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Publicado em Março abr

Pastoral da saúde: ousadia profética no anúncio da vida e compromisso com os pobres e doentes

Por Pe. Alexandre Andrade Martins, mi

Neste ano de 2012, a Igreja convida-nos a refletir sobre a questão da saúde pública no Brasil. Essa reflexão acontece especialmente no tempo da Quaresma, com o tema da Campanha da Fraternidade: Fraternidade e Saúde Pública. Questões referentes à saúde pública no Brasil vêm de longa data. O povo brasileiro com sua luta e com a atuação profética da Igreja, especialmente das pastorais sociais, nas décadas de 1970 e 1980, obteve como vitória a criação de um sistema de saúde mantido pelo Estado e tendo como princípios a universalidade, a integridade e a equidade. Temos, assim, a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), voltado para todos os brasileiros e para aqueles que aqui vivem. O SUS busca democratizar o atendimento à saúde e atende mais de 75% do nosso povo. Se, de um lado, muitas vitórias foram alcançadas com o SUS, de outro, ainda temos muitas deficiências, e passos importantes precisam ser dados. Levando em consideração as deficiências existentes e almejando colaborar no avanço e na melhoria do SUS, a Igreja convida toda a sociedade, das autoridades aos mais humildes cidadãos, a refletir sobre a questão da saúde pública e agir em prol de um sistema amplo e de qualidade.

A Pastoral da Saúde tem agido de maneira profética no campo da saúde. Primeiro, por meio da sua coordenação nacional, ela organizou um abaixo-assinado a fim de sensibilizar as autoridades eclesiásticas, isto é, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sobre a importância de uma Campanha da Fraternidade (CF) com o tema saúde pública. O resultado foi positivo, e aqui estamos refletindo sobre essa questão. Segundo, a Pastoral da Saúde, com seus mais de 90 mil agentes, tem atuado de forma significativa em defesa da vida, do nascer ao morrer com dignidade. Por fim, essa pastoral precisa dar passos largos junto com a CF-2012, sendo profética durante a campanha e sempre, não deixando morrer a semente que está sendo plantada nesta Quaresma. A Pastoral da Saúde é a Igreja ao lado dos enfermos e dos pobres, para que todos tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10). Ela encarna, na prática, o mandado evangélico de ir por todo o mundo, anunciar a boa-nova aos pobres e curar os enfermos (cf. Lc 9,1-6). Conscientes dessa missão pastoral, apresentamos a Pastoral da Saúde e sua ousadia profética no mundo da saúde com os objetivos de expor resumidamente essa pastoral e apresentar as suas dimensões de atuação. Com isso pretendemos oferecer elementos capazes de fundamentar e motivar a atuação da comunidade no mundo da saúde, no compromisso com os pobres e os doentes, promovendo e defendendo a vida.

O caminho que seguiremos está dividido em quatro pontos:

1. a Pastoral da Saúde: definição e missão profética;

2. as dimensões da Pastoral da Saúde;

3. os Camilianos e a Pastoral da Saúde;

4. anúncio de vida e compromisso com os pobres e doentes.

 

1. A Pastoral da Saúde: definição e missão profética

Pastoral vem de pastor, termo amplamente usado no universo da Igreja e inspirado no próprio Jesus, o Bom Pastor; a partir do pastoreio de Jesus, a Igreja procura viver pastoralmente. Saúde refere-se ao amplo contexto que envolve tudo ligado ao cuidado com a vida, do seu nascer ao morrer. Dessa forma, Pastoral da Saúde é a atuação do Povo de Deus no cuidado com o ser humano, a fim de promover saúde e vida com dignidade. A concepção do que é realmente a Pastoral da Saúde e o seu objetivo, ou melhor, a sua missão no mundo da saúde (realidade marcada por paradoxos e contradições, pois a saúde e a doença, a alegria e o sofrimento, a vida e a morte caminham lado a lado), vem do pastoreio de Jesus Cristo, que sempre esteve ao lado dos mais necessitados, de modo especial dos pobres e dos doentes. No Brasil, a saúde do nosso povo não anda muito bem, há muitas contradições e desigualdades, consequentemente, injustiças e sofrimento. Numa realidade como a nossa, como a Pastoral da Saúde pode contribuir com base na inspiração evangélica? A resposta, se bem que difícil de ser dada, precisa ser construída e sempre renovada pela ação dinamizadora do Espírito. Antes de tentarmos construir respostas, vejamos o que nossa Igreja, especialmente a Igreja presente na América Latina, entende por Pastoral da Saúde e sua missão.

