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Publicado em Setembro-Outubro de 1996 (pp. 23-28)

A função da autoridade

Por Pe. Fernando Altemeyer Jr.

1. Libertar o povo dos inimigos

Desejo partilhar com os leitores, neste artigo, uma reflexão sobre a função da autoridade. Inspiro-me na prática de tantos militantes cristãos comprometidos e com os olhos postos nas eleições municipais que se aproximam e envolvem a todos.

A fortiori, sinto-me desafiado pelo tema da Campanha da Fraternidade de 1996: “Justiça e paz se abraçarão”. Refletir sobre o papel político de um vereador ou prefeito, sua representação popular e identidade, no presente e no amanhã, é mais que um tema, é duro programa. Até recentemente o preconceito contra a política nos fez exercer a pior cidadania possível: a abstenção. O eixo articulador deste artigo inspira-se no belíssimo texto de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin: “Como ler os livros de Samuel”, Paulus, São Paulo, 1991. Diante do cenário nacional e internacional, e da urgente necessidade de debater publicamente projetos políticos alternativos para o Brasil, os cristãos leigos são convocados a participar, discernir e votar conscientemente.

Inúmeros obstáculos e preconceitos existentes e plantados em nossa terra por séculos de política excludente e corrupta não podem nos alienar do papel de construtores da cidade nova e da cidadania plena. Muito esforço e disponibilidade, pessoais e comunitários, são sinal de que vivemos novos tempos e novos desafios. Há muito trigo semeado em meio ao joio e ervas daninhas.

É bom no começo de toda reflexão sobre o futuro resgatar as lutas e memórias do passado. Nomes de cristãos leigos como Tristão de Athaide (Alceu de Amoroso Lima) e de tantos clérigos e religiosas que fizeram da política um espaço de liberdade e participação são páginas marcantes da história da Igreja no Brasil.

A norma da boa conduta política e do exercício da autoridade continua sendo reunir e liderar o povo para libertá-lo dos inimigos, como podemos ler no texto de 2 Samuel capítulo 22. Lutar para que o povo não perca sua alma, eis a primeira fundamental tarefa de um bom político.

Mas, lembram-nos os membros das comunidades de base que há uma segunda chave para defender e servir o povo: “Apoiar a participação do povo nas decisões municipais pelos Conselhos Populares”. Ser sujeito e não somente espectador é essencial para a boa saúde de nossa frágil democracia.

Nossa política e nossos políticos estarão de fato nos fortalecendo no exercício da cidadania? Caminhamos para o absenteísmo? Os vereadores e prefeitos eleitos trabalham com profissionalismo e dignidade, dentro do exercício do mandato popular?

Creio que sempre seremos desafiados por nossa própria prática a nos repensar, a viver fragilmente sempre em crise[1] na busca de novas práticas e respeito à ética e aos pobres no Brasil. Construir uma nova política plural e participativa, mesmo em meio a tantas injustiças.

Qualquer recente visita a uma Câmara Municipal ou Prefeitura nos deixa imediatamente impactados. Dramaticamente impactados. Diante de tanta burocracia e corrupção que persistem e ressurgem, muitos pensam que não há saídas. Nem podemos ser supletivos ou alternativos. Alguns cristãos excluem-se da participação direta e refugiam-se nas sacristias. É a filosofia do “cada um por si”, do espiritualismo vazio que esvazia a mensagem do Cristo e a força da cruz libertadora. Análises de peso confirmam que o próximo milênio manterá a política violenta[2].

Caminhamos para o caos? O neoliberalismo é fatal? Serão o voto e a eleição loterias solitárias? Há caminhos comunitários? Por onde caminhar sem ser manipulado nem manipular? Que respostas oferecer aos diferentes contextos políticos com os quais nos confrontamos? Muitos falam de alternativas, mas poucos as exercitam efetivamente, para além de palavras e discursos[3].

Os políticos oportunistas devem ouvir a voz instigante de Simone de Beauvoir:

Palavras; é tudo o que eles tinham a me oferecer: a liberdade, a felicidade, o progresso; é desta carne oca que se alimentam hoje em dia[4].

