua necessidade, a mulher buscou uma solução para o seu problema e não teve medo de romper barreiras.

Como mãe, a mulher suplicou a Jesus a cura da filha, que tinha “um espírito impuro”. Ela estava disposta a tudo para atingir sua meta. O relato apresenta a doença da filha de duas maneiras diferentes: Mc 7,25 afirma que ela tem um espírito impuro, e Mc 7,26.29.30, um demônio. A primeira expressão é comum no mundo judaico, e a segunda é usada em outras culturas. Isso pode indicar que as pessoas a quem o Evangelho de Marcos se dirige são formadas por judeus e estrangeiros. De um lado, temos a insistência da mulher, de outro, a indiferença de Jesus, cuja resposta à mulher nos deixa intrigados: “Deixa que primeiro os filhos se saciem, porque não é bom tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos” (Mc 7,27).

Diante do pedido da mulher, a resposta de Jesus reflete a mentalidade judaica do seu tempo. Ele acredita que os filhos de Israel têm prioridade sobre os gentios. O termo “filhos” era aplicado ao povo de Israel, e o termo “cachorro”, mesmo usado no diminutivo, era um insulto contra os gentios, pois os cães eram associados com a impureza (cf. Ex 22,30; 1Rs 21,23; 22,38; 2Rs 9,36). Esse termo também era usado para designar um povo sem valor e desprezível (cf. 1Sm 24,15; 2Sm 16,9; Is 56,10).

Jesus se refere a Israel com o termo teknon, crianças ou descendentes no sentido biológico, ao passo que a mulher emprega paidion, cujo sentido pode ser filho ou servo em uma casa. É termo mais abrangente. A mudança de termo pode significar que, para a mulher, a misericórdia de Deus vai além de Israel. É sem fronteiras.

De maneira sábia e audaciosa, a mulher se utiliza da mesma comparação de Jesus, apresentando o seu argumento: “É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos!” (Mc 7,28). A mulher devia conhecer a fama de Jesus, pois ela se dirige a ele usando o título salvífico “Senhor”. Ela representa um grupo da população que reconhece Jesus como o Senhor.

A mulher compreende e aceita a primazia de Israel melhor do que os judeus. A sua determinação e a sua coragem dão testemunho de sua esperança. Ela reivindica os direitos dos gentios. Jesus percebe que a mulher está certa, o argumento dela o faz ampliar seus horizontes: “Pelo que disseste, vai!” (Mc 7,29a). É a palavra dela que cura!

Diante dos argumentos da mulher, Jesus revê a sua maneira de pensar, e a filha é restaurada: “O demônio saiu da tua filha” (Mc 7,29b). Ele é capaz de ultrapassar as barreiras étnicas, geográficas e políticas e ver a realidade das pessoas que sofrem. Em Jesus, a salvação não é apenas para os que observam a Lei e a tradição, mas está aberta a todas as pessoas que nele acreditam. Ao mostrá-lo aceitando a palavra da mulher, o evangelho nos ensina que é preciso superar qualquer barreira ou conflito quando se trata da defesa da vida ameaçada.

O encontro entre Jesus e a mulher siro-fenícia retrata o encontro entre judeus e estrangeiros, entre puros e impuros, também chamados de endemoninhados. Não foi fácil eliminar os preconceitos existentes de ambas as partes. Esse encontro ainda hoje questiona nossos preconceitos e nos convoca a uma abertura maior para o relacionamento com o outro.

 

3. Uma palavra a mais sobre os endemoninhados

“Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta. E ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios” (Mc 1,32-34). Havia muitos endemoninhados no tempo de Jesus? Ele expulsou muitos demônios? Como entender os vários nomes utilizados para nomear o mal na Bíblia? Se o demônio existe, onde ele atua hoje?

A lista de perguntas levantadas em encontros e cursos bíblicos é longa. Há muitas dúvidas e curiosidades. É surpreendente o fato de que a realidade do tempo de Jesus, de 2 mil anos atrás, não seja levada em consideração para compreender esse mundo habitado por espíritos. Naquele tempo, os recursos da ciência e da medicina eram muito precários. De modo geral, a causa dos males como a doença era atribuída a espíritos. A presença de curandeiros e exorcistas era comum e difundida na época. Hoje a psicologia e a psiquiatria, por exemplo, conseguem ajudar a resolver problemas de muitas “pessoas possuídas por espírito mal”. Isso mesmo: o mundo de Jesus, curandeiro e milagreiro, era um mundo diferente.

 

3.1. Um mundo habitado por espíritos

No Evangelho de Marcos, há vários textos referentes à presença de espíritos impuros e a exorcismos:

  •  “Os espíritos impuros, assim que o viam, caíam a seus pés” (Mc 3,11).
  • “E constituiu Doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar, e terem autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14).
  • “Ele está possuído por um espírito impuro” (Mc 3,30).
  •  “Chamou a si os Doze e começou a enviá-los dois a dois. E deu-lhes autoridade sobre os espíritos impuros” (Mc 6,7).
  • “Uma mulher cuja filha tinha um espírito impuro” (Mc 7,25).
  • “Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo” (Mc 9,17).
  • “Mestre, vimos alguém que não nos segue expulsando demônios em teu nome” (Mc 9,38).

