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Publicado em Novembro-Dezembro de 2012 (pp. 3-10)

Vaticano II: cinquenta anos depois

Por Pe. José Comblin

1. Antes do Concílio

A maioria dos bispos que chegaram ao Concílio Vaticano II não entendiam por que e para que haviam sido convocados. Não tinham projetos. Pensavam como os funcionários da cúria: que somente o papa tinha poder de decisão e tudo decidia, não havendo necessidade de convocar um Concílio. Havia, porém, uma minoria bem consciente dos problemas do povo católico, sobretudo nos países intelectual e pastoralmente mais desenvolvidos. Haviam experimentado episódios dramáticos da distância entre as preocupações dos sacerdotes mais inseridos no mundo contemporâneo e a administração vaticana. Sabiam o que tinham sofrido no pontificado de Pio XII que se opunha a todas as reformas tão ansiadas por muitos. Todos os que buscavam uma inserção da Igreja no mundo contemporâneo, constituído pelo desenvolvimento das ciências, da tecnologia e da nova economia, assim como pelo espírito democrático, sentiam-se reprimidos. Havia uma elite de bispos e cardeais que estavam bem conscientes das reformas necessárias e quiseram aproveitar a oportunidade oferecida providencialmente por João XXIII. A cúria não aceitava as ideias do novo papa, e muitos bispos estavam desconcertados porque o modelo de pontificado de João XXIII era bem diferente dos papas Pio’s, que se pensava serem a norma desde Pio IX.

As comissões preparatórias do Concílio eram claramente conservadoras e, por isso, no dia da abertura do Concílio, as perspectivas dos teólogos e peritos levados pelos bispos mais conscientes eram bem pessimistas. Porém, houve o discurso de abertura de João XXIII, que rompeu decididamente com a tradição dos papas anteriores. João XXIII anunciou que o Concílio não estava reunido para fazer novas condenações de heresias, como era o costume. Disse que se tratava de apresentar ao mundo outra figura da Igreja, que a tornaria mais compreensível para os contemporâneos. A maioria dos bispos não entendeu nada e pensou que o papa não dissera nada porque não havia mencionado nenhuma heresia. Para o papa não se tratava de aumentar o número de dogmas, mas, sim, de falar ao mundo moderno numa linguagem atual e compreensível. Uma minoria esclarecida entendeu o recado e sentiu que teria o apoio do papa na sua luta contra a cúria.

A cúria romana tinha uma estratégia. Havia uma maneira de anular o Concílio. As comissões haviam preparado documentos sobre todos os assuntos anunciados. Todos esses documentos eram conservadores e não permitiam nenhuma mudança real na pastoral. Esses documentos seriam entregues às comissões conciliares que os aprovariam, e o Concílio se encerraria em poucas semanas com documentos inofensivos que não mudariam absolutamente nada. Importava fazer uma lista de comissões lideradas por bispos conservadores e explicar ao Concílio que o mais prático seria aceitar as listas já preparadas pela cúria, pois os bispos da assembleia não se conheciam.

O primeiro que descobriu essa estratégia foi Dom Manuel Larraín, bispo de Talca, Chile, e presidente do CELAM. Ele, junto com Dom Helder Câmara – eram amigos íntimos e acostumados a trabalhar juntos –, avisaram aos líderes mais abertos do clero. A cúria havia preparado uma lista de membros das comissões, escolhidos de tal maneira que se sabia que aprovariam os textos curiais sem problema. Era preciso, portanto, rejeitar as listas preparadas pela cúria e pedir que as comissões fossem eleitas pelo próprio Concílio. Os líderes, cardeais Doepfner (de Munique, Alemanha), Liénart (de Lille, França), Suenens (de Malinas, Bélgica), Montini (de Milão) e mais alguns, tomaram a palavra e solicitaram que o próprio Concílio nomeasse os membros das comissões, o que foi aprovado com aclamação.

