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Publicado em Novembro-Dezembro de 1996 (pp. 29-35)

Pastoral nos hospitais: o desafio de ousar no anúncio da Boa nova

Por Pe. Léo Pessini

Os hospitais são hoje os “novos areópagos” a serem atingidos com a força transformadora do Evangelho e, a exemplo de Paulo, somos chamados a falar do “Deus desconhecido” em meio a tantos deuses (ídolos). Dados recentes do Ministério da Saúde informam que o Brasil possuía, em 1994, 6.369 hospitais, com 507.088 leitos.

No dizer de Carlos Gentile de Mello, “o ideal seria que as pessoas não adoecessem; adoecendo, que fossem tratadas sem necessidade de hospitalização; hospitalizadas, que tivessem alta o mais rápido possível; afinal, conforme reconhecem os especialistas, o hospital é um lugar insalubre por vocação”. Estamos longe do ideal entrevisto pela Organização Mundial da Saúde, que vê o hospital como guardião da saúde da comunidade. Nele se aglomeram todas as mazelas sociais de todos os níveis, culturas, credos e raças. Num contexto profundamente hostil à vida, o hospital não deixa também de ser parte da “cultura da morte”. Já foi dito que o Brasil é um grande hospital, rico de gente pobre doente. É preciso se organizar e desenvolver uma ação pastoral libertadora nesta realidade que promova a “cultura da vida”. Para além do sacramentalismo vazio, humanização e evangelização se fazem necessárias. O projeto de evangelização da Igreja no Brasil em preparação ao grande jubileu do ano 2000 aponta para a meta de tornar a pastoral mais evangelizadora, e isto traz como exigência a passagem de uma visão da Igreja mais voltada sobre si mesma para uma Igreja mais voltada para o mundo (nn. 64 e 65). É nessa direção que situamos a presente reflexão.

Neste texto apresentamos alguns dados do que acontece nos EUA, onde tivemos a oportunidade durante mais de dois anos de frequentar o curso de formação em Pastoral Clínica, no St. Luke’s Hospital, em Milwaukee, Wisconsin (1982-1983; 1985-1986). Isso pode ser fonte de inspiração para nós, não obstante as diferenças culturais, religiosas e sociais. Não se trata de, ingenuamente, transplantar um modelo alienígena, mas captar uma inspiração que pode nos ajudar. Aproveitamos outrossim a experiência de 12 anos à frente da Capelania do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde nos últimos anos temos supervisionado a formação de seminaristas, religiosos, pastores e leigos na área da saúde.

Num primeiro momento, apresentaremos algumas informações a respeito de nova metodologia de formação de capelães e agentes de pastoral da saúde (parte I). Em seguida, focalizaremos nossa atenção no complexo processo de evangelizar o mundo hospitalar, apresentando os objetivos e atividades do serviço de pastoral no hospital (parte II). Prosseguimos identificando alguns problemas atuais de bioética (parte III) e concluímos apontando alguns desafios para a ação pastoral evangelizadora nas instituições hospitalares (parte IV).

 

I. NOVA METODOLOGIA DE FORMAÇÃO DE CAPELÃES E AGENTES DE SAUDE: EDUCAÇÃO EM PASTORAL CLÍNICA (EPC)

 

1. Uma notícia histórica[1]

Os precursores da Educação Pastoral Clínica (Doravante abreviaremos por EPC) situam-se no início deste século, quando Dr. Richard Cabot, em Boston, e Dr. William S. Keller, em Cincinnati (Ohio), envolveram estudantes de teologia no campo médico e psiquiátrico, expondo-os ao método de estudo de caso. O primeiro grupo de estudantes de teologia que enfoca o relacionamento religião e saúde mental está em Worcester (Massachusetts), no hospital estatal do mesmo nome, no verão de 1925 sob a supervisão do Rev. Anton T. Boisen, considerado o pai da EPC. Este Pastor, acometido de um esgotamento mental, percebeu durante sua hospitalização que a preparação das pessoas que desenvolviam um trabalho pastoral na instituição era muito deficiente, e que não podia limitar-se a livros e cursos teóricos. Para de fato ser eficaz, deve trabalhar com documentos viventes (human living documents), isto é, pessoas que estão passando por uma situação de sofrimento, num processo educativo de aprender fazendo (conjugação de teoria e prática) através de encontros supervisionados com documentos viventes.

