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Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado: Uma leitura de Marcos 16,1-8

Por Maria Antônia Marques; Shigeyuki Nakanose, svd; Luiz José Dietrich

 

Estavam no caminho, subindo para Jerusalém. Jesus ia à frente deles. Estavam assustados e acompanhavam-no com medo. Tomando os Doze novamente consigo, começou a dizer o que estava para lhe acontecer: “Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos escribas; eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios, zombarão dele e cuspirão nele, o acoitarão e o matarão, e três dias depois ele ressuscitará” (Mc 10,32-34).

 

A morte de Jesus na cruz foi a maior crise da caminhada de seus primeiros seguidores e seguidoras. Perderam tudo o que, até aquele momento, tinha alimentado a sua esperança e sua vida. Eles acreditavam que Jesus era um profeta poderoso, o Messias vitorioso, o filho de Deus e o libertador de Israel. Os discípulos de Emaús diziam: “Nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel” (Lc 24,21). A própria identidade do grupo se perdeu, como um navio sem piloto. Jesus crucificado foi, de fato, escândalo e loucura para seus primeiros seguidores e seguidoras (1Cor 1,17-25).

Mas isso mudou, pouco a pouco, com o mistério pascal de Jesus vivido pela comunidade cristã. Os primeiros cristãos, movidos pelo amor e pela memória de Jesus, conviviam à luz das palavras e da prática do seu mestre: “Uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, depois o partiu e deu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele, porém, ficou invisível diante deles. E disseram um ao outro: ‘Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?’” (Lc 24,30-32). Foi uma experiência pascal: uma passagem de Jesus morto para Jesus que está vivo na vida comunitária.

Em vez de escandalizar-se e lamentar a morte de Jesus na cruz, a comunidade medita e assimila esse acontecimento trágico e inesperado, aplicando para Jesus a imagem e a missão do servo sofredor, descrito no Antigo Testamento. Jesus é o Servo de Deus, que veio servir e regatar o povo: “Eu, Iahweh, te chamei para o serviço da justiça, tomei-te pela mão e te modelei, eu te constituí como aliança do povo, como luz das nações, a fim de abrires os olhos dos cegos, a fim de soltares do cárcere os presos, e da prisão os que habitam nas trevas” (Is 42,6-7).

 

1. Jesus, o servo sofredor, ressuscitado e vivo no meio de nós!

Jesus pregou a prática da justiça e da solidariedade com as pessoas empobrecidas e enfraquecidas pelo império romano e seus colaboradores. Consequentemente, foi perseguido e morto pelos seus opositores. Olhando de perto o tecido do texto da paixão e morte de Jesus, redigido pela comunidade de Marcos por volta do ano 70 d.C., descobre-se que ele foi morto como contestador e subversivo pelas autoridades de seu tempo.

 

1)      Os membros do Sinédrio prenderam Jesus, interrogaram-no e entregaram seu caso a Pilatos (Mc 14,43-15,1): não há dúvida de que eles estão na lista dos culpados pela morte de Jesus. Por trás das acusações levantadas contra Jesus, aparecem suas palavras sobre a estrutura religiosa vigente: a lei do puro e do impuro, o Templo e o messianismo davídico triunfalista que regulavam a vida do povo judeu. Jesus projetou nova sociedade na qual o legalismo seria substituído pela justiça e misericórdia, e o Templo, pela casa de oração e partilha. Por isso, foi visto como ameaça ao poder religioso.

 

2)      Os discípulos abandonaram Jesus, e Pedro negou seu Mestre (Mc 14,50; 14,66-72): se esses atos não fossem de fato históricos, dificilmente as primeiras comunidades os atribuiriam a Pedro e aos discípulos. O fato de os discípulos fugirem demonstra que eles não compreenderam Jesus como o Messias servo no tempo pré-pascal. Os discípulos esperavam Jesus como um Messias poderoso, um novo Davi, conforme era ensinado e esperado por muitas das autoridades religiosas da época.

