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Publicado em Maio-Junho de 2000 (pp. 9-15)

O Sagrado e os mecanismos do mercado neoliberal

Por Prof. Renold J. Blank

1. O sagrado marca presença acentuada na época pós-industrial

Vivemos numa época chamada pós-industrial, pós-moderna, e, às vezes, até se diz que esta época é “pós-cristã”.

Contudo, apesar de pertencerem a esta época do “pós”, são exatamente esses cristãos que recentemente começaram a se manifestar em massa. Mega-shows religiosos demonstram a sua presença. Na televisão aparecem “astros” do sagrado que fazem aumentar os índices de audiência a patamares nunca antes observados. Consequentemente, é claro, sobem também os preços pagos pelo minuto de propaganda nessas emissoras de televisão.

Discos com músicas religiosas figuram entre os candidatos ao “disco de ouro” (quando não “de platina”), entregue com grande pompa aos respectivos cantores. A mídia exulta, e representantes de Igrejas ou de denominações cristãs distintas entram em competição nas previsões sobre quem, na próxima vez, reunirá mais fiéis nas ruas ou nos estádios de futebol. Tudo para mostrar a própria força, e para demonstrar a própria fé. Talvez para provar que essa fé ainda tem poder, ou simplesmente para louvar a Deus com maior potência de vozes e de alto-falantes.

São esses alguns dos fenômenos desta nova onda do religioso dentro da mídia e da sociedade. E a grande questão é como compreender tais fatos, quando por outro lado, assistimos, ao mesmo tempo, a tendências totalmente opostas. Há rejeição dos valores religiosos tradicionais. Só no Brasil, mais de meio milhão de católicos por ano deixam a própria Igreja. Estamos diante de uma geração de jovens para os quais os conteúdos da fé e as exigências da moral não contam mais.

À primeira vista, o ambiente pós-moderno parece totalmente oposto a qualquer tipo de manifestação do sagrado. E, no entanto, observamos tais manifestações em escala crescente.

Na tentativa de achar explicações para esse fenômeno, encontramos uma trama de mecanismos cujo eixo nos faz confrontar com algumas das mais profundas problemáticas do atual sistema neoliberal. A primeira delas é a que forma o centro vital desse sistema. Trata-se do mercado.

 

2. Os mecanismos do mercado marcam a época pós-moderna

A época pós-moderna é dominada pelas leis do mercado. Esse mercado faz de tudo “produto” a ser vendido.

Tudo pode ser comercializado pelo mercado. Tudo é bom, quando promete lucro.

Nessa perspectiva, também a religião nada mais é do que mais um dos possíveis produtos a serem comercializados. E quando promete dar lucro, vai ser comercializado.

Por causa disso observamos fatos tão contraditórios apresentados nos atuais programas de televisão. Um dia é apresentado um programa que expõe o corpo de alguma deusa do sexo; outro dia são oferecidos programas religiosos, outro mostra um programa esportivo ou musical. O tipo de programa não importa. O que importa é que o programa a ser mostrado tenha audiência, ou então, seja comprado. Importa que se venda, que se façam negócios e que o consumo se aqueça.

No interior da lógica do mercado neoliberal não vinga o que não pode tornar-se produto de compra e lucro.

 

3. Problemática intrínseca de um sistema onde tudo é potencial produto a ser vendido

Dentro deste sistema de consumo desenfreado, porém, aparece uma falha mortal. Os milhões de produtos a serem oferecidos ao consumidor, envelhecem. Eles se tornam superados em pouco tempo. Consequentemente, devem ser substituídos por outros novos, que por sua vez também envelhecem, e passam a ser descartados em favor de outros.

O mercado de produtos corre desesperadamente em busca de algo novo. De algo que substitua o antigo. De algo que possa ser comercializado. De algo que prometa satisfazer o profundo vazio do coração dos consumidores, condicionados pela propaganda a nunca ficarem satisfeitos com o que têm.