Mas, felizmente, existe o caminho da virtude política trilhado por mulheres e homens virtuosos e coerentes[5].

 

1. 1. Autoridade e cotidiano dos pobres

Numa visita a uma favela na Baixada Fluminense, em Nova Iguaçu (RJ), chamada de Lírio do Vale, presenciei como a vida se bate cotidianamente contra a miséria e a exclusão. Gente do povo exercendo cidadania e autoridade no caminho da virtude.

Lá dentro da favela, mulheres organizadas fazem surgir pequenas sementes de comunhão, sensibilização e organização popular.

Em meio a múltiplas dificuldades, brota um lírio naquele Vale. Este exemplo, que não é único, nos estimula e muito! Pois a chave de nossa política é esta: vir de baixo, construir a partir dos pequenos, e exercitar a autoridade no cotidiano. A força dos próprios cidadãos[6].

As crianças da Casa Vida, portadoras do vírus da AIDS, no bairro da Mooca, em São Paulo, me fizeram perceber com agudeza, que é preciso que nossa ideia de autoridade se amplie para as realidades vivas do cotidiano. O exercício da autoridade se faz nas casas, nas Igrejas, nas escolas, nas ruas, e não somente no Estado. Se não compreendermos esta realidade, poderemos ser usados pelos outros ou pelas instituições.

Rever nossa ação política, nossas emoções e preconceitos, nossa motivação e projetos ajuda a clarear quem são os amigos do povo e quais os verdadeiros inimigos da vida e da liberdade. Tempos de escuta e silêncio precisam quebrar as agendas predeterminadas de tantos agentes populares. Senão quebrarão os próprios militantes, ou até, suas famílias.

A arte de exercer autoridade deve gerar novos relacionamentos. Precisa propiciar vida em meio aos sofrimentos. Precisa valorizar os valores autóctones e regionais para não cairmos no mimetismo colonialista atual. Defender o povo pobre e agir com justiça e sagacidade são os referenciais de um político reto e íntegro diante do Senhor (2Sm 22,27-28).

Para que isso aconteça é preciso que nossos partidos políticos sejam agremiações consistentes com projetos sociais claros e transparentes. Partidos e candidatos de aluguel são a negação da arte do bem comum.

Na busca da justiça e da verdade[7], alguns critérios norteiam o voto consciente: passado do candidato, alianças e apoio financeiro, partido a que pertence e alianças que articula, e sua presença concreta nas lutas populares. Servir ao povo, e não servir-se dele.

Este esforço atual da Igreja de não mais servir-se da política para privilégios institucionais, mas unir-se na defesa dos excluídos e de seus projetos democráticos é semente de grande esperança. Não há mais candidatos ou partidos católicos nem deve haver tampouco voto de cabresto. Cada cristão exerce a cidadania com sua inteligência e com sua fé também política. Faz libertação redescobrindo a força misteriosa da liberdade[8]. Afinal, somente gente livre é cidadã.

Graças a esta participação pessoal podemos, pela política, exercitada por crianças, jovens e adultos empobrecidos, vislumbrar amanhã um povo novo num novo dia de liberdade e vida sem crimes[9].

 

1. 2. Autoridade e a nova ética mundial

Podemos, pela política, recriar um Brasil fundado na ética[10], e a cada dia gerar vida nova, plena de direitos, e germinalmente cidadã, como nos diziam os antigos:Incipit vita nova”.

Para defender a vida do povo diante dos inimigos é necessário termos em conta os novos fenômenos produzidos pelo neoliberalismo, como nos mostra o teólogo Leonardo Boff:

 

No neoliberalismo, por causa da modernização e da competitividade, está presente uma lógica da exclusão. Os países do Sul, tecnologicamente atrasados, sem suficiente competitividade, com crises políticas internas devido à pobreza e à miséria, não são mais interessantes. Por isso, há neles pouquíssimos investimentos estrangeiros. Nós não valemos, porque estamos fora do mercado. Quem está fora não existe[11].