Em 17 de novembro de 1967 nasce a ASSOCIAÇÃO DE PASTORAL CLÍNICA (Association for Clinical Pastoral Education — ACPE), organização de âmbito nacional. Hoje esta Associação conta com 368 centros de formação, 110 seminários afiliados, 884 supervisores certificados (corresponde ao nível doutoral) e um número de 3.571 membros afiliados. Sua sede está situada em Decatur, Georgia[2]. A predominância é protestante, mas existe um excelente nível de diálogo ecumênico entre as diferentes Igrejas, seja em hospitais, paróquias, instituições penitenciárias ou nas comunidades.

 

2. O que é Educação em Pastoral Clínica (EPC)[3]

O coração da EPC é o seu próprio trabalho pastoral com as pessoas e aprendendo do ministério pela reflexão, discussão e avaliação com outros estudantes e supervisor. Na experiência de EPC, utiliza-se de entrevistas escritas, estudos de caso e outras descrições de seu ministério, que revelam e apresentam seu ministério para supervisão. O enfoque em alguns “seminários” é sobre o que está acontecendo com o estudante, prestador de cuidados, tanto quanto sobre o que acontece com as pessoas com as quais se está trabalhando. Acontecem discussões que ajudam a compreender as questões teológicas que surgem da experiência. Existem oportunidades de aprender das ciências comportamentais juntamente com a reflexão teológica, de maneira que se pode beneficiar de ambas para uma melhor compreensão da condição humana. A pessoa é desafiada a considerar grupos, estruturas sociais bem como pessoas ao identificar seu estilo de ministério. Além disso, participa-se de um grupo dinâmico de aprendizagem com outros estudantes e supervisor, que proporcionam oportunidades de supervisão mútua, cuidado, confronto e apreciação. A originalidade da EPC está na abordagem dos problemas teológicos, não através do estudo de livros e tradições religiosas, mas aprender fazendo (learning by doing) utilizando-se do estudo de documentos viventes (human living documents). A matéria bruta sobre a qual se apoia a dinâmica de formação é a própria experiência pastoral. A reflexão sobre esta compreende vários momentos: observação e descrição, análises e interpretações, ação e avaliação (metodologia indutiva).

O ambiente de aprendizado é um processo dinâmico. O papel do supervisor é fundamental para garantir este contexto de aprendizagem. O supervisor é aquele que tem os espelhos diante do estudante, de modo que se pode ver o comportamento humano e pastoral. Situado num ponto mais elevado, vê o comportamento do estudante para além das aparências e esconderijos, onde operam mecanismos inconscientes, procurando ajudar o estudante a crescer no conhecimento de si mesmo e a modificar responsavelmente seu próprio comportamento. A supervisão tem três características básicas: a) remete o estudante constante­mente ao centro do problema — ele próprio — desafiando as tentativas inconscientes de projetar sobre os outros as causas de seus próprios conflitos ou dificuldades; b) ajuda o estudante a explorar diferentes alternativas para enfrentar os problemas; c) exercita o estudante a questionar situações e a se questionar. Frequentemente o agente de pastoral investe tempo e energia em problemas que são periféricos e acidentais, sem se perguntar pelos pressupostos em que se apoiam tais ações.

Esses dados levantados do processo formativo nos dão uma ideia de como é levada a sério a formação, o preparo humano, psicológico, científico e pastoral do Capelão e/ou agente de pastoral[4]. Vejamos agora algumas perspectivas de evangelização nas nossas instituições hospitalares.

 

II. EVANGELIZAÇÃO NOS HOSPITAIS[5]

Num rápido relance histórico, é importante ter em mente o que fala Michel Foucault[6] a respeito da evolução dos hospitais: “Antes do século XVIII, o hospital era essencialmente uma instituição de assistência aos pobres. Instituição de assistência, como também de separação e exclusão. O pobre como pobre tem necessidade de assistência e, como doente, portador de doença e de possível contágio, é perigoso. Por estas razões, o hospital deve estar presente tanto para recolhê-lo quanto para proteger os outros do perigo que ele encarna. O personagem ideal do hospital, até o século XVIII, não é o doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo. É alguém que deve ser assistido material e espiritualmente, alguém a quem se deve dar os últimos cuidados e o último sacramento. Esta é a função essencial do hospital. Dizia-se correntemente, nesta época, que o hospital era um morredouro, um lugar onde morrer”.

