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Publicado em Maio-Junho de 2005 (pp. 25-29)

Biotecnologia e biodiversidade

Por Frei Antônio Moser

A ecologia diz respeito ao meio ambiente, ou seja, a todos os seres com os quais convivemos. Oficialmente, as preocupações com o meio ambiente remontam a meados do século XIX, quando começaram a aparecer os primeiros efeitos negativos da industrialização. Foi, sobretudo, a partir dos anos 70 do século XX que a ecologia passou a se tornar uma preocupação sempre maior e a ser enfocada como problema eminentemente ético, no sentido de se distinguir entre modos adequados e inadequados de os seres humanos se relacionarem com os outros seres. Com isso, logo a seguir, emergem muitas outras dimensões nas quais transparece a preocupação em situar a ecologia numa visão totalizante e planetária, normalmente associada à palavra “holística”, ou seja, que abrange o todo da vida e a vida em todas as suas formas. Hoje o centro das preocupações ecológicas se prende às ameaças contra a biodiversidade, com o consequente risco de desaparecimento de muitas espécies de plantas e animais. Nesse sentido, para perceber mais claramente as ameaças e as perspectivas de superação, convém, antes de mais nada, resgatar algumas linhas mestras que orientaram as reflexões éticas e ecológicas nestas últimas três décadas.

Uma vez estabelecido o quadro de fundo, é preciso chegar ao cerne da questão: as maiores ameaças à biodiversidade apontam hoje numa direção específica: aquela que provém do poder incomparável ligado à biotecnologia. Se, aos poucos, a atenção passou da ameaça ao azul dos nossos céus e ao verde de nossas florestas para os desastrosos efeitos dos modos de produção capitalista, agora é preciso se defrontar com outra ameaça, ainda mais profunda: aquela de interferência direta nos mecanismos da vida. À medida que a biotecnologia, comandada por empresas com nítidos interesses econômicos, avança rapidamente para o cerne de todas as formas de vida, impõem-se novas estratégias para a preservação e a promoção delas. Para entender isso, convém resgatar a caminhada da biotecnologia nestes últimos decênios.

Entretanto, o ponto central das preocupações assinaladas no título “biodiversidade” liga-se à questão da clonagem. Desde o aparecimento da ovelha Dolly, em 1997, a clonagem se transformou numa espécie de senha para se poder entrar na compreensão já não da revolução simplesmente tecnológica, mas biotecnológica. Clonar plantas, clonar células, clonar mamíferos… tornou-se uma espécie de obsessão. É também pela clonagem que se chega aos “transgênicos”, ou seja, produtos geneticamente modificados. Acontece que clonar significa “padronizar”; padronizar significa acabar com as diferenças; e acabar com as diferenças significa provocar um empobrecimento genético nunca antes imaginado. Embora, por enquanto, as ameaças à biodiversidade digam respeito mais ao campo ecológico, não podemos perder de vista que no mesmo horizonte se coloca o plano do humano, por meio da clonagem reprodutiva e da clonagem terapêutica. Ainda que, por ora, quase todos julguem loucura tentar uma clonagem humana reprodutiva, são sempre mais numerosos os partidários de uma clonagem denominada “terapêutica”, com a possibilidade de regeneração e eventual produção de tecidos e órgãos em série. Parece ser justamente aqui, na inocente palavra “terapêutica”, que se revela a maior ambiguidade do momento tecnológico atual.

 

1. Ecologia: uma nova consciência emerge da poluição

A vida moderna se tornaria inviável e incompreensível sem as “máquinas”. Trens, navios, tratores, automóveis, ônibus, caminhões, aviões, luz elétrica, telefonia, informática… fazem parte de nossa paisagem e se tornaram elementos indispensáveis. Com razão, sempre se exaltam os benefícios daí advindos, sobretudo na linha da produção e da comunicação. Entretanto, a Revolução Industrial, com todos os seus desdobramentos, trouxe igualmente uma contrapartida que foi se manifestando aos poucos, mas de maneira crescente e cada vez mais assustadora. Essa contrapartida se traduz em termos de “ruído”, “poluição”, “contaminação”, “destruição” e outros termos semelhantes. Inicialmente seus reflexos negativos começaram a ser percebidos pelos estragos que causavam. Mas logo em seguida os estragos produzidos foram entendidos como manifestações de modos de produção inadequados. Num terceiro momento se começou a perceber que os problemas ecológicos não podem ser devidamente compreendidos e enfrentados sem que se aponte para a dimensão ética, ou seja, para as posturas humanas.

