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Publicado em setembro-outubro de 2016

A profecia está a serviço de quem?

Por Shigeyuki Nakanose, svd

Uma leitura de Miqueias 3,5-8

No dia 22 de janeiro de 2016, Edmilson Alves da Silva, 45 anos, um dirigente sem-terra, na cidade de Japaratinga, litoral norte de Alagoas, foi brutalmente assassinado com três tiros. Ele estava na entrada do Assentamento Irmã Daniela, quando foi surpreendido por dois homens, que estavam em uma motocicleta. Motivo do crime: a luta pela terra.

Francisca das Chagas Silva, 34 anos, foi assassinada no dia 1º de fevereiro de 2016. Ela era membro do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Miranda do Norte, no Maranhão. Seu corpo foi encontro nu, com sinais de estupro, estrangulamento e perfurações. Mais uma vítima do latifúndio.[1]

O número de pessoas assassinadas por denunciarem a injustiça e defenderem a vida é muito grande, e quase sempre os culpados não são punidos. O ano de 2015 teve o maior número de mortes no campo dos últimos 12 anos: 49 homens e mulheres a serviço da vida do povo injustiçado. Porém, isto é divulgado somente pela imprensa local e não chega ao conhecimento da maioria da população brasileira. O pior é que algumas pessoas insultam e caluniam as pessoas assassinadas, tachando-as de bandalheiras e insurgentes.

O Antigo Testamento também registra várias acusações, calúnias e violências contra os profetas que denunciam a injustiça e a exploração praticadas contra o povo empobrecido: Miqueias do Norte (1Rs 22,13-28); Amós (Am 7,10-15); Miqueias do Sul (Mq 2,6-7); Jeremias (Jr 26,1-24; 37,11-38,6) etc.

Os principais acusadores contra esses profetas são os profetas da corte, que intrigam, desinformam, manipulam e cegam o povo em nome de Deus. Os profetas contra os profetas! Quem são os profetas? Suas profecias estão a serviço de quem? Diante da realidade sofrida do Brasil, onde 5 mil famílias brasileiras detêm 49% do PIB (produto interno bruto), podemos nos perguntar: O que significa ser profeta do Deus da Vida hoje?

  1. O profetismo em Israel e Judá no século VIII a.C.

Amasias disse a Amós: “Vidente, vá embora daqui. Retire-se para a terra de Judá. Vá ganhar sua vida fazendo lá suas profecias. Não me venha mais fazer profecias em Betel, pois isto aqui é o santuário do rei, e é templo do reino”. Amós respondeu a Amasias: “Eu não sou profeta, nem discípulo do profeta. Eu sou criador de gado e cultivador de sicômoros” (Am 7,12-14).

Embora originário do reino do Sul (Técua), Amós anuncia e denuncia no Norte, no tempo do reinado de Jeroboão II (783-743 a.C.). É o tempo de expansão e prosperidade com o comércio internacional, exportação de produtos agrícolas (azeite, trigo, vinho etc.) para o Egito, a Assíria e a Arábia. Porém, a prosperidade beneficia somente os ricos e os governantes, que roubam e exploram os camponeses. Assim, Amós afirma: “Eles odeiam aqueles que se defendem na porta e têm horror de quem fala a verdade. Porque esmagam o fraco, cobrando dele o imposto do trigo. Pois eu sei como são numerosos seus crimes e graves seus pecados: exploram o justo, aceitam subornos e enganam os necessitados junto à porta” (Am 5,10.12).

Diante da denúncia de Amós, atingindo até o santuário do rei de Betel (Am 7,10), Amasias, sacerdote oficial do rei, acusa Amós de ameaçar e subverter a ordem estabelecida no Estado. Manda que ele se afaste do país. A resposta de Amós: “Eu não sou profeta, nem discípulo do profeta. Eu sou criador de gado e cultivador de sicômoros”.

Será que Amós não é um profeta? Quem é o profeta? Qual a sua função? Ontem como hoje, há vários tipos de profetas e de profetisas. Um grupo de profetas na Bíblia pode ser classificado como “profetas oficiais”, a serviço do poder. A Bíblia registra, no reino do Norte, a presença dos profetas na corte, servindo o rei. No reinado de Acab, por exemplo, há os profetas de Baal, acompanhando e servindo a rainha Jezabel, filha do rei dos sidônios e mulher de Acab.