Esse panorama sofreu profundas transformações. O hospital deixou de ser um centro caritativo, para ser um centro terapêutico de promoção, proteção e recuperação da saúde como direito; de instituição eminentemente religiosa para ser uma instituição política, pública e civil. Antes ia-se basicamente para morrer, hoje recorre-se ao hospital para se viver mais e sem sofrimentos.

O hospital é um microcosmo do macrocosmo, isto é, nele encontramos, em dose concentrada, um resumo do que de mais nobre, de mais bonito e incrível a sociedade tem, bem como do que de mais triste, degradante e violento nela existe. Ele aceita e acolhe indistintamente a todos. Nele nos defrontamos com a realidade nua e crua, sem disfarces ou máscaras, com aquilo que as pessoas são: nem maiores nem menores do que elas mesmas.

É uma realidade contrastante que nos provoca. No hospital nos defrontamos com o santo e o bandido, o crente e o ateu, a criança que apenas exalou o primeiro vagido de chegada e que se torna um sussurro de adeus e, por outro lado, com o idoso que, no vigor de seus 90 anos, ainda luta para viver mais; tantas mulheres querendo ser mães e não podendo (recorre-se à inseminação artificial) e, por outro lado, tantas, podendo, jogam fora vidas incipientes (abortos).

Em situação de emergência, chega alguém que fez de tudo para tirar a própria vida e os profissionais fazem o possível e o impossível para que continue a viver. É um contraste chocante, provocador de indignação ética em muitas instâncias, mas que nos convoca a ser arautos destemidos da boa nova da vida, e não da morte, da esperança, e não do desespero, da solidariedade, e não da indiferença.

É neste contexto contrastante e contraditório, pluralista e sempre mais secularizado, onde ganha prioridade a eficiência técnico-científica, que precisamos pensar e planejar a ação evangelizadora e pastoral. Sem dúvida esta realidade se constitui num moderno areópago que desafia o impulso missionário da Igreja e lhe apresenta novas prioridades para uma evangelização inculturada, honrando as quatro exigências: serviço, diálogo, anúncio missionário (querigma) e testemunho da comunhão eclesial.

Nessa perspectiva apresentamos um projeto de Pastoral de saúde que objetiva a organização, revitalização e dinamização do trabalho de Pastoral da Saúde a ser desenvolvido na realidade hospitalar. Baseia-se fundamentalmente na experiência pastoral no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e hospitais camilianos. Trata-se de uma visão de horizonte a iluminar a realidade de cada instituição hospitalar no sentido de se eleger algumas prioridades que respondam às necessidades urgentes e emergentes da realidade. Um hospital situado na área urbana de São Paulo, por exemplo, tem desafios e problemas pastorais muito distintos de um hospital localizado no interior do Ceará. A criatividade pastoral aliada ao conhecimento da realidade e sensibilidade evangélica formam um tripé fundamental no processo de gerar vida e saúde nas instituições hospitalares guardiãs da saúde da comunidade.

Registramos que já se realizaram oito encontros nacionais de capelães hospitalares no Brasil com expressiva participação de evangélicos, com os seguintes temas: 1989: Pastoral da saúde e o clero no mundo contemporâneo; 1990: O serviço religioso no hospital; 1991: A pastoral da saúde na Igreja e a pastoral hospitalar; 1992: Relação de ajuda na abordagem pastoral e bioética: desafio para a pastoral hospitalar; 1993: O hospital hoje: desafio para a nova evangelização; 1994: A relação pastoral de ajuda; 1995: A pastoral hospitalar e o diálogo multidisciplinar; 1996: Diretrizes para uma ação evangelizadora no mundo hospitalar.

Como fruto de toda essa caminhada foi delineada a seguinte perspectiva da pastoral no mundo hospitalar:

Objetivo geral: Contribuir para a promoção da saúde em todas as suas dimensões para que as pessoas tenham vida plena, sinal do Reino entre nós, resgatando o sentido da vida diante do sofrimento humano, numa perspectiva evangélica.