Nos evangelhos, a menção aos espíritos responsáveis pelos males é vasta e frequente. Era difusa, no tempo de Jesus, a certeza de que os seres humanos viviam cercados por espíritos: anjos e demônios. E a causa de doenças, desgraças e provações na vida humana era atribuída aos demônios. Por isso, havia muitos doentes e endemoninhados na época.

A exigência de pagamento de impostos aos romanos e de impostos religiosos provocou acelerado empobrecimento dos camponeses na Galileia. Pobreza e miséria vinham acompanhadas com doença. A cegueira era comum, podendo ter causa hereditária ou ser consequência da falta de higiene ou má alimentação. A lepra era o fantasma que assustava a população. Qualquer doença de pele, contagiosa ou não, era classificada como lepra. Havia muitas pessoas aleijadas, epilépticas e hidrópicas. Todos esses males mentais e físicos estavam associados ao demônio. A necessidade de expulsar os demônios era grande e comum na vida cotidiana das aldeias: “Eles expulsavam muitos demônios, e curavam muitos enfermos, ungindo-os com óleo” (Mc 6,12). Por ser possuído por demônios, o doente era também condenado e excluído pela religião oficial da época.

 

3.2. Os endemoninhados eram afastados do convívio social

A religião judaica oficial considerava a pobreza, a doença e a deficiência física e mental como consequências da presença de maus espíritos que tinham tomado posse da pessoa (Mc 9,14-29). Uma pessoa doente era vista como pecadora. A doença era considerada castigo de Deus. O doente era alguém que estava pagando por algum mal cometido – por exemplo, a desobediência às leis do puro e do impuro. Leis estabelecidas por sacerdotes e escribas desde o século V a.C. A interpretação da comunidade de Marcos sobre o conflito de Jesus com os doutores da Lei evidencia essa teologia oficial:

 

Jesus, vendo sua fé, disse ao paralítico: “Filho, teus pecados estão perdoados”. Ora, alguns dos escribas que lá estavam sentados refletiam em seu coração: “Por que está falando assim? Ele blasfema! Quem pode perdoar pecados a não ser Deus?” Jesus imediatamente percebeu em seu espírito o que pensavam em seu íntimo e disse: “Por que pensais assim em vossos corações? Que é mais fácil, dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, toma o teu leito e anda’?” (Mc 2,5-9).

 

O doente, como endemoninhado e pecador, era afastado do convívio com outras pessoas para evitar a contaminação de toda a comunidade (cf. Mc 5,25-34). A única forma de poder ser puro e voltar a participar da vida social e do Templo eram os ritos de purificação, que consistiam em sacrifícios de expiação pelo pecado. O código de pureza apresentava vários rituais de purificação, que exigiam a entrega de ofertas e a realização do sacrifício no Templo (cf. Lv 15,1-33). O objetivo das autoridades religiosas era arrecadar mais produtos para favorecer seus interesses.

O código da pureza era sustentado pela teologia oficial da retribuição. Nessa visão, a pessoa justa era quem observava a lei do puro e do impuro. Essa teologia afirmava que Deus abençoava a pessoa justa com riqueza, saúde, vida longa e descendência, mas castigava a pessoa injusta com pobreza, doença e sofrimento. Na teologia da retribuição, aqueles que tinham condições de observar as leis, pagando os dízimos exigidos e oferecendo sacrifícios, eram abençoados por Deus, enquanto os pobres eram amaldiçoados. Os pobres doentes sofriam duplamente.

 

3.3. Jesus e as comunidades cristãs combatem os espíritos destruidores

Por um lado, os escribas acusam Jesus de estar possuído por um “espírito impuro”: “Está possuído por Beelzebu”; ou: “É pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios” (Mc 3,22), atribuindo-lhe culpa pela destruição da religião oficial, baseada na lei do puro e do impuro. Por outro lado, Jesus e seus seguidores e seguidoras também acusam os escribas, suas sinagogas, o Templo e o império romano de estarem possuídos por espíritos destruidores.

 

a)      A religião oficial da sinagoga

Na ocasião, estava na sinagoga deles um homem possuído por um espírito impuro, que gritava, dizendo: “Que queres de nós, Jesus nazareno? Vieste para arruinar-nos? Sei quem tu és: o Santo de Deus”. Jesus, porém, o conjurou severamente: “Cala-te e sai dele”. Então o espírito impuro, sacudindo-o violentamente e soltando grande grito, deixou-o (Mc 1,23-26).