Em 1Rs 18,20-22, lemos: “Acab convocou todos os filhos de Israel e reuniu os profetas no monte Carmelo (…). Elias continuou: ‘Fiquei sozinho como profeta de Javé, enquanto os profetas de Baal são quatrocentos e cinquenta’”. Mais ainda, o mesmo livro testemunha: “O rei de Israel (Acab) reuniu os profetas, cerca de quatrocentos homens, e lhes perguntou: ‘Será que eu devo ir a Ramot de Galaad para fazer essa guerra, ou vou desistir?’” (1Rs 22,6). O rei consulta os profetas que vivem na corte.

Desde o final do reinado de Jeroboão II até a queda da Samaria (743-722 a.C.), Oseias exerceu sua atividade no reino do Norte e se defrontou, também, com os sacerdotes e profetas da corte: “Ainda que ninguém acuse, que ninguém conteste, eu levanto acusação contra você, sacerdote! Você tropeça de dia, o profeta tropeça com você de noite, e você faz perecer sua própria mãe” (Os 4,4-5). Oseias acusa o sacerdote e o profeta de não instruírem o povo segundo a “lei de Deus” (Os 4,6-10). A serviço do Estado, os profetas estão desviando o povo.

Os textos bíblicos sobre os profetas da corte se multiplicam. Segundo esses textos, podemos enumerar várias funções e características dos profetas a serviço do Estado:

a) viver sustentados e subordinados à corte: “comem das mãos do rei”;

b) instruir o povo conforme as leis do Deus oficial do Estado;

c) interpretar a vontade do Deus do rei diante da situação de emergência. No caso de guerra, por exemplo, o profeta justifica e declara a guerra santa, quase sempre legitimando os interesses dos poderosos.

Nessas funções do profeta da corte, podemos entender a declaração de Amós: “Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta”. Amós declara que não pertence ao grupo profético da corte. Não vive na corte nem está subordinado às autoridades; ao contrário, vive no meio popular e defende os direitos do povo. É o “profeta popular” que se forma no meio do povo e denuncia a injustiça social, a qual empobrece, explora e massacra seus irmãos camponeses. Por isso, ele entra em confronto com as autoridades e os profetas oficiais. Esse conflito também está presente na história do reino do Sul, Judá, como no caso da vida de Miqueias.

Diante da espoliação e da desapropriação injusta da herança (terra e casa), Miqueias “profetiza”, denunciando as autoridades e as acusando de “cobiçar, roubar, tomar e oprimir” os pobres do campo (Mq 2,1-3). Como era de esperar, os profetas da corte reagem e “profetizam”, defendendo suas autoridades:

Eles profetizam: “Não profetizem, não profetizem essas coisas! A desgraça não cairá sobre nós. Porventura a casa de Jacó foi amaldiçoada? Acabou a paciência de Javé? É isso que ele costuma fazer? Por acaso a promessa dele não é de bênção para quem vive com retidão?” (Mq 2,6-7).

Os profetas da corte insistem que a conduta de suas autoridades é justa, conforme as leis de Deus. Eles se sentem fiéis a Javé oficial e acreditam que Deus está do lado deles, no templo da cidade santa, Jerusalém. Cultivam a convicção de que nenhuma desgraça lhes acontecerá, dizendo: “Por acaso, Javé não está no meio de nós? Nada de mal nos poderá acontecer!” (Mq 3,11). Os profetas da corte ensinam o povo conforme as leis do Deus do Estado e os interesses dos poderosos de Jerusalém.

Mas Miqueias rebate e desmonta a defesa dos profetas da corte, apresentando a realidade nua e crua do povo sofrido e oprimido pelo Estado (Mq 2,8-9), e critica os profetas da corte: “Se aparecesse um homem contando estas mentiras: ‘Eu lhes profetizo vinho e bebida forte’, este, sim, seria um profeta para este povo!” (Mq 2,11). Miqueias acusa os profetas oficiais de profetizar com “vinho e bebida forte”, ou seja, na alienação e luxo (Am 4,1). A denúncia contra os profetas da corte ganha maior força e profundidade em Mq 3,5-8.

