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Publicado em Novembro-Dezembro de 2012 (pp. 11-18)

Os 50 anos do Concílio Vaticano II: avanços e entraves

Por Pe. J. B. Libanio, sj

1. Antecedentes do Concílio

Comemoramos em 2012 o 50º aniversário do início do Concílio Vaticano II. Em solene ato presidido pelo papa João XXIII, iniciou-se a primeira sessão a 11 de outubro de 1962 e terminou depois de quatro sessões a 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI.

Depois de meio século de história conciliar e pós-conciliar, temos já certa distância para medir-lhe as consequências positivas, os limites, os entraves, os avanços e retrocessos.

O Concílio não caiu milagrosamente do céu qual anjo fulgurante. Construiu-se na história e em momento de enorme tensão no interior da Igreja e dela com as instituições externas. Assinalemos breves traços desse momento econômico, político, social, cultural e eclesial a fim de situá-lo melhor.

Economicamente, vivia-se a euforia da reconstrução da Europa depois da devastação da II Guerra Mundial (1939-1946). Sobretudo a Alemanha, que fora destruída por terríveis bombardeios no final da guerra, já ostentava pujante economia com o famoso Wirtschaftswunder [milagre econômico]. E, aos poucos, outros países entravam na mesma onda otimista.

Com a vitória dos Aliados na Guerra, os regimes totalitários do nazismo e fascismo foram derrotados, enquanto os restantes governos ditatoriais de Salazar e Franco se fragilizavam em face da mentalidade democrática. Apostava-se na democracia como o sistema político avançado e respeitoso dos direitos humanos, cuja Declaração Universal a ONU assumiu em 10 de dezembro de 1948.

Culturalmente, impregnavam a mentalidade europeia, de um lado, ondas existencialistas da afirmação da liberdade do sujeito e agnósticas, ateias em relação a Deus, e, de outro, o crescimento de anseios socialistas e comunistas também ateus.

E a Igreja Católica? Dividia-se internamente. De um lado, ela vinha resistindo desde a Revolução Francesa até os albores do Vaticano II contra tanto as ideias liberais quanto as marxistas ateias, rejeitando qualquer diálogo com a modernidade. De outro, atravessavam-lhe o interior vários movimentos que carregavam elementos da modernidade. Na exterioridade eclesial, predominava a imagem de intransigência. No coração da Igreja, nasciam diálogos de várias naturezas.

No campo bíblico, dialogava-se com ciências da linguagem, com as descobertas históricas e arqueológicas. Pio XII apoiou tal renovação com a Encíclica Divino Afflante Spiritu. Também no campo da liturgia, ele realizou reformas que aproximaram o fiel do mistério eucarístico. Os leigos cresciam em consciência no desejo de maior participação na vida interna da Igreja, animados pela pujança da Ação Católica, especialmente de origem belga e francesa. Décadas antes, o movimento querigmático já questionava a teologia abstrata que dificultava a pregação. Insinuava a elaboração de uma teologia para a pregação. Os missionários começavam a pensar diferentemente sua missão em face do movimento de emancipação dos países coloniais. Em relação aos irmãos protestantes, germinava belo movimento ecumênico, sobretudo no mundo centro-europeu. Já desde a Encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, nascera séria preocupação com a problemática social, reforçada pela Quadragesimo Anno, de Pio XI, e pelas radiomensagens de Pio XII.

A Nova Teologia se converteu no punctum dolens do pontificado de Pio XII. Lançada em artigo programático do teólogo francês Jean Daniélou, fazia caminho na linha de visão pessoal e livre de Deus, da valorização das experiências do homem moderno, levando em conta as dimensões novas da ciência e da história, de atitude concreta diante da existência e de decisões que envolvem a vida totalmente (DANIÉLOU, 1946, p. 7). O pensamento de Teilhard de Chardin infiltrava-se na teologia. Pio XII se opôs a tais inovações com a Encíclica Humani Generis (1950). Ele morre em 1958 e o sucede João XXIII. A grande e inesperada surpresa!

Ao convocar o Concílio, causou primeiro choque. O simples evento conciliar agitou as aparentemente tranquilas águas eclesiais. Toda a Igreja se mexeu, desde as Congregações romanas até os fiéis lá na base longínqua. Dois anos de preparação já anunciavam a turbulência que iria acontecer na aula conciliar. Enquanto as comissões pré-conciliares, formadas basicamente a partir da conservadoríssima cúria romana, elaboravam os documentos preparatórios, grupos progressistas preparavam material inovador.