A sinagoga, que existia quase em cada cidade na Palestina, era o local de encontro para o culto e o estudo da Lei. Era local essencial para a instrução em vista da unidade judaica na fé, no culto, na tradição e na ordem sociorreligiosa. Havia o chefe da sinagoga, o archisynagôgos, encarregado do funcionamento do culto, com a função de coordenar a leitura das Escrituras, instruções e orações. Segundo Mc 1,23, a expressão “a sinagoga deles” indica o local organizado pelos escribas. Eles instruíam o povo no código de pureza e na teologia da retribuição: as leis do puro e do impuro com a imagem de Deus poderoso e castigador. Pobres e doentes estavam excluídos do convívio social.

A comunidade de Marcos descreve, em seu relato sobre o ensinamento de Jesus, as pessoas amarradas pelas leis ensinadas na sinagoga como “um homem possuído por um espírito impuro” (Mc 1,23). Esse espírito entra em conflito com Jesus e é expulso por seu ensinamento: “Todos então se admiraram, perguntando uns aos outros: ‘Que é isto? Um novo ensinamento com autoridade! Até mesmo aos espíritos impuros dá ordens, e eles lhe obedecem!’” (Mc 1,27).

O ensinamento de Jesus nasce de sua prática libertadora: ele continuamente acolhe o povo sofrido e machucado e convive com ele. Jesus está em contato com os endemoninhados e excluídos da sociedade: pobres, doentes, cegos, coxos, crianças, mulheres. Experimenta, na própria pele, a dureza da vida cotidiana do seu povo: “viu uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles” (Mc 6,34).

Então, com sua prática acolhedora, transgride e rejeita a lei da pureza para devolver a vida às pessoas impuras: “Aproximando-se, Jesus tomou pela mão a sogra de Pedro, a qual estava de cama com febre, e a fez levantar-se” (Mc 1,30-31; cf. 2,15; 7,2.33; 8,23). Jesus se põe claramente em oposição aos escribas e sua lei da pureza, por esta excluir e oprimir as “pessoas impuras”. Para ele, os escribas e seus ensinamentos são o verdadeiro “espírito impuro”, entendido como demônio, por ameaçar e destruir a vida do povo.

 

b)      O império romano

Chegaram do outro lado do mar à região dos gerasenos. Logo que Jesus desceu do barco, caminhou ao seu encontro, vindo dos túmulos, um homem possuído por um espírito impuro […]. E, sem descanso, noite e dia, perambulava pelas tumbas e pelas montanhas, dando gritos e ferindo-se com pedras. Ao ver Jesus, de longe, correu e prostrou-se diante dele, clamando em alta voz: “Que queres de mim, Jesus, filho do Deus altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” Com efeito, Jesus lhe disse: “Sai deste homem, espírito impuro!” E perguntou-lhe: “Qual é o teu nome?” Respondeu: “Legião é meu nome, porque somos muitos” (Mc 5,1-9).

 

O exército romano era verdadeira máquina de dominação que servia para aumentar os territórios nas guerras, adquirir escravos, expandir tributos e o comércio, sugando a riqueza das terras conquistadas. No livro do Apocalipse lemos o efeito devastador do exército romano: “Vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu montador chamava-se ‘morte’, e o Hades o acompanhava. Foi-lhe dado poder sobre a quarta parte da terra, para que exterminasse pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da terra” (Ap 6,8).

No tempo de Jesus, o império, que contava com 350 mil soldados, deslocou 8% do seu exército para a Palestina, que representava apenas 1% do seu território. Especialmente na Galileia, terra de exploração e de muitas revoltas, havia uma legião, a maior divisão do exército romano, que abrangia de 6 a 10 mil homens. A legião era a força esmagadora do império romano que dominava a Palestina.

O Evangelho de Marcos descreveu essa força do exército romano como espírito impuro: “o homem possuído pelo espírito impuro habitava no meio das tumbas e ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes já o haviam prendido com grilhões e algemas, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, e ninguém conseguia subjugá-lo” (Mc 5,3-4). O espírito impuro, descrito como monstro violento, possuía e investia contra a vida humana.

Pela prática de Jesus, a legião foi expulsa para os porcos que se lançaram e se afogaram no mar, como foram afundados os carros e os cavaleiros do faraó, na saída do Egito (Ex 14,28). O homem foi libertado, “sentado, vestido e em são juízo” (Mc 5,15). Jesus liberta, restaura e desaliena as pessoas possuídas pelo “espírito impuro”.

 

Para continuar a reflexão

É preciso rever quais barreiras nos cabe superar para reproduzir em nossa vida a prática cristã. Não podemos nos calar diante de atitudes e comportamentos que excluem outras pessoas do convívio social, nem podemos permitir gestos ou expressões que humilhem o outro simplesmente por sua condição socioeconômica, etnia, gênero ou outras características pessoais. Como discípulas e discípulos de Jesus, nossa missão é aprender a reler a nossa teologia com base na vida concreta das pessoas, com a certeza de que a misericórdia de Deus não tem fronteiras.

* cbiblicoverbo@uol.com.br

 

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