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Publicado em setembro-outubro de 2015

A ressurreição de Jesus segundo a comunidade joanina: uma leitura de João 20,11-18

Por Maria Antônia Marques

Maria Madalena, diante do sepulcro vazio, representa a comunidade. A ausência do corpo de Jesus provoca angústia, dor e tristeza. É o sofrimento que distorce e dificulta a visão e a compreensão. Há vários motivos que abatem e dificultam a crença da comunidade no Senhor ressuscitado. Eles precisam reavivar sua fé e reacender a esperança para resistir aos sofrimentos e perseguições e crer na possibilidade da vida nova.

 Jesus ainda não tinha chegado à aldeia; estava no lugar onde Marta o havia encontrado. Quando os judeus que estavam na casa com Maria, procurando consolá-la, a viram levantar-se depressa e sair, foram atrás dela, pensando que iria ao túmulo para aí chorar. Ao chegar ao lugar onde estava Jesus, ela o viu. Maria caiu a seus pés e disse: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,30-32).

O encontro entre Maria e Jesus é pleno de sentimentos. Ela se prostra, não tem receio de ser ela mesma, de expressar sua dor e tristeza pela perda do seu irmão Lázaro. Uma cena comovente: de um lado estão os judeus que se comovem e choram a morte de seu amigo; de outro, Jesus, que se compadece e se emociona (Jo 11,33). Morte, dor, angústia, sofrimento e muita tristeza!

O episódio, que narra a doença, a morte e a ressurreição de Lázaro, inicia-se mostrando o sofrimento: em João 11,1-6 a palavra “doença” aparece cinco vezes. A repetição desse termo reflete a situação de sofrimento das comunidades joaninas, provocada pela perseguição; da comunidade representada por Lázaro, cujo nome significa “a quem Deus ajuda”, Marta, “dona de casa” ou “senhora”, e Maria, “a amada”. Eles estão localizados em Betânia, a “casa do pobre” ou “da aflição”. Esse grupo abraçou a fé cristã e, por isso, foi perseguido pelo império romano e pelas autoridades judaicas. Os judeus fariseus chegaram a ponto de expulsar os judeus cristãos da sinagoga, o centro comunitário dos judeus da época: “Eu tenho falado todas essas coisas, para que vocês não fiquem escandalizados. Vão excluir vocês das sinagogas. E vai chegar a hora quando alguém, matando vocês, julgará estar prestando culto a Deus” (Jo 16,1-2).

 No episódio de Lázaro, o sinal de morte transparece na palavra de Tomé ao ouvir de Jesus a decisão de ir para a Judeia: “Vamos nós também para morrermos com ele” (Jo 11,16). Os membros da comunidade joanina estão sendo torturados e mortos na perseguição. A comunidade descreve que a morte de Lázaro é definitiva: ele já está morto há quatro dias. O fim de todas as esperanças da vida! Ainda mais: a crença na ressurreição do último dia, conforme à tradição farisaica, torna difícil para a comunidade crer na vida nova: “Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia” (Jo 11,24). Não há a “ressurreição” na vida da comunidade?

A comunidade precisa reavivar a fé e reacender a esperança para resistir aos sofrimentos e às perseguições! No episódio de Lázaro, é possível afirmar que uma profunda relação de amizade e amor, capaz de gerar vida nova entre os membros, ajuda a comunidade a superar o abandono e o sofrimento. Em tal contexto, esse episódio relata uma relação de intimidade e afeto entre Jesus e suas amigas e amigos.

“Jesus chorou” (Jo 11,35). Jesus é tomado por um sentimento intenso de perda e tristeza. Diante do choro, os judeus concluem: “Vejam como ele o amava!” (Jo 11,36). Essa é a principal característica das comunidades joaninas do discípulo amado: o amor mútuo entre Jesus e os membros da comunidade. “Se vocês tiverem amor uns aos outros, todos vão reconhecer que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35).