Os efeitos deletérios da industrialização são facilmente visíveis, perceptíveis e audíveis: desertificação, poluição do ar, poluição das águas, desconforto em nível auditivo, ocular, respiratório… Sobre cada um desses prismas se dispõe hoje de dados alarmantes e amplamente divulgados. Publicações e conferências sobre meio ambiente encontram-se há decênios na ordem do dia. Por isso mesmo, não vem ao caso apresentar aqui dados numéricos, já muito conhecidos. Por outro lado, ainda que, ao menos no contexto de países e regiões mais desenvolvidas, o choque das constatações tenha levado a medidas mais ou menos adequadas para remediar e prevenir males maiores, uma simples observação faz perceber que serão necessários muito mais investimentos e tempo para reparar os males já causados. É que a questão ecológica não envolve uma realidade estática, mas dinâmica. O crescimento da capacidade de produção, mediante “máquinas” cada vez mais sofisticadas, vai ampliando e aprofundando ainda mais os efeitos negativos.

Entretanto, a observação isolada dos efeitos negativos sobre o meio ambiente não apenas é superficial, como incapaz de gerar qualquer ação eficaz. Essa observação produz, no máximo, manifestações de caráter mais ou menos sentimental, como são aquelas dos “manifestos” e passeatas ecológicas. Ainda que possam representar um primeiro passo, manifestos e passeatas só se transformarão em gestos eficazes à medida que tiverem como pano de fundo os modos de produção capitalista, que se caracterizam pela busca do máximo lucro com o mínimo de investimentos. Pois, efetivamente, é a exploração das pessoas, conjugada com a exploração das coisas, que se esconde por trás dos males ecológicos — os quais não passam de reflexos de mecanismos de caráter eminentemente extrativista.

Contudo, a raiz dos males não se encontra simplesmente em modos de produção, uma vez que estes apontam para maneiras de ser e de se entender dos seres humanos. Com efeito, por trás dos modos de produção inadequados se escondem mentalidades errôneas, e por trás das mentalidades errôneas se escondem concepções de vida completamente distorcidas. As mentalidades se traduzem por uma consciência de poder, segundo a qual caberia aos seres humanos “dominar” as demais criaturas. A consciência de poder, por sua vez, esconde uma concepção errônea do papel que seria confiado aos seres humanos, entendidos como “senhores” e, portanto, com o direito de agir como bem entendessem. Hoje, diante das verdadeiras catástrofes ecológicas e após mais de 30 anos de reflexão, se chega à nítida percepção de que só haverá a possibilidade de um passo em frente se for dado um passo atrás. Isso, em termos teológicos, significa um verdadeiro processo de conversão na maneira de pensar, de ser e de agir. A conversão não aponta para uma volta atrás em termos de progresso, mas uma volta atrás em termos de concepção de vida. Concretamente, se quiserem remediar os males já existentes e prevenir novos, os seres humanos deverão deixar de se considerar senhores para passar à condição de irmãos e irmãs uns dos outros e das demais criaturas. Essa conversão se torna tanto mais urgente quanto mais o avanço tecnológico se transforma em verdadeira revolução biotecnológica, com um acervo incrível de novos conhecimentos e instrumentos para intervir nos segredos mais profundos da vida.

 

2. Biotecnologia: tocando os segredos da vida

Nos últimos anos surgiu uma série de palavras novas e difíceis, que, porém, hoje se encontram até na boca do povo mais simples: gene, genética, genoma, biogenética, reprodução assistida, clonagem, sexagem (escolha do sexo), células-tronco, biossegurança, produtos transgênicos etc. É verdade que nem todas as pessoas que utilizam essas palavras entendem seu significado mais profundo, mas as repetem com a mesma facilidade com que repetem os nomes dos seus heróis no campo dos esportes. De alguma forma, todas essas pessoas se sentem particularmente envolvidas num momento histórico sem precedentes. Inúmeras conquistas, diariamente noticiadas, abrem expectativas por vezes carregadas de ilusões, como se já fôssemos todos detentores dos últimos segredos da vida e capazes de interferir neles por meio de modificações no código genético. Nesse horizonte inserem-se as expectativas da cura fácil e definitiva de um significativo número de doenças de cunho genético bem como a esperança secreta não apenas de uma melhor qualidade de vida, mas também de seu prolongamento bastante significativo. É verdade que essas expectativas também podem vir acompanhadas de alguma preocupação relacionada com possíveis “monstruosidades” resultantes das inúmeras experiências genéticas realizadas em laboratório. Mas o trabalho intenso dos meios de comunicação social se encarrega de sobrevalorizar as expectativas e diminuir as eventuais interrogações. Essa conjuntura motiva a pergunta sobre nossa real situação no campo da biotecnologia.