  1. O sol se esconderá sobre esses profetas…

No século VIII a.C., o processo de espoliação e desapropriação da terra estava em pleno andamento. A maioria das terras de Judá já pertencia aos grandes proprietários, que viviam em Jerusalém. O povo sofria a violência e a exploração da elite agrária e dos governantes. Cobiçar, oprimir, roubar e tomar a terra e casa dos camponeses fazia parte do dia a dia, sobretudo na planície fértil de Shefelá, a terra de Miqueias (Mq 2,1-2). “Vocês são gente que devora a carne do meu povo e arranca suas peles; quebra seus ossos e os faz em pedaços, como um cozido no caldeirão”, denunciou Miqueias (Mq 3,3).

No processo de espoliação, os grandes proprietários de terras contavam com o apoio de um grupo de profetas acusados de aproveitadores: “anunciam a paz quando têm algo para mastigar” (Mq 3,5b); ou seja, eles proclamam oráculos em troca de pagamentos ou em vista de seus ganhos pessoais. “Filho do homem, profetize contra os profetas de Israel. Profetize, e diga aos que profetizam conforme seus próprios interesses. Vocês me profanam diante do meu povo, por um punhado de cevada ou um pedaço de pão, destinando à morte quem não devia morrer, e destinando à vida quem não devia viver. Desse modo, vocês enganam meu povo que dá ouvidos à mentira” (Ez 13,2.19): assim fala mais tarde o profeta Ezequiel sobre a atuação dos profetas oficiais, funcionários da corte.

Eles anunciam o que as pessoas poderosas querem ouvir. Esses mesmos profetas “declaram guerra contra os que nada lhes põem na boca” (Mq 3,5c). Quem são eles? São profetas, adivinhos e videntes, cuja função é dar sustentação ao projeto dos poderosos de Jerusalém (Mq 3,7a). Miqueias afirma que os profetas da corte “extraviam meu povo” (Mq 3,5a), provavelmente agricultores endividados e oprimidos, chamados de “meu povo”, que perdem sua terra, família e casa (Mq 2,8-9; 3,3).

 O verbo “extraviar”, ta‘ah em hebraico, significa “levar à ruina”. Os falsos profetas, com suas palavras, enganam, seduzem e extraviam o povo, levando-o à desgraça e à perdição: camponeses sem-terra, família e casa. As mesmas acusações contra a atuação enganosa dos profetas encontramos no livro de Isaías, profeta desse mesmo período: “Povo meu, seus dirigentes o desnorteiam, invertem a direção do seu caminho” (Is 3,12b); em outra passagem ouvimos: “O ancião e o dignitário são a cabeça; e o profeta, mestre de mentiras, é a cauda. Os que dirigem esse povo o extraviam, e os que se deixam guiar ficam aniquilados” (Is 9,14-15). Os falsos profetas atuam na corte, extraviando o povo em favor dos poderosos e legitimando o projeto dos governantes do Estado (Mq 2,6-11). Pois eles se apoiam em Javé oficial, do templo de Jerusalém, e se vangloriam de verdadeiras palavras de Deus (Mq 3,11).

Vendo seus próprios interesses legitimados, os poderosos enchem as mãos de seus profetas; no entanto, a profecia deles cairá no vazio: “terão noite em lugar de visões; escuridão em vez de oráculo. O sol se esconderá sobre esses profetas, a luz do dia se apagará sobre eles” (Mq 3,6). É interessante observar que se usam quatro metáforas – “noite”, “escuridão”, “sol escondido” e “luz apagada” – para afirmar que os profetas ficarão sem receber nenhuma revelação, ou seja, não poderão exercer sua atividade. Eles serão humilhados: “os videntes ficarão envergonhados, os adivinhos ficarão confusos. Todos cobrirão a barba, porque Deus não responderá” (Mq 3,7). Cobrir a barba significa luto (Lv 13,45; Ez 24,17).

O Deus da Vida não responde à profecia dos profetas da corte. Em contraste, Miqueias apresenta suas referências: “Eu, porém, estou repleto de força, do Espírito de Javé, do direito e da fortaleza, para denunciar a Jacó o seu crime e a Israel o seu pecado” (Mq 3,8). Ele se considera um enviado pelo Espírito de Deus para defender o “meu povo”, que está sendo vítima de várias formas de opressão. É a força do Espírito de Javé que conduz a missão do verdadeiro profeta para que restabeleça o “direito” aos pobres e oprimidos. Que esse mesmo Espírito nos impulsione em nossa caminhada e que possamos estar com os empobrecidos na busca de um mundo justo e fraterno.