As sessões do Concílio tornaram-se a arena em que essas duas tendências se defrontaram ao longo das quatro sessões. Pouco a pouco, a linha progressista se firmou hegemônica e conseguiu rejeitar praticamente todos os documentos preparatórios, menos um, e influenciar predominantemente na redação dos novos textos. Os conservadores, porém, conseguiam apenas inserir neles adversativas de cautela. Assim, a redação final resultou aberta com discretos toques conservadores. No primeiro momento depois do Concílio, atravessou a Igreja alentado sopro de renovação no campo teológico, moral, disciplinar e institucional.

2. Linhas mestras dos documentos conciliares

            O Concílio Vaticano II traçou linhas inovadoras para a caminhada da Igreja.[1] Constituiu-se mina fecunda. O espaço restrito do artigo obriga-nos a destacar os eixos que nos parecem fundamentais. Como diz o provérbio francês: quem tem a escolha, tem a cruz. Escolheremos alguns dos pontos irrenunciáveis do Concílio a partir do interesse eclesiológico latino-americano.

Pórtico das opções

Paulo VI, ao iniciar a Segunda Sessão do Concílio, afirma que o seu “tema principal será a Igreja. Sua natureza íntima será estudada a fundo, para sobre ela dar, nos limites permitidos à linguagem humana, uma definição que possa instruir-nos melhor sobre a sua constituição real e fundamental, e que nos faça descobrir melhor os múltiplos aspectos da sua missão salvadora”.[2] Abre espaço de liberdade para “aprofundar a doutrina do episcopado, das suas funções e das suas relações com Pedro”. Não deixa, porém, de observar que se salvaguardem “as declarações dogmáticas do Concílio Vaticano I sobre o Pontífice Romano”. Em seguida, retoma sob outra forma a mesma tensão: “Esses debates certamente nos trarão, a nós mesmos, critérios doutrinais e práticos que poremos a proveito no exercício do nosso múnus apostólico. Se bem que esse cargo universal seja dotado por Cristo da suficiência e da plenitude de poder que conheceis, poderá, entretanto, segundo modalidades a estabelecer, ser mais bem auxiliado e amparado por uma mais eficaz e mais responsável colaboração de nossos caros e venerados irmãos do episcopado” (ibid., p. 514).

Está posta a base da tensão. Uns se firmaram de tal maneira nas declarações do Concílio Vaticano I que apenas permitiam avançar, e outros ousaram mais a ponto de relativizá-las. Então surgirá um texto de compromisso com inovações, mas com recordações do antigo.

A eclesiologia deslizou rápido para a cristologia. Aliás, o próprio Paulo VI afirma categoricamente: “É Cristo, Cristo que é nosso princípio, Cristo que é nosso caminho e nosso guia; Cristo que é nossa esperança e nosso fim”; “Possa esse Concílio ter plenamente presente ao espírito esta relação entre nós e Jesus Cristo, entre a Igreja santa e viva que somos, e Cristo, de quem vimos, por quem vivemos, para quem vamos. Relação múltipla e única, imutável e estimulante, cheia de mistério e de clareza, de exigência e de felicidade”. E de maneira bem incisiva, continua Paulo VI: “Que sobre esta assembleia não brilhe nenhuma outra luz senão Cristo, luz do mundo. Que nenhuma verdade retenha o nosso interesse afora as palavras do Senhor, nosso Mestre único! Que uma só inspiração nos dirija: o desejo de lhe sermos absolutamente fiéis! Não tenhamos outro apoio senão a confiança nascida de sua promessa e que tranquiliza a nossa fraqueza irremediável: ‘E agora eu estarei convosco sempre até o fim dos séculos’” (ibid., p. 511).

A Igreja só se entende a partir da atitude fundamental de Jesus. Movido pela paixão pelo Pai, Jesus anuncia e realiza, por meio de sua pessoa, pregações e ações, o Reino de Deus que consiste fundamentalmente no serviço ao mundo. “Pois o Filho do homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate pela multidão” (Mc 10,45). A Igreja não existe para si, mas para servir o mundo. No espírito de Jesus, situam-se os eixos do Concílio Vaticano II.

