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Publicado em Novembro-Dezembro de 2019 - ano 60 - número 330 - pág. 27-32

As estrelas do cardeal Arns

Por Fernando Altemeyer Junior

O artigo propõe um perfil de Dom Paulo Evaristo Arns, falecido em 2016 e que deixou um importante legado de defesa e cuidado pela vida na sociedade brasileira e na Igreja. Viveu momentos de grandes desafios em sua missão e sempre tinha à frente o horizonte da esperança.

Introdução

A vida de dom Paulo sempre se guiou por sua fidelidade a Cristo com base em profunda espiritualidade franciscana. Seu amor aos pobres o fez homem sereno e voz segura durante os 21 anos de trevas que o Brasil viveu durante a ditadura cívico-empresarial-militar de 1964 a 1985. Dom Paulo nos ofereceu um mapa seguro para viver e buscar o melhor para o Brasil na construção da cidadania e da paz.

O mapa de seu caminho terrestre era guiado pelos sinais celestes, desde o dia de seu nascimento. Aquele que seria conhecido como cardeal dos pobres, dos direitos humanos e da liberdade, nasceu em 14 de setembro de 1921, no dia da festa litúrgica da Santa Cruz. Esse sinal da cruz iria marcar não só a hora de seu vir ao mundo, como também suas decisões pessoais, imprimindo nelas o selo da esperança e da utopia.

Quem é iluminado brilha com luz própria. Aquele que foi arcebispo da cidade de São Paulo teve sua biografia marcada pelo sinal da constelação do Cruzeiro do Sul. Os que estudaram um pouco de astronomia sabem que as múltiplas constelações que iluminam o hemisfério sul são precioso mapa de viagem nesse hemisfério, onde figura cintilante o Cruzeiro do Sul. Dom Paulo sempre contemplava o céu para poder conduzir seu povo amado na Terra de Santa Cruz. Pisava firme no chão que tanto amou, sabendo que tinha morada na eternidade, que seu sol era sempre o Cristo ressuscitado e que suas palavras como pastor da Igreja deviam ser como o resplendor da lua a refletir os raios da mensagem de Jesus. Dom Paulo sempre soube valorizar uma comunicação libertadora, grávida do diálogo e da escuta do outro e do diferente. De seus próprios lábios ouvimos, em 2 de junho de 1984, uma frase sintética: “O evangelho é essencialmente comunicação” (ARNS, 2006, p. 91).

Assumir o Cruzeiro do Sul será como um sinal celeste ou bússola de sua vida como eminente comunicador do evangelho, confirmando que as estrelas não só configuram a identidade nacional dos brasileiros (com sua presença no coração de nossa bandeira nacional), como também abrem nosso olhar, de forma telescópica, para mirar o cosmos como bela criação de Deus. Aquelas cinco estrelas nos fazem sonhar e acreditar que caminhamos de esperança em esperança. Estiveram sempre inscritas na vida de nosso amado dom Paulo. Estão em nosso cotidiano de Igreja comprometida com a causa dos pobres. As cinco estrelas da constelação marcam, metaforicamente, cinco momentos da vida do apóstolo e comunicador Paulo Arns.

A primeira e mais imponente das estrelas é Acrux, ou Alfa Crucis, ou Estrela de Magalhães, situada na ponta inferior da haste vertical da cruz, a indicar o polo sul do planeta. A segunda, no braço esquerdo da cruz (na perspectiva do observador), é Beta Crucis, carinhosamente chamada no Brasil de Mimosa. A terceira, na ponta superior da cruz, é Gama Crucis, cujo tom avermelhado lhe rendeu o nome de Rubídea. A quarta, no braço direito da cruz, é Delta Crucis, chamada de Pálida. Enfim, à direita e fora da cruz, entre a estrela Pálida e a Estrela de Magalhães, temos Épsilon Crucis, chamada em nosso país de Intrometida.

Se tomarmos esse signo dos céus para estudar a vida comunicativa de nosso cardeal, miramos cinco estrelas como momentos vitais luminosos em sua ação evangelizadora.