 

3)      Pilatos condenou Jesus à morte de cruz como “rei dos judeus” (Mc 15,1-15): é importante acentuar, antes de tudo, que Jesus foi condenado a uma pena que só um tribunal romano podia dar. Isso é fundamental, porque nos leva a confirmar a responsabilidade de Pilatos e dos romanos pela morte de Jesus. O título “rei dos judeus”, fixado no alto da cruz como a causa da sentença, é mencionado em todos os evangelhos, o que reforça a responsabilidade dos romanos. Pilatos condenou Jesus à morte como pretendente ao trono judeu e, portanto, como rebelde contra a ordem e a tranquilidade da pax romana.

 

4)      Jesus é açoitado depois de condenado à morte (Mc 15,15): os historiadores atestam a frequência da flagelação como pena acessória ao condenado à morte. Essa pena, que parece ter sido reservada aos não cidadãos entre os romanos, servia de exemplo para demonstrar seu domínio e poder sobre os súditos nas províncias. E é certo que a flagelação e o sofrimento no caminho para o Calvário enfraqueceram Jesus e apressaram a sua morte.

 

5)      Jesus morreu na cruz (Mc 15,37): na literatura romana, a crucifixão tem sua origem na Pérsia e era aplicada aos oficiais; no período greco-romano é que passou a ser usada para os escravos. Ela é descrita como “crudelíssimo e horribilíssimo suplício, e é uma penalidade infligida aos escravos e aos habitantes das províncias por faltas maiores, como furto grave e rebelião”. Por sua crueldade, o suplício da cruz foi visto, pelos judeus, como “escândalo” e “maldição de Deus”: “Se um homem, culpado de um crime que merece a pena de morte, é morto e suspenso em uma árvore, seu cadáver não poderá permanecer na árvore à noite; tu o sepultará no mesmo dia, pois o que for suspenso é um maldito de Deus” (Dt 21,22-23).

 

Os textos bíblicos da paixão e morte de Jesus nos informam que ele morreu como criminoso e subversivo. Sua morte foi consequência de uma vida a serviço da justiça levada ao seu extremo: “Jesus dizia: ‘Abba [Pai]! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres’” (Mc 14,36). A cruz de Jesus é o resultado da sua fidelidade à missão recebida do Pai e do seu compromisso com os irmãos até o fim. É o resultado do que ele pregou e do que ele fez.

E é exatamente por Jesus ter sido fiel ao amor de Deus e ter testemunhado esse amor até o fim, até a cruz, que a comunidade de seus seguidores e seguidoras verá na cruz sua exaltação como servo de Javé:

 

Ele, estando na forma de Deus,

não usou de seu direito de ser tratado como um deus,

mas se despojou,

tomando a forma de escravo.

Tornando-se semelhante aos homens

e reconhecido em seu aspecto como um homem,

abaixou-se,

tornando-se obediente até a morte,

a morte sobre uma cruz.

Por isso Deus soberanamente o elevou

e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome (Fl 2,6-9).

 

Um hino cristão antigo, citado por Paulo, repete o mesmo esquema “humilhação/exaltação” conhecido na tradição judaica, por exemplo: “Deus ergue o fraco da poeira e tira o indigente do lixo” (Sl 113,7-8; Sl 22). O indigente, condenado como impuro, é salvo pelo amor e pela gratuidade de Deus. A salvação não está no cumprimento da lei do puro e do impuro, mas na prática da solidariedade, por meio da qual o Deus da vida se manifesta. Por isso, para os cristãos, Deus Pai nunca abandona Jesus de Nazaré, que serve ao povo com amor. Ele exalta Jesus crucificado, um impuro, cujo nome é Jesus Cristo, Filho de Deus (Mc 1,1).

Com essa convicção pós-pascal, a comunidade de Marcos descreve a manifestação gloriosa do Filho do homem:

 

Naqueles dias, porém, depois daquela tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará sua claridade, as estrelas estarão caindo do céu, e os poderes que estão nos céus serão abalados. E verão o Filho do homem vindo entre nuvens com grande poder e glória. Então ele enviará os anjos e reunirá seus eleitos, dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu (Mc 13,24-27).