  1. Profetas do centro e da periferia

As grandes religiões do mundo antigo atestam que algumas pessoas serviam de intermediários entre o ser humano e a divindade. No Antigo Oriente Próximo, nos países vizinhos a Israel, há vários documentos que provam a existência de videntes e profetas servindo a seus reis. As cartas de Mari, do Eufrates, por exemplo, contêm referências a vários tipos de intermediários proféticos.

A própria Bíblia testemunha o fenômeno profético com diversos termos: adivinhos, videntes, homens de Deus e profetas. O último é o substantivo nabi’ em hebraico, derivado do verbo naba’, que significa “profetizar, predizer, delirar, entrar em transe”, por causa da função intermediária de interpretar, anunciar e receber a palavra e a bênção de Deus. O livro de Números, por exemplo, relata a história de Balaão, adivinho das margens do Eufrates, a quem o rei Balac, de Moab, recorre para obter maldições de Deus contra Israel, na guerra (Nm 22,2-24,25). O rei Acab também consulta os 400 profetas da corte por ocasião da guerra contra a Síria pela disputa territorial de Ramot de Galaad, na Transjordânia (1Rs 22,1-12). O grupo de profetas vive e come à mesa do rei.

Profetas que vivem em grupo aparecem já na história da unção de Saul: “Daí partiram para Gabaá, e um grupo de profetas foi ao encontro de Saul. O espírito de Deus desceu sobre ele, que entrou em transe profético no meio deles” (1Sm 10,10). Os grupos de profetas seguem aparecendo na época de Elias (1Rs 18,4) e de Eliseu: “Os filhos de profetas que havia em Jericó se aproximaram de Eliseu e disseram: ‘Você sabe que Javé vai levar hoje o seu mestre por cima de sua cabeça?’” (2Rs 2,5). Os profetas em Israel persistem, como grupos ou indivíduos, até um pouco depois do tempo do exílio.

Há muitas pesquisas sobre o fenômeno profético. Nos últimos anos, com base nos estudos da história e da sociedade, é possível indicar as três áreas em que podemos analisar e entender os profetas:

a) O grupo de apoio: os profetas adquirem conhecimento para expressar suas mensagens, em palavras e ações, conforme a expectativa de seu grupo social de apoio. Eles se formam na “escola” mantida pelo grupo, que espera de seus intermediários determinado comportamento profético ao agir e falar. Samuel e Aías, por exemplo, formaram-se no santuário de Silo, “escola” mantida pelos camponeses do Norte, do Israel tribal (1Sm 1-3; 14,3).

b) Localização social da profecia: o profeta e seu grupo de apoio se situam em determinada localização social: no centro ou na periferia da sociedade. É importante estudar a sociedade na qual cada profeta atua e a sua localização social. Amós, que não é profeta da corte, localiza-se na periferia da sociedade (Am 7,15), no reinado do rei Jeroboão II, com seus sacerdotes e profetas do centro.

c) Função social da profecia: o profeta do centro expressa suas mensagens para manter a ordem social estabelecida; ao contrário, o profeta da periferia interessa-se pela mudança da ordem social. A Bíblia testemunha que Natã, profeta do centro da casa de Davi e de Salomão, pronuncia seus oráculos para manter a posição social de seus reis (1Rs 1-3). Por outro lado, o profeta Aías, com o grupo tribal dos camponeses do Norte, simbolizado por “tendas”, proclama a mudança na ordem social contra a casa de Davi, Judá, a cidade de Jerusalém: “O que é que nós temos a ver com Davi? Não temos herança com o filho de Jessé. Para as suas tendas, Israel! Agora, que Davi cuide de sua casa!” (1Rs 12,16).

Com base nessas três áreas de análise do fenômeno profético, podemos descrever Miqueias como profeta periférico, que atua entre 725-701, nos reinados de Acaz e Ezequias. Ele se forma na “escola” apoiada e mantida pelos camponeses da região da Shefelá. O próprio Miqueias chama, carinhosamente, seu “grupo de apoio” de “meu povo” e defende a vida do seu grupo contra a elite governante: “Vocês são gente que devora a carne do meu povo e arranca suas peles; quebra seus ossos e os faz em pedaços, como um cozido no caldeirão” (Mq 3,3). Como profeta periférico, Miqueias pronuncia os gemidos e gritos dos camponeses para produzir mudança da ordem social (Mq 3,9-10.12; cf. Jr 26,18).