1. Alfa Crucis ou Estrela de Magalhães

A comunicação comprometida com a vida e os valores humanos vinha do berço dos Arns. Dom Paulo era filho de colonos e aprendeu desde cedo, na família de 13 irmãos, que amor, solidariedade e paz eram gestos concretos. Sua mãe e seu pai comunicavam esse amor na cartilha da vida. Eram os comunicadores da fé e da verdade de Deus, em poucas palavras e muitas ações de justiça e comunhão, em tempos de fartura e, sobretudo, em tempos de dor e pobreza. Filho feliz e orgulhoso de colonos imigrantes alemães, foi posto no mundo no dia 14 de setembro de 1921 em Forquilhinha-SC, onde aprendeu desde cedo a amar as raízes de sua família pobre e lutadora. O menino sabia bem que quem negasse suas origens e se aburguesasse perderia a identidade e não saberia o que comunicar na vida adulta. Paulo venceu o risco do aburguesamento ao afirmar-se o quinto filho de 13 do casal Gabriel Arns e Helena Steiner, descendentes de imigrantes da região do Mosela, na Alemanha. Assumir a raiz, assumir o campo, assumir ser filho de colonos era a fonte originária de seu viver. Assim, escreveu em seu livro de memórias, como um testemunho a ser aprendido por seminaristas e padres jovens, dizendo de forma convicta: “Hoje, quando os doutorados e outros títulos incomodam em vez de empolgar, lembro-me de que tenho um, guardado como numa espécie de juramento a meu pai: sou padre, mas tirado dentre o povo. Um filho dos colonos Helena e Gabriel Arns” (ARNS, 2001, p. 35).

Aqui está o sul, ou seja, a base da cruz, a Estrela de Magalhães que orienta a navegação e orientava sua vida. Tratava-se da estrela do batismo. A estrela da vida amada por Deus com uma vocação única no mundo. Era a estrela fundadora da vida do comunicador que professava a verdade e queria ser colaborador de sua difusão sem mentir, sem manipular e, sobretudo, sem rasgar o compromisso com a própria identidade profunda. Valorizar as raízes e a consciência de classe, para não ser comprado por 30 moedas pelos poderosos e suas falácias. Grande parte da mídia brasileira poderia reaprender a fazer jornalismo investigativo e sério se valorizasse suas origens, a vida do povo e as fontes de conhecimento que estão nas ruas, na labuta do trabalho e nos compromissos históricos de emancipação de um povo. Dom Paulo, desde cedo, assumiu esta raiz semântica da comunicação que é a verdade pessoal e interior. Assim diz George Orwell: “Em tempos de engano universal, falar a verdade torna-se um ato revolucionário”. Esta é a Alfa Crux da vida e da comunicação: coerência com as próprias raízes e com a solidariedade humana. Aqui vemos como dom Paulo antecipou a mensagem reformadora do amado papa Francisco, sendo sempre um bispo que sabia e queria trabalhar de forma colegiada, sinodal, apoiando a explosão de ministérios leigos e uma Igreja plenamente povo de Deus.

2. Beta Crucis ou Mimosa

A segunda estrela que marcou a vida de Paulo Evaristo foi sua consagração como frade franciscano e padre católico. Nessa fase de sua vida, o paradoxo esteve simbolicamente presente. Viveria em Paris e depois nos morros de Petrópolis, no Rio de Janeiro. É divertido constatar que a estrela Mimosa, na bandeira do Brasil, representa o estado do Rio de Janeiro. Alguém diria que estava escrito nas estrelas. E essa estrela seria uma marca indelével da paz e da fraternidade, assumidas pela veste humilde dos pobres. O jovem Paulo se tornou Evaristo (nome religioso), recebendo o hábito marrom, o burel franciscano, e sendo feito presbítero para ser Igreja em saída pelo mundo. Frei Paulo Evaristo foi estudar, aprender, ensinar, evangelizar e ouvir o clamor dos pobres e da Mãe Terra como irmão de esperanças.