A conclusão foi que as novas comissões rejeitaram todos os documentos preparados pelas comissões preparatórias, o que foi uma afirmação do episcopado diante da cúria romana. O papa estava feliz. Claro que, em poucas horas, Manuel Larraín e Helder Câmara prepararam listas dos bispos latino-americanos que puderam integrar as comissões, e outros fizeram o mesmo para os outros continentes, porque Manuel Larraín já tinha muitos contatos mundo afora. Desde o início ficou claro que o concilio seria uma batalha passo a passo contra a Cúria romana. O papa não tinha força para mudar a cúria. Até hoje os papas são prisioneiros da cúria, que, em princípio, devia depender deles. A administração é mais forte que o governante na Igreja, assim como em muitas nações. Nem sequer João Paulo II atreveu-se a intervir na cúria. Impotente em Roma, passou a viajar pelo mundo, onde foi aclamado triunfalmente.

A maioria conciliar que o grupo de frente conseguiu conquistar não queria ruptura e, por isso, sempre deu importância à minoria conservadora, embora pequena, que representava os interesses da cúria e se identificava com ela. Por isso, muitos textos resultaram ambíguos, porque, após um parágrafo inovador, vinha um parágrafo conservador que dizia o contrário. De um lado, anunciavam-se tempos novos, e logo se abria espaço para os temas antigos da tradição dos papas Pio’s. Essa ambiguidade prejudicou muito a aplicação do Concílio.

A minoria conciliar e a cúria não se converteram. Até hoje se opõem ao Vaticano II e encontram argumentos nos mesmos textos conciliares conservadores. Quando João Paulo II citava os textos do Vaticano II, citava os textos mais conservadores, como se os outros não existissem. Por exemplo, na Constituição Lumen Gentium, está claro que o destaque é o lugar dado ao povo de Deus. No entanto, quando se trata da hierarquia, o povo de Deus desaparece, e tudo continua como sempre. Em 1985, instigado pelo cardeal Ratzinger, o povo de Deus foi eliminado do vocabulário do Vaticano. Desde então, nenhum documento romano faz referência ao povo de Deus, que era o tema mais importante da constituição conciliar. O cardeal Ratzinger havia descoberto que o povo de Deus era um conceito sociológico, ainda que o conceito de povo não se encontre nos tratados de sociologia. O povo não existe sociologicamente porque é um conceito teológico, bíblico.

Essa situação terá grande importância na evolução posterior do Vaticano II na Igreja. Desde o começo, houve um partido ao qual sempre se deu importância e poder e que lutou contra todas as novidades. Nas eleições pontifícias, que, como sempre, são manipuladas por alguns grupos, o problema do Vaticano II foi decisivo, e os papas foram eleitos porque se conhecia as suas restrições aos documentos conciliares em tudo o que tinha de novo. O papa atual pode viver por mais dez anos ou até mais. Depois dele, podemos pensar que será eleito novamente um papa menos comprometido com o Concílio, para usar um eufemismo, porque os grupos que defendem essa posição são bem fortes na cúria e no colégio dos cardeais, e não há sinais de que as futuras nomeações possam mudar de orientação. As últimas nomeações na cúria são eloquentes.

2. De 1965 a 1968

A história da receptividade do Vaticano II foi determinada por um acontecimento totalmente imprevisto. 1968 representa uma data simbólica da maior revolução cultural na história do Ocidente, mais que a revolução francesa ou a revolução russa, porque atinge a totalidade dos valores da vida e todas as estruturas sociais. A partir de 1968, houve muito mais que um protesto dos estudantes. Houve o começo de um novo sistema de valores e uma nova interpretação da vida humana.

O Vaticano II respondeu às interrogações e aos desafios da sociedade ocidental em 1962. Os problemas tratados, as respostas propostas, as discussões sobre as estruturas eclesiais, as ideias sobre uma reforma litúrgica, tudo isso havia sido preparado por teólogos e pastoralistas, sobretudo desde os anos 30 nos países da Europa central, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, com algumas franjas no norte da Itália. Estava reconstruída a sociedade europeia destruída pela guerra, e a Igreja ocupava um lugar de destaque na sociedade. Era o governo na Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda, e tinha participação nos governos da França. Na realidade, havia perdido contato com a classe operaria; porém, esta já estava diminuindo numericamente devido à evolução da economia em relação aos serviços. O número de católicos praticantes estava diminuindo discretamente. A Igreja tinha um clero fiel, um episcopado bastante ilustrado, ainda que pouco inovador socialmente, mas identificado com os partidos democratas cristãos. O grande problema da Igreja era a tensão entre os setores mais comprometidos com a nova sociedade e o mundo romano de Pio XII, apoiado pelas Igrejas dos países menos desenvolvidos e mais tradicionalistas, como Espanha, Portugal, América Latina, Itália, sobretudo no sul de Florença, e os povos católicos do sudeste europeu. Os problemas eram estruturais e não alcançavam nem os dogmas nem a moral tradicional.