 

Objetivos específicos:

1) zelar pela humanização e evangelização do ambiente hospitalar, visando ao bem-estar global de todos os que se encontram na realidade hospitalar (profissionais, doentes e familiares);

2) favorecer políticas de humanização, colocando o doente como razão de ser do hospital e resgatar pelo testemunho a dignidade humana, alimentando a fé e a esperança;

3) sensibilizar e integrar a comunidade ao hospital, uma vez que este faz parte dela;

4) estabelecer canais de comunicação com as instituições públicas e privadas que atuam na área da saúde;

5) acompanhar as atividades desenvolvidas pelos Conselhos Municipais de Saúde, participando delas sempre que possível;

6) preparar agentes de saúde, visitadores de doentes para anunciar a Boa Nova ao ser humano, diante do confronto com o sofrimento, a doença e a morte;

7) proporcionar assistência psicoespiritual aos enfermos internados e em domicílio;

8) dialogar com as diferentes tradições religiosas, num espírito ecumênico, respeitando a liberdade de religião;

9) celebrar no hospital e comunidade datas significativas relacionadas com o mundo da saúde, tais como Natal, Páscoa, Dia do Enfermo, Dia Mundial da Saúde (7 de abril), Dia do Médico, da Enfermagem etc.;

10) promover a valorização humana, profissional e cristã de quem atua no hospital, objetivando a criação de espírito comunitário.

 

Atividades a desenvolver

As atividades a serem desenvolvidas se centram em três áreas, a saber:

1) Junto aos profissionais da saúde e servidores do hospital

Com ações que:

— primem pelo atendimento pastoral aos profissionais da saúde que atuam no hospital;

— programem palestras, cursos, debates e currículos de estudo sobre assuntos de interesse da vida hospitalar e comunitária: bioética, relações humanas, evangelização, catequese etc.;

— realizem cursos de evangelização, aprofundamento de temas cristãos ligados ao mundo da saúde, tais como: sofrimento humano, morte, cura na perspectiva bíblica, sentido humano e cristão do trabalho etc.;

— engajem os profissionais da saúde e servidores no processo de humanização e evangelização[7].

 

2) Junto aos doentes e familiares

— visitando os doentes internados no hospital de forma metódica e organizada, acompanhando de modo especial os que estão em situações críticas, especialmente em UTIs e Prontos-Socorros;

— programando e realizando celebrações litúrgicas criativas (missas, cultos) que resgatem a dimensão celebrativa da vida numa perspectiva de fé e esperança;

— estando com os familiares dos doentes, ajudando-os nos momentos de crise e perda de seus entes queridos (pastoral do luto);

— possibilitando aos doentes a recepção dos sacramentos e sacramentais quando o desejarem, preparando-os dignamente;

— acompanhando os doentes e idosos da comunidade que necessitem de cuidados de saúde;

— elaborando subsídios (livretes, mensagens, boletins etc.) que transmitam esperança, otimismo, cuidado e fé.

 

3) Junto à comunidade

— promoção de encontros de grupos paroquiais, movimentos eclesiais e entidades que atuam na área da saúde, para um trabalho conjunto de sensibilizar para o objetivo comum de promover saúde (educa­ção preventiva) e cuidar solidariamente dos doentes;

— formação psicoespiritual dos agentes de pastoral da saúde que são da comunidade e prestam serviço voluntário no hospital;

— organização de reuniões, dias de formação e treinamento em termos de aconselhamento e atendimento pastoral, para capacitação profissional (humana e técnica) das pessoas que desejarem prestar esse serviço;

— conscientização da comunidade sobre a necessidade de educar para a saúde e do seu papel transformador das estruturas de saúde (cidadania da vigilância);

— incentivo e atenção às ações básicas de saúde na comunidade, através de treinamento, palestras, cursos, orientações, educação etc.;

— criação de espaço para conscientização, valorização e divulgação do uso da medicina alternativa;

— estímulo para que profissionais da saúde do hospital prestem serviço de educação e assistência à saúde em comunidades carentes (favelas, periferia etc.).

 

Junto às perspectivas pastorais começa a surgir como necessidade o enfrentamento das questões da bioética.

 

III. ALGUNS PROBLEMAS DE BIOÉTICA QUE INTERFEREM NA PASTORAL HOSPITALAR[8]

Elencamos rapidamente algumas situações-problemas na área da saúde que têm e irão ter sempre mais uma presença conflitiva no exercício do ministério hospitalar, estando muito presentes em nosso meio principalmente nos hospitais universitários[9].