Miqueias é um dos profetas “escritores” de Judá, que fala e age com base nas necessidades e expectativas de seu grupo de apoio. A Bíblia testemunha, na história do reino de Judá, as atuações de outros profetas escritores, seus grupos de sustentação e suas funções sociais. É importante lembrar que os livros proféticos passaram por diversas releituras e receberam acréscimos:

a) Primeiro Isaías (Is 1-39): ele é profeta do templo e conselheiro de três reis, Joatão, Acaz e Ezequias (740-700 a.C.). Formado na escola de Jerusalém – a monarquia da casa de Davi –, suas palavras e ações estão orientadas pela teologia davídica: Javé, Deus absoluto e transcendente; a escolha divina de Jerusalém-Sião; a eleição divina da dinastia davídica; o rei filho de Deus e defensor dos pobres. Com essa convicção, Isaías condena a aliança com as grandes potências (Assíria e Egito), propaga o rei justo (Is 9,1-6) e critica seus “colegas elitizados” de Jerusalém por oprimirem os pobres (Is 10,1-4). Como profeta do centro, ele defende a monarquia de Jerusalém como instrumento do Senhor Javé para construir um reino do direito e da justiça (Is 1,21-26).

b) Sofonias: sua atuação acontece na menoridade do rei Josias (640-620 a.C.). Como profeta da periferia, suas críticas estão dirigidas à cidade de Jerusalém e seus governantes:

Ai da rebelde, da manchada, da cidade opressora! Cidade que não escutou o chamado, que não aprendeu a lição. Ela não confiou em Javé, nem se aproximou do seu Deus. Seus oficiais são leões que rugem; seus juízes são lobos à tarde, que não comeram nada desde o amanhecer; seus profetas são uns fanfarrões, mestres de traição; seus sacerdotes profanam as coisas santas e violentam a lei de Deus (Sf 3,1-4).

Em seus oráculos, Sofonias emprega palavras duras contra os profetas do centro que se interessam pela manutenção da ordem social estabelecida da monarquia.

c) Jeremias: originário de Anatot, um dos centros da tradição tribal dos camponeses (1Rs 2,26), exerceu sua atividade profética entre os anos 627 a 582 a.C., acompanhando os cinco reis de Judá (Josias, Joacaz, Joaquim, Joaquin e Sedecias) e o governo de Godolias. Toda a documentação, escrita pelo grupo do profeta, indica que Jeremias estava ao lado dos camponeses e agiu como profeta periférico com relação à monarquia. Ele entrou em conflitos com os governantes, foi torturado e condenado à morte (Jr 26,7-24; 37,15-16). Enfrentou Hananias, profeta do centro, que declarou guerra santa contra a Babilônia (Jr 28). Uma guerra desastrosa para a vida dos camponeses. Após a destruição de Jerusalém (587 a.C.), Jeremias permaneceu, em Masfa, no meio do seu grupo de apoio: “os pobres da terra”, camponeses explorados e empobrecidos (Jr 40). Masfa, antigo santuário de Israel, carrega a memória da sociedade tribal (cf. Jz 20,1; 1Sm 7,5; 10,17).

d) Ezequiel: formado na escola de Jerusalém, exerce sua atividade no meio dos primeiros exilados, familiares do rei Joaquin e altos oficiais, entre os anos 597-571 a.C. Com a necessidade e a expectativa do seu grupo de apoio, Ezequiel anuncia a presença de Javé no meio dos que foram exilados com o rei Joaquin: Javé abandona o Templo e Jerusalém e exila-se na Babilônia. Com Javé, o profeta condena a atuação da corte do rei Sedecias como “mau pastor” (Jr 34) e acusa os pobres remanescentes na Judeia de tomar as terras deixadas pela elite (Ez 33,23-29). Para a reconstrução de Judá, Ezequiel profetiza a restauração da monarquia com o novo Davi, um só santuário e a nova Jerusalém (Ez 37,15-28).