Depois de muitos debates, reflexão e estudos, num processo que se iniciou em 1989, o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), por meio do atualmente chamado Departamento de Justiça e Solidariedade, elaborou um guia da Pastoral da Saúde para o nosso continente. Esse guia, lançado pela primeira vez na década de 1990, foi totalmente revisto e reelaborado e, a partir de 2006, esse trabalho foi feito à luz do Documento de Aparecida, resultado da V Conferência do Celam. A conclusão foi a publicação do guia com o título de Discípulos e missionários no mundo da saúde: guia da Pastoral da Saúde para a América Latina e o Caribe (em português, editado pelo Centro Universitário São Camilo).

Esse guia é um texto lúcido que nos apresenta elementos para a prática pastoral e seus fundamentos bíblico-teológicos e bioéticos, sempre iluminados pelo evangelho de Cristo. Nesse texto, encontramos bela definição do que seja Pastoral da Saúde e a sua missão, pois é uma definição que resgata a concepção de Igreja como Povo de Deus em ação evangelizadora, para o alívio do sofrimento e a libertação:

 

Por Pastoral da Saúde entendemos: a ação evangelizadora de todo o Povo de Deus, comprometido em promover, cuidar, defender e celebrar a vida, tornando presente a missão libertadora e salvífica de Jesus no mundo da Saúde. O Documento de Aparecida complementa: “a Pastoral da Saúde é a resposta às grandes interrogações da vida, como o sofrimento e a morte, à luz da morte e ressurreição de Jesus” (n. 89).

 

Essa concepção mostra que a ação da Pastoral da Saúde vai do promover a saúde, passa pelo defender e celebrar a vida até chegar ao morrer com dignidade. Dessa forma, o objetivo geral da pastoral passa pela justiça e pela solidariedade na opção preferencial pelos pobres e pelos enfermos. “Evangelizar com renovado espírito missionário o mundo da saúde, numa opção preferencial pelos pobres e enfermos, participando da construção de uma sociedade justa e solidária a serviço da vida” (n. 90).

Estar a serviço de Jesus Cristo como seu discípulo missionário, no carisma do amor aos doentes e sofredores, é estar a serviço da justiça e da solidariedade, a fim de promover, cuidar, defender e celebrar a vida, especialmente a dos mais pobres e abandonados.

 

2. As dimensões da Pastoral da Saúde

A definição que apresentamos de Pastoral da Saúde resgata a concepção de Igreja como Povo de Deus, e é esse povo que tem a missão de conduzir a pastoral por meio de uma ação evangelizadora no mundo da saúde, comprometida com o promover, o cuidar, o defender e o celebrar a vida. Esse ministério pastoral precisa ser realizado a partir do encontro com Jesus Cristo, numa opção preferencial pelos pobres e pelos enfermos, para, dessa forma, contribuir na construção de uma sociedade mais solidária e justa. Para exercer a sua missão no mundo da saúde, a Pastoral da Saúde foi estruturada em três dimensões, as quais mais adiante retomaremos.

Durante muito tempo, a ação pastoral da Igreja no Brasil no mundo da saúde esteve totalmente voltada para os enfermos e sua doença, isto é, dava-se apenas com a visita a enfermos de forma solidária e com a ministração dos sacramentos. Não existia uma preocupação em ter uma ação para promover saúde e lutar publicamente para obter medidas políticas e sociais para melhorar o atendimento aos doentes. Em outras palavras, não existia por parte da Igreja uma preocupação com a saúde pública em termos político-sociais, mas apenas no aspecto solidário, como falamos, ou por ações caritativas de instituições de saúde que atendiam os pobres. Acentuava-se o aspecto solidário de visitar o doente e nada mais. Essa pastoral ficou conhecida como pastoral dos enfermos. Também é verdade que por parte das ciências da saúde não existia uma preocupação com a prevenção como existe hoje; o foco era quase que unicamente voltado para o aspecto curativo.