Ainda que a biogenética, no sentido atual da palavra, já fosse realidade desde o início do século passado, sabidamente ampliou seu campo na linha dos conhecimentos e das intervenções mais profundas, sobretudo a partir da década de 50. Com efeito, antes disso as preocupações se resumiam em perguntar-se o que seriam os genes, onde se localizariam e quais as suas respectivas funções. A partir de meados do século passado, essas perguntas obtiveram respostas positivas na exata medida em que se descobriu a composição físico-química do material genético. Com isso se passou a compreender melhor que, por baixo daquilo que se vê a olho nu ou com aparelhos mais sofisticados, existe uma realidade bem mais complexa, composta de ácidos, aminoácidos, proteínas, genes… Mais exatamente, compreendeu-se que todas as formas de vida são sustentadas por células; que trazem consigo um núcleo e material periférico; que no núcleo das células se encontram os cromossomos, compostos de genes, que, por sua vez, nadam num mar de bases. No caso específico do ser humano, contamos com cerca de 100 trilhões de células; com 23 pares de cromossomos; com cerca de 30 mil genes… que se movimentam num mar imenso de 6 bilhões de bases de nitrogênio. Esses e outros componentes genéticos nos fazem logo perceber que, por mais que tenham avançado nossos conhecimentos, temos ainda muito por descobrir. Acontece que, nestes últimos decênios, não apenas se avançou teoricamente em termos de biogenética, mas também se avançou em termos de experiência de laboratório — incluindo a utilização de métodos artificiais de transmissão da vida. É nesse contexto que se fala em inseminação artificial, em fecundação artificial, em partenogênese e em clonagem. Inseminação significa captar o sêmen masculino e introduzi-lo nas trompas de uma mulher; fecundação artificial significa captar espermatozoides e óvulos, para proceder à junção dos dois em laboratório e só depois, eventualmente, transferir para um útero; partenogênese significa despertar a vida de um óvulo com a junção do núcleo de outro óvulo, sem o espermatozoide; clonar significa copiar fielmente a natureza genética de um ser.

Esses poucos dados que apresentamos até aqui já nos levam a perceber algumas coisas importantes para nos situarmos devidamente perante tudo isso. Em primeiro lugar, encontramo-nos diante de uma realidade de fato nova. Antes da era da biotecnologia, os seres humanos podiam modificar externamente o meio ambiente e só indiretamente podiam influir em outras mudanças mais profundas. É o caso do influxo do mundo industrial sobre a paisagem e sobre os comportamentos das pessoas. Entretanto, agora, pela biotecnologia, os seres humanos estão em condições de produzir modificações em nível genético, ou seja, na maior profundidade de todos os seres vivos. É o que se percebe nitidamente no caso dos transgênicos, com a modificação da natureza profunda dos produtos, bem como com a combinação de diferentes espécies mediante a clonagem. Isso aumenta enormemente a consciência de poder dos seres humanos para fazerem o que bem entendem.

Mas convém ressaltar uma segunda decorrência do que já vimos acima: as coisas não são tão simples como parecem quando se trata de entender os mecanismos mais secretos da vida e eventualmente agir sobre eles. Ao lado de uma realidade inegável de conhecimentos e atuações, há muitas fantasias. E com isso já desponta uma terceira observação necessária: uma vez mais entra em cena o que se denomina de manipulação, no sentido de empresas e grupos ligados a interesses, sobretudo econômicos, tentarem enganar o povo com vãs promessas. Traduzindo: por maiores que sejam os nossos atuais conhecimentos, ainda falta muito por conhecer; por maiores que sejam os avanços biotecnológicos, continuaremos sofrendo e um dia morreremos. Convém ainda acrescentar que a manipulação que envolve vãs promessas fica patente à medida que nos lembramos de que nossa vida não é feita só de células, tecidos e órgãos. Ela é feita sobretudo de relações, sejam estas com o meio ambiente, sejam dos seres humanos entre si. É desses relacionamentos inadequados que provêm muitos sofrimentos. E, natural­mente, não podemos nos esquecer de que o mais fundamental de todos os relacionamentos, que vai nos dizer se estamos com saúde ou se estamos doentes, é nosso relacionamento com o Criador. Se tal relacionamento não for saudável, nossa “saúde” será ilusão.