A Palavra de Deus está no centro

O Concílio marcou o primado absoluto da Palavra de Deus de várias maneiras. Simbolicamente, organizou-se procissão de entrada da Bíblia na aula conciliar. Ela ocupava aí lugar de destaque. A presença de evangélicos convidados servia de acicate contínuo para dialogar com eles a partir da Palavra de Deus. João XXIII estabeleceu a dimensão ecumênica como fundamental para as discussões e documentos conciliares.

O Concílio não hesitou em afirmar sem rebuço que “ele se põe à escuta da Palavra de Deus para proclamá-la como anúncio de salvação a fim de que o mundo inteiro, ouvindo, creia, crendo, espere, esperando, ame” (Dei Verbum, n. 1). E, de fato, os textos conciliares se impregnaram da Palavra de Deus. O Decreto Optatam Totius sobre a formação sacerdotal, chama-a de “alma de toda a teologia”, instando que os alunos se empenhem em seu estudo (Optatam Totius, n. 16). Sem dúvida, após o Concílio, a Igreja se modificou radicalmente em relação ao papel da Escritura na sua vida em todos os níveis, desde os círculos bíblicos populares até os estudos aprofundados em exegese. A Escritura impregna a liturgia, a espiritualidade. E cresce a prática da leitura orante da Escritura.

A base batismal igualitária do Povo de Deus

No início da Igreja está o batismo. Nele, todos somos iguais. Antes, portanto, de qualquer distinção de ministério, grau ou hierarquia, está o Povo de Deus, que, no projeto de Deus, vai além da própria Igreja: toda a humanidade chamada à comunhão com a Trindade. Cada fiel batizado antecipa a plenitude final da Igreja. E o batismo nos conduz à Eucaristia. Lá todos participam do mesmo Cristo. Enfim, o mesmo Espírito Santo habita em todos. O leigo, pelo batismo e pela Eucaristia, tem plena cidadania eclesial com amplo espaço de iniciativa, liberdade, autonomia, participação, gestação de espiritualidades próprias. Na América Latina, assistimos a tal acordar dos leigos, sobretudo nas comunidades eclesiais de base com ministérios próprios, a que Paulo VI alude na Evangelii Nuntiandi.

Toda Igreja é participação

Em íntima articulação com a base laical batismal e eucarística, lentamente se anuncia e se constitui uma Igreja de participação em todos os níveis, superando a rigidez tricêntrica: Roma, diocese, paróquia. A colegialidade em todas as esferas, a sinodalidade, os diversos tipos de conselhos exprimem a riqueza desse novo espírito eclesial nascido do Concílio. Todos somos Igreja e, quanto mais participamos, mais Igreja somos. Conquista irrenunciável da verdadeira Igreja, já bem distante das afirmações de Pio X no sentido de dependência.[3]

A Igreja existe para o mundo fora dela

A Igreja do Vaticano II levantou a cabeça da sua interioridade e viu em volta de si cristãos de diferentes Igrejas, uns mais próximos, como os ortodoxos, e outros mais distantes, como as denominações pentecostais e neopentecostais. O olhar avançou e encontrou os irmãos em Abraão. Outras religiões apareceram no horizonte. E mais longe, em termos religiosos, contemplou a humanidade nas alegrias e esperanças, nas tristezas e angústias. Com todos pretendeu dialogar. Invade toda a Igreja o imenso desejo do diálogo com os protestantes, com os judeus, com as outras religiões e com os não crentes. Todos seres humanos. Todos tocados pelos problemas do mundo de hoje. Tudo isso interessa à Igreja do Vaticano II, que para cada um desses grupos expressou seu pensar e propósito de ação em diferentes documentos. A maior novidade veio com a Constituição Gaudium et Spes, em que a Igreja reconheceu a autonomia das realidades temporais, terrestres, ao renunciar os últimos resquícios da cristandade e ao pôr-se a serviço de toda a humanidade do mundo moderno.