 

1. Desumanização crescente nos cuidados de saúde

Existem basicamente três fatores que levam a isso: a) tecnologização do cuidado. Tudo, desde a fase diagnóstica até o momento mais crítico que exige cuidados intensivos (UTI), é feito pela tecnologia computadorizada e digital. Isto sem dúvida traz eficiência, mas pergunta-se se não traz consigo o preço da despersonalização; b) preocupação econômica de contenção de custos diante do encarecimento dos serviços de saúde e escassez de recursos; c) presença crescente da justiça no âmbito da saúde. Questões médicas que se transformam em processos judiciais, devido a erros médicos. Se nos EUA a ingerência da justiça chega a ser abusiva, entre nós o problema é justamente a ausência de critérios de justiça neste setor.

Por muitas décadas as decisões médico-clínicas, que são decisões pessoais, eram tomadas com a tríade: paciente, família e médico. O que acontece? Fatores impessoais acabam tendo um papel fundamental em decisões estritamente pessoais. Com muita facilidade as coisas são sacralizadas e as pessoas coisificadas (“Você viu o pulmão do leito 32?”). Que dizer das imensas filas nos nossos hospitais?

 

2. Secularização da medicina

Nos EUA numerosos médicos abandonam a profissão (seguros altos, medicina como negócio, competição etc.) e se constata uma perda do idealismo nas profissões ligadas ao cuidado da saúde. A enfermagem passa por uma profunda crise, que se vê na diminuição do número de enfermeiras estudantes. Muitas escolas de enfermagem estão fechando. A aspiração de servir, cuidar e curar está sendo transformada gradualmente numa aspiração de ganhar dinheiro. Nota-se uma secularização crescente nos casos clínicos, do paternalismo para a presente autonomia do paciente (simbolizado na expressão: “Eu não vou impor meus valores ao paciente”). Um outro aspecto é a separação entre o papel profissional do médico, da enfermeira, por exemplo, e a verdadeira pessoa. O papel não é a pessoa, existe uma distinção. Age-se profissionalmente e ponto final, mas e preciso pontuar que é esse “profissionalismo” sem coração que está em crise hoje!

Em se tratando da medicina brasileira, é importante constatar que se trata de uma tradição secular imbuída de valores humanitários, mas sem se preocupar em fundamentar os princípios éticos cristãos. O diálogo multidisciplinar entre medicina e ética-teoló­gica, tão necessário, é ainda incipiente entre nós[10].

 

3. Surgimento de uma mentalidade eugênica

A busca do ser humano ideal, perfeito, se manifesta num verdadeiro horror em conceber bebês portadores de deficiência genética. A criança é vista como artigo de consumo. Há a sofisticação dos diagnósticos pré-natal, a aceitação cultural do aborto. Fala-se já do direito de cada casal ter uma criança saudável, mas cuidado, isso significa também o direito de descartar. Já acontece inseminação artificial de doadores por razões eugênicas em situações de não existência de doenças recessivas. O que existe de problemático nessa mentalidade eugênica? É que se avalia a pessoa apenas em um aspecto, e não como um ser misterioso que todos nós somos. Começamos então a avaliar as pessoas a partir de um cérebro ou de um músculo antes que de um todo. Isso traz uma série de questões éticas de difícil solução, entre outras: Quem tem direito de decidir o que é ou não aceitável?

 

4. O problema eclesiológico

Problema muito comum nas instituições de saúde católicas. A ligadura de trompas, problemas ligados com infertilidade humana, reprodução assistida, serve como ponta do iceberg de tantos outros aspectos da questão em jogo. Constata-se uma recusa crescente de analisar e agir meramente em termos de obediência à autoridade eclesiástica.

Não podemos esquecer e desconhecer que estamos longe de um regime de cristandade em que os princípios e valores cristãos são aceitos docilmente. Situamo-nos num ambiente extremamente conflitivo de valores, num contexto social sempre mais secularizado e pluralista em que a missão evangelizadora vai muito além da simples tentativa de aplicar os princípios éticos católicos à realidade. Como anunciar verdades eternas e universais num contexto que se organiza sempre mais a partir de “verdades” provisórias e precárias?

