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Publicado em Maio-Junho de 1991 (pp. 19-24)

Utopia e esperança

Por Pe. Juvenal Arduini

1. Germinação utópica

O primeiro passo é determinar o conteúdo de utopia e situar-lhe o significado. Há que rejeitar os falsos utopismos. Assim, o utopismo idealista que reduza utopia a mera representação mental. O utopismo platônico que exalta a utopia como arquétipo sublime, que jamais se concretizará no mundo. O utopismo evasivo que é divagação onírica a oferecer paraíso ilusório onde se refugiem os sofredores. O utopismo compensatório e metaterreno que transfere para a eternidade aquilo que a humanidade já deveria alcançar neste mundo. O utopismo perverso que seduz a população com projeto social aparentemente moderno e popular, mas que é medularmente oligárquico e antipopular.

A utopia é realidade ainda não concretizada, mas que pode ser concretizada. Utopia é realidade germinal. É projeto pensado e desejado que ainda não compareceu no mundo existente, mas pode converter-se em fenômeno histórico. É realidade que ainda não ocupa seu espaço, mas poderá ocupá-lo ao tornar-se topia através da práxis humana. Dizia Lamartine que “as utopias são verdades prematuras”. E para E. Bloch, “As propriedades utópicas estão carregadas de futuro e de realidade”.

A utopia opera salto qualitativo porque rom­pe a ordem estabelecida, para instaurar nova essencialidade histórica. A utopia é dialética, porque, se não transformar o sistema sociocultural injusto, deixa de ter espírito utópico. Por natureza, a utopia é in­conformada, porque recusa a conciliação morna e provoca ruptura histórica.

A utopia pode habitar a penumbra, onde se revela e se esconde. É preciso surpreender a utopia encoberta no cisco, amoitada nos ranchos dos pobres, ponteada nos soluços dos sofredores, e que pisca timidamente nas massas espoliadas. Há muita utopia pulsando silenciosamente na alma do povo brasileiro. Mais do que escutar, é indispensável auscultar essa germinação utópica.

A utopia pode não se realizar por falta de consciência e de agentes utópicos, e também porque grupos privilegiados e estruturas arcaicas barram a mudança da ordem vigente.

Um povo não vive sem utopias. A supressão da utopia acarreta a decadência da humanidade. Escreve K. Mannheim: “Se abandonasse as utopias, o homem perderia a vontade de plasmar a história, e perde­ria a capacidade de compreendê-la”.

 

2. Utopia radical

O ser do brasileiro das camadas subalternas é corroído pela cultura do “aniquilamento”. O ser brasileiro sofre expropriação antropológica porque vem sendo submetido a um processo de anulação ontológica.

Em 1537, foi preciso que o Papa Paulo III declarasse que os índios eram veri homines — “verdadeiros homens”. E até o início do século XIX, havia setores que discutiam se o índio possuía humanidade, pois era considerado selvagem, “bugre”, homo ferus.

O negro escravo não era pessoa, mas mercado­ria. A literatura escravista registra o negro como “peça”, e o menino, filho de escravos, como “moleque”. Não eram gente. Joanna Baptista, em Belém, Pará, é símbolo da anulação do ser humano brasileiro. Joanna era livre porque filha de índia livre, embora o pai fosse negro escravo. Morreram-lhe pai e mãe, e ela ficou desamparada, sem ninguém que dela cuidasse. Desesperada, em 1780 vendeu-se como escrava a um senhor espanhol, para que a amparasse. Assim, o senhor zelaria por ela, não por humanidade, mas porque gastara oitenta mil réis para comprá-la. Desse modo, Joanna, brasileira livre, foi obrigada a vender-se e a tornar-se escrava, para poder sobreviver. Fato tão estranho que o Ouvidor o denominou “bastardo”.

A linguagem é elemento cultural que diz muito sobre a vida de um povo. Sintomático que o Dicionário de Aurélio, ao registrar o vocábulo ralé, tenha citado mais de quarenta sinônimos pejorativos a respeito do povo simples, como plebe, gentalha, lixo, mundiça, choldra e outros. É ladainha nefanda que recita a demolição do ser brasileiro. Mas no final do verbete, o Dicionário anota que ralé, em sentido popular, significa “energia”, “vontade”. Aí está a utopia: O povo pobre, tratado como escória pela cultura elitista, é visto e interpretado pela cultura popular como energia criadora e como vontade de ser. É a utopia que procura resgatar a identidade ontológica do brasileiro, projetando-o como ser humano e não como “bagaço”.