Foi ordenado sacerdote em 30 de novembro de 1945, na cidade de Petrópolis-RJ, pelo então bispo de Niterói-RJ, dom José Pereira Alves. Realizou um fecundo período de estudos acadêmicos na Sorbonne, em Paris, defendendo, em 3 de maio de 1952, sua tese sobre a técnica do livro segundo São Jerônimo, a qual recebeu nota máxima. Marcado pelo pensamento da Nouvelle Théologie, particularmente dos teólogos jesuítas e dominicanos como Daniélou e Congar, deleitava-se, como que comendo um “pão doce catarinense”, com as conferências de François Mauriac, Paul Claudel, Jean-Paul Sartre e, de modo especial, com os textos das aulas de Emmanuel Mounier e Henri de Lubac. Voltou ao Brasil para exercer a função de professor em Bauru e Agudos-SP e depois em Petrópolis-RJ, onde produziu estudos da patrística, artigos acadêmicos, realizou traduções de textos latinos e gregos e filiou-se ao sindicato dos jornalistas, vínculo que manteve em toda a sua vida até os últimos dias.

Frei Paulo sempre foi pregador excelente e atento a uma teologia pastoral. Sabia que a salvação se faz na caridade. Jamais se fechou às demandas da cidade e aos clamores dos sofredores de todas as etnias e grupos sociais, e mesmo daqueles sem religião.

3. Gama Crucis ou Rubídea

A terceira estrela é marcada pela cor avermelhada. É a ponta superior da cruz. É o polo norte da bússola pessoal. Representa a missão maior de dom Paulo, sua vocação divina marcada na fragilidade humana: ser bispo e apóstolo de Cristo no colégio episcopal para servir e amar o povo de Deus. Paulo Evaristo, frade franciscano, foi nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo. Aquele que era um professor e frade reconhecido internacionalmente como um humanista multifacetado, por ser comunicador, literato, teólogo e patrólogo eminente, era então, com 44 anos de idade, chamado a ser um profeta da metrópole, um defensor da pessoa humana e um irmão universal franciscano com as vestes de bispo titular de Respecta e auxiliar da cidade de São Paulo. Foi consagrado bispo, em 3 de julho de 1966, na pequena Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Forquilhinha-SC, pelas mãos de dom Agnelo Rossi, arcebispo de São Paulo, e de dois consagrantes, dom Anselmo Pietrulla, ofm, bispo de Tubarão-SC, e dom Honorato Piazera, scj, bispo coadjutor de Lajes-SC. Com a transferência do então cardeal dom Agnelo Rossi, enviado a Roma pelo papa Paulo VI para cuidar da Congregação para a Evangelização dos Povos, dom Paulo iria assumir, em 1º de novembro de 1970, o ministério e encargo de quinto arcebispo metropolitano de São Paulo.

O bispo Paulo começou atuando na zona norte da cidade e no campo das comunicações sociais por ordem do arcebispo. Destacava-se pela forma envolvente e transformadora com que se relacionava, por suas atitudes originalíssimas com relação aos pobres, aos marginalizados, aos doentes, aos necessitados, aos inimigos, às mulheres, às crianças, à lei. Ia ao presídio, ia às ruas, estava feliz no meio dos pobres, valorizava as mulheres, trabalhava em equipe, convocava teólogos de peso, como frei Gilberto da Silva Gorgulho e Ana Flora Anderson, para formar gente capaz de ler a Palavra de Deus por todos os recantos da cidade, do Imirim ao Jardim Ângela, de Ermelino Matarazzo até as fronteiras de Osasco e Carapicuíba. Queria que cada batizado se assumisse como liderança leiga na Igreja e no mundo. Acreditava nos operários. Acreditava na juventude. Suscitava lideranças e não transformava a Igreja em máquina burocrática, mas em lugar de acolhida e profecia. Dom Paulo não queria leigos e leigas coadjuvantes, auxiliares subalternos, mas pensava e cria em protagonistas e colaboradores do múnus eclesial. Sempre se diz que um bispo sábio se cerca de assessores mais sábios e lúcidos do que ele próprio.