3. Ambiguidades remanescentes

Resquícios resistentes do hierarcalismo

Nem tudo foram luzes no Concílio. Corpos eclesiásticos, ciosos do próprio poder e temerosos de perigoso horizontalismo e igualitarismo, semearam incisos afirmativos do espírito hierárquico. Eles temiam uma Igreja “democrática” em que a escolha dos ministros principais – pároco e bispos – nascesse de ampla participação dos fiéis e diante dos quais eles responderiam pelo exercício do ministério. Em horizonte longínquo, até o ministério petrino sofreria influência desse espírito de participação de toda a Igreja. Subjaz ainda certo espírito hierárquico no sentido não do poder como graça de Deus, mas como graus de superioridade e autonomia. Grande dificuldade da concepção hierárquica consiste em ter que responder, dar razões, justificar as próprias decisões, e não impô-las pelo simples poder do cargo. Não se quis tocar em estruturas permanentes dos ministérios na Igreja respeito especialmente ao ministério presbiteral e episcopal e a seus respectivos exercícios. O próprio João Paulo II percebe a necessidade de que o exercício do ministério petrino “se abra a uma situação nova”. Acrescenta: “Tarefa imensa, que não podemos recusar, mas que sozinho não posso levar a bom termo”, e espera que os “responsáveis eclesiais e os teólogos” instaurem, com ele, “sobre este argumento, um diálogo fraterno, paciente” (JOÃO PAULO II , 1995, n. 6).

O clericalismo persistente

Participando dessa mesma preocupação temerosa de perder a concepção hierárquica da Igreja, julgada de direito divino, insinuou-se certo espírito clerical. O medo principal consistia em ceder o lugar de destaque dado ao clero ao leigo supervalorizado, com prejuízo para o número das vocações sacerdotais. A exterioridade e a relevância atribuídas ao clero sofreriam detrimento, e seu reconhecimento social seria diminuído por força da promoção dos leigos. Tal percepção reforçou o clericalismo durante e depois do Concílio.

Resistências para avançar no ecumenismo e no diálogo inter-religioso

A intercomunhão das igrejas cristãs até hoje continua sendo um ponto delicado em que não se avança. O reconhecimento destemido da eclesialidade das igrejas saídas da Reforma por parte de Roma espera ainda atitude corajosa.

Houve avanços, mas há entraves eclesiológicos importantes a serem superados. O Concílio não conseguiu oferecer elementos suficientes para esses avanços.

No campo do diálogo inter-religioso, “certamente houve uma superação do exclusivismo tradicional, avançando o Concílio para a perspectiva inclusivista da teologia mais recente” (TEIXEIRA, 1995, p. 132). Discute-se, porém, até onde a posição rahneriana de um cristão anônimo se fez presente nos textos conciliares no sentido da presença salvífica de Cristo em todas as religiões, sendo elas mediação de salvação.

4. Avançar para temas e decisões novas

            Aí estão algumas das decisões fundamentais do Concílio Vaticano II, ao lado de certas resistências. Já se passaram 50 anos. Que vemos? Em alguns pontos, continuamos na linha dos pontos centrais ou até mesmo avançamos. Noutros, predominaram as resistências que se tornaram ainda mais graves devido aos desafios de hoje. Por isso, à guisa de sugestão, elencaremos alguns “sonhos” no espírito do Concílio.

Nova relação entre estrutura eclesiástica e carisma

Inegavelmente, o Concílio Vaticano II surgiu como explosão do carisma no seio da instituição eclesiástica que se cristalizara bastante na reação contra os ataques da modernidade.

Cabe-nos, hoje, a tarefa da continuidade “carismática” do Concílio. Em primeiro lugar, tomar consciência do coração do carisma do Vaticano II. Os eixos indicados acima nos apontam para algo desse carisma. Num segundo momento, voltar-nos para o momento atual e perguntar-nos: Que transformações institucionais esse carisma está ainda a pedir? O então Cardeal Ratzinger via manifestar-se nos atuais novos movimentos, “ainda que discretamente, algo como um período de pentecostes na Igreja” (RATZINGER, 1985, p. 27). Então, importa encarreirá-los na direção de aligeirar as estruturas eclesiásticas e suscitar novas, no espírito de Jesus, de serviço, de liberdade em face do sábado, de opção pelos pobres, de simplicidade no ser, vestir e viver dos representantes da instituição eclesiástica.