Por trás da reação de Jesus, tão humana e afetiva, podemos ler as atitudes cotidianas das comunidades joaninas: a convivência e os laços de amor que unem os membros entre si na dor e na alegria. Sinal da presença de Jesus ressuscitado na comunidade. Essa força transparece na cena em que Lázaro passa da morte à vida: “Jesus gritou em alta voz: ‘Lázaro, venha para fora!’” (Jo 11,43). Lázaro sai com os pés e as mãos enfaixados e com o rosto recoberto com um sudário. Jesus diz à comunidade: “Soltem-no e deixem que ele ande” (Jo 11,44).

É a comunidade que ajuda a ressuscitar Lázaro, desata-lhe as mãos e os pés. A comunidade colabora para devolver a vida a seus membros. O grito de Jesus e da comunidade expressa o clamor pela vida! É a convivência, sedimentada pelo laço de amor, que faz a comunidade defender a vida e ressuscitar. A vida nova depende da ação solidária e amorosa da comunidade. À medida que as pessoas vão sendo libertas de suas amarras, elas se abrem para uma nova vida.

A ressurreição de Lázaro encerra o Livro dos Sinais (Jo 2,1-11,54). É o maior sinal realizado por Jesus: a vida que supera a morte. Ao mesmo tempo, é anúncio e preparação do grande sinal: a própria morte e ressurreição de Jesus (Jo 18-20). Na perspectiva cristã, Jesus é a ressurreição e a vida (Jo 11,25-26). Quem crê nele viverá na prática da fraternidade, da justiça e do amor como ressuscitado.

Como o episódio de Lázaro, o relato da ressurreição de Jesus é, inicialmente, marcado por angústia, dor e sofrimento:

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi bem cedo ao túmulo de Jesus, quando ainda estava escuro. E logo viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então saiu correndo e foi encontrar com Simão Pedro e o outro discípulo, aquele a quem Jesus amava. E lhes disse: “Tiraram do túmulo o Senhor, e não sabemos onde o colocaram”. Maria continuava ali, chorando junto ao túmulo (Jo 20,1-2.11a).

Maria, representando a comunidade que busca o corpo de Jesus para ungi-lo, vai ao sepulcro em que ele fora colocado e encontra a pedra removida e o local vazio. A ausência do corpo de Jesus provoca angústia, dor e tristeza. É o sofrimento que distorce e dificulta a visão e a compreensão da realidade. A comunidade, então, compreende que o corpo de Jesus foi roubado. Não compreende que a ausência do corpo indica o sinal da vida nova: a ressurreição. Há vários motivos que abatem e dificultam a crença da comunidade no Senhor ressuscitado:

  • Os cristãos sofrem com a perseguição: “Se perseguiram a mim, vão perseguir a vocês também” (Jo 15,20). Há falta de esperança em meio ao sofrimento, à miséria e à desolação. Alguns membros da comunidade ficam prisioneiros do círculo do sofrimento e da morte.
  • Segundo a cultura greco-romana, o ser humano é dividido em duas partes: a alma e o corpo. Enquanto a alma é imortal, o corpo é mortal. Não há nenhuma possibilidade da ressurreição do corpo. As comunidades cristãs sofrem com a influência de diferentes ideias e crenças sobre a morte. Alguns membros da comunidade cristã de Corinto, por exemplo, rejeitam a ressurreição de Jesus e a dos mortos: “De que maneira os mortos ressuscitarão? Com que corpo voltarão” (1Cor 15,35).
  • A tradição farisaica prega que a pessoa justa por cumprir a Lei é ressuscitada para a vida eterna e o injusto vai para o castigo eterno. Por isso, Paulo testemunha: “Nós anunciamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus” (1Cor 1,23). É escândalo porque Jesus rompe as barreiras da lei do puro e do impuro e morre na cruz, considerada “maldição de Deus” e “ato de impureza” (Dt 21,22-23).

