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Publicado em Jan fev

Comunidades eclesiais de base, um método de conversão pastoral

Por Pe. Nelito N. Dornelas

1. Um olhar sobre a nossa história

Jamais, em toda a história da humanidade, apareceu de uma só vez tantas mudanças e tantas novidades ao mesmo tempo, que influenciam e criam profundas transformações na vida das pessoas, nas famílias, na experiência e na vivência religiosa do dia a dia, até mesmo das pessoas mais simples.

As novidades no mundo atual são carregadas de certa ambiguidade. Se de um lado, elas trazem grandes oportunidades de emancipação das pessoas, sobretudo dos mais excluídos da sociedade, criando oportunidade de uma maior consciência e de participação na vida social, política e eclesial, de outro lado, elas apresentam também enormes riscos e desafios.

Essas novidades, se bem orientadas, podem contribuir para salvar a vida das pessoas e do planeta, entendido como uma comunidade de vida ou, se mal direcionadas, colocam em risco a vida das pessoas, sobretudo dos jovens, e de toda a comunidade de vida que as cerca.
As antigas visões sobre a vida, o ser humano, a família, a educação, as relações sociais e as respostas que eram dadas até o momento, fundadas em valores e princípios, muitos deles de inspiração cristã e religiosa, hoje são insuficientes. Precisam ser reelaboradas e reorientadas para dar garantia e consistência à nossa existência.

 

2. Eis alguns aspectos dessas novidades apontados pelo Documento de Aparecida

No Documento de Aparecida, os bispos apontam para a existência de profundas transformações (DAp 33) que provocam uma mudança de época (DAp 44). Constataram a existência do alarmante nível de corrupção na economia, envolvendo tanto o setor público quanto o setor privado (DAp 70); a corrupção no Estado envolvendo os poderes Legislativo e Executivo em todos os níveis, alcançando também o sistema judiciário, que muitas vezes, decide em favor dos poderosos e gera impunidade, colocando em risco a credibilidade das instituições públicas e aumentando a desconfiança do povo (DAp 77); a exploração do trabalho que chega, em alguns casos, a condições de verdadeira escravidão (DAp 73); a deterioração da vida social, com o crescimento da violência, alimentada principalmente pelo crime organizado, o narcotráfico e grupos paramilitares (DAp 78). Denunciam o desenvolvimento econômico que não leva em conta a preservação da natureza, com danos à biodiversidade, esgotamento das reservas de água e de outros recursos naturais, contaminação do ar e mudanças climáticas. Apontam para a responsabilidade dos países industrializados por levarem um estilo de vida não sustentável (DAp 66).

 

3. A missão evangelizadora da Igreja no contexto atual

A Encíclica Evangelii Nunciandi, do Papa Paulo VI, em 1975, já nos advertia de que evangelizar não é para quem quer que seja um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial. Nenhum evangelizador é o senhor absoluto da sua ação evangelizadora (EN 60).

Nessa mesma linha de pensamento, o Documento de Aparecida faz vigorosa afirmação de que não há discipulado, seguimento a Cristo sem comunhão, sem comunidade (DAp 156). Diante da tentação, muito presente na cultura atual, de ser cristão sem Igreja e das novas buscas espirituais individualistas, afirma que a fé em Jesus Cristo nos chegou através da comunidade eclesial e ela “nos dá uma família, a família universal de Deus na Igreja Católica. A fé nos liberta do isolamento do eu, porque nos conduz à comunhão”. Isso significa que uma dimensão constitutiva do acontecimento cristão é o fato de pertencer a uma comunidade concreta, na qual podemos viver uma experiência permanente de discipulado e de comunhão entre os membros e com os pastores, sucessores dos apóstolos.

As Comunidades Eclesiais de Base são escolas que ajudam a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e discípulas, missionários e missionárias do Senhor, como testemunhas de uma entrega generosa, até mesmo com o derramar do sangue de muitos de seus membros. Elas abraçam a experiência das primeiras comunidades, como estão descritas nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47) (DAp 178).

Para desenvolver em seus membros “o amadurecimento no seguimento de Jesus e a paixão por anunciá-lo”, a Igreja precisa renovar-se constantemente em sua vida e ardor missionário, transformando-se em redes de comunidades, promovendo a “conversão pastoral”. Só assim a Igreja pode ser, para todos os batizados, casa e escola de comunhão, de participação e solidariedade. Em sua realidade social concreta e em comunidade, o discípulo e a discípula fazem a experiência do encontro com Jesus Cristo vivo, amadurecem sua vocação cristã, descobrem a riqueza e a graça de serem missionário e missionária e anunciam a Palavra com alegria (DAp 167).

 

4. A leitura da Bíblia e a experiência da pessoa de Jesus Cristo

A grande contribuição das Comunidades Eclesiais de Base, surgidas na década de 1960, foi o redescobrimento da pessoa de Jesus Cristo a partir da leitura comunitária da Palavra de Deus. Esse redescobrimento, em primeiro lugar, não ocorreu através da investigação teológica, mas simplesmente porque o Evangelho reencontrou seu próprio lugar, aquele lugar onde deve ser lido e onde se torna Palavra para nós, a comunidade eclesial. Esse lugar é o mundo das pessoas simples, dos pobres e excluídos.