 

3. Padronização: necessidade ou ameaça à biodiversidade?

O número cada vez maior de seres humanos e as crescentes necessidades provenientes do que denominamos de progresso levam, forçosamente, à produção em série. Passou o tempo em que as coisas eram feitas manualmente uma por uma. Agora são necessárias máquinas sempre mais velozes e sincronizadas para produzir milhares e até milhões de vezes o mesmo produto. Só assim se pode suprir a demanda do mercado e baratear os custos. Esse procedimento não apresenta nenhum problema maior em si mesmo. Acontece que ele vem acompanhado de mecanismos de padronização. Aqui já se começam a apresentar crescentes dificuldades para lidar com o diferente, representado por coisas ou por pessoas. Começa-se a projetar um mundo onde tudo e todos sejam o mais iguais possível — nas aparências, nos pensamentos e nos comporta­mentos. É a essa lógica que parecem obedecer certos modismos estéticos, pelos quais um sempre maior número de pessoas são “turbinadas” com implantes e transplantes para se adaptar aos critérios de beleza do momento. Nesse processo de padronização, também culturas diferentes são vistas como complicadores para o bom funcionamento das sociedades. Todos deveriam assumir os mesmos padrões e correr nos mesmos trilhos.

A clonagem, entrando em cena no exato momento em que a padronização industrial atinge seu auge apresenta-se como se fosse uma exigência: se somente forem padronizados os produtos “mortos”, sempre teremos dificuldade de lidar com os produtos “vivos”, que, por definição, não apenas são diferentes, mas se modificam de acordo com a dinâmica própria da vida. É assim que se compreende que, tão logo se descobriu a possibilidade de recortar e de colar novamente o material genético, mas numa disposição diferente, se partiu para a ação. O imperativo soaria mais ou menos assim: “Vamos clonar o máximo de seres vivos para comercializá-los mais facilmente”. É certo que há muito tempo se conhecem e se utilizam esses mecanismos — por exemplo, no enxerto de plantas. Como também é certo que a clonagem de células é um processo absolutamente normal e indispensável para o desenvolvimento dos seres vivos. Como ainda é certo que, mediante a clonagem, podem ser recuperadas espécies de plantas e animais em extinção. Ademais, de alguma forma, podemos dizer que todos nós somos resultado de clonagem espontânea e ininterrupta de células que vão se multiplicando e, assim, vão nos mantendo vivos. Acontece que a clonagem provocada e propriamente dita não constitui apenas uma “cópia”, mas a transferência de um núcleo de célula para outro núcleo, antecipadamente esvaziado. E isso pode ocasionar não apenas a reprodução clonada entre seres da mesma espécie, mas também a conjugação de espécies diferentes. É nessa altura que as coisas começam a se complicar.

Em primeiro lugar, a complicação diz respeito à tentativa de clonagem não só de plantas e animais, mas também de seres humanos. É verdade que, teoricamente, quase todos se dizem contra a clonagem reprodutiva de seres humanos. Mas também é verdade que existem condições técnicas para isso e que, certamente, já houve tentativas nesse sentido. Ora, essa seria uma aberração total, uma vez que os novos seres, mesmo apresentando algumas diferenças, teriam grandes dificuldades para descobrir a própria identidade. Seres clonados seriam como sombras à procura de sua realidade. E aqui já se apresenta a segunda complicação extensiva a qualquer ser clonado: a mudança radical da identidade profunda e o inevitável empobrecimento, mesmo em nível genético. Pois a riqueza de um ser vivo advém do fato de, até agora, ele ser único e irrepetível. Assim, deve-se dizer que esta é a grande ameaça provocada pela clonagem: ela coloca em risco a biodiversidade, até agora caracterizada por milhões de espécies diferentes com matizes diferentes, as quais passariam, progressivamente, a perder sua originalidade. A padronização dos seres vivos, contudo, obedece novamente à mesma lógica do supermercado, segundo a qual o que interessa é o que dá lucro. É nessa direção que se deve entender a pressa em produzir e comercializar produtos transgênicos, antes mesmo de ter noção exata dos seus efeitos sobre a saúde e o meio ambiente.