Os tempos passaram e a Igreja foi percebendo que a ação pastoral no mundo da saúde não poderia ficar apenas restrita ao aspecto solidário da visita aos enfermos, mas deveria se expandir para os aspectos de prevenção e de lutas por políticas públicas capazes de oferecer um sistema público de saúde que atendesse o povo brasileiro com dignidade, equidade, integridade e de forma universal. Assim, na década de 1980, a Pastoral dos Enfermos deixa de existir e passa a integrar a nova pastoral social que surge, a Pastoral da Saúde. Em 1986, foi criada pela CNBB a Coordenação Nacional da Pastoral da Saúde, uma pastoral renovada e revigorada pelo dinamismo do Espírito Santo, que mostrava, por meio dos sinais dos tempos, interpretados à luz do evangelho, que a ação da Igreja no mundo da saúde precisava ir além da visita aos enfermos. Ela deveria ser uma pastoral que também promovesse a saúde e defendesse a vida.

Dentro dessa configuração de Pastoral da Saúde, começou-se a discutir como sua ação poderia ser estruturada. O resultado foi a elaboração de três dimensões: dimensão solidária, dimensão comunitária e dimensão político-institucional. Essas divisões, que não são estanques, mas dinâmicas e inter-relacionadas, mostram de forma clara o alcance da ação pastoral do Povo de Deus no mundo da saúde. Uma ação que vai da visita solidária àqueles que sofrem até a atuação política em prol de um atendimento digno para todos no sistema público. Uma ação que vai da solidariedade ao profetismo.

A organização pastoral em dimensões é uma inovação da Igreja no Brasil que pouco a pouco está se expandindo para outros países, especialmente para os países da América Latina. Nossa representatividade eclesial continental assumiu oficialmente essa organização tridimensional da Pastoral da Saúde como modelo de ação pastoral para toda a América Latina e o Caribe. Vejamos no que consistem essas dimensões, de acordo com o guia da Pastoral da Saúde.

Dimensão solidária. Objetivo: “ser presença de Jesus, Bom Samaritano, ao lado dos doentes e dos que sofrem no ambiente familiar, nas comunidades e nas instituições da saúde”. Nessa dimensão, a Pastoral da Saúde coloca-se ao lado dos necessitados, a exemplo do Bom Samaritano (cf. Lc 10,25-37), a fim de promover mais dignidade no viver, mesmo na dor e no sofrimento. Com isso, defende os direitos dos enfermos a um tratamento mais humano e responsável. Na solidariedade, a Igreja faz-se presente por meio do agente de pastoral, que vai ao encontro do outro ferido e faz o possível para confortá-lo no seu sofrimento e socorrê-lo na sua dor. Nas visitas aos enfermos, o agente mostra com seu testemunho que é possível uma relação além da técnica com o doente, pois o ser humano enfermo no leito é visto como um ser integral, com dimensões físicas, psíquicas, sociais e espirituais.

Dimensão comunitária. Objetivo: “favorecer a promoção e a educação em saúde com ênfase na saúde pública e no saneamento básico, agindo de maneira preferencial no campo da prevenção das enfermidades e da promoção de estilos de vida saudáveis”. Nessa dimensão, organizam-se encontros com profissionais da saúde para esclarecer dúvidas. Promovem-se campanhas preventivas (como a prevenção da dengue durante todo o ano, e não apenas no verão) e mutirões de saúde. Investe-se profundamente na prevenção, começando pelos membros da comunidade cristã e abrindo-se a toda a comunidade social local para que todos adotem hábitos de vida saudáveis, a fim de viverem com mais qualidade de vida, mostrando que o primeiro a se comprometer com a saúde é a própria pessoa, para viver de forma saudável. Promove a formação de líderes comunitários para atuarem nos conselhos de saúde em defesa dos interesses coletivos e na divulgação de informações e conhecimentos importantes para toda a comunidade. Nessa dimensão comunitária, também se valoriza o conhecimento, a religiosidade e a sabedoria popular em relação à saúde.