 

Com a tradição apocalíptica judaica (Dn 7,9-27), a comunidade de Marcos manifesta a sua fé na ressurreição de Jesus Cristo e na chegada de um mundo novo por ele prometido. Porém, a mesma comunidade adverte que essa espera pela manifestação plena do reino de Deus não deve ser passiva, mas ativa (Mc 13,28-36). Os seguidores e as seguidoras de Jesus Cristo não podem se descuidar de suas responsabilidades no seguimento de Jesus no dia a dia: “O que vos digo, digo a todos: vigiai!” (Mc 13,37).

“Cumpriu-se o tempo, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho”, escreve a comunidade de Marcos (Mc 1,15). O reino de Deus pregado e semeado por Jesus deve continuar a ser construído pela prática da solidariedade e da comunhão com os mais sofridos e explorados por uma realidade excludente, que vive a busca desenfreada de lucro, poder e privilégio. Os seguidores e seguidoras de Jesus Cristo devem continuar a missão do seu mestre, que exerceu seu ministério a partir da periferia, da Galileia. Somente assim Jesus ressuscitado estará presente no meio deles. Um jovem vestido com uma túnica branca anuncia às mulheres diante do túmulo vazio: “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos procede na Galileia. Lá o vereis, como vos tinha dito” (Mc 16,7).

 

2. Jesus de Nazaré ressuscitado vos procede na Galileia

Os evangelhos são unânimes em afirmar o testemunho de mulheres que vão ao túmulo de Jesus. Marcos cita Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé (16,1). Mateus menciona apenas duas mulheres: Maria Madalena e a outra Maria (Mt 28,1). Na lista de Lucas vemos Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e outras mulheres (Lc 24,10). Em João, apenas Maria Madalena (Jo 20,1). Madalena é citada em todos, o que indica ter sido ela uma referência importante para as primeiras comunidades cristãs, principalmente para a teologia da ressurreição e para a continuidade do movimento de Jesus. E mais: a morte de Jesus foi assunto de muita conversa e reflexão na Igreja dos primórdios.

No Evangelho de Marcos, a lista com nomes de mulheres é citada três vezes. Em 15,40, no momento da crucifixão, é dito que “estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de Joset, e Salomé”. Em seguida, a narrativa afirma: “Maria de Magdala e Maria, mãe de Joset, observavam onde ele fora posto” (Mc 15,47). O que pode indicar essa lista, uma vez que o testemunho de mulheres nem sempre era bem-visto? Os discípulos fugiram, mas algumas mulheres permaneceram até o momento da cruz e da morte (cf. 15,40). É possível que esse evangelho quisesse reforçar que os excluídos é que seguem Jesus até o fim.

Após a prisão e a execução de Jesus na cruz, as mulheres não o abandonaram, mas continuaram a segui-lo. Segundo o Evangelho de Marcos, desde o início da narrativa, elas também serviam (diakonein) a Jesus (Mc 1,31), e até após a sua morte. Ainda que o seguimento de Jesus por parte dos homens (como Pedro, Tiago e João) desaparecesse, as mulheres continuaram a ser “diaconisas”, sendo solidárias e estando em comunhão com os mais necessitados. Elas, como o cego Bartimeu (Mc 10,46-52), são o símbolo do ser fraco e desprezado, sem poder. São as pessoas marginalizadas, dependentes, vazias de si mesmas, que estão prontas para seguir o caminho de Jesus, o servo sofredor, que se esvaziou para servir os outros até a cruz.

A descrição do Evangelho de Marcos permite concluir que o sepultamento de Jesus foi apressado, pois já era tarde e véspera do sábado, sem o tempo suficiente para os rituais fúnebres. Por isso, algumas mulheres, após o sábado, ou seja, após o pôr do sol, vão ao lugar onde sepultaram Jesus para ungir o corpo dele (Mc 16,1). Era costume dos judeus ungir o corpo com uma mistura de mirra e aloés (cf. Jo 19,39). A unção deveria ser feita antes do sepultamento. Na realidade, não seria possível abrir o túmulo depois de um dia e meio de sepultamento.