e) Segundo Isaías (Is 40-55): um grupo profético de levitas que atua no meio dos pobres despojados e escravizados na segunda deportação (587 a.C.). São descendentes de levitas, pregadores itinerantes e sacerdotes do interior; sustentados pelos camponeses, foram trazidos à força para Jerusalém para trabalhar, como sacerdotes de segunda categoria, no templo (cf. 2Rs 23,8-9). Com base em sua formação e nas expectativas dos pobres exilados na Babilônia, o Segundo Isaías anuncia: 1) novo êxodo, a libertação dos escravos (Is 43,16-19); 2) Deus pastor de ternura e compaixão com seu povo (Is 40,11; 49,15-16); 3) Servo sofredor, liderança baseada no amor, na gratuidade, na não violência, na justiça e, sobretudo, no maior carinho com os sofridos (Is 42,1-9); 4) nova aliança, a aliança entre Deus e toda a comunidade com o projeto de partilha e solidariedade (Is 55,1-3); 5) nova Jerusalém com justiça (Is 45,8).

A Bíblia ainda registra outros profetas, como Habacuc, Abdias, Ageu, Zacarias e tantos outros profetas e profetisas na história de Judá. E a profecia chega ao tempo de Jesus de Nazaré, homem judeu, criado no interior da Galileia, que experimenta, na própria pele, a dureza da vida do seu povo, o qual sofria com a exploração, a opressão e a violência do poder civil e religioso: os impostos e a presença do exército romano, a extorsão e a ladroagem dos líderes religiosos de Jerusalém (Lc 3,10-14). Fome, miséria e doenças eram males constantes, o que fez Jesus, homem justo e sensível à realidade, “profetizar” contra as autoridades de sua época. É o profeta da periferia da Galileia, desafiando a ordem social estabelecida: “Felizes vocês, os pobres, porque de vocês é o Reino de Deus. Felizes vocês, que agora têm fome, porque serão saciados” (Lc 6,20-21). Jesus foi perseguido, torturado e assassinado. Sua morte é o resultado do que pregou e do que fez a serviço da vida do povo sofrido; da fidelidade à missão do Pai e do compromisso com os irmãos até o fim.

  1. Uma palavra final

Ontem e hoje, o seguimento de Jesus Profeta é um desafio: “Se alguém quiser seguir após mim, negue-se a si mesmo, carregue sua cruz e me siga” (Mc 8,34). Um dos homens do nosso tempo que denunciou a injustiça e carregou a cruz junto com seu povo sofrido foi dom Oscar Romero, que nos deixou sua mensagem profética:

Há um critério para saber se Deus está perto de nós ou se está longe: todo aquele que se preocupa com o faminto, com o maltrapilho e o pobre, o desaparecido, o torturado, o prisioneiro, com todos esses corpos, que sofrem, está perto de Deus. “Chamarás o Senhor e Ele te escutará”. A religião não consiste em rezar muito. A religião consiste nessa garantia de ter meu Deus perto de mim porque faço o bem aos meus irmãos. A garantia de minha oração não está em dizer muitas palavras; a garantia de minha prece é muito fácil de conhecer: como me comporto com o pobre? Por que ali está Deus (5/2/1978).

É uma profecia que alerta, denuncia a realidade injusta e, ao mesmo tempo, orienta nossa missão cristã. De modo especial, o ”corpo” do empobrecido e injustiçado é o “critério” para seguir Jesus de Nazaré e distinguir a voz dos profetas e profetisas que desinforma, manipula e cega o povo, utilizando a mídia para legitimar o interesse de quem detém o poder de comunicação.

Diante disso, o papa Francisco profetiza:

Hoje vivemos a cultura do descartável! Pensar que hoje as crianças que não têm o que comer não fazem notícia. Isso é grave. Isso é grave. Não podemos ficar tranquilos. Não podemos ser aqueles cristãos bem-educados, que falam de coisas teológicas enquanto tomam chá, tranquilos: não. Devemos nos tornar cristãos corajosos e ir em busca daqueles que são a carne de Cristo (19/5/2013).

[1] <www.alagoas24horas.com.br>; <www.vermelho.org. br>. Acesso em: 6 fev. 2016.

Shigeyuki Nakanose, svd

Religioso verbita, assessor do Centro Bíblico Verbo, leciona no Itesp (São Paulo) e na Faculdade Católica de São José dos Campos. Junto com a equipe do Centro Bíblico Verbo, tem publicado todos os anos pela Paulus um subsídio para reflexão e círculos bíblicos para o mês da Bíblia. O do ano de 2016 é: Defesa da família: casa e terra – entendendo o livro de Miqueias.
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