Milhões de brasileiros aspiram a que sua humanidade essencial seja reconhecida e respeitada por todos. Diz a antropóloga Manuela Carneiro: “Um direito essencial de um povo é ser ele mesmo”. E o filósofo de “Espírito da Utopia” escreve: “Mas eu quero ser”. Essa é também a utopia radical do homem brasileiro: Ser.

 

3. Utopia somática

Há sentido utópico no povo que procura ser sujeito, ser ponto de partida para mudar a sociedade injusta. Ao criticar o positivismo e o historicismo, J. Habermas diz que “toda história relata os atos e os destinos de um sujeito”. As pessoas são mais inovadoras quando exercem plenamente sua subjetividade. É o que acontece nas CEBs e organizações populares. O antropólogo Darcy Ribeiro considera que a cultura popular, “recheada de elementos indígenas e africanos”, mostrou-se mais criativa do que a cultura de certos intelectuais aristocráticos. É que, onde há sujeito humano, aí existe a morada original da utopia.

O brasileiro busca ansiosamente a utopia da palavra, precisamente porque não tem podido falar nem decidir. Essa utopia já aflorava nos escravos que, segundo Koster, tentavam matar-se engolindo a própria língua. Esse procedimento trágico era sinal de protesto, e revela que perder o direito à palavra equivale a perder o direito à vida. A utopia contida implicitamente nesse gesto contundente, está a dizer que recuperar a palavra é recuperar a razão de viver.

O dualismo filosófico privilegiou o espírito e depreciou o corpo humano. Mas, há muita utopia cativa nos corpos encolhidos dos pobres. Corpos mal abrigados, mal vestidos, mal nutridos, mal dormidos, mal acolhidos e mal tratados. Corpos exaustos pelo trabalho, debilitados pela doença, danificados por salários insuficientes. Esses corpos são estigmas culturais que denunciam a sociedade que os esmaga, e clamam por universo justo onde possam viver com dignidade. São corpos crepusculares que levantam os braços cansados para o amanhecer de novo dia histórico. São corpos pessoais, e não objetos, que almejam abrigar-se, vestir-se, alimentar-se, curar-se e expressar-se, sem envergonhar-se. É urgente descativar e aprumar essa utopia somática.

 

4. Rasteira utópica

“Sujeição” é fenômeno estrutural na cultura brasileira. Nossa cultura exsuda sujeição por todos os flancos. Sujeição política que nos foi imposta pela metrópole portuguesa por mais três séculos, e que se prolonga no arraigado autoritarismo da sociedade brasileira. Sujeição racial porque, na concepção de autores como Azeredo Coutinho, o índio só seria socializado se fosse subjugado. Sujeição étnica decorrente da longa escravatura que desculturou o negro. Sujeição econômica imposta ao proletariado pelos donos absolutos de terras e de capital. Sujeição jurídica porque se chegou a defender o direito de “guerra justa” para domar indígenas. Sujeição social infligida aos pobres pela miséria. E sujeição religiosa. O historiador José Oscar Beozzo cita documento em que padre Anchieta diz: “A conversão dos índios de Piratininga não cresceu tanto como a da Bahia, porque nunca tiveram sujeição, que é a principal parte necessária para este negócio”.

À primeira vista, parece que nessa cultura da sujeição não há lugar para utopias. Entretanto, descobrimos a utopia da resistência no povo servilizado. Resistiram os índios que fugiam e se suicidavam para não se submeterem. Resistiram, meio século, os negros em Palmares. Resistiram os sertanejos de Canudos e os trabalhadores de Contestado. Sublevaram-se os malês na Bahia, em 1835, e os revoltosos de Chibata no Rio, em 1910. Resistiram mulheres, operários, sindicalistas, camponeses, estudantes, professores, padres, advogados, seringueiros, posseiros, jornalistas, artistas e políticos que foram coagidos, exilados e assassinados. Como se vê, explosiva resistência utópica crepita no subsolo das forças populares reprimidas.

A sujeição embarga a utopia, mas não a destrói. No povo subjugado, oculta-se a utopia emancipadora que usa artifícios para concretizar-se. Assim, a utilização do “jeitinho” para atingir certos objetivos é mais traço antropológico do brasileiro do que desvio moral. Figura expressiva é o malandro que, não dispondo de força política e econômica para enfrentar os poderosos, procura driblá-los, e até trapaceá-los como o fez o ladino Pedro Malasartes. Roberto da Malta diz que os golpes do malandro representam “a força dos pobres”.