 

Entrementes, o próprio L. Boff apresenta uma esperança concreta e palpável:

 

Acreditamos nas revoluções moleculares. Como as moléculas, a menor porção de matéria viva, garantem a sua vida pela relação e articulação com outras moléculas e com o meio ambiente, as revoluções devem começar nos grupos e comunidades interessadas em transformações. Nos grupos transformam-se as pessoas, suas práticas e suas relações com a sociedade circundante. E a partir daí, podemos começar a inundar espaços mais amplos da sociedade[12].

 

Mas os desafios para realizar qualquer revolução molecular são enormes, pois há uma crise estrutural na modernidade mundial, como analisa o filósofo francês Michel Henry:

 

Quando, portanto, o trabalho se encontra progressivamente excluído de uma dada sociedade, como é o caso da nossa, não é somente a forma desta sociedade que é subvertida, mas a própria existência do homem. Como e por que se produz esta exclusão progressiva do trabalho, é o que aparece atualmente evidente: é a substituição da atividade humana por um dispositivo instrumental objetivo cada vez mais complexo, que reduz sem cessar a parte do trabalho vivo, no seio do processo de produção de bens úteis à vida[13].

 

Esse filósofo nos interroga:

 

Necessitamos hoje uma nova cultura para um mundo novo. Por que, não? Mas uma cultura não se fabrica, não se constrói como um computador. Ela vem de longe, ela está lá desde sempre, incluída na vida como os logos que ela porta em si desde o princípio, como a vontade de viver, de se revelar e de realizar a si mesma — como esta atividade primordial de autotransformação e de autocrescimento, que não é senão um com ela e que se denomina ‘trabalho’. Mas, quando a essência da vida é excluída e seu poder é usurpado pelo reino cego do que nada sente nem a si mesmo, é a cultura que desaparece. E a tarefa não é nada fácil atualmente se se trata de a humanidade doar-se novamente uma cultura, num mundo onde o princípio consiste em sua eliminação[14].

 

1.3. Autoridade e princípios de base

Para concretizar as revoluções moleculares e reinventar a cultura política, nosso trabalho como cristãos, deve, nestas vésperas eleitorais, inspirar-se no cumprimento de alguns princípios de base:

“1. estímulo à organização do povo;

2. lutar para garantir a plena vigência dos direitos humanos,

3. incentivar e garantir a autonomia dos movimentos;

4. ter claro o seu papel, suas limitações e potencialidades; e, enfim,

5. combater todas as formas de discriminação.”

Precisamos tratar também da realidade do corpo, do subjetivo e das práticas curativas das novas Igrejas pentecostais, e confrontar com nossas próprias respostas[15]. Afinal não somos seres isolados nem vivemos numa redoma de vidro e, portanto, todas as forças vivas e religiosas acabam influenciando decisivamente em nossa vida política, queiramos ou não. O fundamental é ter consciência disso.

Para praticarmos uma política transformadora será preciso rever e simplificar nosso vocabulário. Não podemos continuar com linguagens herméticas ou esotéricas. É preciso falar do corpo humano, hoje mais do que nunca. De um corpo machucado e dilapidado. Porém não falar moralizando, mas acreditando em sua transfiguração. Falar das dores sociais e humanas como se tocássemos o invisível. Falar sentindo as dores do povo empobrecido, dos sem-terra, sem-casa, sem-vida[16].

Falar da política falando do corpo dos pobres. Falar de política através dele. Viver a política pelo nosso próprio testemunho pessoal. Mudando atitudes e estratégias, quando queremos que nos escutem e nos sigam. Acompanhando os outros e escutando-os quando ninguém nos segue. “Aprendendo e ensinando uma nova canção…”.

O papel de sujeito histórico que os pobres desempenham na construção de uma nova sociedade, baseada na justiça[17] e na esperança aponta para o verdadeiro exercício da autoridade que livra os pobres de seus inimigos. A irrupção dos pobres na política é hoje sinal concreto da presença do Deus libertador.

Devemos manter, como cristãos, um novo tipo de reafirmação da fé, de comunhão[18], que consolide diariamente a identidade e a validade desta política libertadora dos pobres.

Nesta escola da autoridade partilhada e democrática todos somos mestres e aprendizes. Alunos da escola dos cidadãos.