Dom Paulo acreditava na força da equipe, e cada um que privasse de seu convívio podia sempre ouvir de seus lábios: “Coragem, vamos em frente”. Sempre confiou nos outros. Não substituía funções nem tarefas, mas partilhava e aplaudia com vigor quando surgia a novidade do Espírito Santo. De certa forma, podemos brincar dizendo que dom Paulo, desde cedo, fez muito pouco ou quase nada, porque os leigos, as religiosas e os padres faziam muito e sentiam que tinham um pastor que os amava. Ele coordenava sem substituir ou calar. Acreditou de fato na subsidiariedade eclesial. Assumiu o papel episcopal como supervisor e líder que exercia autoridade, ou seja, fazia o outro crescer e manifestar o que tinha de melhor. Autoridade como serviço, e não narcisismo fútil e poder de imposição. Dom Paulo desvelava o que a cidade podia oferecer para ser comunidade e não mais viver polarizada em classes excludentes e gananciosas.

Tão logo assumiu o arcebispado, ou seja, o pastoreio da metrópole, uma das primeiras e fundamentais ações de dom Paulo foi compreender o novo rosto da urbanização em curso. A cidade de São Paulo estava crescendo desordenada e velozmente, com seus 5.924.615 habitantes provenientes do êxodo forçado do mundo rural, misturados aos poucos paulistanos de nascimento e aos milhares de imigrantes estrangeiros, chegados para a industrialização das décadas de 1920 a 1950. Esses paulistanos todos estavam mergulhados entre os 93 milhões de brasileiros, 56% dos quais vivendo em áreas urbanas. São Paulo mostrava ser a ponta do iceberg que poderia indicar um belo futuro ou um dramático modo de exploração capitalista, pleno de exclusões e medo. Nesse cenário, ainda situado em tempos de ditadura cívico-militar, o então bispo auxiliar e depois arcebispo foi chamado a agir em nome do evangelho a tempo e a contratempo.

Eram muitos e variados os segredos do bispo Paulo Evaristo. Nasciam de seu amor profundo a Cristo ressuscitado e se exprimiam em seu cuidado concreto com as pessoas, as pastorais, as instituições e o movimento da história. Para dom Paulo, não era a Igreja que devia se tornar uma grandeza histórica, mas a história do povo e das pessoas unidas em comunidades é que se tornava um referencial e uma grandeza cristã. Um povo de Deus unido, feliz e articulado era a esperança sempre viva desse cardeal. Seu lema era: “De esperança em esperança”. E assim ele, a cada manhã, renovava sua disposição de enfrentar uma cidade que era sempre nova, mas violenta, dialogando com ela. Dom Paulo dialogava com todos os atores sociais e pedia que cada um deles assumisse de verdade um papel de sujeito histórico de transformações. O pensador francês Moustapha Safouan, em seu livro La parole ou la mort, diz que na linguagem está a única saída do ser humano e que nossa escolha deve ser uma decisão entre a palavra ou a morte! Dom Paulo decidiu-se pela Palavra.

4. Delta Crucis ou Pálida

A quarta estrela a iluminar os passos de Paulo Arns foi aquela que fica à direita da constelação. É a mais pálida das estrelas, para lembrar-nos que vivemos sempre no lusco-fusco da existência e no paradoxo da cruz. Não há cruz sem ressurreição, mas tampouco há anúncio sem sangue nem martírio. O sofrimento acompanha a vida, sem tirar a esperança, mas exigindo coerência e mística vigorosa. Não há amor que não passe por noite escura. Não há esperança que não deva andar meses e anos na penumbra, crendo, esperando, tateando, procurando pelas mãos de Deus e por sua promessa. É como que uma aposta de que algo bom virá. É ver o invisível. É crer no impossível.