Em vez de nos prendermos à circularidade dos movimentos como tais e às pessoas de seus dirigentes, façamos valer a força inovadora do Espírito para libertar a Igreja de formas centralizadoras e autoritárias na linha da participação dos fiéis no pensar, no agir, no criar novas estruturas. Aí estão as comunidades eclesiais de base à espera de estabelecer-se verdadeira rede de comunidades no interior das paróquias e dioceses. E então a Igreja se torna para o fiel uma comunidade de liberdade, diálogo, acolhida, igualdade. E nesse mesmo espírito, facilita-se assumir o princípio de subsidiariedade no governo da Igreja.

A preocupação pastoral com o êxodo de católicos e com a multiplicação das denominações evangélicas no bojo do fenômeno religioso urge repensar em profundidade o ministério na Igreja católica. Implica a reformulação do ministério ordenado na linha do serviço, despojado de autoritarismo e centralismo pastoral. Leva-nos a repensar a maneira como reinserir no ministério ordenado aqueles que o deixaram e estariam dispostos a retomá-lo na nova situação de vida. E, finalmente, cabe corajosa atitude inovadora diante das possibilidades ministeriais das mulheres e homens casados.

A Igreja em face da secura do mundo científico e da inundação religiosa

Experimentamos dois movimentos antitéticos. De um lado, avançam as ciências biológicas, a informática, a alta tecnologia e, de outro, explodem reações espontâneas, até mesmo selvagens, no campo religioso.

A Igreja católica situa-se entre dois fogos. Ao desafio científico, oferece a dimensão transcendente da fé no Deus trino da Revelação e, sobretudo, na prática de Jesus de proximidade aos marginalizados da sociedade. Sem embarcar na ilusão de criar uma sociedade de elites tecnológicas, a Igreja anuncia a primazia do pobre, das grandes massas. O desenvolvimento científico adquire sentido em vista delas. Esse campo se torna lugar privilegiado para a ação de laicato preparado, corajoso e aberto, evitando declarações desastrosas de instituições eclesiásticas mal informadas.

O fenômeno religioso se imiscui na cultura pós-moderna e desafia a criatividade da atual Igreja católica. Muitas causas originam tal surto espiritualista, desde a queda do socialismo até o excesso de cultura materialista e hedonista. Para cobrir o espaço deixado pela ideologia marxista e para suprir o vazio existencial da tirania do prazer, explodem expressões religiosas. A revelação cristã tem profundidade suficiente para dar resposta de maior consistência que simplesmente afagar o desejo do sagrado.

A teologia da criação nos ensina um ser humano criado pela Trindade e chamado à comunhão com ela. Sede insaciável a pedir experiências religiosas profundas. Quanta maravilha teológica temos que oferecer! E a prática de Jesus traz outras intuições fantásticas para responder à secura científica e à falta de sentido. Além do mais, a presença do Espírito Santo fecha o círculo da revelação como resposta ao momento atual, superando os dois extremos da carência absoluta de transcendência e a inundação barata de expressões religiosas.

A Igreja estende o braço para outra face do fenômeno religioso

O desafio do diálogo ecumênico e inter-religioso pede novas formas. Até agora, tal tarefa se realizava em nível de especialistas e de pessoas da cúpula das instituições religiosas. Para a Igreja católica, a teologia oficial tem esbarrado em impasses ainda insuperáveis. E as instituições em nível de cúpula se prendem a regras canônicas restritivas. E esses dois campos patinham na impossibilidade de avançar.

A ousadia anuncia-se em outros setores. No nível do pensar, teólogos corajosos avançam reflexões que situam no tempo e espaço os atuais empecilhos canônicos, relativizando-os e abrindo novas possibilidades de sua superação. Eles sofrem naturalmente restrições e até admoestações por parte tanto de instituições centralizadas como da teologia oficial. Espera-se que desse entrevero surjam luzes e não condenações.

No espaço da prática, há pequenas experiências que ultrapassam os limites então impostos, sobretudo no campo da intercomunhão. Experiências litúrgicas, várias décadas antes do Concílio, implodiram restrições e cercas canônicas, permitindo que então se forjasse a reforma litúrgica do próprio Concílio. Alguns julgam que tal fenômeno está a acontecer agora em relação à intercomunhão ecumênica e ao diálogo inter-religioso.[4]

E se tais reflexões e experiências conseguem articular-se em rede, as possibilidades de transformação crescem. Elas supõem que vija e cresça o espírito de abertura e tolerância que, aliás, se constitui marca da cultura atual. Bate com o espírito do Concílio Vaticano II que pedia decisões audazes no campo ecumênico e do diálogo inter-religioso, vencendo as lutas renhidas que têm minado até o interior das famílias.