É isso mesmo! Na política exercida com ética e dignidade tornamo-nos cada dia pessoas mais novas e solidárias. Essa nossa tarefa incessante, pessoal e estrutural, alimenta-se e enraíza-se nas outras pessoas que conosco caminham.

Entre nós, cristãos participantes e militantes, e a massa dos excluídos existe um laço inviolável semelhante ao que une os crentes ao Deus da vida[19].

Não somos, nem queremos ser, salvadores da pátria, mas nos sentimos tocados e feridos, quando qualquer menino de rua desta pátria é ferido ou tem seu direito vilipendiado. É como se fôssemos todos, artérias fundamentais de um mesmo sistema sanguíneo. Interligados e complementares. Aí reside a consciência política de um cristão engajado.

Isso deve obrigar os caducos e corruptos políticos de gabinete a dançar outra música ou ser substituídos[20].

 

2. Viver a justiça e o direito

Construir uma renovada utopia do humano, a partir dos rostos concretos dos espoliados de nossa terra brasileira, significa produzir e viver a justiça. Assim, penso que nossa prática política é sempre exercício do amor e da caridade eficaz que vence o mal e a idolatria.

Necessitamos saciar a fome de pão e de beleza que nossa gente sente cada dia.

Em termos cristãos dizemos que, enquanto houver crucificados, há lugar para a ressurreição. Ela, a ressurreição, é quem dá sentido e beleza à loucura da cruz. Dá sentido ao árido campo da política. Enquanto fazemos a luta, necessitamos da música e da poesia, para torná-la terna e sensível. Afinal, ninguém é de ferro.

Vivi momento de elevação pessoal, ao contemplar, num Jardim Botânico, o voo livre e mavioso de um pequenino beija-flor… É algo de inefável, e, ao mesmo tempo, bem real. Essa singela experiência ecológica me fez repensar numerosos rostos e vidas que necessito contemplar e da política nova que precisamos criar.

Devemos nos organizar e ao povo de tal forma que mesmo internamente vivamos a justiça e o direito.

Somos pessoas que acreditam que é necessário, hoje mais do que nunca, fazer milagres, não para fugir do histórico e da política, mas para criar o maravilhoso dentro da vida histórica dos homens. Encarnar nossa fé como Deus, que se tornou gente no seio de Maria e operário na oficina de José.

É bom trabalharmos a questão da autoridade que exercemos e nossa capacidade de escutar os outros e respeitar as opiniões alheias. Superar a arrogância e o poder do medo. Escutar é essencial para quem quer fazer uma política diferente.

Assim uma autoridade justa é amada pelo povo e cresce em sabedoria. Alimenta-se e enraíza-se na vontade e nas decisões do povo[21].

Um cristão que ama a humanidade conhece pessoalmente a imensa fome humana de pão e de justiça, mas sabe também que a humanidade anseia por beleza e poesia, e tem uma insaciável fome disso[22]. Ambas precisam de respostas da política.

Essa experiência política articulada[23] necessita ser ampliada no Brasil a partir de uma participação ativa nas organizações e grupos populares.

O texto de 2Samuel nos demonstra esta segunda função da autoridade: exercitar a justiça dentro do próprio povo e de sua própria casa. Diz o belo texto bíblico: “Quem governa os homens com justiça e governa com o temor de Deus, é como a luz da manhã ao nascer do sol, manhã sem nuvens depois da chuva, que faz brilhar a grama da terra[24].

 

3. Autoridade compassiva

Este pleito de outubro elegerá legislativos e executivos municipais até a virada do próximo milênio e será prova importante de nossa capacidade de decisão madura como povo organizado. Bom fruto fecundo da Quaresma de 1996.

O voto consciente deve enraizar-se na própria causa daqueles que queremos defender. Aprender a cumprir os deveres da cidadania é ainda um exercício árduo, mas necessário. Será um aprendizado coletivo. Aprender a assumir a compaixão na política e resistir mesmo nos tempos difíceis[25].