Dom Paulo foi criado cardeal da metrópole paulistana, em 5 de março de 1973, pelo papa Paulo VI. Foi o quinto arcebispo paulistano e o terceiro cardeal da diocese paulistana, pastoreando, por 27 anos ininterruptos, a maior diocese do mundo e renunciando em 15 de abril de 1998, sucedido por dom Auri Affonso Cláudio Hummes, ofm, que era arcebispo metropolitano de Fortaleza e frade franciscano. Em seguida, em 2007, viria o atual arcebispo, dom Odilo Pedro Cardeal Scherer. Dom Paulo realizou um inédito governo colegiado e um empenho efetivo em construir uma Igreja aberta aos homens e mulheres urbanos que, na cidade cosmopolita, possuem um modo próprio de pensar e agir. Foi o grande patrono do best-seller Brasil, nunca mais, que retrata os porões da ditadura e os sofrimentos vividos por centenas de brasileiros torturados clandestinamente pelos militares no país. Graças a essa obra, não se perdeu a memória da ignomínia praticada contra a pessoa humana no Brasil. A transmissão de seus sermões pastorais na rádio católica 9 de Julho foi impedida por arbitrária decisão do general presidente, que interrompeu seu direito democrático de opinião por 26 anos, ou seja, praticamente durante todo o tempo do exercício de seu episcopado. Grão-chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, acolheu os professores que o regime militar aposentava, perseguia ou censurava, como os mestres Florestan Fernandes, Octavio Ianni e Paulo Freire, entre tantos. Dom Paulo acolheu na Catedral da Sé inúmeros líderes muçulmanos, judeus, budistas, evangélicos, afro-brasileiros e o próprio Dalai Lama, como líder espiritual do budismo tibetano. Criou a Comissão Justiça e Paz e o Centro Santo Dias da Silva, formados por eminentes juristas, muitos dos quais advindos da Ação Católica e marcados, também eles, pelo personalismo de Maritain.

Eis a teologia subjacente ao seu pensamento. Um humanismo cristão que bebe nas fontes dos evangelhos, passa pela patrística e assume seu pleno vigor na ação permanente em favor de qualquer pessoa humana. Humanismo integral e cristianismo engajado. A PUC-SP, invadida pelas forças de segurança da ditadura militar por duas vezes, hauriu de dom Paulo a firmeza permanente e a coragem para enfrentar os prepotentes, tendo à frente a figura forte da reitora Nadir Kfouri e de seus vice-reitores. Foi um momento dramático que forjou uma geração e um símbolo perene. Essa casa da excelência acadêmica deve a dom Paulo o acolhimento de professores de todas as linhas de pensamento, sem qualquer obscurantismo ou dirigismos externos. Como escola de vida e humanismo, a PUC-SP deve a esse mestre do sorriso muito de sua identidade e de sua produção solidária. Há que se destacar, dentre os 51 livros da autoria de dom Paulo, três que manifestam seu pensamento complexo: I poveri e la pace prima di tutto (Roma: Borla, 1987), Von Hoffnung zu Hoffnung. Vortragre, Gesprache, Dokumente (Dusseldorf: Patmos, 1988) e Conversa com São Francisco (São Paulo: Paulinas, 2004). Temos também sua autobiografia Da esperança à utopia: testemunho de uma vida, publicada pela Sextante, do Rio de Janeiro, em 2001.

Conclusão: Épsilon Crucis ou Intrometida

A derradeira estrela na vida do cardeal Arns é a que fica fora da cruz, incomodando tal qual luz impertinente e sendo, no entanto, fundamental para localizar a própria cruz no firmamento. Na bandeira brasileira, tal estrela representa o estado do Espírito Santo. Sinal de algo misterioso na vida de nosso amado pastor Paulo. Os brasileiros deram-lhe o nome de Intrometida.

