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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 2002 (pp. 19-24)

Vocação à liberdade

Por Pe. José Comblin

O presente artigo reproduz a conclusão do livro de J. Comblin “Vocação para a liberdade”, publicado pela Paulus Editora.**

 

A vocação humana para a liberdade está radicalmente condicionada pela história. Por isso ela permanece sempre limitada. Ainda que possa crescer e realizar efeitos cada vez mais profundos, o ser humano nunca alcançará a plenitude da liberdade. Dada a pertença ao mundo criado, toda liberdade será necessariamente limitada, parcial, sujeita a retrocessos, precária, frágil — sempre será realidade a ser conquistada. Porém, essa é a condição humana e a condição de criatura. Ideologias podem imaginar um final da humanidade, porém sem nenhum efeito real. A vocação para a liberdade está sujeita à história.

No entanto, ela não é o produto da história. O sonho que acompanhou a trajetória do ser humano foi o de fundar uma liberdade para sempre. O imperador Augusto pensava dessa maneira ao ter dado ao mundo impérios. A mesma ilusão renovou-se na modernidade: a liberdade completa pelo advento da ciência, da tecnologia, do progresso da produção material, isto é, pela economia. A liberdade também não é o resultado de processos dialéticos. A liberdade procede de Deus: é vocação. Nasce e surge dentro da consciência humana. Não nasce pelo desenvolvimento espontâneo da consciência. Sendo vocação, a liberdade vem da parte de fora. Ela é proveniente de um apelo.

Por isso começou no povo de Israel e atingiu o auge na pessoa de Jesus. A liberdade de Jesus não foi produto da história: entrou na história. E, da mesma maneira, a liberdade de todos os seres humanos que o seguiram também não foi produto da história. Todos esses seres humanos foram chamados. Todos nasceram para a liberdade respondendo a um chamado, despertados por esse chamado.

No entanto, o exercício prático dessa liberdade no meio da sociedade humana — até por meio do próprio corpo — depende tanto da fase de evolução dos corpos humanos como da fase de evolução das sociedades humanas. Ainda hoje duas pessoas podem ouvir o mesmo chamado para a liberdade. Porém, se uma mora nos Estados Unidos e outra no centro da África, a aplicação prática e a extensão efetiva do chamado à liberdade serão bem diferentes.

Nos primeiros séculos até a “conversão” de Constantino, o povo cristão viveu a liberdade na emancipação da sociedade totalitária greco-romana. Negar-lhe a adoração ao imperador era afirmar a liberdade pessoal em relação a uma sociedade que pretendia envolver a totalidade do ser humano. Era emancipar-se do domínio da sociedade. Os primeiros cristãos prolongaram a resistência do povo de Israel, que, ao afirmar a transcendência de Deus, se negava a ser dominado por uma sociedade totalitária. Afirmar a transcendência de Javé era também afirmar a transcendência da pessoa humana.

No entanto, a afirmação dos cristãos em face do império romano levava a uma separação radical: um pequeno povo eleito, que vive a liberdade, e a grande massa mergulhada na opressão do sistema que abrange todas as dimensões do ser humano.

No primeiro milênio o predomínio da vida e da espiritualidade monástica compensou as tendências para a paganização do cristianismo sob a conduta de imperadores. O monge tornou-se independente da sociedade totalitária em que a maioria vivia mergulhada. A luta contra as “paixões” tornava a pessoa livre dos temores e dos desejos pelos quais a sociedade dominava os seus membros. O monge tornava-se livre negativamente. Faltava o outro aspecto: liberdade para agir. Ao fugir da sociedade, tornava-se incapaz de agir nela e sobre ela. Depois de se libertar do mundo, era preciso voltar a ele para o libertar — era o monge que não podia fazer. Era o limite da vida monástica na forma vivida no primeiro milênio e ainda predominante no Oriente.