Entretanto, a busca de lucros a qualquer custo não diz respeito apenas a alimentos. Ela se relaciona também com uma pretensa preocupação com o bem-estar das pessoas, mormente aquelas que se encontram em condições precárias de saúde por deficiência em algum dos seus órgãos. A esta altura é preciso alertar para a ambiguidade de certos procedimentos laboratoriais acobertados pela palavra “terapêutica”, sobretudo quando conjugada à clonagem. A clonagem dita terapêutica pode consistir num esforço por regenerar tecidos e órgãos. Mas também pode consistir na tentativa de produzir tecidos e órgãos. Ainda que essas tentativas possam trazer esperanças, no sentido de se obterem órgãos necessários para transplantes, por enquanto não passam de possibilidade remota. Entretanto, admitindo que um dia isso se torne possível, deparamos com dois grandes impasses: um relativo à origem das células-tronco, necessárias para esse procedimento, e outro relativo ao gerenciamento dos bancos de órgãos. No primeiro caso, ao mesmo tempo que nos alegramos com os avanços feitos mediante pesquisas responsáveis com células-tronco denominadas adultas (encontradas sobretudo no cordão umbilical), não há como não se indignar com a insistência sobre a liberação das células embrionárias. Concretamente isso significaria tirar de um embrião humano, já existente ou produzido, o que interessa e descartar o restante. Contudo, não podemos perder de vista a segunda questão, que se refere à administração desses eventuais órgãos produzidos. Sabidamente existe hoje um grande comércio de órgãos, o qual tenderia a crescer à medida que fosse gerenciado por empresas meramente comerciais, e não por organismos de caráter humanista.

 

4. Conclusão

De repente, aquilo que até há pouco era próprio do campo das fantasias vem se tornando realidade: já nos encontramos profundamente mergulhados na era da biotecnologia e até mesmo da manipulação genética. A mesma técnica supersofisticada que alimenta as várias indústrias passa agora a ser direcionada para desvendar os mais secretos mistérios da vida e até para eventualmente interferir neles. A conjugação de ciências e tecnologias afins produziu, em ritmo acelerado, a nítida sensação de que nos encontramos numa espécie de terceiro momento da Criação: o primeiro seria o de Deus; o segundo dos seres humanos enquanto utilizam a tecnologia para moldar o mundo externo; o terceiro seria exatamente este no qual estamos vivendo. De fato, nunca a humanidade dispôs de tantos conhecimentos sobre os segredos da vida e nunca teve tanto acesso aos seus mecanismos para eventuais alterações. Se antes os seres humanos agiam de fora para dentro, agora são capazes de entrar no último reduto dos seres vivos e provocar mudanças de dentro para fora.

Esse conhecimento e esse poder, maiores do que em qualquer outra etapa da humanidade, despertam sentimentos contraditórios. Por um lado, despertam muita esperança de se conseguir viver mais e melhor — e também de se conseguir a cura radical de doenças de cunho genético. Por outro lado, tamanho conhecimento e poder, concentrados nas mãos de pequenos grupos, fazem emergir fundados temores de que tudo isso pode gerar uma série de males nunca antes conhecidos. A produção de armas cada vez mais mortais é apenas uma pequena amostra das “maldades” que podem ser produzidas em laboratório: armas químicas e bacteriológicas fazem hoje parte dos arsenais das nações mais poderosas.

As mesmas esperanças e os mesmos receios apontam ainda para outra direção: a ecológica. Hoje se tem consciência muito mais acentuada sobre a vital ligação entre todos os seres, numa espécie de cadeia onde nenhum elo deve ser rompido. A ligação entre os seres, contudo, não constitui uma massa informe. Até pelo contrário: é a originalidade de cada espécie, e de cada ser dentro de cada espécie, que caracteriza a relação vital de tudo com tudo. Sendo assim, misturar arbitrariamente as espécies, mormente por meio da clonagem provocada, pode ser o começo do fim da biodiversidade. Nesse contexto convém recordar as primeiras páginas do livro do Gênesis, em que se vê a origem da biodiversidade: dando a identidade própria a cada ser, Deus acaba com a confusão inicial e coloca ordem, ou seja: a ordem divina é que se evite a confusão das espécies. Afetar a biodiversidade é correr o risco de levar o mundo a uma confusão nunca vista antes. A sabedoria de Deus se manifesta na criação das diferenças: tudo é semelhante, mas ao mesmo tempo tudo é diferente. A loucura humana se manifesta na tentativa de padronizar tudo — também os seres vivos. Preservar a biodiversidade, respeitando a natureza profunda de todas as coisas, é a maneira mais segura de garantir uma trajetória humana em sintonia com os grandiosos planos de Deus.

Frei Antônio Moser