Podemos relacionar essa estrela pequenina com o momento do culto ecumênico em nossa Catedral da Sé, no dia 31 de outubro de 1975, às 16 horas, quando se fez memória do assassinato do jornalista judeu Vladimir Herzog pelas mãos da ditadura cívico-militar-empresarial. Ali fulgurava a estrela de dom Paulo, corajoso e firme, inspirado e animado pelo Espírito Santo, advogado dos pobres, tendo ao lado seu “tio espiritual” e “irmão mais velho”, o arcebispo de Olinda e Recife, dom Hélder Pessoa Câmara, o rabino Henry Israel Sobel e aquele que chamava carinhosamente de seu “bispo auxiliar”, o reverendo presbiteriano James Nelson Wright.

Esse foi o dia em que jornalistas e estudantes deram um basta ao golpe militar e aos ditadores armados e covardes, que se punham contra a vida, a verdade e a justiça social. Ao torturar e matar o judeu Herzog, pendurando-o em sua cela em uma corda, refaziam a crucifixão do judeu Jesus, semelhando os dois inocentes e unindo as duas religiões pelo testemunho dos justos. Dizer não à versão militar de suicídio, enterrar Herzog como judeu e celebrar sua memória como um corpo violado diante de Deus era um brado contra a idolatria do sistema de Segurança Nacional e a afirmação do Deus da vida e do amor. Esse foi o dia da liberdade de expressão sob uma chuva de bombas de gás dos militares infiltrados, comandados pelo Exército e pelos esquadrões da morte. O torturado era o vitorioso. A morte gerava vida e rebeldia. Herzog se tornava uma semente de liberdade, e a catedral, um lugar da esperança que nunca morre. Ali se gestariam as Diretas Já, efetivadas só em 1989. Foi o batismo de sangue apresentado a todo o Brasil, ainda que submerso e proibido de ser publicado pela imprensa domesticada e ditatorialmente censurada. Herzog era pranteado junto a dezenas de democratas assassinados nos porões da ditadura. Esse foi o dia da profecia de dom Paulo Evaristo Arns, tal qual um novo João Batista no planalto paulistano, clamando: “Ninguém toca impunemente no homem, que nasceu do coração de Deus para ser fonte de amor”. Foi dia de ecumenismo e de diálogo inter-religioso. Foi dia de evangelho puro. Foi dia de uma estrela intrometida emergir com força na escuridão e trevas nacionais, apontando para as quatro companheiras luminosas, tal qual pequenina irmã que sabia fazer a hora e não esperava acontecer.

Dom Paulo lutará sempre por uma educação de base, valorizando a teologia da libertação comprometida com o evangelho de Cristo, em defesa daquele modelo de Igreja preconizado pelos padres do Concílio Vaticano II em 1962-1965. Foi e será sempre alguém capaz de decifrar a mensagem que vem das estrelas e ilumina nossa vida:

E conversamos toda a noite, enquanto / a Via-Láctea, como um pálio aberto, / cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, / inda as procuro pelo céu deserto. / Direis agora: “Tresloucado amigo! / Que conversas com elas? Que sentido / tem o que dizem, quando estão contigo?” / E eu vos direi: “Amai para entendê-las! / Pois só quem ama pode ter ouvido / capaz de ouvir e de entender estrelas” (Olavo Bilac, Soneto XIII da obra Via-Láctea).

Referências bibliográficas

ARNS, Paulo Evaristo. Estrelas na noite escura: pensamentos. São Paulo: Paulinas, 2006.

______. Conversa com São Francisco. São Paulo: Paulinas, 2004.

______. Da esperança à utopia: testemunho de uma vida. Rio de Janeiro: Sextante, 2001.

______. Von Hoffnung zu Hoffnung. Vortragre, Gesprache, Dokumente. Dusseldorf: Patmos, 1988.

______. I poveri e la pace prima di tutto. Roma: Borla, 1987.

Fernando Altemeyer Junior

Fernando Altemeyer Junior é graduado em Filosofia e Teologia, mestre em Teologia e Ciências da Religião pela Université Catholique de Louvain-La-Neuve, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e assistente doutor nesta universidade.
E-mail: fajr@pucsp.br