No Ocidente abriu-se uma brecha que permitiu novas perspectivas. Foi a luta entre o “sacerdócio” e o “império”; no concreto, a rivalidade entre o Papa e o imperador (com os seus sucessores, os reis e os Estados Modernos). Essa divisão quebrou a tremenda unidade da sociedade holística, totalitária, das civilizações que predominaram durante milênios (desde os faraós do Egito, os imperadores da China, do Japão e da Índia, até os imperadores romanos).

Nem o imperador conseguiu extinguir a autoridade do Papa, nem o Papa suplantar a autoridade do imperador e dos reis. Nenhum dos dois — nem o Papa nem o imperador — conseguiu a autoridade completa dos impérios anteriores. Nenhum conseguiu constituir uma sociedade totalmente organizada. Na desordem esta a possibilidade de liberdade. A liberdade nasce do caos! Nenhum dos projetos daquele segundo milênio se realizou: nem o da cristandade, nem o do Império, nem o dos reis, nem o dos Estados Modernos. Nunca se conseguiu a unidade e a ordem. Durante mil anos as pessoas mais cultas lamentaram essa falta de unidade. No entanto, essa mesma falta de unidade foi a grande chance histórica da liberdade. Somente há liberdade quando nenhum poder alcança realizar a unidade sonhada.

Dessa forma, a ascensão do poder imperial do Papa cumpriu um papel histórico: destruiu as pretensões holísticas das sociedades antigas de tipo imperial. O Papa foi sempre o apoio de todas as resistências contra a dominação dos reis ou dos Estados Modernos.

Em compensação, o poder imperial do Papa deformou a Igreja porque introduziu nela a própria estrutura imperial, sobretudo quando os Estados Modernos deixaram de representar um polo de oposição às pretensões imperiais do Papa.

Na realidade, o esquema imperial do papado já cumpriu a sua função histórica, e é muito significativo que João Paulo II tenha tomado, na encíclica Ut Unum Sint, a iniciativa de propor a reforma da maneira pela qual se exerce hoje o “ministério petrino”. Essa iniciativa do Papa João Paulo II será, provavelmente, celebrada mais tarde como um dos momentos mais significativos do seu pontificado: foi o Papa que primeiro lançou o projeto de reforma do funcionamento do papado (Ut Unum Sint 95-96).

Os modernos entenderam a libertação como emancipação das sociedades tradicionais de tipo holístico, emancipação do indivíduo doravante autor da sua própria vida graças à produção autônoma de bens materiais e à participação no poder político. O indivíduo seria, doravante, o autor das leis e o produtor dos bens necessários para a vida: deixaria de depender da sociedade, seja ela família, clã, tribo ou império. Pela autonomia econômica e política, pela autonomia do pensamento, fonte de todas as demais autonomias, o indivíduo alcançaria a verdadeira liberdade.

Assim foi o sonho e, até certo ponto, o projeto da modernidade.

De fato, em grande parte, o domínio da sociedade sobre o indivíduo afrouxou. Cada um ficou muito mais independente do que jamais se imaginou no passado. A imagem concreta dessa liberdade é a formidável migração humana que leva os camponeses, 90% da população mundial há 100 anos, para as cidades, onde já se aglomera mais da metade da população mundial e 80% da população do Brasil. Bilhões de homens e mulheres em busca da liberdade de acordo com a modernidade: do campo tradicional para a cidade moderna.

No entanto, a liberdade moderna manifestou os seus limites. Primeiro os modernos acharam que a causa das dominações e da opressão era a escassez de bens materiais. Achavam que a abundância levaria à liberdade. Criou-se a abundância. Porém, essa abundância serviu para aumentar cada vez mais os desejos de uma minoria de privilegiados. Estes monopolizam a máquina de produção e deixam a maioria frustrada. A dominação não vem da escassez, e sim da má distribuição: os mais fortes tornam-se prisioneiros de desejos cada vez mais exacerbados. Não sabem que oprimem e criam pobreza porque somente pensam em satisfazer os seus novos desejos. A produção não cria liberdade.