Mal amanheceu o primeiro dia e as mulheres foram ao túmulo. No coração, angústia e preocupação: “Quem rolará a pedra da entrada do túmulo para nós?” (Mc 16,3a). No entanto, “viram que a pedra já fora removida” (Mc 16,3b). De acordo com a mentalidade bíblica, túmulo é símbolo da morte. Mas a entrada está aberta. Há uma esperança.

As mulheres “viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram cheias de espanto” (Mc 16,5). A palavra grega ekthambeo só é utilizada nesse evangelho e pode ser traduzida por pavor ou espanto. Ela também é utilizada no contexto da oração de Jesus no Getsêmani para descrever o seu estado de ânimo: ele “começou a apavorar-se” (Mc 14,33).

No túmulo, o jovem encontra-se à direita; a tradição acreditava que essa era a posição do próprio Cristo: “vereis o Filho do homem sentado à direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu” (Mc 14,62; cf. Mc 12,36). A descrição do encontro entre o jovem e as mulheres tem características de relato de anúncio: o jovem é identificado com um anjo (cf. 2Mc 3,26), as vestes brancas indicam o mundo divino, sua posição simboliza dignidade, palavras de encorajamento são dirigidas às mulheres diante do medo e é feita a promessa.

As palavras do anjo contêm a afirmação de fé das primeiras comunidades cristãs: “Procurais a Jesus de Nazaré, o crucificado. Ele ressuscitou, não está aqui” (16,6; cf. At 2,23-24; 3,15; 4,10; 5,30; 10,40; 13,28-30). No grego, está na voz passiva: “ele foi levantado (egerthê, traduzido por ressuscitado). O mesmo verbo é utilizado nos relatos de milagre nos quais Jesus levanta os marginalizados, libertando-os para participarem da vida social (Mc 1,31; 2,9 etc.). A ressurreição é a vida.

O túmulo vazio é um sinal da ação de Deus. Um mistério que permanece até hoje. Não é o túmulo vazio que prova a ressurreição de Jesus, mas, sim, um encontro pessoal com o Ressuscitado. As palavras finais do anjo são de encorajamento: “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia” (Mc 16,7). A ordem é ir para a Galileia. Voltar ao começo, refazer o caminho.

A palavra do anjo inclui os discípulos e Pedro. Na hora do aperto, os discípulos fugiram e Pedro negou Jesus. Apesar das falhas, a comunidade está aberta para todas as pessoas dispostas a seguir Jesus. É preciso sempre voltar à Galileia, que, no Evangelho de Marcos, tem um destaque especial. Em Cafarnaum é que Jesus escolheu seus primeiros discípulos e aí estabeleceu o local de sua residência. Ele atuou no norte da Galileia e na Decápolis. A Galileia é o espaço familiar de Jesus, ao passo que Jerusalém é o lugar do sagrado vinculado à Lei, à hierarquia, ao puro e impuro, é o lugar da exclusão, de tudo o que significa a rejeição ao projeto de Jesus. É preciso distanciar-se de Jerusalém e reencontrar Jesus na Galileia, no meio dos gentios.

Provavelmente, é a mesma razão que levou o Evangelho de Marcos a ser o único que utiliza o título “Jesus de Nazaré” no relato da ressurreição (Mc 16,6). A comunidade, que se situava na Galileia e estava enfrentando conflitos, por volta do ano 70 d.C., deu ênfase ao local do ministério de Jesus. Ele era um nazareno; viveu, testemunhou e implantou seu projeto de amor e de solidariedade na sua terra. Chamar “Jesus de Nazaré” e voltar à “Galileia” são apelos fortes para retomar a missão de Jesus, o servo sofredor.

Qual foi a resposta das mulheres? “Saíram e fugiram do túmulo […]. E nada contaram a ninguém, pois tinham medo” (Mc 16,8). Assim terminava o Evangelho de Marcos. Uma história cujo fim fica para a imaginação de quem está lendo o evangelho. Diante das curas e milagres, a ordem é silenciar, e as pessoas falam (Mc 1,44); agora, acontece o contrário: a ordem é falar, e as mulheres silenciam.