Em 1968, começava abruptamente uma revolução total, que atingiria todos os dogmas e toda a moral tradicional, assim como todas as estruturas institucionais da Igreja e de toda a sociedade. Em 1968, o Vaticano II teria sido impossível, porque não havia ninguém ou quase ninguém para entender o que estava acontecendo. O Vaticano II respondeu às questões de 1962, mas não tinha nada para responder aos desafios de 1968. Em 1968, o Concílio havia sido um Concílio conservador assustado pelas transformações culturais radicais que começavam.

As manifestações exteriores da revolução dos estudantes em todo o mundo ocidental desenvolvido foram reprimidas com facilidade e, por isso, muitos pensaram que seria um episódio sem consequências importantes. Na realidade, era o começo de uma nova era que prossegue hoje em pleno desenvolvimento. O ano de 1968 significa transformação de toda a política, a educação, os valores morais, a organização da vida e a economia.

1968 é uma data simbólica que evoca os grandes acontecimentos que mudaram o mundo na década de 60, sobretudo a partir de 1965:

a) 1968 significou uma crítica radical de todas as instituições estabelecidas e de todos os sistemas de autoridade. Foi a contestação global de toda a sociedade tradicional organizada. A crítica dirigia-se ao Estado, à Escola em todos os seus níveis, ao Exército, ao sistema jurídico, aos hospitais. Foi uma crítica a todas as autoridades estabelecidas que mandam pela força das estruturas e fazem dos cidadãos prisioneiros das instituições. Claro está que a Igreja Católica foi incluída nessa crítica. A Igreja Católica era o modelo típico de um sistema institucional radicalmente autoritário. Ela foi imediatamente atacada e denunciada com vigor. As mudanças conciliares, tão tímidas, não podiam convencer a nova geração. O Vaticano II era totalmente inofensivo se comparado com a revolução cultural que começou em 1968.

b) 1968 também iniciou uma luta contra todos os sistemas de pensamento, o que se chamou “os grande relatos”. Os sistemas são formas de manipulação do pensamento, são expressões de dominação intelectual. Não se aceita nenhum sistema que tenha a pretensão de ser “a verdade”. Com isso sofrem os dogmas e o código moral da Igreja católica e toda a sua pretensão de “magistério”. O Vaticano II não poderia nem sequer imaginar que tal situação fosse possível. Aí não houve nenhuma discussão de nenhum dogma, e todo o sistema de pensamento nunca foi questionado. Agora, a nova geração contesta todo o sistema doutrinal da Igreja Católica porque esse sistema não permite o livre exercício do pensamento. Não que a nova geração queira negar todo o conteúdo doutrinal, porém, não quer aceitar todo um sistema sem antes discuti-lo e não quer aceitá-lo com um bloco. Quer examinar cada elemento, aceitar ou não aceitar.

c) Simultaneamente, houve a explosão da revolução feminista. A descoberta da pílula que permite evitar a fecundação e, portanto, facilita a limitação da natalidade, despertou um entusiasmo universal entre as mulheres que tomaram conhecimento da novidade. Era um elemento básico na liberação das mulheres que deixavam de ser totalmente dependentes de maternidades repetidas. Era uma novidade para a Igreja também. Nada havia na Bíblia sobre essa tecnologia. Os episcopados dos países mais desenvolvidos socialmente, os teólogos consultados pelo papa manifestaram que não havia nada na moral cristã que pudesse condenar o uso da pílula anticoncepcional. Porém, o papa deixou-se impressionar pelo setor mais conservador, embora minoritário, e publicou a Encíclica Humanae Vitae, que foi como uma bomba. Muitos não podiam acreditar que o papa tivesse assinado tal encíclica. Foi uma revolta enorme entre as mulheres católicas. Estas não aplicaram a proibição papal e aprenderam a desobediência. Dessa época resulta a fuga das mulheres. Agora as mulheres são as que transmitem a religião. Quando as mulheres deixaram de ensinar a religião aos seus filhos, apareceram gerações que ignoravam tudo sobre o cristianismo. Muitos bispos ficaram abalados, mas nada podiam fazer, porque o Concílio não havia abordado o exercício do primado do papa. O papa decide sozinho, mesmo que seja contra todos. Era o caso: o papa havia decidido contra os bispos, os teólogos, o clero, os leigos que eram informados. Infelizmente, foi obra do papa Paulo VI, que, por tantos méritos na história do Concílio, aparecia como homem aberto. Por que justamente ele? De outro papa se teria entendido melhor, mesmo que o efeito produzido tivesse sido o mesmo. Para muitos, Humanae Vitae era como um desmentido do Vaticano II: nada havia mudado!