Quanto à liberdade política, desde o início percebeu-se que estava subordinada às exigências da economia. Em nome dessas exigências, a participação real dos cidadãos fica cada vez mais reduzida. Os economistas estabelecem as regras do jogo político. O que sobra para um verdadeiro exercício de democracia é muito limitado. A economia criou nova sociedade holística e totalitária. Consegue manter a submissão dos cidadãos graças à manipulação da cultura. Quem dispõe dos meios de comunicação — as potências econômicas — cria uma cultura que leva cada um dos cidadãos a se identificar com a sociedade estabelecida. Sob as formas da democracia, criou-se um modelo uniforme de ser humano — o Homo praiensis — que todos aceitam, até com entusiasmo. Sugere-se uma consciência de liberdade, porém trata-se da liberdade de aderir ao modelo uniforme imposto pela publicidade e pelo trabalho cultural da mídia. A sociedade cria um jogo de desejos e de satisfações suficientemente adaptado para evitar qualquer perturbação séria da ordem estabelecida.

Veio a reação à qual alguns deram o nome de pós-modernidade. Na realidade a pós-modernidade não suprime nem suplanta a modernidade. Por sinal, já havia expressões da pós-modernidade no século XIX. A pós-modernidade acompanha o desenvolvimento da sociedade moderna, porém em forma de protesto e antagonismo. A pós-modernidade é a afirmação do indivíduo contra as novas formas de dominação e conformismo que foram criadas pela própria modernidade. Porém, a pós-modernidade levanta novos desafios para uma verdadeira liberdade.

A reivindicação do indivíduo é legítima e a liberdade cristã é a liberdade do indivíduo na sua vida pessoal. Não se trata de uma liberdade vivida simplesmente na coletividade, liberdade nacional, liberdade histórica, liberdade do povo, que tantas vezes serviu para ocultar a dominação da nação ou da economia sobre os indivíduos.

Porém, a pós-modernidade evolui muitas vezes no sentido do famoso grito de Jean-Paul Sartre: “O inferno são os outros!”. A liberdade vivida pelas novas classes dirigentes do mundo ocidental é a liberdade de isolamento: a liberdade contra os outros, que enxerga nos outros prováveis obstáculos. Os pós-modernos isolam-se da massa dos excluídos e vivem em paraísos cuidadosamente protegidos por todos os sistemas que a tecnologia atual permite. Daí a tendência para cair no narcisismo confundido com a liberdade.

O maior desafio da liberdade na atualidade já não viria mais do totalitarismo, como aconteceu durante muitos séculos, e sim do individualismo radical que a cultura ocidental está espalhando pelo mundo inteiro.

Diante da invasão do individualismo ocidental pós-moderno, vários cultos tradicionais reagem: reage o mundo muçulmano pelo fundamentalismo, reage o mundo chinês pelo apego ao autoritarismo político, reagem os fundamentalismos hinduístas — e mesmo os povos ameríndios e as minorias negras das Américas, mais do que as religiões tradicionais na África.

Aparece, dessa forma, uma polarização totalitarismo-individualismo que exclui qualquer ad­vento de uma verdadeira liberdade. A verdadeira liberdade realiza-se no serviço voluntário ao outro. Longe de fugir do outro, sobretudo do necessitado, a liberdade consiste em aceitar o desafio, ir ao encontro da diferença e criar uma resposta a uma situação nova. O outro é o desafio que provoca a liberdade. Essa concepção opõe-se tanto ao totalitarismo quanto ao individualismo. Opõe-se ao totalitarismo, que somente aceita o semelhante e rejeita tudo o que é diferente. Opõe-se ao individualismo, que vê no outro a ameaça, e não a provocação da liberdade.

A ideia de serviço é alheia aos nossos contemporâneos, porque a cultura oficial postula que todos os indivíduos são iguais, todos são autossuficientes e, por conseguinte, podem e devem resolver todos os seus problemas sem ajuda de ninguém. Essa é a doutrina dominante no mundo ocidental. Se existem pobres, trata-se do último resíduo da sociedade anterior, ou simplesmente pobres são os que escolheram esta condição por preguiça ou incapacidade: são os não empregáveis, os irrecuperáveis que não adianta ajudar, pois seria perder tempo e dinheiro.