A história se repete… Como os discípulos, as mulheres também fugiram (14,50). Porém, o silêncio delas, o medo e a fuga são diferentes. São sentimentos e reações diante do seguimento de Jesus: voltar para a Galileia – à prática de Jesus. Seguir Jesus de Nazaré implica assumir o seu projeto, que provoca conflitos, perseguições e até a morte. Isso significa deixar as seguranças! Mas a esperança está aí na ressurreição. Jesus ressuscitado continua presente entre aqueles e aquelas que prosseguem o seu caminho: “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos tinha dito” (Mc 16,7).

 

3. Ressuscitar: levantar no dia a dia

 

Não vos espanteis! Procurais Jesus de Nazaré. O crucificado. Ressuscitou [levantou-se], não está aqui. Vede o lugar onde o puseram. Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos tinha dito (Mc 16,6-7).

 

O verbo traduzido para o português como “ressuscitou” é, no grego, egerthê, que significa “foi levantado”. A comunidade das seguidoras e seguidores de Jesus usa o mesmo verbo para falar tanto da sua ressurreição, de como foi levantado de entre os mortos, quanto da ação dele entre as pessoas que com ele conviviam. Principalmente entre aquelas que estavam recaídas nas camas, paralíticas, atrofiadas, sem vontade de viver, atormentadas por espíritos impuros e cegas, entre aqueles e aquelas que estavam como que “mortos” para a vida. A ação de Jesus junto a essas pessoas foi levantá-las, fazer que se levantassem para a vida de novo, novamente participassem da vida, recomeçassem a viver. Eis aqui alguns exemplos:

 

1)      “E logo ao sair da sinagoga, foi à casa de Simão e de André, com Tiago e João. A sogra de Simão estava de cama com febre, e eles imediatamente o mencionaram a Jesus. Aproximando-se, ele a tomou pela mão e a fez levantar-se. A febre a deixou e ela se pôs a servi-los” (Mc 1,29-31).

 

2)      “Jesus, vendo sua fé, disse ao paralítico: ‘Filho, teus pecados estão perdoados’. Ora, alguns dos escribas que lá estavam sentados refletiam em seu coração: ‘Por que está falando assim? Ele blasfema! Quem pode perdoar pecados a não ser Deus?’ Jesus imediatamente percebeu em seu espírito o que pensavam em seu íntimo e disse: ‘Por que pensais assim em vossos corações? Que é mais fácil, dizer ao paralítico: Os teus pecados estão perdoados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Pois bem, para que saibais que o Filho do homem tem poder de perdoar pecados na terra, eu te ordeno – disse ele ao paralítico –, levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa’” (Mc 2,5-11).

 

3)      “E entrou de novo na sinagoga, e estava ali um homem com uma das mãos atrofiada. E o observavam para ver se o curaria no sábado, para o acusarem. Ele disse ao homem da mão atrofiada: ‘Levanta-te e vem aqui para o meio’” (Mc 3,1-3).

 

4)      “Chegaram à casa do chefe da sinagoga, e ele viu um alvoroço. Muita gente chorando e clamando em voz alta. Entrando, disse: ‘Por que esse alvoroço e esse pranto? A criança não morreu; está dormindo’. E caçoavam dele. Ele, porém, ordenou que saíssem todos, exceto o pai e a mãe da criança e os que o acompanhavam, e com eles entrou onde estava a criança. Tomando a mão da criança, disse-lhe: ‘Thalita kum’, o que significa: ‘Menina, eu te digo, levanta-te’. No mesmo instante, a menina se levantou e andava, pois já tinha doze anos. E ficaram extremamente espantados” (Mc 5,38-42).

 

5)      “Vendo Jesus que a multidão afluía, conjurou severamente o espírito imundo, dizendo-lhe: ‘Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: deixa-o e nunca mais entre nele!’ E, gritando e agitando-o violentamente, saiu. E o menino ficou como se estivesse morto, de modo que muitos disseram que ele morrera. Jesus, porém, tomando-o pela mão, ergueu-o, e ele se levantou” (Mc 9,25-28).