Dimensão político-institucional. Objetivo: “zelar para que os organismos e instituições públicas e privadas que prestam serviços de saúde e formam profissionais nessa área tenham presente sua missão social, política, ética, bioética e comunitária”. Essa dimensão tem uma atuação mais política e social na luta para que todos tenham acesso a um atendimento de saúde com qualidade e o respeito à sua devida dignidade. Exige que os programas do governo aconteçam e cheguem aos mais pobres e necessitados, atuando, sobretudo, no controle social. Zela para que haja entre os profissionais de saúde uma reflexão bioética e que a humanização esteja na base do atendimento compromissado com o bem do outro.

As dimensões se entrecruzam e são como um tripé da ação pastoral: se um não vai bem, limita todo testemunho e profetismo; isto é, caso uma dimensão deixe de existir, a defesa da vida não estará acontecendo em todos os seus aspectos. É importante lembrar que essas dimensões vão se adaptando de acordo com a realidade concreta de cada contexto específico e as suas necessidades e desafios. Atualmente, a maior parte dos agentes atua na dimensão solidária. No passado, a atuação foi muito grande na político-institucional, mas torna-se cada vez mais urgente uma atuação na dimensão comunitária, pois nela é possível promover vida com mais saúde e qualidade. A dimensão comunitária exige ações ligadas ao âmbito político-institucional, por exemplo, para que as autoridades públicas deem mais atenção aos determinantes sociais de saúde, como o saneamento básico, e invistam efetivamente na educação para a saúde e na chamada atenção básica. Com tudo isso acontecendo, a dimensão solidária não perderá o seu valor, pois ainda existirão doentes e pessoas morrendo que precisarão de uma visita amorosa capaz de lhes proporcionar em sua dor uma abertura para a transcendência que dê sentido à sua vida mesmo em meio ao sofrimento.

Em todas essas dimensões, a Pastoral da Saúde age a partir do encontro com Cristo, no qual está o seu alicerce e fundamento. Dessa forma, a pastoral é marcada por um agir evangélico sob a assistência do Espírito na promoção da saúde e em defesa da vida digna. A divisão em dimensões é apenas organizacional, pois elas se entrelaçam na cultura de vida e na promoção da saúde.

 

3. Os Camilianos e a Pastoral da Saúde

Ao falar de Pastoral da Saúde, não poderíamos deixar de dizer algo sobre os Camilianos e sua relação com essa pastoral. Os Camilianos constituem uma ordem religiosa fundada por São Camilo de Lellis no final do século XVI. Camilo foi um homem que teve sua vida marcada pela doença, pois carregava consigo misteriosa chaga que o fazia ir e vir várias vezes ao hospital em busca de tratamento. Nunca encontrou cura para essa sua chaga, mas a cura de uma vida sem sentido para uma vida voltada para quem sofre, sim. Em um hospital, no coração de Roma, Camilo iniciou uma obra que espalharia por todo o mundo, servindo os enfermos. Testemunhar o amor de Cristo para com os doentes é a missão de toda a comunidade camiliana. Uma missão confiada por Deus, que escolheu Camilo de Lellis para reunir um grupo de “homens de bens” e fundar uma “nova escola de caridade” a serviço dos enfermos e dos pobres abandonados. Camilo assumiu essa missão a partir do seu encontro com Cristo em meio ao próprio sofrimento físico e espiritual e imerso em uma falta de sentido. O encontro pessoal com Jesus Cristo colocou Camilo no chão, derrubou-o do seu pedestal de arrogância, de agressividade, de intolerância e de medo de voltar-se para si mesmo – assim como o filho pródigo, quando volta para casa, é acolhido pelo pai, que não quer saber dos seus erros, mas apenas amar (cf. Lc 15,11-32). O abraço da misericórdia de Deus fez Camilo sentir a ternura e o aconchego do Pai. Essa experiência o fez voltar-se para si mesmo e para a escuta da palavra de Deus contida no evangelho. Encontrou no seu sofrimento inspiração divina para cuidar dos sofredores e a certeza de que essa era a missão que Deus o chamava a exercer, nas palavras do evangelho: “estive enfermo e me visitastes (…). Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,36.40). Esse encontro mudou totalmente a vida de Camilo, que se tornou um gigante da caridade.