 

5. O mercado dando as cartas no sistema de saúde

Como entender isso? As instituições terão sua existência e normas basicamente ditadas por fatores econômicos. Ser financeiramente viável é a condição sine qua non de sobrevivência. A realidade é competitiva. Os hospitais têm seus diretores de marketing, muitos estão se unindo em Joint venture, para sobreviver. Serviços essenciais não se autossustentam, não produzem receita. A qualidade será sacrificada pela viabilidade econômica. Existirão muito mais pacientes fora do hospital em tratamento. Os pacientes internados serão os mais doentes e estarão primordialmente nas UTIs. Sempre menos idosos morrerão nos hospitais e mais em casa.

É evidente que tudo isso afeta a dimensão pastoral. No meio de tudo isso, como fica o sentido da missão do hospital católico? Pode simplesmente existir como uma retórica, completamente engolida por esses fatores acima mencionados. Está ainda para ser pensada no Brasil uma articulação de iniciativas institucionais católicas de saúde como frente única a se contrapor a ideologias totalmente estranhas aos valores da fé cristã e concretamente viabilizar atendimento de saúde às parcelas mais carentes da população.

 

6. Sofrimento e morte: que sentido dar?

Na Holanda 80% dos pacientes de AIDS morrem como resultado de eutanásia voluntária. Nesse país já existe legislação para eutanásia voluntária em determinadas situações específicas. A Austrália recentemente aprovou legislação a respeito. Nos EUA existem inúmeras iniciativas nesse sentido e os “shows” do chamado Dr. morte (Jack Kevorkian) continuam a ser espetáculo para a mídia. Fala-se de eutanásia, distanásia, obstinação terapêutica, morrer com dignidade[11].

Entre nós, a partir da problemática da AIDS, fomos obrigados a olhar de frente esta questão do morrer. Defrontamo-nos com o despreparo incrível dos profissionais da saúde treinados somente com técnica, mas sem perspectiva ética. É óbvio que, antes de se proporcionar uma morte com dignidade, temos de lutar por dignidade de vida. Morre-se com dignidade como consequência do viver dignamente[12]. Como exercer o ministério junto aos que morrem, num contexto em que os valores cristãos de julgar o sentido da vida e da morte pouco contam?

Essa problemática bioética precisa ser enfrentada com lucidez crítica, senão corremos o risco de ser transformados em inocentes úteis, ou em meros fiscalizadores da moral alheia. Comentaremos alguns desafios para o exercício da Pastoral da Saúde na sua dimensão solidária para a nossa realidade.

 

IV. DESAFIOS PARA UMA EVANGELIZAÇÃO E PASTORAL CRIATIVAS

Como podemos ver do que foi exposto, o perfil que se tem do capelão e/ou agente de pastoral que atua no contexto hospitalar é o de um profissional altamente competente, com formação específica e especializada, levada muito a sério. Não há lugar para improvisações. Dentro de uma cultura pragmática e racional como a americana, a ênfase obviamente cai sobre a competência profissional.

Nos EUA investe-se muito para poucos. Num nível de especialização utiliza-se de tudo: tempo, instrumentos, capacidade e preparo para relativamente poucos. Faz-se muito bem o que se faz, ou então não se faz. No mundo latino-americano faz-se um pouco de tudo para muitos (massa) em nível pastoral. Situamo-nos num nível primário, básico, geral e global. Diante de uma multidão sedenta e com poucos pastores, especialização é um luxo. Faz-se como pode e o que se consegue. Praticamente é um sonho pensar em qualidade de serviço pastoral.

Na situação de muito investimento para poucos, temos sem dúvida uma qualidade excelente, mas corre-se o risco de perda de visão do horizonte maior onde a ação pastoral se insere. No contexto de ação pastoral básica para muitos, tem-se uma visão global de horizonte, mas corre-se o perigo de atuar somente na superficialidade dos problemas. Como não perder a visão de horizonte na especialidade e não se perder na superficialidade atuando em nível global? É possível uma síntese?

Na formação dos futuros sacerdotes exige-se pelo menos duas unidades de Educação pastoral clínica (800 horas de educação supervisionada), em hospitais, prisões, asilos, paróquias etc. Nos hospitais, o Departamento de Pastoral da Saúde (Capelania) tem seu lugar de destaque, com estrutura física adequada, orçamento próprio (investe-se em profissionais alta­mente especializados). O que define o ser capelão não é a ordenação, mas a competência, a preparação educacional especializada, o critério fundamental. Temos, assim, atuando neste serviço, inúmeras leigas e religiosas que são chamadas de capelães. Para cada cem leitos existe um capelão em tempo integral, em média. Os hospitais religiosos investem generosamente nesta atividade. E, diga-se de passagem, os capelães são profissionais muito bem remunerados e afiliados às suas respectivas associações dependendo da denominação religiosa.