A palavra serviço ainda se usa como concessão às massas populares que ainda carregam a herança do vocabulário cristão. Porém, de modo geral, a palavra fica vazia: não lhe corresponde nenhum serviço sério.

O desafio da liberdade no século XXI será o novo tipo de relacionamento humano. Homens e mulheres serão convidados a se libertar do seu individualismo, que é, afinal, medo de viver plenamente, medo dos seres humanos, medo dos verdadeiros desafios humanos. Porém, não se trata de voltar a formas antigas de sociedade holística, saída condenada de antemão, embora várias civilizações agredidas pela nova cultura pós-moderna não achem outra. A fé cristã pode aceitar a provocação dos outros em vista de uma nova convivência.

A quem se dirige o apelo para a liberdade? Não digamos simplesmente: a todos os seres humanos — como se todos fossem iguais e pudessem igualmente receber um convite de libertação.

À medida que a Igreja se identifica com uma cultura, o que aconteceu de modo tão intenso nos dois milênios da sua história, adota a figura de ideologia da sociedade e se dirige igualmente a todos — pois tende a identificar, uniformizar todos os membros da sociedade numa ideologia comum.

À medida que a Igreja volta a escutar o evangelho e a Bíblia no conjunto, deve reconhecer que a Bíblia toda e os evangelhos inteiros oferecem a visão de uma humanidade feita de polos opostos: oprimidos e opressores, ricos e pobres, poderosos e sem-poder — ou de modo mais radical: senhores e escravos. O evangelho encontra senhores ou escravos. Nunca encontra “homens” ou “mulheres”, porque estes são abstrações. Não existe o homem abstrato realizando a essência humana abstrata. Qualquer indivíduo humano sempre é ou senhor ou escravo. Essa é a visão bíblica.

Na concepção cristã, a vocação para a liberdade dirige-se aos escravos. O cristianismo é uma religião de escravos. Nisso é diferente de todas as outras religiões. À medida que se afasta dessa característica, torna-se semelhante às outras religiões.

O filósofo pagão já o tinha observado: o cristianismo era uma religião de escravos. E acrescentava: e de mulheres, porque, de alguma maneira, as mulheres se assemelham aos escravos em tantas situações.

Alguns já perguntaram: como evangelizar depois de Auschwitz? Ora, o evangelho é justamente feito para vir “depois de Auschwitz”: o Auschwitz do Egito, da Babilônia e de todas as perseguições do povo de Deus, até o Auschwitz do século XX.

Qualquer mensagem de liberdade corre o risco de desvio se não parte da situação fundamental da vocação para a liberdade. O evangelho dirige-se aos humilhados, perseguidos, excluídos. Uma vez que se afasta desses destinatários autênticos, perde o seu sabor, perde a sua originalidade, perde a sua autenticidade.

Hoje, existem milhões e dezenas de milhões de cristãos perseguidos não somente na China e na Coreia do Norte, mas em numerosos países muçulmanos (no Sudão e na Nigéria, por exemplo). A teologia cristã é feita para eles e a partir deles, não a partir dos restos das velhas cristandades da Europa ou mesmo da América.

Há milhões e até bilhões de excluídos, necessitados, humilhados. O evangelho é feito para eles como apelo para a liberdade. Se queremos fazer uma teologia para o homem abstrato, é preciso afastar-nos do evangelho — e então não saberemos mais o que seja liberdade.

Foi o que aconteceu, sobretudo a partir do século XIV, quando João XXII declarou que Jesus não era pobre e rejeitou dessa maneira toda a tradição anterior de opção pelos pobres. Doravante a Igreja falou para os homens abstratos e nem a reforma protestante mudou esta situação.