Os Camilianos têm a missão de dar continuidade à obra iniciada por Camilo, qual seja, testemunhar o amor de Cristo no mundo da saúde. Eles vivem em tempos e lugares bem diferentes dos de Camilo, mas, assim como ele em sua época, têm hoje muitos desafios a serem enfrentados, pois a pobreza e o sofrimento ainda persistem no mundo contemporâneo. Doentes sempre existiram e doentes sempre poderemos ficar, pois faz parte da nossa vida de seres frágeis e mortais. Contudo, a questão não é essa; a questão é sobre a dignidade dos doentes e a possibilidade de uma vida mais saudável e com qualidade. O mundo da saúde de hoje é muito complexo e tem exigências próprias desta época. Assim, o camiliano e todos os que estão comprometidos a ajudar os mais necessitados devem estar, como diz a Gaudium et Spes, sempre atentos aos sinais dos tempos e se deixar guiar pelo Espírito Santo para poderem responder aos desafios de forma criativa e atual, mas sem deixarem de beber na inspiração que Camilo bebeu, o evangelho.

O ministério cristão exercido no mundo da saúde está sempre em renovação, pois ele é dinâmico e animado pelo Espírito Santo, que acompanha a vida do Povo de Deus na história, em sintonia com as suas necessidades e sofrimentos. As exigências dos sinais dos tempos e o dinamismo do Espírito nos fazem olhar para as necessidades de todos os tempos para podermos viver o carisma da solidariedade e do profetismo na Pastoral da Saúde de forma mais intensa e completa junto aos pobres e doentes, pois a eles devem ser destinadas as nossas ações de forma preferencial. Isso faz da Pastoral da Saúde, ação concreta do carisma camiliano, uma parte viva da Igreja e leva a expandir nossa atuação para áreas impensáveis no tempo de Camilo. Dessa forma, a atuação camiliana busca atingir as três dimensões da Pastoral da Saúde.

Num dos documentos da Ordem Camiliana, chamado Unidos para a justiça e a solidariedade no mundo da saúde, encontramos a preocupação em responder aos desafios dos tempos, inspirados no espírito do fundador e atentos às novas exigências. Ele apresenta que a pobreza é um dos principais fatores que leva uma imensa multidão a viver em péssimas condições de saúde e numa vida indigna. Assim, o camiliano é chamado a ser profeta no mundo da saúde. Para responder aos desafios atuais, a fim de que os doentes tenham seus direitos contemplados e sua dignidade respeitada, faz-se necessária e urgente uma atuação profética e solidária. Os Camilianos buscam desenvolver uma Pastoral da Saúde que contribua para que a sociedade promova a humanização das estruturas e dos serviços de saúde e, mediante dispositivos jurídicos, sociais e políticos, garanta, da melhor forma possível, os direitos dos doentes e o respeito de sua dignidade pessoal.

Falando da presença camiliana no Brasil, o carisma da misericórdia expandiu-se para as áreas ligadas à educação e ao atendimento hospitalar, assistencial, social e pastoral. Nas atividades camilianas ligadas à Pastoral da Saúde há grande contribuição com toda a Igreja na promoção do atendimento aos enfermos no âmbito solidário, espiritual, comunitário e social.

Os Camilianos mantêm, há mais de 30 anos, um departamento exclusivo para desenvolver as atividades ligadas à Pastoral da Saúde nas suas três dimensões: o Instituto Camiliano de Pastoral da Saúde (Icaps). Suas atividades abrangem basicamente as capelanias hospitalares e a formação de agentes de Pastoral da Saúde para atuarem nos hospitais camilianos, no universo interno das obras camilianas, e colaborarem com a Pastoral da Saúde de toda a Igreja no Brasil, especialmente na organização de grupo de pastoral nas dioceses e paróquias, na preparação e formação de agentes, no estudo e na elaboração de material técnico, como livros, folders e artigos religiosos, na assessoria técnico-científica e na colaboração efetiva com a Coordenação Nacional da Pastoral da Saúde da CNBB.