 

4. Para este sistema, o sagrado oferece-se como “produto novo”

É a partir da desenfreada busca por novos produtos a serem vendidos que devemos compreender o interesse crescente do mercado em oferecer artigos, eventos e programas religiosos, transmitidos por emissoras que pouco antes investiram em ressaltar as formas do corpo de alguma deusa do sexo ou os músculos de algum esportista famoso. Repentinamente descobriram a religião. E agora apresentam a imagem de Nossa Senhora e cantores que fazem dançar as suas plateias no ritmo de celebrações religiosas.

Apesar da satisfação que tal fenômeno produz em todos os que se identificam com os valores religiosos, nunca se pode esquecer o mecanismo utilizado pelo sistema neoliberal para incentivar tal interesse religioso. É claro que a intenção dos incentivadores de tais programas — pelo menos dentro das Igrejas tradicionais — não se identifica com os objetivos comerciais. Pelo contrário, esses investem em novos caminhos de evangelização, convencidos, com toda a razão, de que numa época marcada pela mídia, também a religião deve recorrer a todos esses novos meios de divulgação.

A partir do momento, porém, que entram em jogo os interesses do mercado, é enorme a possibilidade dos mecanismos deste mercado serem mais fortes do que a melhor das intenções. Como resultado, observamos aquilo que Ricardo Mariano chama de “progressiva acomodação… à sociedade e à cultura de consumo”[1].

Há muitos cristãos que não estão percebendo isso e estão se deixando seduzir por esses mecanismos.

Há católicos querendo detectar nos fenômenos da televangelização em massa um novo renascimento do espírito religioso, um novo tipo de evangelização, um novo vigor da fé. Talvez tenham razão. Mas a probabilidade de engano — ou melhor, de estarem sendo enganados — é muito grande.

O que vem à tona nessas recentes manifestações religiosas, na maior parte dos casos, situa-se muito longe da nova linha de evangelização exigida e propagada pelo episcopado latino-americano em Santo Domingo (cf. SD 23-156).

Na realidade, assistimos nessas manifestações, de maneira direta, aos mecanismos de mercado da época pós-moderna. Este mercado acabou de descobrir um novo artigo: o sagrado. A partir daí, tira proveito das boas intenções dos fiéis, desviando o sentido original dessas intenções.

O mercado descobriu que o sagrado fascina. Descobriu que as manifestações do religioso respondem a uma necessidade e que, consequentemente, há demanda para tal produto. E onde há demanda, ali se pode ganhar dinheiro.

Começa-se animando o extravasar das emoções religiosas e termina-se alugando até mesmo cadeiras aos participantes dos eventos sagrados. Esses eventos contam com estrutura que oferece medalhas, rosários, imagens, água do rio Jordão, discos, amuletos, orações impressas, velas e outros produtos. Tudo se torna produto, tudo se pode vender.

Muitos cristãos não percebem a ação desse mecanismo. E, como consequência, observa-se em tantos casos, como a sua boa fé está sendo explorada, e os seus melhores sentimentos religiosos estão sendo profanados pelos interesses comerciais e ideológicos do sistema de consumo. O atual sistema faz com que esse novo vigor e entusiasmo religioso sejam canalizados em oportunidades de comercializar novo produto. Produto que corresponde a uma demanda, é inegável. Mas, nem por isso, deixa de ser produto que dá lucro e que se torna interessante enquanto der lucro.

Por essa razão, vamos continuar assistindo a eventos triunfalistas de manifestações religiosas para as massas. Pode-se continuar vendo outros shows do sagrado e outras entrevistas de astros do show-business religioso. Isso irá até o ponto em que os índices do Ibope compensarem.

Partir da assistência a reuniões de massa, que cantam músicas religiosas, pode ser interessante. Mas isso ainda não é evangelização. Essa requer a vivência de camadas mais profundas da existência humana.

Participar do entusiasmo de milhares de pessoas que se emocionam, pode ser empolgante. Mas, com o tempo, percebe-se que o puro emocionalismo não consegue dar a resposta às indagações essenciais e aos problemas da vida.

Eis o problema e o perigo. Depois do entusiasmo, estabelece-se o vazio. Depois do êxtase, vem a frustração.