Uma das consequências desse ocultamento do evangelho foi a maneira pela qual se legitimou a conquista e se realizou a suposta evangelização da América e das outras partes do mundo conquistadas pelas nações da antiga cristandade.

Para os habitantes da América, o cristianismo apareceu como a religião dos senhores, dos amos, dos vencedores e opressores, e como a legitimação da conquista e da dominação.

Os pobres reapareceram oficialmente com João XXIII. Antes dele, tiveram vida clandestina na Igreja: a clandestinidade de Canudos, de Pe. Cícero Romão Batista de Juazeiro do Norte, de Pe. Ibiapina. O evangelho foi anunciado, porém clandestinamente. Os que o anunciaram publicamente foram expulsos — por exemplo, os que se negavam a aceitar a escravidão como sistema social.

A mensagem de liberdade dirige-se aos pobres, porque eles têm condições de lutar pela liberdade. Eles têm uma longa caminhada para percorrer. Porém podem, porque estão mergulhados na opressão.

Claro que — a experiência o confirma tantas vezes — quando os pobres se promovem, muitas vezes adotam o mesmo modo de sentir e de agir dos poderosos. O que se lhes pede é algo heroico: lutar pela nova sociedade em que as relações são vividas na liberdade.

Os ricos não podem ser chamados à liberdade? Os ricos não recebem esse apelo também? O evangelho mostra que os ricos podem ser chamados também. Há, todavia, uma condição: romper com o seu mundo, os seus valores e o seu modo de viver, e então seguir Jesus. Não pode haver evangelho de conciliação, como se fez na Igreja durante 15 séculos: apagar de tal modo o conteúdo do evangelho, que o cristianismo se torna exatamente igual às religiões pagãs.

O Vaticano II abriu as portas para a liberdade. Teve a ousadia de se deixar conduzir pelos textos do Novo Testamento. A Constituição, Gaudium et Spes reabilitou a liberdade. Imediatamente criou-se toda uma literatura teológica sobre cristianismo e liberdade.

Infelizmente isso não durou mais do que dez anos. O medo voltou a tomar conta da maior parte da hierarquia, do Papa e da Cúria romana. Trata-se do velho medo da liberdade, que prevalece desde o século XIV — quando foram condenados, queimados e torturados os espirituais franciscanos e muitas pessoas suspeitas de ter afinidades com eles.

O medo da liberdade voltou a tomar conta da Igreja católica. No entanto, o próprio Papa chega à conclusão de que o sistema deixou de funcionar. Pois a forma pela qual se exerce o ministério petrino é a pedra angular sobre a qual se sustenta toda a Igreja imperial. Se muda o ministério do Papa, muda o resto. Neste final de pontificado, a questão da liberdade na Igreja volta a ocupar o centro da atenção. O novo Papa já tem a sua função preparada — o Papa atual assinalou-lhe a tarefa de modificar a maneira pela qual se exerce o ministério petrino, quer dizer, a maneira pela qual se vive a liberdade na Igreja.

Na América Latina, as massas têm consciência da liberdade. Sentem-se livres porque aceitam o sistema em que estão. Aceitam-no porque acreditam nas mensagens que lhes são dirigidas. Vão para a praia e sentem-se livres. Hoje, liberdade é sinônimo de estar na praia, tomando sol e bebendo cerveja gelada. As pessoas convenceram-se de que essa é a liberdade. Por isso a compreensão da vocação será tarefa prolongada, porém, não impossível.

“Onde está o Espírito, aí está a liberdade”. Não foi sem consequência que o Espírito Santo desapareceu quase completamente da teologia católica e da consciência tanto da hierarquia como do povo durante quase 700 anos — desde a condenação dos espirituais franciscanos e de todos os discípulos do abade Joaquim de Fiori. A simples referência ao Espírito Santo já era suspeita por si própria. A mística da obediência substituiu o Espírito Santo.