A redescoberta da pessoa de Jesus Cristo pelo povo simples das CEBs foi constatada pelo teólogo e cardeal Joseph Ratzinger, hoje, nosso Papa Bento XVI. Assim ele a expressa:

 

Às vezes parece ser tão complicado (ler a Bíblia) que se julga que só os estudiosos podem ter uma visão de conjunto. A exegese deu-nos muitos elementos positivos, mas também fez com que surgisse a impressão de que uma pessoa normal não é capaz de ler a Bíblia, porque tudo é tão complicado. Temos de voltar a aprender que a Bíblia diz alguma coisa a cada um e que é oferecida precisamente aos simples. Nesse caso dou razão a um movimento que surgiu no seio da teologia da libertação que fala da interpretação popular. De acordo com essa interpretação, o povo é o verdadeiro proprietário da Bíblia e, por isso, o seu verdadeiro intérprete. Não precisam conhecer todas as nuances críticas; compreendem o essencial. A teologia, com os seus grandes conhecimentos, não se tornará supérflua, até se tornará mais necessária no diálogo mundial das culturas. Mas não pode obscurecer a suprema simplicidade da fé que nos põe simplesmente diante de Deus, e diante de um Deus que se tornou próximo de mim ao fazer-se homem.[1]

 

A grande descoberta da pessoa de Jesus, feita em comunidade, levou os pobres e os simples a perceberem Jesus como um próximo e uma Boa-Nova. Sendo Jesus entendido como Boa-Nova, ele traz alegria, júbilo, gratidão e o compromisso com seu projeto de vida até o martírio.

A Paixão de Cristo, interpretada em comunidade, fez com que muitas pessoas descobrissem que não foi só Jesus quem carregou a cruz e foi submetido aos piores tormentos. Sua Paixão se inscreve no interior da paixão dolorosa do mundo. Seu sentido mais profundo reside em sua solidariedade para com todos os crucificados da história. Da consciência da relação da paixão do mundo com a Paixão de Cristo nasce o desafio de enfrentar e superar as causas que as provocam, mediante o compromisso com a justiça por uma sociedade fraterna e solidária, em vista do Reino.

 

5. Opção pelos pobres, concretizada na proximidade com os pobres

Assim expressa o Documento de Aparecida:

Só a proximidade que nos faz amigos nos permite apreciar profundamente os valores dos pobres de hoje, seus legítimos desejos e seu modo próprio de viver a fé. A opção pelos pobres deve conduzir-nos à amizade com os pobres. Dia a dia, os pobres se fazem sujeitos da evangelização e da promoção humana integral: educam seus filhos na fé, vivem em constante solidariedade entre parentes e vizinhos, procuram constantemente a Deus e dão vida ao peregrinar da Igreja. À luz do Evangelho reconhecemos sua imensa dignidade e seu valor sagrado aos olhos de Cristo, pobre como eles e excluído como eles. A partir dessa experiência cristã, compartilharemos com eles a defesa de seus direitos (DAp 398).

E mais:

A vida se acrescenta dando-a e se enfraquece no isolamento e na comodidade. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam à margem a segurança e se apaixonam pela missão de comunicar vida aos demais. O Evangelho nos ajuda a descobrir que o cuidado enfermiço da própria vida depõe contra a qualidade humana e cristã dessa mesma vida. Vive-se muito melhor quando temos liberdade interior para doá-la: “Quem aprecia sua vida terrena, a perderá” (Jo 12,25). Aqui descobrimos outra profunda lei da realidade: que a vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isso é, definitivamente, a missão (DAp 360).

Essa constatação feita pelos bispos em Aparecida está muito presente na vida das CEBs.

 

6. Vida comunitária, fundada na fé e na Palavra: Um sinal de esperança

 No coração e na vida de nossos povos pulsa um forte sentido de esperança, não obstante as condições de vida que parecem ofuscar toda esperança. Esta se experimenta e se alimenta no presente, graças aos dons e sinais de vida nova que se compartilha; compromete-se na construção de um futuro de maior dignidade e justiça e aspira “os novos céus e a nova terra” que Deus nos prometeu em sua morada eterna (DAp 536).

 

Essa esperança é um dom dos pobres à Igreja: “Alenta nossa esperança a multidão de nossas crianças, os ideais de nossos jovens e o heroísmo de muitas de nossas famílias que, apesar das crescentes dificuldades, seguem sendo fiéis ao amor” (DAp 127).

 

 

* Pe. Nelito Nonato Dornelas é assessor da CNBB.

Endereço: smf@cnbb.org.br

 



[1] RATZINGER, Cardeal Joseph. O sal da terra: o cristianismo e a Igreja católica no limiar do terceiro milênio. Rio de Janeiro: Imago, 1997, p. 210-211.

 

Pe. Nelito N. Dornelas