Necessitaremos, no exercício da autoridade e na escolha de bons administradores e políticos, trabalhar a questão do testemunho de vida de cidadãos que saibam ser compassivos especialmente na política[26]. Saibam, como participantes do poder político, manter o vínculo orgânico com a sociedade civil e com a compaixão em favor da vida dos pobres. Os pobres se solidarizam com poucas palavras e com milhões de pequenos gestos. Esse novo tipo de político está por nascer, embora possamos todos conhecer alguns homens e mulheres que já são sentinelas da justiça no meio de tantos oportunistas.

A autoridade, para ser o sustentáculo do poder legítimo, deve ser descontaminada do autoritarismo e do fanatismo.

Vários riscos devem ser evitados: “Ela pode ser geradora de violência, à medida que a crença na legitimidade de alguns consente o emprego da força em relação a outros; pode ser ‘falsa’ à medida que a crença na legitimidade não é uma fonte, mas uma consequência psicológica, que tende a esconder ou deformar; pode ser apenas ‘aparente’, à medida que o titular legítimo do poder não detém o poder efetivo; e pode transformar-se em autoritarismo, à medida que a legitimidade é contestada e a pretensão do governante em mandar se torna, aos olhos dos subordinados, uma pretensão arbitrária de mando[27].

Este momento de virada do século exige clareza e retidão[28]. Do contrário cometeremos equívocos irreparáveis.

A bússola política de um cristão não aponta prioritariamente para o poder, mas para o serviço dos pobres e de sua articulação. Esta rebelde sabedoria popular que subverte a ordem que mata e exclui, se fundamenta numa paradoxal[29] e misteriosa vontade de viver e de fazer viver. Exercemos a autoridade como quem oferece a água trazida por outros valentes e corajosos lutadores[30]. Nossa luta nunca é isolada, mas fruto do sangue e do suor de tantos que nos precederam. Sim, somos parte integrante desses loucos, fracos, ignorantes e desprezados. Somos seguidores de Jesus, aquele que veio servir, e não ser servido. Somos considerados atrasados na política por aqueles que se consideram fortes e onipotentes. Somos daqueles que diante de determinadas situações, dizem claramente: Não! Nem tudo na política nos é lícito ou permitido.

Na caminhada em defesa da vida, temos o amor como estandarte, a compaixão como vestimenta e a solidariedade como alimento. Alguns, diante desta nossa aliança política com os empobrecidos, riem de nos, mas outros embarcam conosco nesta nossa aventura apaixonante[31].

Fortalecidos por uma luta política que defende o povo dos inimigos e que se exerce comunitariamente na justiça, passamos cada dia pelo teste de credibilidade, ao tornar ativa nossa “caridade política”[32].

À guisa de conclusão, diríamos que, sem esse vivo e necessário amor político, a autoridade esvazia-se e se torna idolátrica.

Em sentido oposto, caminham os cristãos engajados na política e comprometidos com os direitos dos pobres, pois a inspiração maior é o amor, e não devemos ter vergonha em proclamá-lo em alta voz, mesmo correndo inúmeros riscos neste grande mar de dificuldades em que estamos todos metidos[33].

O político que exercer corretamente o poder, conhecedor experimentado das dores e lutas do povo, sempre atento aos novos desafios da conjuntura, oferecera, com alegria, sua contribuição pessoal na busca da libertação coletiva[34].

Na defesa da vida dos pobres, buscaremos superar rivalidades secundárias diante de outros atores históricos, forjando redes[35] e vibrando interiormente com a causa dos pequenos, especialmente das mulheres, dos negros, dos índios e das crianças.

Assim podemos nos surpreender constantemente com o humano, pois:

 

Que quimera, portanto, é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que sujeito de contradição, que prodígio! Juiz diante de todas as coisas, imbecil verme da terra; depositário do verdadeiro, cloaca de incertezas e de erros; glória e refugo do universo.[36]

 

Entre algumas certezas e inúmeras indecisões, exercitemos o poder de forma democrática e comunitária. A modéstia será nossa mais importante qualidade.

Salvar e servir ao bem comum é o cerne da função interna da autoridade. Saber que tudo é política, mas que a política não é tudo é sabedoria importante de um cristão que mergulha na política[37].