Cursos regulares de Pastoral da Saúde são realizados pelo Icaps em parceria com o Centro Universitário São Camilo. Os participantes são capacitados para atuar na Pastoral da Saúde, em suas três dimensões, nas paróquias, nos hospitais e nos centros comunitários. O Icaps mantém uma secretaria que atende solicitações de coordenadores de grupos de pastoral e envia o material que produz para todos esses grupos. Ela também ajuda no agendamento de cursos e palestras.

Umas das principais colaborações do Icaps com a Pastoral da Saúde no Brasil é a publicação mensal do Boletim São Camilo Pastoral da Saúde, enviado a dioceses do nosso país, a grupos de pastoral e aos muitos assinantes. Esse boletim, publicado há 30 anos, chamava-se Boletim Icaps e teve seu nome mudado para tornar mais explícita a marca da Pastoral da Saúde.

Entre todas as atividades que o Icaps realiza, uma das mais importantes é o Congresso Brasileiro de Humanização e Pastoral da Saúde, que acontece todos os anos em São Paulo em meados do mês de setembro e reúne mais de 800 agentes vindos de todos os estados brasileiros.

O Icaps tem colaborado com a Coordenação Nacional da Pastoral da Saúde da CNBB. Dessa colaboração têm surgido alguns frutos, como a parceria em trabalhos pastorais; a assessoria técnico-científica em questões ligadas a saúde, pastoral, teologia e bioética; a divulgação das atividades da Coordenação Nacional; a parceria na publicação de livros, sendo, sem dúvida, a edição em português do novo Guia da Pastoral da Saúde para a América Latina e o Caribe uma das mais importantes; o trabalho em conjunto pela saúde e pela qualidade de vida, especialmente dos mais pobres. Destacamos neste último ponto a mobilização de todos os grupos de Pastoral da Saúde do Brasil em prol de uma Campanha da Fraternidade sobre o tema “Saúde pública: uma questão de prioridade”, tendo como resultado a sensibilização dos bispos brasileiros, que reconheceram a importância e a urgência da questão e decidiram pelo tema da CF-2012: “Fraternidade e saúde pública”. Depois disso o Icaps, juntamente com a Coordenação Nacional, colaborou na construção do texto-base.

Por meio da Pastoral da Saúde, o carisma da misericórdia e da solidariedade é levado a todas as regiões do Brasil com a atuação de inúmeros agentes. Os Camilianos colaboram com o desenvolvimento e o crescimento dessa pastoral inserida no seio da Igreja. A Pastoral da Saúde tem muitos desafios pela frente, e o Icaps está disposto a enfrentá-los junto com a Coordenação Nacional e todo o Povo de Deus, que dedica sua vida ao serviço dos pobres e doentes.

O carisma camiliano é o dom de Deus oferecido a todos aqueles que, na sua liberdade, aceitam viver segundo o ensino do evangelho. Assim aconteceu com Camilo e com os continuadores da obra iniciada por ele, tantos os religiosos camilianos como os agentes de pastoral da saúde, que têm a missão de manter sempre viva a chama do amor e da misericórdia no serviço aos enfermos e aos pobres.

 

4. Anúncio de vida e compromisso com os pobres e doentes

Para finalizar este artigo, depois de falarmos do que é a Pastoral da Saúde, de sua missão, de sua organização em dimensões e da atuação dos Camilianos, vamos reforçar a questão do profetismo no anúncio da vida e no compromisso com os pobres e os doentes. E para isso lembramos o profetismo de Jesus Cristo.