Acabo de ouvir um bispo chileno dizer numa entrevista à imprensa: “Quem obedece nunca erra”. Essa foi a espiritualidade praticada durante séculos. Assim pensava também Eichmann, que exterminou os judeus por obediência. Assim pensaram os oficiais e soldados que torturaram os presos e os jogaram no mar, utilizando-se de aviões da marinha (na Argentina). Assim pensam e dizem os inúmeros funcionários públicos que dão cobertura a todas as malversações das autoridades, e assim dão a entender também os que ficam calados diante das injustiças que se cometem dentro da Igreja. Será verdade que “quem obedece nunca erra”? Infelizmente devemos reconhecer que inúmeras gerações católicas foram educadas nesse espírito, que, certamente, não procede do Espírito Santo. Porque este proclama que é melhor obedecer a Deus do que aos homens, mesmo quando pretendem falar em nome de Deus — como fizeram as autoridades de Israel que prenderam os apóstolos.

Recentemente o Espírito Santo fez uma nova entrada na Igreja, de modo totalmente imprevisto: o vento sopra e não se sabe por onde entra. Entrou pelo pentecostalismo e pelos movimentos carismáticos. É uma entrada que muitos na Igreja não desejavam. Porém, doravante não se poderá negar a presença do Espírito e fazer uma teologia sem falar do Espírito Santo.

Com o Espírito Santo todo o sistema tem de mudar. Em lugar da ordem estabelecida, o que prevalece é a desordem, o imprevisto, a improvisação, a novidade e o abalo daquilo que parecia estabelecido. A missão do Espírito consiste justamente em suscitar a liberdade.

Se o objeto do evangelho é a vocação para a liberdade, como haverá de ser a evangelização? Quem é que deve ser evangelizado? Durante 15 séculos predominou a persuasão de que a evangelização começa pelos grandes. A conversão de Constantino provocou uma inversão radical. A Igreja, que era dos escravos, tornou-se a Igreja dos senhores. Os missionários que foram ao encontro dos povos germânicos procuraram batizar os chefes, e estes davam a todos os súditos a ordem de se batizar também. Os primeiros missionários que foram para o Oriente buscaram o diálogo com os reis e imperadores, e os jesuítas que foram para a China conseguiram entrar na corte do imperador. Porém, não converteram ninguém. Na América a ordem era: cristianizar os filhos dos caciques. Na África, converter os chefes ou os filhos dos chefes. A evangelização devia proceder das classes altas e descer para todos.

Esta foi a doutrina oficial no Brasil até o Vaticano II: antes os dirigentes, primeiro recuperar os dirigentes. Foi e ainda é a doutrina romana oficial. Por isso a hierarquia deu apoio aos regimes fascistas e aos regimes militares da América Latina. Todos davam apoio à Igreja.

Então, diante de tais fatos, surgem as perguntas: O que do evangelho era anunciado a esses dirigentes? Por que adotaram o cristianismo com tanta facilidade? O que era que os encantava no cristianismo? Teria sido a vocação à liberdade?

Podemos ter a certeza de que a palavra liberdade pouquíssimas vezes foi pronunciada pelos missionários ao longo de 15 séculos. Qual era então o evangelho que foi aceito pelos imperadores romanos, pelos reis e chefes germânicos e eslavos, pelos chefes das tribos africanas e pelos caciques indígenas?

Não é preciso fazer um longo estudo. É evidente que o evangelho que receberam era bem diferente daquele que está no Novo Testamento.

Hoje a Igreja coloca-se diante do desafio de evangelizar. Porém, qual será o evangelho? A quem será destinado o evangelho? Eis a questão crucial. Se queremos converter as classes privilegiadas, nada de liberdade, nem de libertação. Anunciaremos um Deus muito compreensivo, que compreende muito bem o modo de viver dos privilegiados e, de antemão, os absolve, consola-os no meio dos problemas, conflitos e dissabores que vêm da própria abundância em que vivem.