Obedecendo às regras do mercado, o sagrado como “produto” será trocado a partir do momento em que não estiver mais dando lucro. Será descartado como qualquer outro produto que, depois de ser enfatizado, torna-se “velho”. O produto será abandonado tanto pelos vendedores quanto pelos consumidores, acostumados a comprar aquilo que satisfaz.

O resultado, depois de uma onda de entusiasmo, será a frustração. E a maior parte do contingente das massas que agora assistem às missas massificadas, aplaudirão amanhã, no mesmo estádio, uma cantora de sucesso, e depois se deixarão entusiasmar por um jogo de futebol.

Em consequência, depois de uma onda de programas religiosos consumidos, grande parte dos consumidores buscarão novamente o que diferencia. É a partir daí que surge o desafio para toda a televangelização. Ela não pode ficar na camada superficial, mas deve aprofundar seu conteúdo. Ela deve falar das exigências e dos valores do Reino de Deus.

A “Nova Evangelização”, assim como Santo Domingo a compreendeu, não pode confiar no mecanismo do mercado para as massas. Em verdade, esse mercado interessa-se apenas comercialmente pelos que têm profunda necessidade religiosa. Além disso, manipula ideologicamente os que apresentam essa necessidade.

Isso nos conduz a mais uma problemática envolvendo a atual onda de produtos sagrados: a exploração das necessidades religiosas.

 

5. A exploração de uma profunda necessidade religiosa

O nosso povo é profundamente religioso. A religião faz parte de sua vida e de seu pensamento.

Numa época onde tudo se pode tornar mercadoria, onde é imperiosa a necessidade de apresentar novos produtos, o mercado descobriu esse sentimento religioso e fez dele um produto. Como consequência das profundas frustrações causadas por uma sociedade puramente material, as pessoas redescobriram, a dimensão do sagrado. Há uma demanda de religião, sobretudo nas sociedades pós-modernas. Interessa explorar essa ampla demanda. Seu potencial econômico é incentivado pela propaganda. Quanto mais consumidores, melhor. A televisão se apresenta como meio de difusão, e, assim, a demanda aumenta.

A religião está sendo apresentada como algo moderno, interessante, fazendo com que funcionem os mecanismos do mercado, da mesma maneira que funcionam na comercialização daquilo que, uma vez, era a ideia original da festa de Natal. Na realidade, assistimos a uma profanação de conteúdos religiosos, e a maioria daqueles que dela participam, nem o percebem. Há também os que não querem perceber isso. Sentem-se à vontade com esse tipo de apresentação do sagrado, com uma religiosidade de fácil acesso, leve e sem grandes implicações sociais.

Nesse contexto, os megaeventos religiosos promovidos pelos mais variados organizadores, desenvolvem papel muito especial.

 

6. Megaeventos religiosos respondem à insegurança de quem busca autoafirmação de seus sentimentos e desejos religiosos

A época pós-moderna, como foi dito, produz nova busca do fenômeno religioso, mas também questiona e ridiculariza esse fenômeno. Por causa disso, grandes camadas de nosso povo — profundamente religioso e emotivo, e de uma generosidade maravilhosa — estão, ao mesmo tempo, profundamente inseguras na sua religiosidade.

Será que no século XXI continuará sendo moderno ter religião? Será que ser religioso não se tornará algo ultrapassado?

Há muitas vozes afirmando que sim. Há tantos mecanismos que confirmam essa insegurança. Há experiências sugerindo que a religião será algo do passado. E há vozes que inspiram de maneira especial a ideia de que uma fé ligada às grandes Igrejas tradicionais, existente atualmente, tornar-se-á superada.

Diante de tantas dúvidas, o indivíduo busca instintivamente uma confirmação de sua religiosidade. Será que outros também são religiosos como eu? Será que outros também consideram a religião algo necessário? Será que certo tipo de religiosidade, já profundamente questionado pelo Concílio Vaticano II, ainda pode ser praticado?

Perante essas indagações, os megaeventos religiosos de todo o tipo exercem uma importante função psicológica. Os seus participantes se sentem confirmados na própria fé. Os outros também são religiosos. Os outros também confessam este tipo de religiosidade. Não estou sozinho.