d) 1968 marca, ainda, o surgimento da sociedade de consumo. Até então, o consumo era orientado pelos hábitos. Havia um consumo moderado e limitado. Os ricos não praticavam a ostentação de sua riqueza. Não havia rendimentos escandalosos. O consumo dependia da regularidade da vida: refeições regulares e tradicionais, festas tradicionais com gastos tradicionais, dentro de um ritmo de vida no qual o trabalho ocupava o lugar central. A partir da década de 60, o trabalho deixou de ser o centro da vida. A partir de então, no centro está a busca de dinheiro para poder pagar as férias, os finais de semana, as festas que se multiplicam indefinidamente e o consumo festivo. O trabalho é o que permite o consumo. O trabalho agrícola desaparece nos países mais desenvolvidos, o trabalho industrial diminui e os serviços não oferecem nenhuma satisfação humana por serem aborrecidos. As próprias estruturas sociais estimulam o consumo, e os que não podem consumir sentem-se rejeitados pela sociedade. Desde então, as pessoas gastam o que não possuem e pagam por 12, 48, 70 meses as suas compras. Pode-se consumir sem poder pagar imediatamente. Paga-se após anos. Os jovens não têm limites, gastam mais do que podem.

e) Por fim, o capitalismo descontrolado. A supressão de todas as leis que controlam os movimentos de capitais estimula a correria em busca da riqueza. Uma nova moral qualifica as pessoas pelo dinheiro que acumulam e pela ostentação de sua riqueza. A partir de então, os donos do capital fazem o que querem e como querem, com o risco de provocar crises financeiras, das quais as vítimas são os pequenos. Até a queda do comunismo na URSS, o magistério lutava contra esse consumismo, e pouca atenção dava ao crescimento rápido de uma nova forma de capitalismo. Na América Latina, a Igreja reage timidamente à conquista econômica dos grandes centros capitalistas mundiais. Na prática, a Igreja vai se esquecer da Gaudium et Spes e aceitar a evolução do capitalismo descontrolado. A doutrina social da Igreja perdeu todo o significado profético porque, na prática, nada foi aplicado a casos concretos. Na prática, o magistério aceitou o novo capitalismo.

Nada disso foi provocado pelo Concílio. Não se pode atribuir ao Vaticano II tudo o que sucedeu como consequência da grande revolução cultural do Ocidente. Pois essa revolução teve imediatamente repercussões na juventude da Igreja. Todos sentiram que a instituição da Igreja estava profundamente questionada e desprestigiada. Esse desprestígio não procede do Vaticano II, mas da grande crise cultural. O efeito mais visível foi a crise sacerdotal. Cerca de 80.000 sacerdotes deixaram o ministério. Quase todos os seminaristas abandonaram os seminários. Isso foi atribuído ao Concílio por todos os seus adversários. Na realidade, nada havia no Vaticano II que pudesse explicar esse acontecimento. Tampouco a fuga de milhões de católicos leigos pode ser explicada pelo Vaticano II. Porém, tudo se explica pela revolução cultural de juventude. No entanto, os mesmos papas João Paulo II e Bento XVI aludiram várias vezes a esse argumento, embora não se atrevessem a expressá-lo explicitamente.