No contexto cultural europeu, sobretudo latino, o sistema de educação sempre privilegiou a formação pastoral teórica, dando ao aprendizado prático um direito de cidadania de segunda categoria. A orientação pragmatista americana, pelo contrário, enfatiza a dimensão “prática”, do como agir e fazer, no ensino.

O que isso tem que ver com a realidade latino-americana?

Acreditamos que, a despeito de todas as diferenças culturais, econômicas, étnicas e éticas, entre outras, podemos ver que existe um trabalho muito sério de compromisso assistencial e de reflexão da Igreja na área da saúde. É evidente que temos de enfrentar os nossos desafios à luz das nossas possibilidades e características culturais, sem copiar. Há urgente necessidade de que aqueles que atuam nessa área se movam para além das paredes hospitalares, buscando a prevenção das doenças.

Uma outra característica de nota no confronto entre as duas realidades, norte-americana e latino-americana, é que o próprio conceito de capelão hospitalar é diferente do nosso. Não está condicionado à ordenação ministerial, embora a grande maioria dos capelães católicos sejam padres, e sim à competência profissional na área específica de espiritualidade, teologia, aconselhamento e bioética. Assim temos leigos(as), seminaristas, diáconos, trabalhando como profissionais nesta área, não sendo mais, portanto, marcadamente clericalizada.

Entre nós há todo um trabalho de conscientização a ser empreendido na área da saúde a respeito da importância dos serviços pastorais, como parte integrante dos cuidados globais que o doente deve receber. Nos novos hospitais públicos que surgem não existe nem mais a capela. Um hospital de cunho cristão, religioso, que não invista ou não tenha o serviço de pastoral (Capelania) organizado e atuante junto aos enfermos, profissionais e comunidade está perdendo uma chance preciosa de evangelização. É uma omissão imperdoável do ponto de vista cristão. Por este serviço é que se pode trabalhar a alma da Instituição, a missão e identidade cristã (filosofia e razão de ser), bem como ser um baluarte na arte de humanizar situações de crise e sofrimento humano. Uma das questões que necessita ser aprofundada em nível de conscientização é a necessidade de investimentos (recursos materiais e humanos) por parte das instituições hospitalares na área pastoral.

A constatação é que em relação a hospitais religiosos, pertencentes a dioceses, paróquias, congregações religiosas, que deveriam primar por uma atuação exemplar em nível de evangelização e pastoral, nem sempre correspondem às expectativas e necessidades. Numa situação caótica, o simples existir da instituição de saúde é visto como um fim em si. Pensar a respeito de filosofia da instituição (Por que e para que existe? Serve a quem?) fica sendo uma questão sem cidadania muito boa para sonhadores e idealistas. Existe muita improvisação que é confundida com criatividade. Prevalece ainda a mentalidade de ver saúde como caridade (mentalidade assistencialista), e não como um direito fundamental do ser humano. Acontecem com frequência abortos e esterilizações nesses hospitais, sendo que ninguém fala nada. Se não mexe com a saúde econômica da instituição, nem a prejudica, tudo bem! O questionamento ético, sendo um problema, deixa-se de lado, consequentemente os valores do mercado prevalecem sobre os valores humano-evangélicos. Está ainda para ser pensada a questão bioética em nível de países pobres do Terceiro Mundo, principalmente na área da saúde.

Por outro lado, em instituições confessionais, hospitais públicos, por vezes abrem-se portas e espaços que não são aproveitados inteligentemente. Aliás, nesta área não se fala em instalação de serviço pastoral, mantém-se as capelanias existentes por causa da tradição histórica (foram criadas dentro de um contexto de cristandade), mas não se criam novas. A presença do serviço religioso, mais do que bem-vinda é tolerada, ainda mais com as complicações do presente pluralismo e atuação agressiva das seitas em nível de proselitismo.