Tudo isso põe em dúvida a ressurreição de Jesus. É necessário levar a comunidade a depositar sua fé no Senhor ressuscitado, o Senhor da vida. Com o relato da aparição a Maria Madalena, o Evangelho de João, então, prepara o leitor para fortalecer a esperança e, nela, entrar na presença do Ressuscitado.

O Evangelho de João 20,11-18 relata o encontro entre Maria Madalena e Jesus: ela começa o processo de superar a prisão do círculo do sofrimento e morte e encontra Jesus Cristo ressuscitado. O relato do encontro se inspira no Cântico dos Cânticos, um poema do amor e, ao mesmo tempo, um grito de libertação, no qual a amada procura pelo amado. Uma busca intensa que termina com o encontro: “Encontrei o amado da minha vida, agarrei-o e não o soltarei…” (Ct 3,4).

Jesus e Maria Madalena no jardim (Jo 20,11-18)

“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi bem cedo ao túmulo de Jesus, quando ainda estava escuro. E logo viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (Jo 20,1). A comunidade continua no escuro, ainda não vivenciou a experiência da ressurreição. Todos os evangelhos citam a presença de Maria Madalena no momento da morte como testemunha e anunciadora da ressurreição. Quem é essa mulher?

Maria Madalena foi uma liderança importante nas origens do movimento de Jesus. Eis algumas observações sobre Maria Madalena nos evangelhos:

– Seguiu Jesus desde a Galileia até o momento da morte: “Também algumas mulheres estavam aí, olhando de longe, entre elas Maria Madalena, Maria mãe de Tiago Menor e de Joset, e Salomé. Elas seguiam e serviam Jesus, quando ele estava na Galileia. E muitas outras que tinham subido com ele para Jerusalém” (Mc 15,40-41; Mt 27,55-56; Lc 23,49).

– Ela, juntamente com outras mulheres, mesmo de longe, observou o sepultamento de Jesus (Mc 15,45-47). É fiel até o fim!

– Ao lado de outras mulheres, ela vai ao túmulo no primeiro dia da semana (Mc 16,1-2; Mt 28,1; Lc 24,1.10).

– Está entre as primeiras a receber e comunicar a notícia de que Jesus ressuscitou (Mt 28,5-8).

– Ela e outras mulheres são as primeiras que veem Jesus depois da ressurreição: “Eis que Jesus foi ao encontro delas e disse: ‘Alegrem-se!’ Elas então se aproximaram, abraçaram-lhe os pés e se ajoelharam diante dele. Então Jesus lhes disse: ‘Não tenham medo! Vão avisar meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Aí eles me verão’” (Mt 28,9-10).

Além dos evangelhos canônicos, há outros textos antigos que citam a presença de Maria Madalena, existe até mesmo um evangelho cuja autoria lhe é atribuída. Nos primeiros séculos, Maria Madalena foi referência muito importante e significativa para as comunidades cristãs. No Evangelho de João, ela representa a comunidade, chamada a vivenciar e anunciar a ressurreição (Jo 20,18). Vejamos, passo a passo, como esse autor descreve o encontro no jardim entre Jesus e Maria Madalena.

Mesmo encontrando o túmulo vazio, a sua busca continua: “Maria continuava ali, chorando junto ao túmulo” (Jo 20,11). Ela é imagem da comunidade inconsolada com a morte de seus membros e com dificuldade de perceber os sinais de ressurreição. Essa situação é descrita numa linguagem simbólica, inspirada no livro do Cântico dos Cânticos. Nesse livro, a jovem sai ao encontro do amado: “Em meu leito, durante as noites, saí à procura do amado da minha vida. Eu o procurei, mas não o encontrei! Preciso levantar-me, dar uma volta pela cidade, pelas ruas e praças à procura do amado da minha vida. Eu o procurei, mas não o encontrei!” (Ct 3,1-2). Maria vai ao sepulcro chorar a morte do Senhor. Ela está presa à ideia da morte como o fim de tudo. De longe, no escuro, Maria Madalena percebe que o túmulo está vazio. Desesperada, vai ao encontro dos discípulos, que constatam o fato e retornam para casa. Maria permanece chorando junto ao sepulcro.