3. A reação da Igreja foi o que se podia temer

Os papas e muitos bispos aceitaram o argumento dos conservadores de que os problemas da Igreja provinham do Vaticano II. Vários teólogos que haviam sido defensores e promotores dos documentos conciliares mudaram e adotaram a tese dos conservadores, entre eles, o próprio Papa atual. Diziam que o Concílio “foi mal interpretado”. Por isso, o papa convocou um sínodo extraordinário em 1985 por ocasião dos 20 anos da conclusão do Concílio para lutar contra as falsas interpretações e dar uma interpretação correta. Na prática, a nova interpretação, a “correta”, consistia em suprimir tudo o que havia de novo nos documentos do Vaticano II. Um sinal bem simbólico foi a condenação da expressão “povo de Deus”. Terminou a época das experiências, dizia João Paulo II. Praticamente, o que se fez foi retomar o que havia sido feito depois da revolução francesa: fechar as portas e janelas impedindo a comunicação com o mundo exterior e reforçando a disciplina para evitar as dissidências. Porém, isso não impediu as fugas. O problema é que a Igreja já não tem mais uma base camponesa pobre. Na América Latina, os pobres buscam as igrejas evangélicas.

Desde então, na linguagem oficial, faz-se referência ao Concílio, mas sua mensagem continua ignorada. O Concílio permanece na memória e na fundamentação das minorias sensíveis à evolução do mundo, que buscam nele argumentos para forjar mudanças e respostas aos desafios do mundo atual. A juventude, inclusive os novos sacerdotes, não sabe o que foi o Concílio Vaticano II, que para eles não tem nenhum interesse. Estão mais interessados no catolicismo anterior ao Vaticano II, com sua segurança, sua plasticidade litúrgica e a justificativa de um autoritarismo clerical que os livra dos problemas.

A reação da Igreja foi a volta à disciplina anterior. O símbolo dessa criação foi o novo código de direito canônico, no qual se mantém toda a estrutura eclesiástica do código de 1917, talvez com uma linguagem de menos autoritária para mais florida. O novo código fechou as portas a todas as mudanças que poderiam se inspirar no Vaticano II. Tornou o Concílio Vaticano II historicamente inoperante.

No mundo, a prioridade dada à luta contra o comunismo – um comunismo já em plena decadência – fez com que a Igreja aceitasse silenciosamente – os silêncios da doutrina social da Igreja, dizia o padre Calvez – o capitalismo desenfreado que se instalou na década de 70. Na América Latina, o Vaticano apoiou as ditaduras militares e condenou todos os movimentos de transformação social em nome da luta contra o comunismo. Desde o governo de Reagan, a aliança com os Estados Unidos foi fiel até a guerra do Iraque, que, no final, abriu os olhos do papa por um breve momento. Dessa maneira, a Igreja se aliava aos poderosos do mundo e, através da sua pastoral real, se condenava a ignorar o mundo dos pobres. As nomeações episcopais foram bastante significativas.

Na América Latina, a reação da Igreja à revolução cultural que começou no mundo desenvolvido foi muito dolorosa. Destruiu algo novo que estava nascendo. Pois na América Latina, o Vaticano II representou uma mudança real. O Concílio Vaticano II foi o que converteu o episcopado e boa parte do clero e dos religiosos. Antes, houve sacerdotes, religiosos, leigos e também bispos que haviam feito uma opção pelos pobres. Em Roma, os bispos latino-americanos se encontraram e foram evangelizados pelos bispos da opção pelos pobres. O CELAM, com a aprovação de Paulo VI, convocou a assembleia de Medellín, que mudou os rumos da Igreja porque tirou conclusões práticas do Concílio. Decidiu a opção pelos pobres e o compromisso com uma transformação social radical, legitimou as comunidades eclesiais de base e a formação de leigos pela Bíblia e pela ação política. As CEBs significaram uma nova estrutura, na qual os leigos tinham a possibilidade de uma real iniciativa e um real poder, embora limitado. Nas várias regiões, Medellín não foi aceita ou não foi aplicada. Porém, houve lugares importantes nos quais Medellín mudou a face da Igreja e foi a aplicação do Vaticano II.

Todo esse movimento foi atacado sistematicamente em Roma com argumentos oferecidos pelos setores reacionários da América Latina. Desde 1972, a campanha contra Medellín foi dirigida por Alfonso López Trujillo. Apesar dessa campanha, na Conferência de Puebla, em 1979, Medellín ainda se salvou. Porém, no pontificado de João Paulo II, a pressão aumentou. As advertências romanas, as nomeações episcopais, as expressões de repressão contra os bispos mais comprometidos com Medellín tiveram efeito. A condenação da Teologia da Libertação em 1984 queria dar o golpe final. A carta do papa à CNBB no ano seguinte limitou o alcance da condenação, mas a Teologia da Libertação permanecia como algo suspeito.

