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Publicado em Maio-Junho de 1984

O pecado contra a comunhão do povo

Por Cardeal D. Paulo Evaristo Arns

A presente reflexão constituiu uma das intervenções oferecidas no Sínodo dos Bispos sobre “A Reconciliação e a Penitência na Missão da Igreja”.

1. O que é pecado social?

O tema do pecado social exige uma compreensão da relação entre pessoa e sociedade. Exige sobretudo a compreensão da originalidade que tem o social na antropologia cristã e na consciência dos homens de hoje.

Não é sem razão que o Vaticano II afirmou que uma das incumbências primordiais da missão da Igreja presente no mundo é o anúncio e o testemunho de uma ética do social em sua originalidade própria (GS 20-30).

Com efeito, todo ato humano, pelo próprio fato de ser humano, tem uma dimensão de abertura para Deus e para o próximo. E assim pode-se dizer que todo pecado, especificado por seus objetos próprios, tem uma dimensão social. Mas isto não é suficiente para precisar a formalidade e o conteúdo daquilo que hoje se chama pecado social.

O pecado social é uma realidade antropológica e histórica que atinge o social em sua originalidade própria. Ele se encarna nas estruturas sociais e mata o sujeito humano como sujeito, e o impede de realizar um ato humano em toda sua dimensão de verdade, de bondade e de comunhão com os outros. Ele é contra a comunhão do Povo.

O pecado social é um espírito egoísta que determina a vida da sociedade e das pessoas que nela vivem e participam do bem comum.

O pecado social em sua originalidade própria tem, mais do que os pecados pessoais, uma densidade histórica maior. Para compreendê-lo é preciso fazer apelo à realidade do “Pecado do Mundo” (cf. Jo 1,29), e à situação de Iniquidade (cf. 1Jo 3,4), de que fala a revelação. É uma situação histórica que passa de geração em geração e que é determinada por um radical espírito de mentira e de desamor. Nesse sentido, deve-se dizer que o pecado social, em sua densidade histórica, é a convergência e o fruto do pecado original, dos costumes corrompidos, das culturas alienadas e dominadas, e dos pecados pessoais de cada geração humana.

O pecado social entra na história pela liberdade humana, e uma vez dentro, ele se instala, cresce e prolifera nos relacionamentos objetivos das pessoas humanas em seus projetos de vida e de comunhão. Assim, a própria forma do pecado social pode ser explicada da seguinte maneira:

a) É uma negação e uma privação da Transcendência de Deus e de seu projeto de salvação histórica da humanidade. Deus quer salvar os homens na história, formando um Povo que viva em comunhão.

b) Essa recusa do projeto de Deus cria ídolos que ocupam o lugar de Deus e de seu projeto. Tais ídolos nascem de raízes, as mais profundas, dos relacionamentos humanos na vida social. São os ídolos do ter, do poder, e do prazer. O pecado social mata as pessoas e o bem comum. É um ídolo que determina a vida social, não para a Vida, mas para a morte do Povo inteiro.

c) Pode-se dizer que o pecado social é um egoísmo radical que penetra na cultura e nas estruturas sociais da vida do Povo.

E assim como a caridade é a forma de todos os atos que levam à Vida, assim também o egoísmo é a raiz e a forma que suscita os atos que levam à Morte.

2. O pecado social recusa e impede a comunhão do Povo

A originalidade do social se manifesta pela categoria de povo. Com efeito, a realidade povo, e sobretudo povo de Deus, não se explica somente pelas categorias colocadas com prioridade pelas ciências humanas: raças, classes, nação, Estado. A realidade Povo as engloba e transcende a todas. O Povo é uma comunhão histórica e estruturada, realizada pela promessa e dom de Deus. Esta realidade histórica adquire sua plena visibilidade na vocação de Povo de Deus (cf. LG 9). Assim o Povo se compreende em relação à Aliança e à promessa da vinda do Reino de Deus. E nesse sentido, o pecado social é uma negação e uma privação da própria vida da Santíssima Trindade que é comunhão de Pessoas.

É a partir desse projeto de Deus que se deve compreender a relação entre pessoa e sociedade. Os sistemas econômicos e políticos podem ir contra o projeto de Deus, seja matando a dignidade e o valor subjetivo da pessoa humana, reduzindo-a a um simples meio ou instrumento de produção, seja exaltando o poder absoluto do Estado ou da coletividade, matando assim a pessoa individual em sua liberdade e na possibilidade de decidir livremente seu futuro e sua participação no projeto histórico e social.

Assim o pecado social é a recusa e a negação que impedem a realização da vida e da comunhão do Povo em seus relacionamentos econômicos, sociais, políticos e culturais. É um espírito egoísta que determina os modos objetivos das relações humanas na sociedade.

3. O pecado social está aí, quase que em sua brutalidade apocalíptica!

São raças humilhadas e segregadas pelo egoísmo e pela dominação de outras raças:

É a discriminação dos sexos que faz com que a mulher no terceiro mundo seja marginalizada porque ela é mulher, negra, índia.

É a situação econômica e política dos pobres do terceiro mundo impedidos de realizar livremente seu projeto histórico e cultural e condenados a morrer de fome, de doenças e sem possibilidades de acesso aos bens da civilização.

É o relacionamento Norte-Sul que engendra a falta de equilíbrio econômico e político. E é o sistema de produção que esmaga as classes operárias recusando-lhes os direitos mais elementares da dignidade humana juntamente com uma política de dominação e de ameaça à vida de toda a humanidade.

Diante dessa situação de pecado, quem são os responsáveis? E o que devemos fazer?

Insiste-se sobre o fato de que o pecado social não pode destruir a liberdade e a responsabilidade das pessoas humanas. Esta observação é justa. Mas, devemos compreendê-la precisando a relação entre a pessoa e a sociedade, e definindo a natureza e as condições de um ato de liberdade, da mesma forma como os graus de responsabilidade diante do bem comum e a construção efetiva da comunhão do Povo, e do Povo de Deus.

A responsabilidade diante do pecado social se especifica pelo grau de participação e de responsabilidade diante do bem comum.

Diante do apelo evangélico Metanoiete, que o Santo Padre traduziu em sua homilia de abertura do Sínodo por “transformai o vosso espírito”, qual é a nossa responsabilidade e o que devemos fazer?

Deveríamos permitir uma aceitação e uma colaboração sem um julgamento crítico da vida social em seus relacionamentos objetivos em nível econômico, político e ideológico? (cf. DP 515). Esta responsabilidade se torna mais grave para aqueles que têm a autoridade e o encargo de assegurar o bem comum e de conduzir o Povo em direção à participação.

Deveríamos permitir uma interiorização ingênua dos relacionamentos sociais, sem mudar a mentalidade e os atos diante da situação e diante do bem comum? Não se pode deixar que as pessoas assumam hábitos sociais que impliquem em injustiça e no pecado, e externem atos de tal porte que contribuam ingenuamente para a continuidade do mal.

4. Poderíamos ser omissos?

A responsabilidade pelo pecado social se manifesta na omissão diante do bem comum e diante das possibilidades de mudança comunitária. É a omissão dos responsáveis: dos que têm autoridade, dos que respondem pelas relações de trabalho e vida política e de todos os que, de certo modo, dela participam; é essa omissão que permite ao pecado social difundir sua força e matar a comunhão do Povo.

É preciso sempre retornar ao apelo: “transformai vosso espírito!”, e amai-vos, uns aos outros como o Pai, o Filho e o Espírito Santo os têm amado.

Cardeal D. Paulo Evaristo Arns