Hans Küng vai mais longe. Para ele, da correta posição diante de tais questões depende inclusive a paz entre as pessoas, etnias, religiões e países. “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões” (KÜNG, 1992, p. 186).

As grandes migrações desafiam a fé cristã

            O sistema capitalista, desde o início, provocou migrações. Até o momento, os países novos, como EUA, Brasil e outros, assimilavam bem as ondas de migrantes europeus. Mesmo no interior de cada país, os ajustes, embora difíceis, não lhe ultrapassavam as forças organizativas.

Agora, a aguçamento do sistema tem produzido massas gigantescas de migrantes, vindos do 3º Mundo, sobretudo africano, a bater às portas da Europa. Centenas de milhões se movem dentro dos países e para fora deles em migrações crescentes.

Deixam a própria terra e buscam outras na esperança de superar a própria miséria, a falta de perspectiva de futuro ao encontrar onde ganhar dignamente o pão para si e para a família. No horizonte estão os países ou as regiões ricas, acenando com bandeiras coloridas de bens abundantes. O ser humano sonha com pão e beleza. E os procura lá onde pensa existir.

No entanto, os mesmos países, que ontem exploraram a África e outras regiões, fecham violentamente as portas de entrada. Então surge o terrível drama daqueles que forçam entrar e permanecem indocumentados em multidões crescentes. Há esforços da Igreja de vir ao encontro dessas multidões sofridas. Os evangélicos pentecostais e neopentecostais, por sua vez, arrebanham esses sofridos filhos da discriminação. A pastoral do futuro enfrentará esse novo tipo de defesa dos direitos humanos. O chamado de Jesus ecoa forte em todos nós: estava indocumentado e me acolheste!

A Igreja eletrônica

Já na década de 70, Hugo Assmann (1987) lançava o problema da Igreja eletrônica. Lá soava instigante desafio à Igreja católica vindo de denominações evangélicas, especialmente da matriz americana com sedutora plêiade de tele-evangelistas renomados. Em termos de Brasil, projetavam-se programas importados além das iniciativas carismáticas católicas, do pentecostalismo de missionários evangélicos e do crescente neopentecostalismo (MARIANO, 2005).

            A ciência e a tecnologia da comunicação passam por revolução jamais vista. Anunciam-se saltos tecnológicos inimagináveis que estão a revolucionar a relação entre as pessoas e criando nova geração de usuários.

Os desafios pastorais consistem, entre outros aspectos, na presença significativa da Igreja nesse universo tecnológico e cultural e na articulação de tais meios com as exigências comunitárias da vida cristã, com a disciplina do arcanum e com as características próprias da fé cristã.

A mídia constitui-se muito mais que simples instrumento de comunicação. Configura a atual cultura. Uma linguagem teológica que não levasse em conta esse dado cultural passaria à margem dos ouvintes e leitores. Como se trata de cultura, o empenho tem de ser muito maior em profundidade, percebendo as modificações de comportamento, de horizonte simbólico das pessoas. Somente aí dentro se evangeliza.

A questão se põe gravemente no risco de mera substituição de uma Igreja real, comunitária, por uma Igreja virtual, por causa de pastoral midiática não clarividente e substitutiva da vida concreta eclesial.

CONCLUSÃO

A meio século de distância dos inícios do Concílio Vaticano II, contamos com riqueza ainda inexplorada: primado da Palavra de Deus na vida da Igreja e dos fiéis, ser uma Igreja Povo de Deus, participativa, voltada para o diálogo com os irmãos evangélicos, com as outras religiões e com os não crentes. Instalou-se, além do mais, desafiante situação de superar o clericalismo, o hierarcalismo remanescente e recrudescente, o ímpeto da modernidade tecnotrônica e a pós-modernidade fragmentadora.

Soam-nos, então, desejos de avançar a relação vitalizante entre carisma e instituição, em diálogo corajoso com as ciências, em atitude crítico-evangelizadora do fenômeno religioso. Ainda nos resta enfrentar com coragem os desafios das migrações das massas sobrantes e da cultura midiática. Haja fôlego, coragem e esperança!