 

6)      “E muitos o repreendiam, para que se calasse. Ele, porém, gritava mais ainda: ‘Filho de Davi, tem compaixão de mim!’ Detendo-se, Jesus disse: ‘Chamai-o!’ Chamaram o cego, dizendo-lhe: ‘Coragem! Ele te chama. Levanta-te’. Deixando o manto, deu um pulo e foi até Jesus. Então, Jesus lhe disse: ‘Que queres que eu te faça?’ O cego respondeu: ‘Rabbuni! Que eu possa ver novamente!’ Jesus lhe disse: ‘Vai, tua fé te salvou!’ No mesmo instante, ele recuperou a vista e o seguia no caminho” (Mc 10,48-52).

 

Segundo os evangelhos, havia muitas pessoas a serem levantadas para a vida. Por que isso acontecia? Aqui devemos ter presente o contexto em que Jesus viveu e as primeiras comunidades viveram e atuaram. O elemento principal desse contexto é a dominação do império romano. Isso implicava pesada carga de tributos e impostos sobre todas as pessoas. Grande parte da produção e dos frutos do trabalho do povo dominado ia parar nas mãos das autoridades romanas e de seus aliados judeus. À carga representada pelo domínio imperial romano somava-se a carga dos impostos, tributos, sacrifícios e oferendas que os judeus deviam fazer ao templo de Jerusalém e às autoridades da religião oficial da Judeia. Juntos, esses tributos retiravam mais de 60% do produto do trabalho do povo da Judeia e da Galileia. Assim, a maioria da população vivia em estado de pobreza e muitos, sem acesso à terra, endividados e sem trabalho fixo, viviam na miséria.

A situação social de exploração e de pobreza generalizada era agravada pela teologia oficial dominante, que acrescentava aos sofrimentos dos pobres a culpa por sua pobreza. A teologia da retribuição dizia que a pobreza e a riqueza eram dadas por Deus. Segundo essa teologia, a riqueza era vista como uma bênção que Deus dava aos justos, em recompensa por sua justiça; e a pobreza, a doença, os sofrimentos eram vistos como uma maldição de Deus, destinada aos pecadores e impuros. Isso sobrecarregava as pessoas pobres, doentes e excluídas, pois, além das dores advindas de sua situação social, sofriam com o peso da vergonha e da culpa por serem vistas como pecadoras.

Uma das consequências fortes dessa compreensão de Deus é a insensibilidade ante as pessoas pobres, injustiçadas e sofredoras: elas são vistas como causadoras dos próprios sofrimentos, como quem está pagando pelos próprios pecados e erros. O Deus da lei do puro e impuro, do Templo e da teologia da retribuição, em vez de incentivar a solidariedade, estimula a culpabilização e a exclusão. É um Deus insensível aos gritos das pessoas pobres, das pessoas que sofrem injustiças e violências: “O órfão é arrancado do seio materno, e a criança do pobre é penhorada. Da cidade sobem os gemidos dos moribundos, e suspirando os feridos pedem socorro, e Deus não ouve a sua súplica” (Jó 24,9-12). O Deus da teologia da retribuição não ouve, não vê, não conhece e nada faz para diminuir as dores dos oprimidos.

É nesse contexto que devemos compreender a prática de Jesus e também das comunidades de Marcos, de Paulo e dos outros evangelhos. A propósito, em muitos casos, quando os evangelhos descrevem Jesus realizando determinados atos e atitudes, na verdade estão sendo legitimadas práticas realizadas pelas comunidades em nome de Jesus.

Mas as práticas das comunidades certamente se enraízam na prática e nas atitudes de Jesus. No contexto dominado pela teologia da retribuição, Jesus decerto mostra outro rosto de Deus: “Assim que ele desembarcou, viu uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Jesus vê com os olhos do Deus do Êxodo, que vê, ouve, conhece e desce para libertar (Ex 3,7).