A mulher, angustiada e ainda chorando, olha para o interior do túmulo e vê dois anjos. No livro do Cântico dos Cânticos, a jovem pergunta aos guardas: “Acaso vocês viram o amado de minha vida?” (Ct 3,3). No Evangelho de João, são os anjos que perguntam a Maria a razão de sua dor. A mulher responde: “Tiraram o meu Senhor daqui, e não sei onde o colocaram” (Jo 20,13), expressão da dificuldade da comunidade em tomar consciência da ressurreição de Jesus. A dor, o desespero e o medo não deixam a comunidade perceber que a vida é mais forte que a morte.

O seu objetivo é encontrar o corpo do Senhor. Jesus se aproxima e lhe pergunta: “‘Mulher, por que você está chorando? A quem está procurando?’ Maria pensou que fosse o jardineiro e disse: ‘Se foi você que o levou, diga-me onde o colocou, eu vou buscá-lo’” (Jo 20,15). Enquanto Maria continuar olhando para o túmulo, não poderá encontrar-se com Jesus, pois ele não está no sepulcro. A mulher continua sem esperança, ainda não conseguiu ver os sinais de vida, mas, apesar disso, persiste na busca. O termo mulher foi usado para a Mãe, em Caná e na cruz, e para a Samaritana (Jo 2,4; 19,26; 4,21). Maria Madalena representa a comunidade como “esposa” da nova aliança, que busca o esposo no meio da desolação. Ela chama Jesus de meu Senhor, tratamento dado ao marido conforme o costume da época. Porém, ela continua perplexa, sem nada entender…

Maria Madalena reconhece Jesus só quando ele a chama pelo nome: “‘Maria’. Ela voltou-se e exclamou em hebraico: ‘Rabuni!’, que quer dizer ‘Mestre’” (Jo 20,16). Agora, ela já não olha para o sepulcro. Seu olhar é dirigido para o Ressuscitado. É o início da nova criação. Maria faz a experiência de ser amada e acolhida como discípula: “Não tenha medo, porque eu o protegi e o chamei pelo nome. Você é meu” (Is 43,1). Ela é a ovelha que reconhece a voz do pastor (Jo 10,2-3). Uma situação semelhante é descrita no Cântico dos Cânticos: “Eu dormia, mas meu coração estava desperto a ouvir a voz do meu amado” (Ct 5,2).

É a experiência humana de intimidade, de convivência no amor, que faz a pessoa viver. Quando Maria encontra o amado, é um momento de grande alegria e emoção. Ela quer abraçar e prender o Senhor. No entanto, Jesus lhe diz: “Não me retenhas, pois ainda não subi para junto do Pai. Mas vá encontrar os meus irmãos e diga a eles: ‘Eu estou subindo para junto do meu Pai e Pai de vocês, do meu Deus e Deus de vocês’” (Jo 20,17).

Não, a missão ainda não acabou. É preciso continuar as obras de Jesus. O Reino de Deus é para todos, por isso é necessário que Maria vá anunciar aos “meus irmãos”; e isso, no contexto da comunidade de João, não é apenas para os discípulos e discípulas: o anúncio é universal. Todos são chamados ao amor, a experimentar o Ressuscitado vivo na comunidade (Jo 20,19-31).

É preciso ir além da narrativa e ver o simbolismo dessa cena. Jesus é o esposo da nova aliança, da nova criação (Jo 2,1-11), e Maria Madalena é a comunidade como a nova esposa. Como no livro do Gênesis, eles estão no jardim: a morte e a glorificação de Jesus dá origem a nova humanidade. É a nova criação. Maria Madalena procura, encontra, vê, ouve, acredita e anuncia. O amor vence o temor, e a vida desabrocha e floresce até os nossos dias! A vida triunfou! Ele continua vivo e presente entre nós!