A partir dessa experiência começam a funcionar os mecanismos da psicologia de massas. O indivíduo, inseguro e cheio de dúvidas, experimenta na multidão de iguais a confirmação de sua convicção — exatamente aquela confirmação que precisava para esquecer as suas dúvidas.

Assim surge mais uma demanda que pode ser explorada pelo mercado. Mais um produto a ser vendido. Mais uma necessidade a ser incentivada. E novamente encontramos os mecanismos do mercado neoliberal, interessado em participar, ávido em lucrar, atento a propagar enquanto isso reverter em lucro.

No entanto, há imenso abismo entre tais eventos hoje televisionados e as verdadeiras manifestações religiosas de nosso povo — aquelas manifestações em que esse povo, na luta e na solidariedade fraterna, celebra a sua fé num Deus que renova todas as coisas.

Quando analisamos o conteúdo transmitido pela maioria dos megaeventos religiosos da nova onda, descobrimos que têm as características de “show”. E, como acontece na maioria dos shows, são encenados para atender aos mais variados interesses. O conteúdo efetivamente consistente, todavia, é difícil encontrar. Há emoções, sim. Há movimentação e oba-oba. Trata-se de emocionalismo religioso que, ao final do evento, simplesmente evapora.

O mundo não foi transformado. O isolamento das pessoas continua o mesmo. A exclusão dentro da sociedade não diminuiu. Os mecanismos de competição de todos contra todos não desapareceram. As estruturas injustas não foram eliminadas. Aquilo que a IV Conferência do Episcopado Latino Americano formulou de maneira magistral, não foi alcançado: “Procuramos realizar o que ele (Jesus Cristo) fez e ensinou: assumir a dor da humanidade e atuar para que se converta em caminho de redenção”[2].

Algumas dezenas de milhares de pessoas gozaram, sim, de um conforto religioso passageiro. Mas, será que é para isso que Jesus nos chamou? Fomos chamados para buscar conforto espiritual? Para gozar de emoções individualistas ou triunfalistas? O Reino de Deus, centro da mensagem de Jesus, realizar-se-ia na fruição de emoções?

Descobrimos aí mais um dos mecanismos do mercado que explora o sagrado.

Tal mercado está interessado em despertar emoções religiosas, mas não se interessa pelo conteúdo da religião. Emoções podem ser manipuladas, o conteúdo não. Por causa disso, o sistema usa de todos os meios para transmitir tais emoções, como se fossem o conteúdo. E inúmeros cristãos, mais uma vez, se deixam seduzir.

Isso nos lembra o episódio de Jesus poder convencer facilmente as massas a acreditarem ser ele o messias, se aceitasse jogar-se do alto da torre do templo. Jesus não o fez, apesar de ser tentado a agir assim (cf. Lc 4,9-12).

Jesus resistiu à tentação de promover um show. Há, no entanto, muitos cristãos que não resistem. Ao invés disso, entram no jogo do sistema que os manipula. Sustentam os mecanismos neoliberais do mercado, sem o perceber.

Por causa disso, vale a pena lembrar outra vez os mecanismos desse sistema. E vale a pena, mais uma vez, mencionar que o interesse do sistema, em última análise, é a manipulação de sentimentos religiosos, e não a construção do Reino de Deus.

A manipulação mais bem-feita é aquela que consegue convencer o consumidor de que este em nada está sendo manipulado. Partindo desse princípio, o sistema usa o sagrado como meio, para compensar as profundas frustrações que ele mesmo causou. Não só usa o sagrado, mas também os defensores desse sagrado. Usa aqueles que, com a melhor das intenções, querem dar à religião um aspecto mais jovem, mais moderno, mais atual.

Preocupados com o avanço das seitas, com a falta de emocionalidade, com a perda de fiéis, também em nossa Igreja há tantos irmãos e irmãs que se comprometeram com novos métodos de divulgação eletrônica do sagrado. Com certeza o que os motivam é a melhor das intenções. Mas uma vez dentro dos mecanismos do mercado neoliberal, tornam-se vítimas desses mecanismos. O mercado e suas leis são mais fortes do que as melhores intenções que alguém possa ter.