Na grande maioria dos hospitais, onde existem capelães trabalhando em tempo integral, o que é uma raridade, em geral se faz este serviço como um “bico pastoral”, não sendo acompanhado e supervisionado. Os capelães são em geral pessoas idosas que já deram o melhor de si em outro setor de atividade pastoral na Igreja e agora, como estão se aposentando ou doentes, se dedicam aos doentes, o que não deixa de ser um ato de heroísmo, mas, de longe, não responde mais às necessidades e desafios que brotam na área da saúde, que exigem uma preparação específica e especializada no diálogo fé-bioética com ciência-tecnologia-humanismo. Enquanto almejamos certa dose de profissionalismo que supere o amadorismo, nos países desenvolvidos onde já se atingiu um elevado nível de profissionalismo, questiona-se como ir além do mero papel profissional e resgatar a dimensão do coração, da presença terna e fraterna. Nesta dimensão nós, latinos, temos uma riqueza inestimável.

Deve-se crescer no nível de identidade, profissionalização e consideração do capelão e serviço da Capelania como parte integrante de fato, e não somente no nível teórico, no atendimento das necessidades do ser humano dentro de uma chave antropológica holística[13].

Outro assunto urgente para ser enfrentado corajosa e profeticamente é o de pensarmos a respeito da identidade das instituições católicas na área da saúde, repensando a razão de sua existência, bem como de nos organizar em torno de objetivos evangélicos comuns para trabalhar os desafios emergentes na área da saúde de uma forma criativa e inteligente.

Encerramos este trabalho com as palavras da exortação apostólica pós-sinodal Vita Consecrata. O que é dito aos religiosos vale para todos os cristãos: “A Igreja lembra aos consagrados e consagradas que faz parte da sua missão evangelizar os meios hospitalares onde trabalham, procurando iluminar, com a comunicação dos valores evangélicos, o modo de viver, sofrer e morrer dos homens do nosso tempo. É compromisso seu dedicarem-se à humanização da medicina e ao aprofundamento da bioética, ao serviço do Evangelho da vida (nº 83).



[1] Robert C. Powell, CPE: Fifty years of Learning through Supervised encounter with Living Human Documents, 1975, Association for Clinical Pastoral Education, Inc., Decatur, Georgia.

[2] The ACPE directory 1990-1991, Association for Clinical Pastoral Education, Inc. Decatur, Georgia, 1990, pp. 3-7.

[3] Clinical Pastoral Education – Application handbook, The Association for Clinical Pastoral Education, Decatur, Georgia, 1991, pp. 1-12.

[4] Para maior aprofundamento destas questões ler o artigo de Ângelo Brusco, “Os Capelães no Mundo da Saúde”, in L. Pessini, Pastoral da Saúde: ministério junto aos enfermos, Santuário/ICAPS, Aparecida, 1987.

[5] Cf. o nosso trabalho A pastoral nos hospitais: ousadia de inovar no anúncio da boa-nova, Santuário, Aparecida, 1993.

[6] Cf. Michel Foucault, Microfísica do poder, Grall, Rio de Janeiro, 1986, 6ª ed., pp. 101-102.

[7] Cf. Carta aos profissionais da saúde, do Pontifício Conselho da Pastoral para os Profissionais da Saúde, traduzida para o português por Ed. Paulinas, 1995.

[8] Para um aprofundamento maior cf. a nossa publicação Fundamentos da bioética, Paulus, São Paulo, 1996.

[9] Cf. Richard McCormick, “The future of chaplaincy: bioethical problems that shape ministry”, in Charting the future of Pastoral Care, National Association of Catholic Chaplains (special publications), Summer 1988, vol. 4, nº 1, pp.24-39. Cf. também, do mesmo autor, Health and Medicine in the catholic Tradition, The Cross Road Publishing Company, New York, 1984.

[10] Cf. Leonard M. Martin, A Ética Médica diante do paciente terminal: leitura ético-teológica da relação médi­co-paciente terminal nos códigos brasileiros de ética médi­ca, Santuário, Aparecida, 1993.

[11] Cf. o nosso último artigo “Distanásia: até quando investir sem agredir”, publicado na revista Bioética do Conselho Federal de Medicina, vol. 4, nº 1, 1996, pp. 31-43.

[12] Cf. Leocir Pessini, Morrer com dignidade, 2ª ed. atualizada e ampliada, Santuário, Aparecida, 1995.

[13] Cf. Léo Pessini e J. Inácio Mildener, “O perfil do capelão e a missão da capelania hospitalar”, in REB, junho 1992, fasc. 206, pp. 413-419.

Pe. Léo Pessini