BIBLIOGRAFIA

ACTES DE S.S.PIE X. Paris: Ed. des Questions actuelles, s/d.

ASSMANN, H. La Iglesia electrónica y su impacto en América Latina. San José: DEI, 1987.

DANIÉLOU, J. Les orientations présentes de la pensée religieuse. Études t. 249 (1946).

JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Ut Unum Sint, sobre o empenho ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1995, n. 96.

KLOPPENBURG, B. Concílio Vaticano II. Vol. III. Segunda Sessão (set.-dez. 1983). Petrópolis: Vozes, 1964, p. 508-520. Hîc 513.

KÜNG, H. Projeto de ética mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. São Paulo: Paulinas, 1992.

LIBANIO, J. B. “A Caminho da V Conferência de Aparecida”. Perspectiva Teológica 38 (2006), n. 105, p. 191-194; 202-210.

______. Concílio Vaticano II. Em busca de uma primeira compreensão. São Paulo: Loyola, 2005.

MARIANO, R. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 2005.

RATZINGER, J. A fé em crise?: O cardeal Ratzinger se interroga. São Paulo: E. P. U., 1985.

TEIXEIRA, F. Teologia das Religiões. Uma visão panorâmica. São Paulo: Paulinas, 1995.


[1] Para aprofundar essas reflexões, o leitor pode consultar considerações que fiz por ocasião da preparação da Conferência de Aparecida: J.B. LIBANIO, 2006 e 2005.

[2] PAULO VI, “Discurso de Abertura da II Sessão”, em B. KLOPPENBURG, Concílio Vaticano II. Vol. III. Segunda Sessão (set.-dez., 1983). Petrópolis: Vozes, 1964, p. 508-520. Hîc 513.

[3] Pio X invoca a originalidade da Igreja, fundada por Jesus Cristo, para tratar da relação entre leigos e clero. “Ela é o corpo místico de Cristo, regido pelos Pastores e Doutores – sociedade de homens, consequentemente, no seio da qual alguns presidem aos outros com pleno e perfeito poder de reger, ensinar e julgar. É essa sociedade, portanto, por sua força e natureza (vi et natura), desigual; compreende duas categorias (ordinem) de pessoas, os pastores e a grei, isto é, aqueles que estão postos nos diversos graus da hierarquia e a multidão dos fiéis. Essas categorias são de tal maneira entre si distintas que unicamente na hierarquia residem o direito e a autoridade de mover e dirigir os seus membros para a finalidade proposta da sociedade; é dever da multidão deixar-se (pati) ser governada e seguir obedientemente a condução dos dirigentes” (ACTES DE S.S.PIE X, II, pp. 27.132-134, em tradução livre do latim feita por mim).

[4] Hans Küng, na entrevista a Ralf Caspary, se refere à mútua hospitalidade de comunidade católica e protestante. Diz ao entrevistador: “Devo lhe confessar que hoje tenho mais confiança nas paróquias e não o quero privar de uma boa notícia que recebi. Duas paróquias de Bruchsal, as comunidades romano-católicas de St. Peter e a comunidade paroquial de Paul Gerhardt, evangélica, escrevem: ‘Damos por terminada a divisão que durante quase 500 anos a cristandade viveu em nossa zona’. E acrescentam – espero que isso se publique logo: ‘Reconhecemos que em todas as paróquias que assinam este comunicado se vive igualmente como seguidores de Cristo e como comunidades de Jesus Cristo. Reconhecemos que em nossas paróquias Jesus Cristo nos convida à mesa do Pai e sabemos que ele não exclui ninguém que queira segui-lo. Pela presente, manifestamos expressamente a nossa recíproca hospitalidade’”. Ver: Amai-vos News, H. KÜNG, “Há um cisma na Igreja entre a cúpula hierárquica e as bases’”. Entrevista com Hans Küng. Disponível em www.amaivos.uol.com.br, acesso em 23 de agosto de 2011.

Pe. J. B. Libanio, sj

* Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Há mais de três décadas vem se dedicando ao magistério e à pesquisa teológica. É vigário da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes em Vespaziano, na Grande Belo Horizonte – MG.