Daí a importância da conscientização sobre esse perigo. É preciso conhecer os mecanismos que sustentam o mercado para não se deixar seduzir por eles.

É preciso estar atentos para não chegar, àquele ponto, onde se pode aplicar também para nós a dura crítica do profeta Amós: “Odeio, desprezo vossas festas e não gosto de vossas reuniões. Porque se me ofereceis holocaustos, não me agradam vossas oferendas… Afasta de mim o ruído de teus cantos, não quero ouvir o som de tuas harpas! Que o direito corra como a água e a justiça como rio caudaloso” (Am 5,21-24).

 

7. O sistema neoliberal usa a religião como mecanismo de compensação para as frustrações causadas, pelo próprio sistema

O sistema neoliberal de mercado, por si mesmo, causa profundas frustrações nos seus integrantes. Sob o lema da “eficiência” e da “qualidade total”, exige do indivíduo um desempenho pleno que não deixa espaço para nenhuma dimensão emocional. O homem deve funcionar, à maneira de uma máquina, com “qualidade total”.

A competição substitui a solidariedade. No seu trabalho, cada um se torna o concorrente dos demais. Há qualificações permanentes do desempenho e uma corrida desenfreada para subir. Quem não participa dessa corrida será excluído, e quem não agrada o seu chefe, não tem possibilidade de sobreviver.

Nesse sistema de mentiras mútuas, a pessoa deve adaptar-se constantemente a novas exigências e deve, permanentemente, confirmar que o seu único interesse é o bem-estar da empresa, pela qual trabalha. O resultado, para tal empresa, é a maximização do lucro — e este, afinal, é o lema central do sistema.

O indivíduo que faz parte de tal sistema, porém, fica emocionalmente vazio, profundamente frustrado nas suas necessidades pessoais; afastado das dimensões transcendentes da vida e reduzido a um mecanismo funcional que o priva de todo o sentido — além de ser consumidor.

Tal indivíduo não é capaz de alcançar o desempenho total no seu trabalho, e vai perdendo a sua eficiência. O sistema, porém, está unicamente interessado nisso: só que, no fundo, é ele mesmo que impossibilita aquilo que exige.

Não obstante isso, para que possa funcionar — para que a eficiência exigida seja possível —, é imprescindível que as profundas frustrações, de seus integrantes possam ser compensadas em outros níveis e por outras experiências. Uma pessoa frustrada não alcança eficiência total.

É por causa disso que o sistema neoliberal oferece mecanismos de compensação. Mecanismos capazes de compensar as frustrações que o próprio sistema gerou. Esses mecanismos são basicamente três: consumo, sexo e religião.

Sobre os mecanismos do consumo já nos ativemos acima. Tudo serve como produto a ser consumido. O que tem valor são as coisas, e não mais a pessoa. Todo um sistema de propaganda, cria as necessidades e promete o consumo como meio para satisfazer essas necessidades.

O sexo, por sua vez, está sendo apresentado também como produto de consumo, descartável e rápido, a ser repetido a qualquer instante, mesmo que sem conteúdo, mas com muita emoção. Do ponto de vista da ideologia neoliberal, o mecanismo é o mesmo, tanto no sexo rápido, que traz conforto sexual, quanto na religião rápida, que traz conforto espiritual. Há aí o desencadear de emoções rápidas e passageiras que podem ser comercializadas.

Outro meio para compensar as frustrações pode ser a religião. Uma religião profundamente emocional. Uma religiosidade concentrada no indivíduo. Um culto do sagrado que, no fundo, em nada se distingue do culto do sexo ou do culto de qualquer outro produto. É esse o ideal propagado, porque assim, as frustrações de um sistema racionalizado de produção podem ser compensadas em nível emocional. É assim que o indivíduo torna-se capaz de desenvolver um desempenho total naquele nível — do mercado — que só interessa ao sistema.

 

8. Interesse ideológico na exploração do sagrado

Mas, além de todas essas razões, existe ainda uma outra, devido à qual o sistema neoliberal está interessado numa religião que se apresente de maneira emocionalizada e individualizada. Trata-se do interesse, em se autoconsolidar.