Não foi sem razão que a capoeira, vinda com os bantos, de Angola, foi proibida até o início deste século. Praticada discretamente nas senzalas, a capoeira ameaçava o domínio e a segurança dos senhores. Denominada por Monteiro Lobato “nobre arte”, a capoeira usa as habilidades das pernas e dos pés. Por isso, uma de suas formas é a “Pernada”. Daí o sentido utópico clandestino da expressão “passar a perna ou a rasteira em alguém”, que é derrubar matreiramente o dominador. A rasteira dos mestres de capoeira é símbolo cultural utópico que incita o brasileiro a desmantelar os mestres da sujeição.

 

5. Fênix utópica

Temos a cultura da carência. Não se trata de simples ausência de valores, mas de indevida privação de bens necessários. O atual sistema nega aos pobres o que lhes é estritamente indispensável à vida.

Temos 60 milhões de brasileiros penando na pobreza absoluta. Eles constituem nação equivalente à população da França. Essa nação da miséria foi desapossada dos direitos congênitos a todo ser humano.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Maraial, Pernambuco, vem sendo ameaçado de morte. Vivendo em sobressalto, sua esposa Roseleide Marques fez declaração que é síntese sociológica da realidade brasileira: “É melhor ser explorado do que viver sem segurança de que se vai estar vivo amanhã”. Que país é este em que ao pobre só resta a alternativa de escolher entre ser explorado ou morrer?

Nada tão antiutópico como a situação de miséria. Por isso, é paradoxal que possamos encontrar tantos brasileiros que, apesar de contarem apenas com migalhas, ainda conseguem sobreviver e trabalhar muito. É surpreendente que conservem alegria nos vincos da face, mantenham fé inabalável em Deus, e tenham solidariedade para repartir o pouco que lhes resta. Verifica-se que ainda circula seiva nesses caniços rachados, ainda arde esperança nesses pavios fumegantes, ainda há utopias nessas vidas pisadas, ainda há clareiras nas senzalas da “modernidade”.

A carencialidade suscita efervescente utopia, porque nunca se sente tanto a necessidade de alimento como na fome, nunca se sente tanto a necessidade de emprego como no desemprego, nunca se sente tanto a necessidade de saúde como na doença, nunca se sente tanto a necessidade de casa como no desabrigo, nunca se sente tanto a necessidade da pátria como no exílio. E nunca se experimenta tanto a vontade de viver como na miséria que devasta a vida. À medida que a carência se torna aguda e consciente, avulta também a utopia que poderá trazer-lhe a devida resposta.

A grande utopia, para o país não está nas encenações oficiais, mas no trabalhador explorado que denuncia: “planto e colho mantimento, mas não como; construo casas e mansões, mas não tenho onde morar”. E os profetas bíblicos tremulam as bandeiras utópicas dos pobres: “E eles reconstruirão as cidades e as habitarão, plantarão vinhas e beberão o seu vinho, cultivarão pomares e comerão seus frutos” (Am 9,14).

Cabe-nos ajudar o povo a concretizar a utopia que lhe devolva o direito de participar da mesa do mundo que, originalmente, pertence a todos. A utopia dos pobres é Fênix, porque levanta voo a partir das cinzas da miséria.

 

6. Messianismo utópico

Os movimentos messiânicos caracterizam-se por forte conteúdo utópico. O messianismo rejeita a sociedade de sofrimento e injustiça, através da oposição ou da fuga. E propõe nova ordem social constituída pela igualdade, fraternidade e comunidade de bens.

Em geral, o messianismo vem associado à religião, e reúne grupos de atribulados e explorados em torno de um “Messias”. Os índios Guarani buscavam a Terra-Sem-Males. Os Tembé apontam terra onde os pássaros falam e as plantas crescem por si. A profetisa Kee-Kwei prometeu que os índios Canela, no Maranhão, e Krahó, em Goiás, retomariam as terras e o gado roubados pelos brancos. Em Pernambuco, milhares de adeptos seguiam um mestiço que os libertaria da opressão. Houve também o messianismo do “Pau de Colher”, na Bahia, e do “Caldeirão”, no Ceará. Grupos negros cultivam a utopia da negritude que tem sido solapada pelas teorias da “Morenidade multirracial”, de Gilberto Freyre, e do “Branqueamento” de Silvio Romero e Oliveira Viana.