4. O que resta do Vaticano II

Atualmente, as reformas alcançadas pelo Vaticano II nos parecem muito tímidas e inadequadas pela sua insuficiência. Era preciso ter avançado muito mais, pois o mundo mudou mais nos últimos 50 anos que nos dois mil anos anteriores.

Do Vaticano II destacamos o seguinte, que deve permanecer como uma base para as reformas futuras:

– O retorno à Bíblia como referência permanente da vida eclesial, acima de todas as elaborações doutrinais posteriores, acima dos dogmas e das teologias.

– A afirmação do povo de Deus como participante ativo na vida da Igreja, tanto no testemunho da fé como na organização da comunidade, com uma definição jurídica de direitos e com recursos nos casos de opressão por parte das autoridades.

– A afirmação da Igreja dos pobres.

– A afirmação da Igreja como serviço ao mundo e sem busca de poder.

– A afirmação de um ecumenismo de participação mais próxima entre as Igrejas cristãs.

– A afirmação do encontro entre todas as religiões ou pensamentos não religiosos.

– Uma reforma litúrgica que utilize símbolos e palavras compreensíveis aos homens e mulheres contemporâneos. As comissões formadas após o Vaticano II deixaram muitas palavras e símbolos totalmente sem significado para os cristãos de hoje e um obstáculo para a missão.

5. As condições da humanidade atual em situação de radical transformação

a) Como entender a fé?

Desde a modernidade, muitos cristãos perderam a fé ou pensaram que a haviam perdido, porque tinham uma ideia equivocada da fé. Atualmente, esse fenômeno se multiplica porque a formação intelectual se desenvolveu e muitos permaneceram com uma consciência religiosa infantil ou primitiva que rejeitam ou perdem quando chegam à adolescência.

Os povos primitivos de cultura oral e as crianças acreditam na presença do divino em objetos e fenômenos de vida cotidiana como se fossem realidades religiosas. Por isso, é fácil chegar a pensar que a fé é algo sensível como a experiência imediata. Quando se dão conta de que já não podem acreditar nas práticas religiosas dessa forma, pelo desenvolvimento do espírito crítico, pensam que perdem a fé, uma vez que a confundem com sua consciência religiosa infantil. É necessário que recebam uma revelação de uma vida religiosa que vai além dessa experiência sensível.

A fé é distinta da experiência imediata, do conhecimento científico ou do conhecimento filosófico. A razão da fé é Jesus Cristo, a vida de Jesus Cristo. E aderir a essa vida é adotá-la como norma de vida, pois tem um valor absoluto, porque essa vida é a verdade. É assim que devemos ser homem e mulher no mundo atual. Não é uma evidência que não permite dúvidas. Ela é uma percepção da verdade, que nunca suprime uma ponta de dúvida, porque sempre é um ato voluntário e porque não se vê essa verdade. O crente não se sente obrigado a acreditar. É um ato livre de entrega da sua vida, a escolha de um caminho. Não há evidência de que Jesus vive e está entre nós, mas o reconhecemos, porque experimentamos uma presença que é um chamado repetido apesar de todas as dúvidas.

Hoje em dia, o papa condena como relativismo os fenômenos próprios da pessoa humana, que já não pode entender a maneira tradicional de conhecer os objetos da religião. Estes não são parte da experiência de vida. A fé é o conhecimento da vida de Jesus de uma maneira totalmente especial, sem comparação com as certezas que se vai adquirindo na vida cotidiana. Essa condição do ser humano atual supõe uma profunda revisão da teologia da fé. Essa revisão da teologia já está sendo realizada, mas não é divulgada; o que permite que milhões de adolescentes percam a fé mais do que nunca, porque não se lhes explica o que é a fé.

b) A religião:

Nossos contemporâneos deixam os atos litúrgicos oficiais da Igreja porque os consideram tediosos. A missa habitual é aborrecida, exceto em circunstâncias especiais, nas quais aparecem milhares de pessoas e a liturgia é mais atraente. A repetição do mesmo aborrece. A repetição dos “domingos do ano” durante tantas semanas é algo tedioso. A linguagem litúrgica é mais ainda, porque se faz em estilo popular. Quando a liturgia era em latim, era melhor, porque não se entendia. Uma vez que se entende, percebe-se que o estilo é insuportável. Utiliza-se uma linguagem pomposa, formalista, linguagem de corte: “humildemente pedimos…” – ninguém fala assim. “Associamos nossa voz à voz dos anjos”: fórmula convencional que não responde a nada na vida real. Há centenas de fórmulas semelhantes. Os carismáticos salvam a situação, mas sua liturgia está longe de ser uma introdução ao mistério de Jesus.

c) A moral:

Nossos contemporâneos não aceitam códigos de moral impostos ou proibições de condutas que constam no código. Querem entender o valor dos preceitos ou das proibições. Ou seja, estão descobrindo a consciência moral que faz descobrir o valor dos atos. Não aceitam a voz de uma consciência que não é nada mais do que a voz do “superego”. Antes, a base da moral cristã era a obediência à autoridade. Era preciso fazê-lo ou não fazê-lo, porque a Igreja o mandava ou o proibia. Por isso, tantas vezes os leigos perguntavam: Isto se pode fazer? Se o sacerdote dizia que sim, o problema moral estava resolvido. Isso, porém, pertence ao passado.

d) A comunidade:

O cristianismo é comunitário. Porém, as formas tradicionais de comunidade tendem a enfraquecer-se. Mesmo a família perdeu muito de sua importância, porque seus membros quase não se encontram. A paróquia atual perdeu o sentido de comunidade. Estão aparecendo muitas formas novas de pequenas comunidades baseadas na livre escolha. Essas comunidades terão a capacidade de celebrar a Eucaristia, o que supõe uma pessoa apta para presidir a Eucaristia em cada grupo de umas 50 pessoas. Não há nenhuma dificuldade doutrinal, porque nos primeiros séculos a situação era essa e não houve problema. Isso é fundamental, porque uma comunidade que não se une na Eucaristia não é realmente comunidade cristã. Os sacerdotes dedicados em tempo integral estarão em torno do bispo de cada cidade importante para evangelizar todos os setores da sociedade urbana.

Claro está que não sabemos quando e como se chegará a isso. É pouco provável que um Concílio que reúna unicamente bispos possa descobrir as respostas aos desafios do tempo atual. As respostas não virão da hierarquia, nem do clero, e sim de leigos que vivem o Evangelho em meio ao mundo que entendem. Por isso, temos que estimular a formação de grupos de leigos comprometidos ao mesmo tempo com o Evangelho e com a sociedade humana na qual trabalham.

O Vaticano II ficará na história como uma tentativa de reformar a Igreja ao final de uma época histórica de quinze séculos. Seu único defeito foi que veio demasiadamente tarde. Três anos após o seu encerramento, começava a maior revolução cultural do Ocidente. Os seus difamadores acusaram o Concílio de todos os problemas causados por essa revolução cultural e, com isso, o anularam. Porém, o Vaticano II permanece como um sinal profético. Em meio a uma Igreja prisioneira de um passado que não consegue superar, é uma voz evangélica. Não logrou reformar a Igreja como queria, mas foi um apelo a não perder de vista o futuro. Ainda existem movimentos poderosos que pregam a volta ao passado. Temos que protestar. Quando há pessoas que nada entendem da evolução do mundo contemporâneo e se refugiam no passado sem abrir-se ao futuro, temos que denunciar. Para nós, o Vaticano II é Medellín. Também quiseram matar Medellín. Medellín permanece como um farol que nos mostra o caminho.

Uma última reflexão: o futuro da Igreja católica está nascendo na Ásia e na África. Será bem diferente. Aos jovens é preciso dizer-lhes: aprendam chinês!

Pe. José Comblin

* Nasceu em Bruxelas, Bélgica. Doutorou-se em Teologia pela Universidade de Lovaina. Trabalhou na América Latina de 1958 até início de 2011, quando faleceu, no estado da Paraíba. Teólogo de larga experiência, lecionou no Equador, Chile e Brasil. Reside há vários anos no interior do estado da Paraíba. É autor de vasta obra bibliográfica, grande parte publicada pela Paulus.