Jesus e a comunidade de seus seguidores e seguidoras não enxergam as pessoas com os óculos da teologia da retribuição. Esses óculos impedem que sejam vistas como pessoas, mas faz que sejam vistas como pecadoras e culpadas por seus próprios sofrimentos, motivo pelo qual não devem ser acolhidas, e sim penalizadas e excluídas. De acordo com essa mentalidade, as pessoas consideradas pecadoras são as causadoras das próprias desgraças, que podem recair sobre quem delas se aproximar: “Por que ele come com os pecadores e publicanos?” (Mc 2,16). Essas pessoas estão como mortas para Deus… Precisam ser ajudadas a se levantar novamente, precisam ser levantadas para a dignidade, para a vida… E era isso o que Jesus fazia. Ao fazer isso, também resgatava e revelava o verdadeiro rosto de Deus.

No ambiente agitado dos anos próximos da Guerra Judaica, visões triunfalistas do Messias davídico talvez tenham feito alguns discípulos se esquecer da solidariedade com os empobrecidos e começar a adorar Jesus como um rei poderoso, o que está implícito na forma pela qual o evangelho descreve as reações deles diante dos anúncios da paixão (cf. Mc 8,31-33; 9,30-34; 10,32-37). Havia grupos olhando mais para Jesus todo-poderoso do que para as pessoas ao redor. Os pequeninos estavam sendo esquecidos e ignorados.

Mas as comunidades por trás do Evangelho de Marcos, ao apontar para Jesus como o servo de Javé e ao mostrá-lo recriminando essas atitudes (Mc 8,34-35; 9,35-37; 10,41-45), também nos recriminam severamente. Jesus não quer ser adorado como rei ou Deus poderoso. Ao fixarmos demasiadamente os olhos e corações nessa imagem de Jesus e de Deus, corremos o risco de não ver nem ouvir os gemidos e as dores dos pobres e injustiçados ao nosso lado… E com isso Jesus ressuscitado não mais se manifesta entre nós. Olhando para essas partes do Evangelho de Marcos, podemos nos dar conta de que estamos preocupados em demasia em cultuar a Jesus no altar ou no trono, esquecendo-nos de que o testemunho de sua ressurreição não está no culto, mas no serviço, no serviço que liberta, que resgata a dignidade das pessoas, que transmite vida, que levanta as pessoas injustiçadas e oprimidas.

 

4. Uma palavra final: a ressurreição de Jesus está entre nós

Jesus ressuscitado é a presença que continua entre aqueles que dão seguimento ao seu caminho. Ele está presente nas pessoas, comunidades e movimentos que promovem a solidariedade e a comunhão com os mais explorados e empobrecidos pelos poderes do mundo seduzidos pela ambição do poder, da riqueza e dos privilégios.

O testemunho de Jesus ressuscitado e sua ressurreição chegam até nós hoje – principalmente às pessoas que sofrem por causa das injustiças e das desigualdades sociais, da violência sexual, do machismo, das discriminações étnicas e religiosas – quando assumimos a prática de Jesus. Damos esse testemunho quando fazemos crescer o reino de Deus entre nós por meio da solidariedade, da luta contra as injustiças e do cuidado da vida. A ressurreição se manifesta quando o seguimento de Jesus nos faz mais humanos, solidários, sensíveis às injustiças e às desigualdades, dispostos à partilha e a uma atitude política mais generosa, que promova a igualdade de oportunidades.

Todos somos chamados e chamadas a abrir os olhos, ouvidos e coração e movimentar nossas pernas e mãos para reforçar a luta contra as desigualdades e injustiças sociais, as violências e discriminações… E a fazer isso de modo concreto, engajando-nos em grupos que já estão nesse projeto, reunindo-nos para assumir a luta por melhorias nos hospitais, postos de saúde e escolas públicas, por remunerações mais dignas e melhores condições de trabalho para todas as pessoas, e procurando estabelecer relações cuidadosas e responsáveis com todas as formas de vida e com a diversidade dos ecossistemas, sem os quais a vida não existe. Jesus ressuscitado está presente entre nós, e experimentamos e testemunhamos a sua ressurreição à medida que construímos uma sociedade de vida, e de vida em abundância para todos.

Ao fazermos isso, estaremos sendo discípulos e discípulas de Jesus, o crucificado, que está vivo. E é para isto que ele nos chama: “Coragem! Ele te chama. Levanta-te!” (Mc 10,49).

 

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