Em muitas passagens dos evangelhos, encontramos Jesus, por meio do seu ensino e ação, realizando maravilhas, com as quais mostra que outro mundo é possível, um mundo pautado na dignidade intrínseca a todo ser humano, na justiça, na solidariedade e no amor; basta acompanharmos os texto dos evangelhos lidos nos domingos da Quaresma, como o encontro de Jesus com a samaritana (Jo 4,1-41), a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41) e a ressurreição de Lázaro (Jo 11,17-44), textos que mostram Jesus sendo profeta e anunciando a vida aos pobres, aos doentes e aos marginalizados. Em Lucas 4,16-19, encontramos Jesus assumindo a sua missão de enviado do Pai para proclamar a boa-nova aos pobres, libertar os cativos, recuperar a visão dos cegos, pôr em liberdade os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor. Essa foi a missão de Jesus, levada até o fim por amor ao ser humano frágil. Dessa forma, foi um profeta, sem medo de repressão alguma e sem ficar preso a qualquer interesse egocêntrico. Seu único interesse era mostrar ao ser humano o caminho da libertação e da vida.

Não foi fácil para Jesus conseguir levar sua missão até o fim, sendo fiel à vontade do Pai e ao seu compromisso com os pequeninos. Não é fácil para todos os agentes de pastoral da saúde serem fiéis ao seu compromisso de promotores da saúde e defensores da vida, tampouco ainda serem profetas no mundo da saúde por meio da solidariedade e na luta por justiça. Mas ser discípulo missionário de Jesus na Pastoral da Saúde é assumir essas dificuldades como desafios a serem enfrentados de modo profético, unidos ao Pai e no Espírito Santo, e é aqui que está o segredo de Jesus. Ele conseguiu levar sua missão até o fim porque agia no Espírito. O texto de Lucas apresenta-nos isso quando Jesus leu Isaías: “O Espírito de Senhor está sobre mim” e depois disse: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura”.

No Espírito, Jesus fez o reino de Deus se tornar presente no meio de nós, morreu por fidelidade ao Pai e no compromisso em promover a vida dos “sem-vida”; ressuscitou e, antes de voltar para a direita de Deus Pai, enviou o seu Espírito para que, nele, pudéssemos dar continuidade à sua missão e trabalhar na construção do reino de Deus aqui na terra. Dessa forma, a Pastoral da Saúde deve deixar-se guiar pelo Espírito Santo e, nele, agir profeticamente no mundo da saúde, no anúncio da vida e no compromisso com os pobres e os doentes, colaborando para a construção do reino, que será sempre imperfeito enquanto na terra estivermos, mas tornará a vida mais digna possível para todos; onde ela acontecer, teremos um sinal de esperança.

Com a CF-2012, A Pastoral da Saúde tem a oportunidade de assumir, com renovado vigor, o seu profetismo no mundo da saúde, ao lado dos mais pobres e necessitados, em defesa de um sistema de saúde público amplo e de qualidade, para que a saúde se difunda sobre o nosso país e alcance todo o amado povo brasileiro.

 

 

* Camiliano, mestre em Ciências da Religião e especialista em Bioética e Pastoral da Saúde. É diretor do Instituto Camiliano de Pastoral da Saúde (Icaps), capelão do Hospital das Clínicas da FMU-SP e professor no curso de Filosofia do Centro Universitário São Camilo.

 

BIBLIOGRAFIA

 

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Discípulos e missionários no mundo da saúde: guia da Pastoral da Saúde para a América Latina e o Caribe. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2010.

COORDENAÇÃO NACIONAL DA PASTORAL DA SAÚDE. A Pastoral da Saúde e o controle social no SUS no Brasil. Uberlândia: Pastoral da Saúde Nacional, 2010.

Instituto Camiliano de Pastoral da Saúde. Boletim São Camilo Pastoral da Saúde. São Paulo: Província Camiliana Brasileira. (Periodicidade mensal; ver as edições de agosto de 2010 a junho de 2011.)

MARTINS, A. É importante a espiritualidade no mundo da saúde? São Paulo: Paulus, 2009.

______. Pastoral da Saúde em defesa da vida e do morrer com dignidade: fundamentos e prática. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2010.

ROCHETTA, C. et al. Dicionário interdisciplinar da Pastoral da Saúde. São Paulo: Centro Universitário São Camilo: Paulus, 2000.

 

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