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Publicado em Março-Abril de 2010 (pp. 38-39)

Economia (solidária) é vida

Por Paul Singer

A escolha do tema “economia e vida” pela Campanha da Fraternidade ecumênica de 2010 abriu uma oportunidade extraordinária para contrastar a economia que nos rodeia e domina com as exigências de uma vida voltada para a “construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão”[1]. Embora o capitalismo seja hegemônico no Brasil de hoje, convém notar que cerca de metade dos brasileiros que trabalham não encontra nele lugar para ganhar a vida.

Essa metade de excluídos trabalha em empreendimentos individuais, familiares, comunitários ou associativos. Uma parte deles se insere na economia solidária porque foi expelida de empresas capitalistas e não encontra o caminho de volta, mas muitos outros procuram na economia solidária um modo de trabalho e produção cooperativo e não competitivo, em que cada um seja associado e tenha o direito de participar das discussões e decisões sobre como gerir o empreendimento em pé de igualdade com todos os outros.

Não há dúvida de que as empresas capitalistas, sobretudo as maiores, pagam pelo menos o salário mínimo ou o piso profissional e garantem aos empregados descanso semanal e anual remunerados, aposentadoria, Fundo de Garantia de Tempo de Serviço e outros benefícios assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho. Essas condições atraem ao emprego nas empresas capitalistas grande multidão de pessoas, mas apenas algumas conseguem ser contratadas. Como visam ao máximo de lucro para seus proprietários, as empresas capitalistas somente contratam o número de trabalhadores que possa gerar para elas uma renda maior do que os salários que lhes são pagos.

Para poder ficar no emprego, o trabalhador tem de obedecer às ordens de seus superiores, sem ser informado do porquê delas. A situação da empresa também é mantida em segredo pela alta direção — apesar de que, se ela piorar, muitos empregados receberão aviso prévio de que serão despedidos. Trabalhadores de linha têm metas de produção fixadas pela chefia que não podem ser discutidas, mesmo quando são absurdas. O trabalhador muitas vezes se sente joguete de forças que desconhece e é levado a ver cada colega como competidor em seu emprego.

A economia solidária desenvolveu-se tendo em vista o bem-estar do trabalhador, que não tem patrão e por isso não se subordina a interesses de maximização do “lucro”. O empreendimento da economia solidária, a rigor, não tem lucro (que sempre é comparado ao valor do capital investido, encarado como seu gerador). O objetivo do empreendimento de economia solidária é garantir um ambiente de trabalho amistoso, em que os trabalhadores compartilhem esforços, ideias, conhecimentos, tristezas e alegrias. Não há segredos nesses empreendimentos — ao contrário, todos precisam saber de tudo porque todos têm de participar das decisões com conhecimento de causa.

Os empreendimentos associativos têm por princípio aceitar todas as trabalhadoras e trabalhadores interessados em entrar na sociedade. Quanto mais crescer a cooperativa ou associação, mais forte ela será — a união faz a força —, o que beneficia a todos. É o princípio da porta aberta do cooperativismo, codificado pela primeira vez em 1844 e desde então praticado. Se as vendas do empreendimento da economia solidária caírem, ninguém é despedido, mas o problema tem de ser encarado por todos os sócios. Várias saídas podem ser adotadas: mudar a produção para penetrar em mercados em expansão; melhorar a qualidade dos produtos para ganhar mais clientes; afastar da produção determinado número de sócios que têm possibilidade de ganhar trabalhando em algum outro ramo, até que as vendas se recuperem.

O importante é que todas as saídas são apreciadas pelo conjunto dos trabalhadores e as decisões de tentar umas ou outras são tomadas por maioria de votos ou ainda, mais frequentemente, por consenso. As cooperativas ou associações podem dispor de menos capital e por isso ter menor acesso a tecnologias de ponta, mas ninguém as supera em dedicação ao trabalho, o que lhes permite alcançar níveis altos de produtividade.

A economia solidária é uma economia a serviço da vida. Ela respeita as exigências da natureza, pois seus membros estão conscientes de que a devastação pode impossibilitar a continuidade da vida humana ou da vida em geral neste planeta. Ela se caracteriza sobretudo por não buscar a maximização de coisa alguma, o que lhe permite não exigir de seus seguidores qualquer coisa que eles não queiram. Os consumidores, em mercados solidários, são levados a praticar o consumo racional, responsável e solidário, o que possibilita conciliar as necessidades e preferências de produtores e consumidores. Nos mercados organizados que operam com uma moeda social própria, todos são, ao mesmo tempo, produtores e consumidores, ou seja, “prossumidores”.

Por tudo isso, talvez não seja demais imaginar que a economia solidária possa ser vida, se já não o é em sua prática.

 



[1] Texto-base da Campanha da Fraternidade: Os objetivos desta Campanha da Fraternidade ecumênica (p. 17).

Paul Singer