Lutar localmente e manter a mente e o coração abertos para o infinito, eis o novo desafio político e teológico. Acreditar na política com o olhar no mistério, como nos indica Dostoievsky:

 

 “Toda a lei da existência humana consiste em poder sempre se inclinar diante do infinitamente grande. Tire dos homens a grandeza infinita e eles cessarão de viver e morrerão no desespero. O imenso, o infinito é tão necessário ao homem quanto o pequeno planeta sobre o qual ele habita.[38]



[1] “O homem é naturalmente crente, incrédulo, tímido, temerário. Descrição do homem: dependência, desejo de independência, necessidade. Condição do homem: inconstância, tédio, inquietação. Nossa natureza está no movimento: o repouso completo é a morte.” Blaise PASCAL, Pensées, GF-Flamarion, Paris, 1976, p. 85.

[2] “O mundo do terceiro milênio, portanto, quase certamente continuará a ser de política violenta e mudanças políticas violentas. A única coisa incerta nelas é aonde irão levar.” Eric HOBSBAWM. Era dos extremos, Companhia das Letras, São Paulo, 1995, p. 446.

[3] “O homem de bem é aquele que não prega o que é preciso fazer se não o tiver feito ele mesmo.” Mestre CONFÚCIO, Diálogos de Confúcio, IBRASA, São Paulo, 1983, p. 39.

[4] Cf. Simone de BEAUVOIR. Tous les hommes sont mortels, Gallimard. Paris, 1946, p. 369.

[5] “Já vi homens perecerem pela água e pelo fogo, mas jamais vi alguém perecer ao andar no caminho da virtude.” Mestre CONFÚCIO, Os Analectos, Ed. Pensamento, São Paulo, 1992, p. 104.

[6] “A força principal virá de inúmeros trabalhos voluntários e gratuitos dos próprios cidadãos.” José COMBLIN, Cristãos rumo ao século XXI. Ed. Paulus, São Paulo, 1996, p. 362.

[7] “Sou íntegro para com ele, e me afasto da injustiça.” 2Sm 22,24.

[8] “A razão deve ser suficientemente forte para pensar ela mesma sua superação e se recolocar a serviço da vida. E a vida deve ser suficientemente sábia para aceitar a lei da realidade e não querer senão o que é racionalmente possível. Mas existe na vida um princípio que vai mais longe que ela mesma; ele pode se voltar contra ela para destruí-la. ele pode também acolhê-la e transfigurá-la. Mas o segredo desta transfiguração não é nem da razão, nem da vida. O que advém da liberdade somente a liberdade pode dizer. Pois a linguagem da liberdade é uma linguagem escondida.” Jean LADRIERE, Vie sociale et destinée, J. Duculot, Geinblotix, 1973, p. 225.

[9] “Só depois de cem anos de governo de bons soberanos poder-se-ia acabar com os crimes e com a pena de morte.” Mestre CONFÚCIO, Diálogos de Confúcio, IBRASA. São Paulo, 1983, p. 108.

[10] “A recriação da ética pelos novos movimentos sociais está apontando para novos estilos de vida. Há, hoje, a emergência de um anseio profundo de liberdade na esfera da realização de pessoas, a partir do mundo das aspirações e dos desejos: um senso muito profundo do direito à diferença, à alteridade: um sentido novo das experiências comunitárias em tensão entre o planetário (procura de universalização) e o pequeno (emergência e reconhecimento do pluralismo social e cultural); a redescoberta do sentido do prazer, da gratuidade, da celebração e da fantasia, que, também, questiona a ética moderna do trabalho e a relação do homem com a natureza; a abertura de novos espaços para a experiência do sagrado na vida humana.” CNBB, Ética: Pessoa e Sociedade, Paulinas, São Paulo, nº 64, pp. 27-28.

[11] Cf. Leonardo BOFF, “O Cristianismo e a nova ordem mundial”, in: Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, 15/8/1993, p. 3.

[12] Idem, Ibidem, p. 4.

[13] Michel HENRY, “Réinventer la culture”, in: Le Monde des Débats – nº 11, Paris, Setembro, 1993, pp. 3-4.