O missionário fica totalmente condicionado pelo público que escolhe. Ele tem uma liberdade: a liberdade de escolher o seu público — pode evangelizar os pobres ou os ricos. Uma vez feita a escolha perde a liberdade, porque, doravante, o evangelho que anunciará lhe será ditado pelo seu público. O missionário que pretende evangelizar os privilegiados é prisioneiro deles. Não tem nenhuma liberdade de dizer ou fazer o que quer — deve dizer e fazer o que quer o seu público. Somente pode anunciar um evangelho de liberdade se fala para pessoas sem riqueza, sem propriedade, sem privilégios para defender. Será mais acolhido pelas mulheres do que pelos homens, porque são mais pobres; pelos jovens do que pelos velhos, porque são mais pobres; pelas pessoas de cor do que pelos brancos, porque são mais pobres…

Por isso mesmo — devido à escolha malfeita — o evangelho fica tantas vezes desvitalizado, perde sua força de repercussão, torna-se refúgio nas frustrações da vida.

Na América Latina, o evangelho da liberdade estava de tal modo desconhecido, que a teologia da libertação provocou um escândalo em todo o mundo católico conservador. De repente foi-lhes dito que o evangelho era o contrário de tudo o que eles achavam ser o cristianismo. Para eles, o cristianismo significava ordem, tranquilidade, paz social, resignação diante das situações de injustiça, cada um conformado com a sua sorte, respeito às autoridades constituídas quaisquer que fossem, respeito à propriedade, respeito aos costumes e normas tradicionais. Tinham paganizado o cristianismo e sentiram-se agredidos. Quem teve a culpa? Todos e ninguém. A evangelização começou pelo lado errado.

Pois bem. Passaram-se 500 anos. Agora começou novo século. Qual será o evangelho para o século XXI?

Ao longo dos séculos o cristianismo passou por tantos desvios, assemelhou-se de tal maneira às outras religiões, identificou-se tanto com outras culturas — sobretudo a cultura bizantina e a cultura ocidental —, que se tem a impressão de que a evangelização ainda está para começar. De alguma maneira mal começou, e começou de modo tão fragmentário que quase tudo está para ser feito.

Os 2.000 anos de história deixaram magníficos monumentos de “civilização cristã”, deram espaço para milhares de “santos”, cristãos imitadores autênticos de Jesus Cristo. Mas, o mundo ouviu o evangelho? Os pobres, os excluídos do mundo — os 4 bilhões de pobres — ouviram o evangelho e o apelo para a liberdade? A Igreja dedica-se a isso? Dedica-se a anunciar-lhes a liberdade de Cristo? Parece que estamos no início do primeiro século da evangelização.

De onde parte a evangelização? Com certeza, dos países em que os cristãos são pobres e perseguidos, na África e na Ásia. Não constam no anuário pontifício, mas a força do Espírito Santo está com eles.

Nas bibliotecas de teologia há milhões de livros que quase ninguém lê. Para a evangelização, poucas coisas dessas toneladas de papel é recuperável. Quase nada disso serve para iniciarmos a entrada no mundo de hoje. Além da Bíblia, pouca coisa será realmente de grande utilidade. O mundo de hoje é muito diferente: tudo deve começar de novo. A metade, pelo menos, dos livros foram escritos para apagar a palavra liberdade do linguajar cristão e procurar justificar um evangelho sem liberdade. A outra metade desconhece a mensagem de liberdade. Um entre mil entrou no assunto. Os que viveram a liberdade não escreveram e morreram. É preciso começar tudo de novo. Como entrar na liberdade? Escolhendo-a e começando tudo de novo.

Claro que é humanamente impossível. Humanamente Nicodemos tinha razão: um ser humano não pode apagar sua vida inteira. Não pode livrar-se dela inteiramente. No entanto, o Espírito faz renascer de novo, começar tudo de novo. Em cada um de nós agirá à medida dos limites do nosso apego ao passado, ao que somos. Todavia, o Espírito levar-nos-á para além daquilo que somos, a sermos outros, e assim começará a evangelização.

 

 



** Texto proveniente da conclusão do livro Vocação para a liberdade, Paulus, São Paulo, 3ª ed., 2001.

Pe. José Comblin