Canudos é chave para a compreensão da cultura utópica do povo abandonado. Antônio Conselheiro peregrinava pelo sertão, conduzindo oratório e cruz, e entrava nos povoados entoando ladainhas. Fundou comunidade marcada pela igualdade e fraternidade, onde não havia proprietários e os bens eram repartidos para todos. E prometia vida melhor já aqui na terra, e não só no céu. O Conselheiro bateu-se pela abolição da escravatura e insurgiu-se contra o latifúndio. Desenvolveu um catolicismo popular, paralelo à religião oficial, mas sem hostilizá-la.

Há messianismo utópico difuso na alma do brasileiro desamparado. Esse messianismo contém traços típicos do Messias pleno, Jesus, que devem ser preservados. A Evangelização há de encontrar pedagogia adequada que encoraje o povo a protagonizar a concretização das utopias messiânicas libertadoras, sem apelar para figuras carismáticas.

 

7. Dilema utópico

A religião é presença universal e profunda nas culturas dos povos. Isso se verifica de modo exemplar no Brasil, onde as três principais culturas que tecem nossa identidade, estão impregnadas de intenso sentimento religioso.

Na cultura brasileira, a religião é privilegiado espaço utópico. Os pobres recorrem à Fé, em suas necessidades e aflições. Contam com Deus para mudar as situações de doenças, pobreza, desemprego, conflitos familiares e sociais. Os votos, as romarias, o pagador de promessas que, de joelhos, se arrasta pelo chão, traduzem esperança utópica.

Há procedimentos religiosos antiutópicos que traumatizam as culturas. Sofrem os índios quando os missionários lhes rejeitavam a religião como se fora “arte de satanás”. Sofreram os negros quando a Igreja reduzia a religião africana a pura “feitiçaria”. E sofrem, hoje, pastorais sociais martirizadas quando são apenas toleradas, ou colocadas em suspeita. Em 1685, Irmandade religiosa obteve autorização do rei de Portugal para vender, no Brasil, 500 escravos a fim de construir uma igreja com o dinheiro desse comércio abjeto. E, aqui, houve ordens religiosas que se dedicaram à reprodução de escravos (cf. Ewbank, T., Life in Brasil, Boston, 1856).

O povo busca utopia religiosa que lhe valori­ze a identidade cultural. Entre evangelho e cultura há de prevalecer o falar recíproco, o “Diálogo dialogal”, a que se refere Panikkar. Não basta conhecer a cultura. É preciso escutá-la e respeitá-la, para que não se realimente a missiologia de Frei Bernardino de Sahagún, que estudou acuradamente a cultura indígena para poder combatê-la mais eficazmente.

As utopias dos ricos e dos pobres não são as mesmas, e até podem ser opostas. A utopia dos grandes empresários espera que Deus os ajude a lucrar mais, e a utopia dos trabalhadores espoliados espera que Deus os ajude a sobreviver. Dilema utópico crucial. Para ser fiel a Cristo, a Igreja terá de aliar-se à utopia dos pobres e não à dos espoliadores.

Por vezes, o povo pobre acalenta a utopia religiosa que há de restituir-lhe, no céu, aquilo que lhe foi negado na terra. A Evangelização crítica tem aí cenário para projetar a dimensão meta-histórica da utopia escatológica. E também para acentuar que a explosão escatológica é pleromática e não compensa­tória, porque amadurece os grãos do Reino espalhados no mundo, mas não contrapesa injustiças. A real utopia bíblico-teológica do “céu novo e nova terra” é motivo para impulsionar as utopias históricas, e não para dispensá-las ou apagá-las.

 

8. Kartería utópica

Há uma cultura da “paciência” que gera conformismo antiutópico. Diante do sofrimento, da do­ença, do infortúnio e da morte, as pessoas costumam reagir com o providencialismo voluntarista: “Deus quis assim, é a vontade de Deus”, ou com o providencialismo vindicativo: “É castigo de Deus”; ou com o fatalismo: “É o destino, estava escrito”.

Mas, ao lado da cultura da paciência apassivante, encontra-se também a cultura da paciência dinamogênica, que é a tenacidade utópica empenhada em transformar a sociedade desumana. Os trabalhadores nômades que desfilam pelas fazendas, os migrantes que se deslocam do nordeste para o sul, os favelados que rolam de uma periferia para outra não desistem de caminhar, não se cansam de buscar dias melhores.

Paciência — em grego, kartería — significa suportar, mas sobretudo sustentar, ter força da alma, coragem, vontade firme, tenacidade. Muito mais do que tolerar passivamente o sofrimento, kartería é sustentar corajosa e obstinadamente causas justas.