Textos exclusivos de João na narrativa da paixão, morte e ressurreição de Jesus

Todos os evangelhos narram a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Ao ler esses relatos, não é difícil perceber uma longa história de redação, condicionada pelas diferentes realidades das várias comunidades cristãs. A última palavra de Jesus na cruz, por exemplo, é boa amostra de recordações, reflexões e interpretações de cada comunidade:

– “Às três da tarde, Jesus deu um grande grito: ‘Eloi, Eloi, lamá sabactâni’, que traduzido significa: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ Então Jesus, dando um grande grito, expirou” (Mc 15,34.37).

– “Perto das três da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’ Quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ E de novo Jesus deu um forte grito e entregou o espírito” (Mt 27,46.50).

– “Jesus deu um forte grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’” (Lc 23,46).

– “‘Tudo está consumado’. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30). Diferentemente dos sinóticos, em João, Jesus não morre: é Deus. Ele se entrega!

É evidente que a comunidade joanina interpreta a morte de Jesus como a consumação da obra designada pelo Pai. Nas bodas de Caná (Jo 2,1-11), o primeiro sinal, Jesus Cristo afirma: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Após a realização dos sete sinais, primeira parte do evangelho (Jo 2,1-11,54), Jesus Cristo, em sua despedida da comunidade (13,1-17,26), é descrito da seguinte forma: “Jesus sabia que tinha chegado a sua hora, a hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

A morte de Jesus é compreendida como a vitória do amor, da verdade e da vida sobre o mundo da morte: “Eu venci o mundo” (16,33). E o último gesto de Jesus é “entregar o espírito”, o espírito do Pai, que acompanhou e orientou toda sua obra. Após a ressurreição, o mesmo Espírito voltará à comunidade para guiá-la no caminho da verdade e da vida: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,22).

 No relato da paixão, da morte e da ressurreição, a comunidade joanina acrescenta vários textos exclusivos em vista de sua realidade, de seus problemas e conflitos, sobretudo com o mundo (o império romano e os judeus fariseus). Era necessário para a comunidade, perseguida pelo mundo, elaborar mensagens e argumentos para fortalecer seus membros. Eis alguns desses textos exclusivos de João:

  • Jesus diante de Pilatos: “Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos teriam lutado para eu não ser entregue aos judeus. Mas agora meu reino não é daqui’” (Jo 18,36). O reino de Jesus não é da ordem – poder e dominação – do império romano. Sim, é Reino do Céu, ou seja, reino do “meu Pai”, caracterizado pelo amor: “Deus é Amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4,16). Na fidelidade e na firmeza na comunhão do amor de Jesus, o reinado da verdade de Deus se realiza: “Se vocês permanecem na minha palavra, são de fato meus discípulos; e conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês” (Jo 8,31-32); “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6); “Quem é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18,37).
  • O rei Jesus: “Pilatos disse aos judeus: ‘Aqui está o rei de vocês’. Eles gritavam: ‘Fora! Fora! Crucifique-o!’ Pilatos lhes disse: ‘Mas eu vou crucificar o rei de vocês?’ Os chefes dos sacerdotes responderam: ‘Nós não temos outro rei, senão César’. Então Pilatos lhes entregou Jesus para ser crucificado” (Jo 19,14-16a). Depois de ameaçar Pilatos para condenar Jesus (Jo 19,12-13), a autoridade judaica aclama César seu único rei, para manter seu privilégio junto ao poder do império romano. Com a descrição da leviandade dos judeus, a comunidade joanina denuncia a falsidade e a perversidade dos judeus fariseus, a autoridade religiosa do seu tempo. Para a comunidade cristã, Jesus é o único rei com a força do amor, da justiça e da fidelidade.
  • Jesus e sua mãe: “Junto à cruz de Jesus estava sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o seu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí sua mãe!’ E desde essa hora o discípulo a recebeu em casa” (Jo 19,25-27). Enquanto os três evangelhos sinóticos registram a permanência das mulheres à distância da cruz, o Evangelho de João apresenta, junto à cruz, as mulheres e o discípulo amado. Nas falas de Jesus, Maria, sua mãe, recebe o tratamento de “mulher”, a discípula fiel ao amor de Jesus (Jo 2,4; 19,26), a qual, com o discípulo amado, funda nova comunidade de amor. E então nasce ao pé da cruz a Igreja com o Espírito Santo, nova humanidade e novo Israel, para continuar a missão do servo crucificado e morto por causa da prática da justiça, da solidariedade e do amor (Jo 19,30; 20,22).
  • O golpe de lança: “Quando se aproximaram de Jesus, viram que já estava morto; por isso, não lhe quebraram as pernas. Mas um dos soldados lhe perfurou o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. Essas coisas aconteceram para se cumprir a Escritura: ‘Nenhum osso dele será quebrado’. E ainda outra passagem diz: ‘Olharam para aquele a quem traspassaram’” (Jo 19,33-34.36-37). Jesus morto na cruz é o verdadeiro messias. Nele, as palavras da Escritura são confirmadas: a primeira citação, que vem de Ex 12,46, testemunha Jesus como o cordeiro da nova Páscoa, a festa da libertação; a segunda, que vem de Zc 12,10, serve para comprovar a inocência de Jesus. Os homens, ao contemplar o “traspassado”, arrependem-se e entram em luto: “Quanto àqueles que traspassaram, chorarão por ele como se chora pelo filho único”. Confirma-se que a morte de Jesus não é o fim. Do sangue (a sede da vida, Gn 9,4) e da água (símbolo do Espírito, cf. Is 44,3) de Jesus Cristo brota a vida para todos e todas.
  • Crer sem ver: Tomé, ausente na ocasião da aparição de Jesus, ao reencontrar os demais discípulos (Jo 20,24-25), poderia ter acreditado no testemunho deles, afirmando sua fé sem ver e tocar (cf. Jo 20,8). Oito dias depois, Jesus volta ao meio deles, agora com a presença de Tomé. Vendo e ouvindo Jesus, sem tocá-lo, faz sua confissão de fé. Ao vacilar entre o ver e o crer, Tomé motivou o pronunciamento de Jesus sobre a bem-aventurança dos que creem sem ver o Ressuscitado: “Felizes os que não viram e acreditaram” (Jo 20,29). As narrativas de aparição são um fator de convencimento da comunidade sobre a presença de Jesus vivo em seu meio.

Todos esses textos exclusivos de João têm como pano de fundo a situação da comunidade joanina, que sofre com as perseguições e os conflitos internos. É preciso alimentar a fé na presença de Jesus crucificado e ressuscitado no meio da comunidade para orientar e fortalecer a missão e o testemunho cristão no mundo do império romano.

Hoje, somos chamados à convivência do amor do Crucificado (At 2,42-47) e à bem-aventurança dos que creem sem ver o Ressuscitado (Jo 20,19-20; cf. 1Pd 1,3-9). A fé em Jesus de Nazaré ressuscitado, que continua vivo entre nós, leva a reconhecer sua presença nos sinais do amor manifestado nas diversas comunidades e culturas dos nossos tempos. Assumir essa fé no Deus da vida nos move à solidariedade global pela paz e pela vida, superando o império da fome, da guerra e da morte.

BIBLIOGRAFIA (referente aos três artigos sobre o Evangelho de João)

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Maria Antônia Marques

Assessora do Centro Bíblico Verbo e professora na Faculdade Dehoniana, em Taubaté; na Faculdade Católica de São José dos Campos e no Itesp, em São Paulo. Juntamente com a equipe do Centro Bíblico Verbo, tem publicado todos os anos pela Paulus um subsídio para reflexão e círculos bíblicos para o mês da Bíblia. Para o ano de 2015 o subsídio é Permanecei no meu amor para dar muitos frutos – entendendo o Evangelho de João. E-mail: ma.antoniacbv@yahoo.com.br