[14] Idem, Ibidem, p. 4.

[15] “Não está na pauta dos cultos dessas Igrejas o papel de ‘salvar as almas’, mas de libertar o corpo. Entende que é necessário libertar o homem dos males que estão alojados no seu corpo. Não que o corpo seja ruim, mas algo que está nele. Com esta preocupação, leva-os para um outro ponto. O seu culto é um lugar onde o corpo está presente, com seu cansaço ou com sua alegria.” José Rubens L. JARDILINO, Sindicato dos Mágicos, CEPE, São Paulo, 1993, p. 32.

[16] “Muitas pessoas não conhecem, não vivem e não sentem o que muitos pobres trabalhadores vivem e sofrem, e apesar disso não são reconhecidos e valorizados como gente, sendo excluídos de todo o processo de sociedade justa e igualitária.” Diolinda ALVES, Relatório do 32 Seminário Estadual das CEBS, Presidente Prudente, março, 1996, mimeo, p. 4.

[17] A justiça, e por conseguinte a paz, conquista-se por uma ação dinâmica de conscientização e organização dos setores populares, capaz de urgir os poderes públicos, muitas vezes impotentes em seus projetos sociais, sem o apoio popular.” CELAM, Conclusões de Medellín: A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio, capítulo 2, nº 18, Vozes, Petrópolis, 1985, p. 62.

[18] “Guardemos o sonho inicial, alimentemos a mística da solidariedade e da comunhão com os oprimidos e marginalizados, saibamos defender a iminente dignidade do ponto de vista das vítimas. É o ponto de vista da vida e das transformações necessárias.” Leonardo BOFF, in: Relatório do VII Encontro Nacional dos Direitos Humanos, Brasília, 1992, p. 35.

[19] “Se examinardes as outras características da beleza divina, vós encontrareis que ainda sobre estes pontos a semelhança (com a divindade) é exatamente guardada na imagem que nós somos.” São GREGÓRIO DE NISSA, La création de l’homme, (SC6), Cerf, Paris, 1943, Tomo II, p. 97.

[20] “Os legisladores formam os cidadãos habituando-os a fazer o bem; esta é a intenção de todos os legisladores; os que não a põem em prática falham em seu objetivo, e é sob este aspecto que a boa constituição difere da má.” ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, Editora da Universidade de Brasília, Brasília, 1985, pp. 35-36.

[21] “Que é governar? É velar para que o povo tenha suficientes víveres, suficientes armas, e assegurar sua confiança. E se fosse preciso prescindir duas destas três coisas, com qual ficar? A confiança do povo, pois, sem ela, nenhum Estado poderia resistir.” Mestre CONFÚCIO, Diálogos de Confúcio, IBRASA, São Paulo, 1983, p. 100.

[22] “Sabeis que a humanidade pode viver sem a Inglaterra, que pode viver sem a Alemanha; que ela pode, mui facilmente, infelizmente! viver sem a Rússia; que a rigor ela não necessita nem da ciência nem de pão; porém, somente a beleza lhe é indispensável, porque sem a beleza já não haveria nada que fazer no mundo! Todo o segredo, toda a história reside aí. A ciência mesma não subsistirá um minuto sem a beleza — vós sabeis isto, vós que ris? — ela se transformará numa rotina servil, ela se tornaria incapaz de inventar um prego!” Theodor Mihailovic DOSTOIEVSKY, Les possédés (Bési), T. II, trad. do russo por Victor Derély, Librairie Plon, Paris, 1886, p. 150.

[23] “A síntese do pão e da poesia passa pela integração da imaginação com seu mundo material. É uma obra de arte, um ‘poiein’ permanente, uma tarefa histórica.” Patrick Joseph CLARKE, Pão e Poesia, Ave-Maria, São Paulo, 1992, p. 94.

[24] Cf. 2Sm 23,3b-4.

[25] “Está ele reduzido à vida particular? Que advogue. O silêncio lhe é imposto? Que ele dê a seus concidadãos o apoio mudo de sua presença. Mesmo o acesso ao fórum lhe é perigoso? Que nas residências particulares, nos espetáculos, à mesa, ele se mostre companheiro honesto, amigo fiel, conviva moderado. Ele não pode mais cumprir com seus deveres de cidadão? Restam-lhe os deveres de homem.” SÊNECA, Da tranquilidade da alma, Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro, 1985, p. 60.