O povo demonstra fôlego histórico indobrável, capaz de fatigar e fustigar os poderosos, que respondem com a violência dos jagunços e da polícia. O jabuti indígena e a tartaruga africana são símbolos culturais da tenacidade inteligente do brasileiro depauperado. A lenda mostra que o jabuti, com sua típica paciência-lentidão, conseguiu escapar das garras do tigre, e venceu ardilosamente a corrida com o cervo veloz. O jabuti deita-se debaixo da árvore, e aí permanece até que o tronco caia de podre. É a imagem do brasileiro karteriano que persiste na luta utópica pela vida, até que seus opressores apodreçam e sejam derrubados, “para libertar-se”, arremata Câmara Cascudo.

 

9. Ensaio utópico

O povo brasileiro gosta de festa. Talvez porque sofra demais. A festa ajuda-o a viver.

A festa quebra a rotina e proporciona o diferente, o novo, o exuberante, o utópico. Responde ao Homo ludicus que brinca, canta, dança, transborda emoções, reúne companheiros em comunidade e celebra a vida. Festa é “o sim à vida”, diz Harvey Cox.

À semelhança do amor e do jogo, a festa tem caráter de gratuidade dentro do mundo mercenário e ingrato que temos. É com essa gratuidade que o malandro festeja a vida: “Sou pobre, mas tenho a cabrocha, o luar e o violão”.

A festa alastra a utopia da convivência igualitária nas camadas sociais discriminadas, porque altera a hierarquização do poder, convertendo a sociedade piramidal em sociedade de iguais. É o que acontece nas concentrações populares, como no carnaval, futebol e procissões.

A festa reinterpreta o significado do trabalho. Na perspectiva lúdica, o trabalho deixa de ser castigo e desrealização como o assinalou Marx, para ser ato amoroso e criativo que realiza e desdobra o ser humano. Festa deveria ser dimensão ergológica permanente, e não só um parêntese no texto do trabalho penoso. Nessa ótica, trabalhar já seria festejar.

A festa está sujeita a ambiguidades, porque pode ser acionada para revitalizar a identidade, a esperança e as lutas do povo, como também pode ser usada para despistar rebeliões e neutralizar conflitos. Os termos “distração” e “divertimento” são empregados pela cultura da alienação, como sinônimos de festa. Existe aí malícia literária, porque essas palavras significam alheamento: aquilo que desvia as pessoas de seus objetivos. O poder dominante manipula manhosamente a festa para “distrair” a população, e levá-la a esquecer seus direitos violados.

É preciso viver e promover o sentido utópico de festa, como imagem antecipante da sociedade embasada na justiça e na igualdade. Festa é ensaio utópico para a estruturação da nova história, onde o povo sofra menos e viva mais, chore menos e cante mais.

 

10. Utopia e esperança

Embora não sejam idênticas, utopia e esperança são indissociáveis. A utopia suscita esperança, e a esperança efetiva a utopia. Sem a esperança a utopia permanece no plano abstrato, e não se enraíza na concretude humana. A esperança confere às pessoas e coletividades a energia necessária para que existencializem suas utopias.

Há que estimular o povo a descobrir e a captar as utopias que já estão em andamento na vida, na cultura, na pobreza, no sofrimento e na religião. E também há que animá-lo a propor utopias inéditas que lhe são vitais em determinados momentos e contextos socioculturais.

Apesar de socialmente arrasado, o brasileiro não perde a esperança. Em seu sangue anêmico, a esperança continua vigorosa. Esse potencial elpístico deve ser investido na concretização de projetos utópicos necessários à população. É indispensável recolher e articular toda esperança que está dispersa por aí. A esperança resoluta, madura e impetuosa, e também a esperança humilhada, reprimida e esfiapada.

Muitas vezes, a esperança foi mobilizada para consolar os pobres, sem mudar-lhes as injustas condições de vida. Cabe à Evangelização, salutarmente inculturada, levantar a esperança profética que denuncia utopias mistificadoras. Acordar a esperança-desespero que não confia em soluções populares prometidas pela classe dominante. E acelerar a esperança militante que faz a utopia da justiça germinar e crescer no chão do sofrimento e da miséria.

A aliança entre utopia e esperança é capaz de trazer-nos novo Gênesis, o começo do mundo querido pelo projeto de Deus e buscado pelos braços dos homens. Assumamos esse horizonte de esperança que anuncia a irrupção histórica da utopia dos cativos.

Pe. Juvenal Arduini