Quanto mais os cristãos se deixarem convencer que a única tarefa da religião é a de produzir conforto espiritual, tanto menos esses cristãos questionarão o sistema.

Quanto mais os cristãos se deixarem envolver em eventos religiosos emocionalizados e individualizados, tanto menos esses cristãos se lembrarão que o objetivo do fundador de sua religião era a transformação do mundo, a transformação de sistemas que manipulam o ser humano, a superação de mecanismos que dão mais valor às coisas do que às pessoas, a substituição de estruturas de exclusão por estruturas de solidariedade, a conversão de sistemas que exploram em sistemas onde haja fraternidade. Em uma palavra, a eliminação de todo sistema que gera morte.

O atual sistema neoliberal, porém, corresponde ponto por ponto à descrição de um sistema de morte. E com isso, é frontalmente oposto ao projeto de Reino de Deus propagado por Jesus.

O sistema faz de tudo para que os cristãos não percebam tal fato. Usa qualquer meio e todos os recursos da propaganda para fazer acreditar que religião não tem nada que ver com o social. Recorre a todas as possibilidades de manipulação, para que os próprios cristãos acreditem que a religião deve ser praticada para louvar a Deus, para descobrir o sagrado, para salvar a própria alma, para sentir a presença de Deus, para gozar de conforto espiritual, para celebrar a beleza da fé, para alcançar a benção do Todo-Poderoso… Mas não para transformar o mundo atual.

Eis o último e mais importante problema, com o qual estamos confrontados dentro da conjuntura atual. Um problema, aliás, conhecido e vivido pelo próprio Jesus. O Reino de Deus, propagado e transmitido por ele, estava sendo combatido por muitos. Esses utilizavam a religião para combater o que Jesus exigia. Embora as concepções de Deus defendidas por eles estivessem erradas, muitos não perceberam — ou não quiseram perceber. E quando Jesus denunciou tal fato, eles o crucificaram.

Muitos também hoje não percebem que pode acontecer o mesmo: Que o Reino de Deus pode ser combatido recorrendo a argumentos tirados da própria religião. Por isso, e diante do atual mercado de “produtos” religiosos, vale a pena lembrar mais uma vez o grande lema do Concílio: “discernir os espíritos”. Ali onde os verdadeiros valores do Reino de Deus se realizam, reside de fato o espírito de Deus.

Os valores do Reino, porém, são estes:

  • Justiça, em vez de injustiça;
  • Fraternidade, em vez de individualismo;
  • Amor, em vez de egoísmo;
  • Verdade, em vez de mentira e manipulação;
  • Paz, em vez de competição e concorrência.

 

Onde ao invés desses valores do Reino há outros valores, não é o espírito de Deus que está agindo, mas o espírito do neoliberalismo — ou de qualquer outro sistema. Os outros valores desses sistemas podem ser propagados com os melhores lemas religiosos. Podem ser comunicados com as mais bonitas transmissões, mediante os mais atraentes shows religiosos, e apresentados com as imagens mais emocionantes, mas quando não têm no seu centro os valores do Reino de Deus, não são verdadeira evangelização. Quando o seu objetivo não é a transformação de situações de morte em situações de mais vida, não seguem o exemplo de Jesus — lembrado pelos nossos bispos a partir do episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-17).

No encontro com eles, o Senhor “corrige os erros de um messianismo puramente temporal e de todas as ideologias que escravizam o ser humano. Explicando-lhes as Escrituras, ilumina-lhes a situação e abre-lhes um horizonte de esperança”[3].

Lembrar-se desse modelo, dizem os nossos bispos, significa descobrir o verdadeiro “modelo de nova evangelização”[4].



[1] Ricardo Mariano, Neopentecostais, Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, ed. Loyola, São Paulo, 1999, p. 9.

[2] Conclusões de Santo Domingo, Ed. Loyola, p. 38 (Edições Paulinas, p. 49).

[3] “Mensagem da IV Conferência Episcopal, aos povos da América Latina e do Caribe, n. 19”, in Conclusões de Santo Domingo, op. cit., p. 41.

[4] Conclusões de Santo Domingo, op. cit., p. 39.

Prof. Renold J. Blank