[26] “Porque é no coração que a contemplação e a ação estão unidas, que o saber se torna querer e que o querer se torna saber. O coração não precisa esquecer o conjunto contemplado, a fim de agir, e não precisa suprimir toda ação, a fim de contemplar. Ele é simultânea e incansavelmente ativo e contemplativo. Ele caminha. Caminha dia e noite, e nós ouvimos os passos de seu caminhar incessante. (…) O Eremita da nona lâmina é o homem do coração, o homem solitário em marcha. Ele é o homem que realizou em si a antinomia ‘saber-querer’ ou ‘contemplação-ação’. Porque o coração é a solução.” Autor ANÔNIMO, Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô, Paulus, São Paulo, 1989, p. 235.

[27] Cf. Verbete Autoridade, in: N. BOBBIO, N. MATTEUCCI, G. PASQUINO, Dicionário de Política, Editora da UNB, Brasília, 7ª Edição, 1995, vol. 1, p. 94.

[28] “E em relação à temperança, à coragem e à grandeza de alma e a todas as partes da virtude, não se deve prestar menos atenção, em distinguir quem é bastardo e quem é legítimo. Pois, quando não se sabe reconhecer perfeitamente esses predicados, quer seja um particular, quer uma cidade, servem-se inconscientemente de coxos e bastardos para quaisquer desses serviços que apareçam, como amigos, no primeiro caso, como governantes no segundo. Se formos buscar homens de boa constituição física e intelectual, para os educarmos nestes estudos e treinos, a própria justiça não terá nada a censurar-nos, e salvaremos a cidade e a constituição. Mas, se trouxermos para estas atividades pessoas sem valor, obteremos efeito exatamente inverso.” PLATÃO, A República, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 7ª Edição, 1993, pp. 353-354.

[29] “Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte: e, o que no inundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é, a fim de que nenhuma criatura se possa vangloriar diante de Deus.” Cf. ICor 1,27-29.

[30] Cf. 2Sm 23,13-17.

[31] “Nós não nos importaremos, já que juntos descobriremos mundos.” Napoleón Baccino PONCE DE LEON, Maluco, Companhia das Letras, São Paulo, 1992, p. 283.

[32] Cf. a bela expressão do Papa Pio XI, pronunciada em 18/12/1927.

[33] “O amor é como um mar alvoroçado de ventos e ondas, sem porto nem margem. Morre o amigo no mar; e no perigo morrem também seus tormentos e nasce sua realização.” Raimundo LULIO, Livro do Amigo e do Amado, Loyola, São Paulo, 1989, p. 103.

[34] “O capitalismo criou uma cultura do eu sem o nós. O socialismo criou unia cultura do nós sem o eu. Agora precisamos da síntese que permita a convivência do eu com o nós. Nem individualismo nem coletivismo, mas democracia social e participativa.” Leonardo BOFF, “O Cristianismo e a nova ordem mundial”, in: Jornal O Estado de São Paulo, São Paulo, 15/8/1993, p. 3.

[35] “Ainda que de forma hipotética, pode-se sugerir que as redes de movimentos que vêm se formando no Brasil apresentam algumas características em comum: busca de articulação de atores e movimentos sociais e culturais; transnacionalidade; pluralismo organizacional e ideológico; atuação nos campos cultural e político.” Ilse SCHERER-WARREN, Redes de Movimentos Sociais, Loyola – Centro João XXIII, São Paulo, 1993, p. 119.

[36] Blaise PASCAL, Pensées, GF-Flamarion, Paris, 1976, p. 173.

[37] Cf. Grupo Tao, A Mística do Animador Popular, Ed. Ática, São Paulo, 1996.

[38] Theodor Mihailovic DOSTOIEVSKY, Les possédés (Bési), T. II, trad. do russo por Victor Derély, Librairie Plon, Paris, 1886, p. 347.

Pe. Fernando Altemeyer Jr.